sábado, 4 de abril de 2009

"Coisa de primeiro mundo" (04/04)

Já faz alguns dias que Pedro Dias Leite publicou uma boa entrevista com Anthony Giddens no caderno Mais!, da Folha de S.Paulo. Um trecho:
    FOLHA - O sr. fala que as nações em desenvolvimento deveriam ser autorizadas a emitir mais carbono no curto prazo, mas isso não funciona. Os EUA e a União Europeia, com medo de perderem competitividade, já disseram que isso é inaceitável. Como resolver essa equação?

    GIDDENS - Não podemos impedir os países em desenvolvimento de se desenvolverem. Não seria moralmente correto nem seria factível, na prática. Parte desse desenvolvimento tende a depender pesadamente de combustíveis fósseis e, logo, de emissões de carbono. É por isso que os países já industrializados têm de arcar com 95% do fardo pelos próximos 10, 15, 20 anos até, para reduzir as emissões. Por outro lado, é preciso que o mundo em desenvolvimento assuma um papel importante, não mais a posição passiva, de que isso "não tem nada a ver com a gente". Mas, no caminho, precisamos de avanços tecnológicos e de grandes áreas daquilo que chamo de "convergência econômica e convergência política", para que os países em desenvolvimento sigam um caminho diferente do que o que estão seguindo agora. Em primeiro lugar, estamos atrás de avanços tecnológicos que sejam capazes de levar os países em desenvolvimento a pular algumas etapas de desenvolvimento. Em segundo lugar, estamos procurando vários acordos bilaterais, não apenas a conferência de Copenhague, especialmente entre EUA e China, que produzem quase 50% das emissões. Idealmente, é necessário algum acordo entre os dois, como os EUA permitirem acesso a inovações tecnológicas, com a suspensão de patentes, em troca de algum tipo de concessão da China para os EUA. Mas isso é determinado politicamente. Se não há como repetir o modelo de desenvolvimento, temos de encontrar avanços. Até agora, não conseguimos. A China ainda está fazendo usinas de carvão. Os políticos se sentem muito confortáveis, prometendo cortar as emissões em 80% até 2050, mas não ficam nem um pouco felizes quando você diz que precisam começar agora. Existe muita retórica vazia nesse debate e temos de ver como superar isso para que os acordos sejam atingidos. Temos de olhar para o que pode ser feito, de modo a produzir uma combinação de competitividade e mudança tecnológica. Estou convencido de que países que seguirem o caminho tradicional de desenvolvimento industrial não serão competitivos no médio prazo.
Leia a íntegra. Giddens vem de lançar um livro sobre o assunto, "The Politics of Climate Change" (A Política de Mudança Climática). Vou ler. É óbvio que não dá para pedir aos pobres que diminuam as emissões de carbono. Giddens traz com ele muito do lero-lero da "terceira via", mas só fato de ter caído na real já merece palmas. Lero-lero é por exemplo dizer que não dá para os emergentes seguirem "o caminho tradicional de desenvolvimento". O problema é que o outro caminho, intensivo em capital e tecnologia, é mais caro. E quem vai pagar a conta? Uma regra de ouro das sociedades humanas é que elas invariavelmente se desnvolvem maximizando recursos e constrangendo custos. Ninguém derruba árvore por achar bonito. É que derrubar árvore, comercializar a madeira e soltar o gado sai mais barato do que as alternativas oferecidas pelo "primeiro mundo". Aliás, há quanto tempo você não ouve a expressão "coisa de primeiro mundo"? É, a turma anda em baixa. Santa crise.

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5 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

Alon,

Primeiro, o Giddens está certo quando fala que "não dá para os emergentes seguirem o caminho tradicional de desenvolvimento". Simplesmente porque "o caminho tradicional de desenvolvimento" nos levou à situação atual de que a Terra está entrando em colapso.

Segundo, Giddens deu a resposta à sua pergunta sobre 'pagar a conta': "Idealmente, é necessário algum acordo entre os dois, como os EUA permitirem acesso a inovações tecnológicas, com a suspensão de patentes, em troca de algum tipo de concessão da China para os EUA.". Pragmatismo para salvar o planeta passa por permitir que países pobres altamente poluidores possam "queimar etapas".

O problema é que a mudança climática já é palpável, os países pobres vãe a última coisa que podemos permitir é a continuação da situação atual em que todo mundo fala que temos que mudar e ninguém muda. Ainda mais que os países pobres, como se sabe, serão os mais atingidos, o que significa pressão demográfica e econômica nos países ricos.

A não ser, claro, que estejamos falando da postura niilista de "não vou ter filho/vou morrer mesmo/etc e depois de mim dane-se o mundo".

sábado, 4 de abril de 2009 16:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O que se pode esperar das políticas de controle de meio-ambiente,quando até a flatulência bovina é resposabilizada?Provavel, que cheguem a mesma conclusão com as emissões humanas.E ,daí? Simulações,deram conta de que se fossem suspensas todas as atividades humanas,geradoras dos males ambientais,por dez anos, não produziria reversão do que foi alcançado ,até agora.Tampouco , modificaria o futuro.Aquele, previsto
pelo "cassandrismo" corrente.Portanto,todo esses esforço,de meios ,de toda ordem,parece, que se destina a aplacar consciências,fiscais,também,e postergar o desenvolvimento daqueles povos ,até agora debruçados na janela assistindo o cortejo de opulência e desperdício,promovido por nações com históricos débitos com esses mesmos espectadores.

sábado, 4 de abril de 2009 18:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"O mundo atual não vai superar sua crise atual usando o mesmo pensamento que criou essa situação"
Albert Einstein

sábado, 4 de abril de 2009 21:48:00 BRT  
Anonymous José Roberto disse...

Na relação PIB x território x emissão de carbono o Brasil ocupa a 108ª posição. Estamos sendo responsabilizados por uma culpa que efetivamente não temos. Isso se levar a discussão para o lado dessa histeria de aquecimento global antropogêncico. Já está cabalmente comprovado que o aumento da quantidade de carbono na atmosfera é consequência e não causa do aquecimento global. Essa discussão está beirando o ridículo. Enquanto ongs e europeus se preocupam com o peido da vaca, Putin disse que não seria de todo ruim a temperatura se elevar uns dois ou três graus na Rússia.
O governo brasileiro, aliás, os governos brasileiros, pra não fazer desfeita a petistas, tucanos e colloridos, têm em geral tratado de forma muito amadora e anticientifica a questão ambiental (e tbm a indígena).
Os maluketes do apocalipse climático são tão competentes na guerra de propaganda que até o mais rigoroso inverno dos últimos anos virou efeito colateral do... aquecimento global. Rsssssss.

domingo, 5 de abril de 2009 09:39:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Já falarma aeh o que eu acho: quem tem que pagar o patp é o pessoal que se desenvolveu as custas do meio-ambiente.
E, Alon, pq o preconceito com aterceira via?!?!? O neoliberalismo foi, por 30 anos, o suprasumo do desenvolvimento. Agora já está mais que provado que não era o fim da história, é o fim do mundo mesmo!
É preciso buscar e investir em outros caminhos mesmo. A única solução não pode ser só derrubar árvores pra criar gado e plantar commodities... pode ainda não ser tão rentável manter a floresta em pé, mas já está ficando caro deixar de tentar!

segunda-feira, 6 de abril de 2009 15:28:00 BRT  

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