sexta-feira, 17 de abril de 2009

A federação do nada pode (17/04)

No universo ambientalmente correto, há vetos para todos os gostos. O movimento ambientalista no Brasil adquiriu a face de uma federação de vetos

A agenda ambientalista enfrenta entre nós sérias dificuldades para sobreviver e para se adaptar ao “fim do fim” da História, com a quebra da unipolaridade e a emergência de nações como a nossa, sedentas de progresso. A proposta de eliminar a exigência de licença prévia para asfaltamento e duplicação de rodovias já abertas, projeto em tramitação acelerada no Congresso Nacional, é pontual mas simbólica. Aliás, qual é mesmo o sentido de exigir licenciamento ambiental para asfaltar uma estrada? Ou para duplicá-la?

O debate do tema tem o mérito de escancarar um fato: ao longo de anos, a agenda ambiental brasileira foi infelizmente convertida em instrumento para travar o desenvolvimento nacional. O caso da Amazônia é emblemático: em meio a um gigantesco potencial hidrelétrico, queima-se óleo combustível para produzir luz. Por quê? Porque há todo um aparato ideológico e propagandístico a operar a tese de que usinas hidrelétricas na Amazônia são inaceitáveis, ambiental e socialmente falando. E a fumaça do óleo queimado? Dela ninguém fala.

O PT surfou em ondas ecológicas durante suas duas primeiras décadas de vida, nutriu-se dos movimentos ambientais e sociais, usou-os como escada para chegar ao poder, mas agora enfrenta um problema. Dado que no governo o partido não quis —ou não pôde— realizar qualquer reforma estrutural que envolvesse a propriedade, restou-lhe a bandeira do desenvolvimentismo. O PT não executou uma reforma agrária qualitativa ou quantitativamente diferente da que vinha sendo feita desde o governo Castelo Branco, nos anos 1960. Não avançou tampouco na reforma urbana.

Sobrou o desenvolvimento. Mas, na tentativa de anabolizar a tese, o partido enfrenta, além da sombra do discurso verde feito no passado, os aliados sociais históricos e a rede de contenção que esse discurso ajudou a tecer. Não se trata apenas de apagar ideias e substituí-las por outras, mais adequadas ao momento: é preciso enfrentar a resistência política do ambientalismo e da aliança deste com os movimentos sociais.

Quem conversa com militantes ambientalistas não alojados na máquina governamental percebe o crescente desconforto em relação à ministra Dilma Rousseff. Pouco a pouco, a chefe da Casa Civil e virtual candidata do PT ao Palácio do Planalto vai atraindo para si uma certa desconfiança dos verdes, para não falar de uma certa irritação. Nos encontros e debates da rede ambiental, a imagem dela aparece cada vez mais associada a essa guinada do PT. O fenômeno é conhecido: a flexão política é de Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto os custos ficam para os outros. No caso, para Dilma.

Mas já que a candidata desta vez é Dilma, e não Lula, eis um problema para o PT resolver nos próximos meses. Como expurgar dos movimentos sociais e da rede ambientalista a dúvida sobre as reais intenções programáticas da ministra em relação à agenda verde. Para complicar a missão, não há propriamente uma pauta ambiental no país, mas uma miríade de micropautas, patrocinadas cada uma pelo seu respectivo grupo de pressão.

Assim, ainda que eventualmernte um governo (ou um candidato) deseje rascunhar uma agenda ambiental pacificadora com A, B e C, sempre correrá o risco de continuar sendo atacado, por não ter contemplado as reivindicações de D. E daí ao infinito. No universo ambientalmente correto, há vetos para todos os gostos. Usina hidrelétrica? Não pode. Usina nuclear? Não pode. Estrada na Amazônia? Não pode. Hidrovias na Amazônia? Também não pode. A verdade é que o movimento ambientalista no Brasil adquiriu a face de uma federação de vetos. A federação do nada pode.

Obviamente que nenhum país com demandas econômicas e sociais represadas no grau do nosso aceitaria pacificamente uma situação assim. Daí que a agenda ambiental comece a mostrar vazamentos por todos os lados. Este texto é sobre a ministra Dilma. Mas poderia ser sobre qualquer outro candidato, pelo menos entre os viáveis. Quem vai ter coragem de chegar na campanha do ano que vem e dizer que o Brasil precisa conter o crescimento, precisa sacrificar empregos em nome da luta contra o aquecimento global?

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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8 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Muito bom o artigo. Porém, cuidado porque esse dilema "desemprego (ou desenvolvimento) versus meio ambiente" foi o mesmo argumento usado por George W. Bush para se opor a qualquer iniciativa ecológica.
Existem dois problemas nesse dilema: 1. o custo do desemprego é local (sentido no país), mas o benefício climático é global. 2. Como determinar a relação desemprego/custo ecológico aceitável para um projeto?

