segunda-feira, 20 de abril de 2009

Ensaio sobre a nossa cegueira (20/04)

Há um surto de falta de visão em Brasília. O poder não percebe que vem se descolando progressivamente do cidadão médio. E os políticos acreditam que o povo aceitará isso para sempre

O jornal O Estado de S.Paulo trouxe neste domingo a informação de que aumentaram os casos de cegueira no país. Uma explicação é o fim dos mutirões para cirurgia de catarata. Certo dia, um burocrata qualquer decidiu que seria melhor remodelar o sistema, colocando em uma cesta de intervenções cirúrgicas de média complexidade os recursos que antes serviam para pagar as operações de catarata.

Ah, uma coisa assim absurda deveria trazer duras consequências aos responsáveis. Alguém deveria ser punido. De preferência, quem teve a ideia e a implementou. Seria lógico. Mas se você apostar que nada irá acontecer certamente vai ganhar a aposta. Quem é que se preocupa com os portadores de catarata que não podem pagar uma cirurgia para retomar a visão? O que é o simples cego pobre quando comparado com o burocrata cheio de razão e poder “normatizante”?

É um caso pontual, mas emblemático. Ontem, o Correio Braziliense exibiu reportagens sobre como o dinheiro dos ministérios é generosamente destinado a organizações supostamente “não governamentais”, comandadas por aliados políticos dos ministros. É difícil arrumar dinheiro público para tornar mais ágeis as operações de catarata nos pobres, mas é fácil mobilizar dinheiro do povo para lubrificar os projetos dos donos do poder.

Assim como tampouco escasseiam os recursos para que deputados e senadores viajem com suas famílias ao exterior à custa do Tesouro. No que essas viagens ajudam o parlamentar a bem cumprir o mandato? O que tais passeios têm a ver com a tarefa de representar o eleitor no Congresso Nacional? Nada. Uma coisa é usar o dinheiro da cota de passagens aéreas para fazer andar o trabalho político. Outra é torrar o dinheiro dos impostos em atividades de lazer para suas excelências.

E o senador, riquíssimo, que converteu suas passagens e gastou meio milhão de reais com jatinhos? E o outro senador, morto há pouco, cuja viúva obteve do Senado, em dinheiro bem vivo, o saldo das passagens não utilizadas pelo falecido? Para essas coisas não falta verba. Mas se o sujeito é pobre, precisa operar a catarata e agora não tem mais o mutirão, que aguarde sentado. De preferência trancado em casa. Ouvindo rádio e tevê. Pois o governo decidiu combater o “populismo”.

Já nos estados, virou hábito o candidato derrotado a governador assumir o cargo quando o vencedor é cassado pela Justiça Eleitoral. Nada contra as cassações. Que os maus políticos sejam removidos. O problema começa quando os tribunais eleitorais passam a ocupar o lugar do eleitor. O que isso tem a ver com democracia? Nada.

Não estou aqui a criticar os tribunais. Eles apenas cumprem a função constitucional de interpretar e fazer valer a legislação. Se a lei diz que o segundo colocado deve assumir o cargo nessas situações, que a lei seja cumprida. O problema está no Congresso Nacional, que assiste passivamente ao absurdo e nada faz. Por que senadores e deputados não votam em regime de urgência uma norma que determine novas eleições quando o titular perde o cargo? Qual é a dificuldade de fazer isso num país de voto eletrônico universal, e cujas campanhas eleitorais acontecem praticamente só na mídia?

Mas isso significaria ampliar a soberania popular, aumentar o controle do povo sobre os políticos. E a coisa mais difícil de encontrar hoje em dia em Brasília é alguém sinceramente preocupado com o que o povo acha das coisas. Infelizmente, os nossos políticos parecem tomados por um espírito de gafanhoto. Comportam-se como enxames de gafanhotos. Por onde passam, não sobra nada. O normal seria eu escrever aqui “com as honrosas exceções de praxe”. Mas vai que amanhã a tal exceção aparece no noticiário mostrando que não é tão exceção assim?

