sexta-feira, 3 de abril de 2009

Não é hora de ser bonzinho (03/04)

Orgulhe-se do seu prestígio, presidente Lula, mas se o dinheiro está sobrando invista-o aqui mesmo no Brasil

A reunião do G20 em Londres teve um resultado prático. Os países parecem ter concordado em fazer uma caixinha para reforçar o Fundo Monetário Internacional (FMI), e assim capacitá-lo a intervir nas nações mais sujeitas à bancarrota. No mais, o convescote londrino produziu as costumeiras declarações de intenção. Na vida real, por outro lado, os Estados Unidos rechaçaram a ideia de entregar o comando de sua economia a um hipotético órgão de governança global. E pouquíssimo foi feito de concreto contra o protecionismo.

Olhe-se o retrato oficial do encontro e observar-se-á um plantel de líderes impopulares, ou em grave risco de impopularidade. As notáveis exceções talvez sejam Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva. O americano é 100% inocente, não tem qualquer culpa no desastre econômico-financeiro global. Aliás, elegeu-se derrotando os que provocaram o tsunami. Já os demais, de um jeito ou de outro, andaram surfando na “exuberância irracional”, termo que leva mais de uma década mas que só agora parece ter adquirido o completo significado.

Então, todos precisam dar a impressão de que estão fazendo algo. A coisa não anda fácil para ninguém. O anfitrião do conclave dos salvadores do planeta, o premiê trabalhista Gordon Brown, até ganhou certo fôlego na passagem do ano, ao sair na frente e defender a intervenção estatal nos bancos. Mas o tempo passou e ele voltou a cair nas pesquisas. Está, como é seu hábito desde que substituiu Tony Blair, comendo poeira atrás dos conservadores.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, também desce a ladeira. Os levantamentos de opinião pública mostram que engorda a cada dia o já amplamente majoritário contingente que desaprova o governo dele. Os franceses, assim como os britânicos, pedem mais ação e menos conversa fiada. O problema é não haver dinheiro suficiente. Por quê? Porque a bonança pré-crise se devia em boa parte a uma riqueza fictícia, parida pelos (e para os) gênios do mercado financeiro. Aquele mundo não volta mais. E não é fácil para ninguém aceitar a ideia de estar mais pobre. E de que só será possível sair da situação com trabalho, muito trabalho.

Mas voltemos a Londres. Parece que agora os brasileiros vamos enfiar a mão no bolso para ajudar o FMI. Não há dúvida de que no plano simbólico é uma vitória e tanto para Luiz Inácio Lula da Silva. Um país que vivia de pires na mão a cada crise hoje é chamado a ajudar a enfrentar a tempestade financeira. Parabéns, presidente Lula. Dito isso, talvez seja o caso de questionar se, para além do orgulho e da satisfação pelo prestígio, haverá algum motivo adicional que nos leve a apertar ainda mais o cinto e ajudar a pagar a conta de uma crise criada pelos outros.

O Brasil não quebrou, é verdade, mas nossos números pedem cuidado. A curva das receitas públicas segue para baixo, enquanto a das despesas está, numa visão benigna, engessada. A balança comercial mal e mal se mantém num patamar medíocre, graças principalmente à queda das importações. Não que elas estejam sendo substituídas por produto nacional. É que a economia está atolada. Pior ainda, somos um país que não imprime moeda forte (por razões óbvias), nem se arrisca a fazer mais dívida (por falta de vontade política dos nossos governantes).

Quem deve pagar a conta da crise? Quem deve socorrer as nações falimentares, que acreditaram no “Fim da História” e abriram enlouquecidamente suas economias? Ora, quem imprime moeda forte e está disposto a se endividar. Você sabe de quem estou falando. Orgulhe-se do seu prestígio, presidente Lula, mas se o dinheiro está sobrando invista-o aqui mesmo no Brasil. E deixe que os Estados Unidos e a Europa, mais precisamente a Alemanha, absorvam o custo de suas aventuras imperiais das duas últimas décadas. Não foram eles que prometeram o paraíso da “globalização” ao Leste Europeu? Então que se virem para dar um jeito na situação.

