terça-feira, 21 de abril de 2009

O buraco a bombordo (21/04)

Para um partido que está disposto a abrir mão de quaisquer projetos regionais em troca de continuar na cadeira maior, a de presidente da República, um jogo de dois ou mais nomes na base governista em 2010 é arriscado além da conta

Pipoca no noticiário há meses a hipótese de Luiz Inácio Lula da Silva flertar com a assim chamada fórmula pernambucana na sucessão presidencial de 2010. O governo teria dois candidatos e um apoiaria o outro no segundo turno contra o nome do PSDB. Parecido com o que aconteceu em Pernambuco em 2006, quando Humberto Costa (PT) ficou fora da decisão e ajudou Eduardo Campos (PSB) a derrotar Mendonça Filho (PFL, hoje Democratas).

Neste fim-de-semana, porém, o repórter Daniel Pereira escreveu no Correio Braziliense reportagem onde reafirma que Lula vai mesmo trabalhar para que o governo tenha um único nome. Dilma Rousseff, do PT. E a operação política começa exatamente por atrair o PSB, única legenda do consórcio governista que tem um potencial contendor, Ciro Gomes, capaz de rivalizar com a chefe da Casa Civil.

Por que a fórmula pernambucana faz água e se mostra pouco atraente para o presidente? Ora, porque Lula é cada vez mais PT, assim como o PT é cada vez mais Lula. O presidente faz questão de eleger o sucessor. Até aí nada de mais. Mas não é qualquer sucessor, é alguém do PT. E não qualquer um do partido, mas um candidato ligado ao grupo político dele, Lula. Ou melhor, ligado ao próprio presidente. Com o compromisso de garantir a continuidade, sem vacilações ou concessões.

A fórmula pernambucana seria conveniente a Lula se ele tivesse a garantia prévia de que a candidata do PT estará no segundo turno. Ainda que esse cenário seja muitíssimo provável, não é 100% garantido num quadro pulverizado. Especialmente se a nau governista apresentar um rombo a bombordo, no casco da esquerda. Qual será o efeito, daqui a um ano, de alguém como Ciro a percorrer o país dizendo que vai fazer o que Lula não pôde, ou não quis? Dizendo, por exemplo, que vai baixar os juros, enquadrar os bancos e atacar o spread? Que vai avançar na reforma agrária e começar a reforma urbana?

A última coisa de que Lula e sua candidata necessitam é uma dor de cabeça assim. Pois Dilma, como todo postulante a um “terceiro mandato”, precisará responder durante a campanha à pergunta tradicionalmente repetida nessas ocasiões: “Se a senhora diz que vai fazer, por que ainda não foi feito, mesmo tendo sido a senhora a mais forte ministra do presidente Lula, a mãe do PAC, a ministra diante de quem os colegas tremiam?”

A receita de Lula de um governo de conciliação com o capital financeiro e ênfase nos investimentos sociais funciona bem, politicamente falando, quando não existem alternativas de poder real à esquerda. Em 2010, portanto, Lula trabalhará para que a polarização na campanha se dê entre os que “defendem um governo social comandado pelo PT” e os que “pretendem reinstalar em Brasília um governo neoliberal liderado pelo PSDB”.

Esse enredo, marqueteiramente bem construído, ficaria manco com a introdução de uma opção viável à esquerda. Ainda mais se a ex-senadora e hoje vereadora (Maceió) Heloísa Helena (PSol) também estiver na briga. Não é improvável que num quadro desses Dilma tenha que passar o primeiro turno sendo atacada por todos. Como aconteceu com José Serra em 2002.

O problema da fórmula pernambucana é que nela o PT pode perder. Como aliás perdeu em Pernambuco dois anos e meio atrás. E para um partido que está disposto a abrir mão de quaisquer projetos regionais em troca de continuar na cadeira maior, a de presidente da República, um jogo de dois ou mais nomes na base governista em 2010 é arriscado além da conta.

Claro que o poder tem seus trunfos. O PT pode ameaçar com candidatos petistas apoiados por Dilma e Lula nos estados onde os governadores do PSB querem a reeleição. Mas além dos tapas talvez o PT tenha que oferecer ao parceiro também alguns beijos. Daí por que não se estranha que dentro do petismo haja uma certa torcida para que o PMDB se enrole nas suas costumeiras confusões e fique impossiblitado de exigir a vice na chapa.