Este texto começou tratando de pobres que ficam cegos porque não conseguem se operar de catarata na rede pública. Pensando bem, a doença não é só deles. Há um surto de cegueira em Brasília. O poder não percebe que vem se descolando progressivamente do cidadão médio. Em parte porque não há uma força real a se contrapor -como fazia o PT no passado. Em parte porque os políticos acreditam piamente que o povo aceitará isso para sempre.

O título da coluna eu tomei emprestado, é claro. Que o Saramago me desculpe, mas não achei um melhor.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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5 Comentários:

Blogger Paulo A. Lotufo disse...

Alo, sendo muito especialista.
O projeto catarata foi instituído na UNICAMP há 20 anos, depois transferido para o HC SPaulo em 95 com a minha participação como coordernador dos ambulatórios..
O ministro Jatene ficou surpreso com o impacto, chamou o Presidente para ver com os próprios olhos - com direito a trocadilho - e, implantou no Ministério. Quem teve a iniciativa chama-se Newton Kara-José que é professor de medicina e oftalmologista. Tenho uma foto no minha sala com esses três personagens.
Newton um sistema onde o velho, pobre e meio cego vai em uma única consulta (aos sábados, onde a família está livre) e sai com a cirurgia marcada ao final da manhã ou da tarde. Um "absurdo" para os racionalistas da saúde pública que entendem de tudo e, não suportam campanhas e quetais.

segunda-feira, 20 de abril de 2009 14:29:00 BRT  
Blogger Mario Lobato da Costa disse...

A manchete do Estadão é visivelmente tendenciosa. Não vou aqui fazer a defesa do ministro nem do Governo Lula, vou dar minha opinião de profissional que atua na saúde coletiva. Os mutirões eram uma prática de caráter emergencial (com um forte caráter populesco) cuja finalidade era tentar diminuir a demanda reprimida (filas quilométricas) até a hora em que as patologias atendidas pudessem ser absorvidas pelos serviços regulares.
O Ministério da Saúde não diminuiu as verbas, aliás, os procedimentos oftalmológicos sempre foram remunerados e tiveram seus valores corrigidos acima da média dos demais. Eu disse SEMPRE.
Ademais, se a questão é de humanidade, de sacerdócio desinteressado e benemérito no combate à cegueira, sem ter nada a ver com a cadeia de fornecedores de insumos - o que eu duvido - então a mudança na FORMA do financiamento (sem mexer nos valores que já eram pagos) deveria ser uma questão secundária, não é?

segunda-feira, 20 de abril de 2009 15:51:00 BRT  
Blogger Mario Lobato da Costa disse...

Veja comentário no meu blog que é voltado para temas da saúde.
Grande abraço, Mario Lobato da Costa

http://mariolobato.blogspot.com/2009/04/ainda-catarata.html

segunda-feira, 20 de abril de 2009 16:28:00 BRT  
Anonymous RB de Mello disse...

No processo político brasileiro o grande ausente tem sido o Congresso ("todo poder emana do povo e em seu nome será exercido" e o Congresso é seu melhor lugar). Há de ser recuperado ainda que não o queira. Uma boa maneira seria adotando mandatos mais curtos. Que se faça como os americanos naquilo que eles têm de melhor: sistema distrital e mandatos de 02 (dois) anos. Com o tempo - curto - a coisa melhorara em muito e sem que se precise de novos Collors.

segunda-feira, 20 de abril de 2009 20:23:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Alon,

Aposto que o tal "burocrata" ocupa cargo comissionado ou de "confiança", como nos acostumamos a dizer sem nos perguntar quem confere confiança a eles.

"O que é o simples cego pobre quando comparado com o burocrata cheio de razão e poder “normatizante”?"

Burocrata não tem poder pra decidir nada. Quem dá ordens são os donos do poder:

"É difícil arrumar dinheiro público para tornar mais ágeis as operações de catarata nos pobres, mas é fácil mobilizar dinheiro do povo para lubrificar os projetos dos donos do poder."

Raymundo Faoro já contou quem são eles, os donos do poder. Por essas e outras eu me divirto muito quando ouço falar em "choque de gestão". Para evitar esse choque eu uso luvas de borracha.

quarta-feira, 22 de abril de 2009 13:23:00 BRT  

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