Não é hora de ser bonzinho. Nenhuma potência, das dignas do nome, está sendo.

Coluna (Nas entrelinhas publicada hoje no Correio Braziliense.

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14 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

O Lula se supera, Alon. O Brasil já "emprestou" dinheiro para o FMI antes, pois estava representado em Bretton Woods. A capacidade que o presidente tem para iludir o nosso povo, com a leniência abestalhada da nossa imprensa, deverá no futuro ser alvo da análise de gerações e gerações de cientistas políticos.
Fernando José - SP

sexta-feira, 3 de abril de 2009 08:21:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Nada a objetar. Só queria saber que raios significa "vontade política". Será uma tradução livre de "political willingness"? E desde quando "willingness' quer dizer vontade? Quer dizer "disposição". E político que não tem "disposição política" pode ser considerado político? Um médico, por exemplo, que não está afim de atender os doentes, tem falta de "disposição médica"?

sexta-feira, 3 de abril de 2009 10:26:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Este é o cara. É um cara com enorme potencial. Tem um mercado com cerca de 190 milhões de pessoas ainda com restrições ao consumo, necessidades a serem satisfeitas. Em suma, este é o cara que tem muita demanda reprimida. Nada mal em tempos de crise. É um cara a quem todos querem ver por perto. Muito perto.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 3 de abril de 2009 10:42:00 BRT  
Anonymous Luciel Ribeiro disse...

Olha Alon, na minha visão singela, o Brasil devia ir ao G20 como um critíco feroz. Em vez do presidente Lula ficar fazendo graça de emprestar dinheiro ao FMI, devia apontar uma solução em busca do regulamento do mercado financeiro. Não adianta você encher a caixa d'água se a torneira continuar aberta, primeiro tem que fechar a torneira. Segundo ponto, esse empréstimo que o Brasil vai fazer ao FMI é uma pura questão de se mostrar, pois a finalidade é só uma, o Brasil quer uma cadeira no conselhor de segurança da ONU. Terceiro ponto, o presidente Lula vende uma imagem do Brasil de primeiro mundo, como o Brasil pode ser de primeiro se tem uma educação e saúde de terceiro mundo. A economia pode ir de vento e poupa, mas a população está longe de colher estes benefícios, pois as maiores riquezas ainda se concentram nas mãos das minorias, das elites.

sexta-feira, 3 de abril de 2009 11:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É verdade. O Brasil já foi uma nação tutelada.Desde Bretton Woods,passando pela humilhação de rompimento forçado com a falecida URSS,e os USA,impondo ao país sua condição de "procurador",sem mencionar as primeiras turbinas geradoras nucleares,impedidas de deixarem os portos da Alemanha,no que seria nosso "debut"atõmico,pelo "amigo e aliado"americano,imediatamente,no pós-guerra. Quem ilude a opinião pública,sistemáticamente,tem sido a mídia. Trata com descaso ,desprezo e superficialidade,as iniciativas emanadas do governo comportando-se, como porta-voz , daqueles que tiveram interrompidos o desfrute sem limites dos bens nacionais.Por décadas. Esse clube , que agora ingressamos,seus "sócios',podem ser classificados ,em " atletas "e" proprietários":aqueles, apenas praticam,suam e se esforçam,mas lhes é impedido frequentar as dependencias,influir nas decisões ;estes , tem a prerrogativa ampla e total de opinar,votar e decidir
inclusive sobre os destinos dos "atletas"...

sexta-feira, 3 de abril de 2009 11:52:00 BRT  
Anonymous the talk of the town disse...

Alon, vc (coincidentemente depois que voltou pro Correio) esta cada vez mais conservador. Como te acompanho faz tempo, sei que não é falha na analise politica.

Vamos parar de conversa fiada. Vc sabe que essa questao do FMI, se nao tivesse a questao politica envolvida, financeiramente o Lula nao precisava nem ter quitado a divida, visto que os juros do FMI são os dos mais baixos disponiveis.