João Luis Gondim

sexta-feira, 17 de abril de 2009 08:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Tá na cara o que ocorreria em eventual Governo Dilma. A porteira será aberta sem peias. Não que a própria seja adepta do não-preservacionismo. Dou de graça que pessoalmente o seja. A questão é que tratar-se-á de presidenta sem força política própria e sujeita à "base de sustentação" em níveis nuncantez vistos neste País.
A pressão pelo aumento da preservação, de outro lado, será crescido por conta de que o ambiente se torna cada dia mais, por suas próprias forças ou fraquezas, impositivo e urgente em suas demandas preservacionistas. Tanto faz o cenário que se irá enfrentar, se de aquecimento global ou nova idade do gelo.
A pressão sobre Dilma será a maior sofrida por um governante; paradoxalmente, a de menor expressão pessoal e político.

sexta-feira, 17 de abril de 2009 08:55:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A resposta para a questão final é nenhum. Nenhum candidato, viável ou inviável, abraçará tal discurso. Como também nenhum será direto contra a extinção de bagres e solapamento das matas ciliares em alguns rios onde estuda-se erguer hidrelétricas, pedágios urbanos, construção de ciclovias, emissão de poluentes, reforma agrária, reforma urbana, violência e por ai vai. Pois, pelo voto, não seria bom magoar alguém. A única resposta positiva seria para responder sobre quem vai empurrar com a barriga todos os aspectos mais agudos da agenda nacional. Resposta direta: todos.A próxima campanha consolidará o enfado como tônica.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 17 de abril de 2009 08:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

JK,não começaria nem a pista de pouso no cerrado que se constituiu Brasilia,segundo Lula. Leis ambientais,federais,estaduais ,municipais,ONGs ,instituições acadêmicas,fundos internacionais,enfim ,um sem número barreiras legais e políticas que frustram e desqualificam longos estudos onerosos e estratégicos. São tantos os obstátulos, recorrentes e superpostos,que a suspeita sobre sua verdadeira natureza não pode deixar de ser questionada. Quem patrocina,com que propósito,fonte dos recursos,origem e formação e seus beneficiários. Transparência, não é o mote do momento? Pois.

sexta-feira, 17 de abril de 2009 10:39:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Perdão, Alon, mas duplicar uma estrada pode mesmo causar grandes danos ambientais, como em zonas costeiras de Mata Atlântica, já bastante degradadas pelas estradas existentes, construídas em curvas de nível, uma tecnologia ultrapassada. Basta comparar a Imigrantes com a Anchieta. Em várias situações duplicar uma estrada antiga é mais prjudicial à natureza do que construir uma nova, paralela.
Imagine o estrago que não vai fazer a duplicação da Rio-Santos, cuja cosnturção já foi danosa e muito mal planejada. Hoje é uma avenida congestionada á beira-mar que não serve nem pro turista nem pro caminhoneiro. E em Santa Catarina, onde há tantos deslizamentos e enchentes, nem se fala!

Se, além do danos ambiental adicionarmos os riscos de acidentes causados pelas estradas antigas, talvez não conviesse duplicar nenhuma. Exemplo: Fernão Dias. Continua lenta e insegura e deteriorou ainda mais as margens. Está na hora da nossa engenharia desenvolverem tecnologia de novas estradas elevadas, apoiadas em parte das antigas e criando desvios expressos nos pontos mais congestionados.

sexta-feira, 17 de abril de 2009 16:35:00 BRT  
Anonymous João Antônio disse...

Construir uma rodovia de Porto Velho a Manaus não deve ser permitido! É melhor um ferrovia, pois com a construção da Transcontinental ( que vai do Peru até Uruaçu onde ligará com a Norte-Sul) dara a Manaus acesso ao Pacifico e aos centros consumidores do Brasil e ainda preservará a floresta.

******

Agora essa história de "aquecimento global" é um conto da carochinha. Nos anos 50,60 e 70 a temperatura mundial caiu drasticamente. E nos anos 80 e 90 subiu como no periodo anterior a ultima grande guerra. E a quantidade de CO2 na atmosfera só aumentou no periodo, confirmando que a radiação solar e fatores naturais como vulcanismo são muito mais influentes que nós sobre o clima. E mostra que esse aquecimento dos anos 80 e 90 foi algo natural. Tanto é verdade que já tem anos que a temperatura mundial vem caindo.

Sacrificar nosso desenvolvimento por uma teoria fraca que será desmasscarada em 20 anos é algo estupido.

quarta-feira, 22 de abril de 2009 07:41:00 BRT  
Anonymous João Antônio disse...

Combatemos a poluição por provocar danos a saude humana e interferir na precipitação nas regiões metropolitanas, mas esquecam desta história de "aquecimento".

Ou alguem acredita em ONGs ambientalistas patrocinadas por Monsanto, Bayer ou pelos Rockfellers?

quarta-feira, 22 de abril de 2009 07:47:00 BRT  
Anonymous José Roberto Amador disse...

Alon, parabéns pelo artigo, mas pelo tom dos comentários dá pra perceber que essa histeria de aquecimento global pegou nos "formadores" de opinião. Sorte do Brasil que a única questão ambiental que incomoda a maioria da população são as queimadas, por afetar diretamente a saúde.
Sei que boa parcela dos seus leitores deve ter ojeriza ao finado Roberto Campos, mas ele disse com propriedade que, no Brasil, as questões ambiental e indígena eram discutidas somente por ecologistas e indigenistas e que iriamos pagar caro por isso. Já estamos pagando. RC tbm foi o único a bater de frente contra a famigerada reserva de mercado para a informática. Falaram muito mal dele na época, mas o tempo mostrou que ele sozinho tinha razão.
O Brasil é o único país do mundo a deixar dois terços do seu território ao bel prazer de ambientalistas e índios. Estudo da Embrapa a ser apresentado no dia 29/04 no Senado demonstra que 67% do território nacional estão "protegidos" de servir para a produção, pois estão destinados a ser reserva florestal, áreas de preservação permanente, unidades de conservação, terras indígenas e quilombolas. Vale a pena pautar o assunto e ouvir o lado da produção nessa história.

PS: ando meio puto com o Serra por conta da lei anti-fumo (fere a liberdade e não toca no problema do tabagismo). Se os ecologistas ficarem contra a Dilma, pode ter certeza que ela terá o meu voto e o de muita gente que prefere trabalhar a fazer barulho.

quarta-feira, 22 de abril de 2009 20:34:00 BRT  

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