O PSB parece saber disso. Quem assistiu ao programa partidário dos socialistas veiculado em rede nacional na semana passada (veja no YouTube) verificou que eles começaram a colocar o foguete na rampa de lançamento. Se ele vai ser lançado, aí já é outra história.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Acompanhe este blog pelo twitter.com

Assine o canal deste blog no YouTube

Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

5 Comentários:

Anonymous Lucas Jerzy Portela disse...

Boreste, Alon. Bombordo é direita. Boreste é esquerda. Palavra de quem já praticou remo olímpico por quase uma década. E mora na capital mais maritima do continente: São Salvador Da Bahia De Todos Os Santos.

terça-feira, 21 de abril de 2009 08:20:00 BRT  
Anonymous Too Loose Lautrec disse...

Não é a ideologia o que importa. Serão os índices de aprovação que definirão os candidatos à sucessão que a hoje base governista apresentará. Governo e Dilma bem avaliados e Lula indicará até o vice da chapa. Governo e Dilma pelas tabelas e será o salve-se quem puder. Ou seja, pragmaticamente falando, a determinante dependerá da sorte da ação – inação para alguns - do Governo perante a Crise.
Mesmo porque imputar a Ciro Gomes, ex-Arena, ex-PSDB, ser político de esquerda representará, no mínimo, inverter os conceitos clássicos de esquerda e direita e redefinir coronelismo sertanejo como expressão plena da democracia.
De outro lado, negar a Serra origens ideológicas assemelhadas às de Dilma consistiria falsidade histórica brutal, cuja equivalência possível seria negar a migração de ambos às teses neoliberais. Os dois foram e são, sem qualquer exercício crítico, próceres especiais em governos de corte tipicamente neoliberais: FHC e Lula.
Em realidade, do ângulo ideológico, Ciro, Dilma e Serra focinho de um focinho do outro. E os três, a bem da verdade, se dizem de esquerda, seja lá o que para eles isso for.
A esquerda, pelo menos no quadro atual, é feudo da Heloísa. Ainda que, injustamente, não reúna todo o espectro. Lhe faltam cargos para tanto.

terça-feira, 21 de abril de 2009 10:50:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

As idas e vindas na política econômica e a perda de espaço em importantes comissões no Congresso, deixa visível um enfraquecimento político do Governo. Os nomes que venceram no Congresso, embora alguns da base governista, não alinham-se à esquerda do espectro político. A recuperação econômica será um forte componente no ânimo do eleitor e esta só virá caso a economia internacional saia da crise, o que não é provável até 2010, a ponto de reverter as expectativas de desaceleração. Isto poderá não tão decisivo para catapultar a oposição, porém, poderá colocar o pretendente governista, caso vença, em uma situação politicamente muito difícil com sua própria base de apoio.

Swamoro Songhay

terça-feira, 21 de abril de 2009 11:13:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Houaiss:

BombordoAcepções
■ substantivo masculino
Rubrica: termo aeronáutico, termo de marinha. Lado esquerdo de uma embarcação ou aeronave, olhando-se de ré para vante [abrev.: BB] Obs.: p.opos. a boreste e estibordo
Etimologia
fr. bâbord, adp. do hol. bakboord, de bak 'atrás' (cf. ing. back 'costas'), pois a cabine do piloto antigamente se situava a estibordo, ficando este de costas para bombordo, + boord 'cada lado da embarcação'; no sXV ocorrem babos e babordo; a f. atual sofre infl. de bom, difícil de explicar; f.hist. sXV babordo, sXV babos, a1590 bombordo

terça-feira, 21 de abril de 2009 11:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Parece que a nomenclatura náutica,deflagrou debates mais acesos do que a quetão política.
Será ,tédio?Voltemos à questão de prôa.Resolvendo o " enigma do vice",a campanha sucessória ,pelo angulo governista,torna-se ,quase imbátivel.Basta , antecipar - se, as definições a que os tucanos ,ainda não encontraram. Pelo andar da crise internacional,a do congresso,que contém as indefinições,indesejáveis para a estratégia do Planalto,e o salto de qualidade e gestão no PAC,que compromete as credenciais da candidata, a data mais provável da sagração definitiva dos nomes se dará pelos "idos de abril".Portanto,teremos um ano prolífico,se assim ,quizermos acreditar.

terça-feira, 21 de abril de 2009 12:58:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home