Sobre emprestar o dinheiro agora, pra fazer um refunding do caixa do FMI, é um movimento politico, que vc por omissiao (creio dissimulada) quer tratar como fato economico-financeiro.

O Lula está proximo a genialidade politica. Enquanto todos os analistas diziam que nao precisava quitar a divida, nas eleições de 2006 foi uma das bandeiras de marketing.

Sobre o G-20, para com isso. Vc deve estar sobre pressao muito forte pra ter escrito isso. Foi uma das reunioes mais importantes dos ultimos tempos. Decisoes politicas importantes foram tomadas. Mais regulacao, fim dos paraisos fiscais, mais poder pros emergentes em instituições multilaterais, etc.

Sobre o Gordon Brown, ele tá liderando, e fazer isso com aquela ilha de poder decandente apos o Tony Blair, é um grande avanço.

Vc pode dizer agora, o obvio, sem omitir a realidade, do ponto de vista geopolitico, quem manda (EUA), nao vai deixar de mandar, mas isso a gente já sabia, né??

O que o Lula esta fazendo, é o ocupar, sabiamente, as pequenas brechas que estao deixando pros emergentes, e isso, em relação aos outros lideres desse pais, é muita coisa.

sexta-feira, 3 de abril de 2009 12:14:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Pois é Alon, pra quem já chama o semi-analfabeto de gênio, ter o elogio endossado por outro gênio (por enquanto) político deve ser muito bom. Mas parece que cautela e clado de galinha não lhe fazem mal!
Dei uma olhada nos comentário de O Globo e confirmei minha opinião sobre o assunto: FOI MUITO BEM-FEITO PARA FHC!!! O ex-presidente, que já e conhecido como o PIOR da história recente (superou Collor) deve estar agora espumando de inveja. Muito bem-feito para quem, como Lula, governou para a arquibancada, e não para o time!

sexta-feira, 3 de abril de 2009 12:32:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Enfim um esquerdista sóbrio. Pensei que fosse espécie extinta

sexta-feira, 3 de abril de 2009 12:52:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

É isso "The talk". Eu e os demais "conservadores", certamente pressionados pelos nossos patrões, chutamos dia sim dia não o traseiro do Banco Central para ver se ele acorda e baixa os juros. Já os "não conservadores" como você batem palmas para uma política que vai afundando o país na recessão. Os "conservadores" como eu, certamente pressionados pelos nossos patrões, pedimos para Lula nào confiar demais no G20, cuja funçào principal no momento é estabilizar a economia mundial de acordo com os interesses hegemônicos do capitalismo. Já os "progressistas" como você pedem que o Brasil se alie ao esforço para impedir que a Europa do Leste escape ao controle da Otan-CE. E revitalizar o FMI com a ajuda dos Brisc é mesmo uma posição revolucionária. Parabéns. Para concluir, você diz que o mais sábio hoje em dia é ocupar as pequenas brechas. Talvez seja mesmo. Desde que não à custa da ocupação das nossas. Brechas, se é que me entende. Um abraço.

sexta-feira, 3 de abril de 2009 15:18:00 BRT  
Anonymous Matias disse...

sobre o comentário de Alon acima ("É isso "The Talk. Eu e os demais...").

Obrigado e parabéns pela sobriedade, Alon. É foda ver tanto "progressista" se deixar cegar pelo ódio ao tucanato & CIA, como se tivessem vencido algo apenas por terem vencido no jogo idiota do PiG e agora podem esfregar algo na cara deles (é, pelo critério deles, estamos ótimos na fita. Como todo tucano ejacula precocemente quando rub shoulders com os poderosos, pode até ser engraçado que os preconceituosos perderam no jogo das suas próprias regras, mas não podemos esquecer que o critério e regras deles são uma piada).

Claro, se tiver de fato alguma sacada política "genial" vinda de Lula nisso tudo, ótimo. Se no futuro isso der frutos, bem, é sempre bem-vindo (assim como a política "conciliadora"/ "comportadinha" de Lula -- teve frutos inesperados, mas que não se comparam com o potencial das outras alternativas), mas não deveria ser o foco, para início de conversa.

Então, obrigado pelo insight de sobriedade.

sexta-feira, 3 de abril de 2009 16:44:00 BRT  
Blogger luiz.cesar disse...

Alon,

Foi em cima de uma lógica meio enviesada por uma falácia ad hominem que vc respondei ao Talk ...

Não ví, na missiva dele, qqer dos pontos que vc "perspectivou" (vale neologismo?) na sua resposta. Geopolítica não é feita pra nós, querido: é necessário, como disse o Talk "ocupar brechas", coisa que o LUla fez muito bem. Faltou distribuir uns esculachos ??? Acho que sim ... Talvez o elogio do Obama tivesse o objetivo de amaciar o Lula (modo de teoria da conspiração = ligado), mas tudo o que ele defendeu, como mais controle do sistema financeiro, mais oportunidades para os países mais necessitados, melhor representação nos organismos multilaterais, foi alcançado.

Esse negócio de dizer que "é melhor colocar o dinheiro aqui" é um baita provincianismo, pq o país não pode, como novo ator global, prescindir de colaborar com a solução. E a solução é botar grana no FMI que, em última análise, é para onde vão correr os países em dificuldades. Não querer pagar a parte da conta que nos toca seria, isso sim, populismo rastaqüera, para agradar o público interno à custa do externo.

Abcs

domingo, 5 de abril de 2009 12:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

segunda feira o perito da empresa que classifica -risco pais- vai trabalhar com uma notícia desta "brasil, de tomador frequente de fundos, passa a doador".

o que é que passa na cabeça desta pessoa e dos que, no mundo,tem para investir?

brasil, pais inseguro?

penso que não. ao contrário.

se esta mudança de paradigma saiu de caso pensado da cabeça de lula, concordo com obama "é o cara" e digo mais "é gênio"

virá mais dinheiro para cá a título de investimento do que vai sair.

a meu ver é simples assim.

abraço do emerson.

domingo, 5 de abril de 2009 22:00:00 BRT  
Anonymous the talk of the town disse...

Alon,

Para com isso. Vc ficou nervoso, mas não foi ao ponto. Eu disse, que pra quem te acompanha a muito tempo, percebe que nos seus textos vc esta (propositalmente ou não?) excluindo a variavel "estrategia politica", coisa que vc nunca fazia. As razoes? Fica pra vc, pq não tenho a minima pretensao de mudar "as pessoas".

Coincidentemente, foi qdo vc começou a se aventurar pela analise economico-financeira.

Sobre conservadorismo e progressismo. Nao gosto de me encaixar em categorias, mas vejo que se vc pegar minha defesa de que Politica Monetaria NÃO É VOLUNTARISTA, vc pode me tachar de conservador se quiser, com orgulho, pois só fui entender isso depois de estudar (um pouquinho) de Economia.

Sobre o resto que vc escreveu, provocações que causam gracejos, vc quer a revolução, qdo não percebe que ela está ocorrendo embaixo do seu nariz. Vc ironiza as brechas, mas sabe muito bem, como se abre um tunel numa montanha.

Pra quem entende um pouquinho de historia, como vc, deveria ser um pouco obvio isso.

Entao, nao sei o que esta havendo.

Outro abraço...

segunda-feira, 6 de abril de 2009 11:58:00 BRT  
Anonymous André Egg disse...

Não se trata de ser bonzinho nada.

Empenhar dinheiro no FMI é colocar o Real na cesta de moedas que vai substituir o dólar.

É estratégia política muito bem montada. Tem custo, mas é bem pequeno em face aos benefícios.

Os chamados "países ricos" faz tempo que não são ricos por causa da produção física, mas por causa do investimento e os retornos que obtem nos "países pobres". Passar deste grupo para aquele tem seu preço...

terça-feira, 7 de abril de 2009 13:42:00 BRT  

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