sexta-feira, 6 de março de 2009

Um abadá sempre à mão (06/03)

A ação tucana contra Luciana Genro deve ser vista apenas como o que é: uma tentativa de intimidação

E o calendário da oposição nos últimos dias? No domingo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso publicou artigo com preocupações sobre a suposta insensibilidade do brasileiro diante da também suposta corrupção generalizada que assola o Brasil no governo do PT. Na terça, os senadores da oposição debruçaram-se sobre os microfones em solidariedade ao colega Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), que aponta o dedo ao seu próprio partido acusando-o de corrupção sistêmica. Jarbas não cita nomes nem exibe provas, e não consta que a oposição esteja incomodada com isso. Já no caso das acusações contra a governadora tucana do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, o PSDB acha um escândalo que se acuse alguém sem apresentar as provas. Por isso, na quarta-feira os tucanos pediram nada menos do que a abertura de um processo que pode levar à cassação da deputada federal Luciana Genro (PSol-RS), por ela ter colocado a boca no trombone contra a governadora.

Se a Câmara dos Deputados seguir o que diz a Constituição, o destino certo da representação do PSDB contra Luciana Genro é o arquivo. O mandato parlamentar é inviolável. Deputados e senadores podem fazer as denúncias que quiserem, e não precisam provar nada. Que o diga o senador Jarbas Vasconcelos. Daí por que a ação tucana contra a deputada do PSol deva ser vista apenas como o que é: uma tentativa de intimidação. Ainda está em tempo de o PSDB colocar a cabeça no lugar e recuar. Em vez de ameaçar Luciana Genro, os tucanos deveriam ser os primeiros interessados em esclarecer completamente se há ou não fundamento nas acusações contra a governadora do Rio Grande do Sul. Será um erro prejulgar Yeda Crusius, mas o esforço para calar os adversários e abafar o caso não ajuda quem luta para convencer os gaúchos e os demais brasileiros da inocência dela.

E o PT do Senado? Alguns senadores do partido de Luiz Inácio Lula da Silva ficaram chateados porque o coordenador político do governo, José Múcio Monteiro, apreciou a vitória do senador Fernando Collor (PTB-AL) sobre Ideli Salvatti (PT-SC) na disputa pelo comando da Comissão de Infraestrutura. Ora, o serviço do ministro de Relações Institucionais é ajudar a manter o governo de pé, impedir que ele seja inviabilizado pela oposição. É natural, portanto, que Múcio tenha ficado satisfeito com o resultado da refrega. Em busca de seus legítimos projetos de poder, o PT do Senado tem todo o direito de se aliar aos mais ferozes inimigos de Lula, mas não deve ficar de beicinho quando a articulação política do governo faz o seu trabalho e ajuda a impedir que a aliança PT-PSDB na Casa ganhe força. Lula tem mais dois anos de Planalto e pretende eleger o sucessor. Melhor dizendo, sucessora. Não tem motivo para dar sopa ao azar.

A aliança que elegeu Collor para a Infraestrutura foi chamada de “espúria” pelo líder do PT. Infelizmente para ele, trata-se da aliança que sustenta o governo a que o líder pertence. Volta e meia ressurge das cavernas o sonho petista de uma concertação com o PSDB, para escantear o PMDB e os demais aliados. Banzo de uma época já distante, na Constituinte, quando pré-tucanos e petistas se autonomearam paladinos da luta contra a corrupção e contra o fisiologismo —e fizeram disso uma escada para chegar ao poder. Eram os bons tempos em que, de mãos dadas, infernizavam o governo de José Sarney, para impor-lhe a amputação do mandato e o parlamentarismo. Mas como não aconteceu de alcançarem juntos o ambicionado posto, o esporte predileto de ambos na última década e meia tem sido acusar o outro de fisiologismo e corrupção. Ou de conivência com o fisiologismo e a corrupção. Daí que, compreensivelmente, o eleitor enxergue cada vez mais só farisaísmo nos alternados surtos moralistas da dupla.

Mas a vida segue. A única coisa garantida é que a tempestade de raios sobre o PMDB continuará nas próximas semanas. O presidente do Senado, em entrevista recente ao Valor Econômico, resumiu bem a situação. PT e PSDB querem o PMDB como aliado, mas enfraquecido. Querem atraí-lo, ou atrair pedaços dele, mas não desejam dar à musculosa sigla a prerrogativa de optar. Eis por que a pancadaria. O PMDB é a única válvula de escape que resta numa sucessão precocemente bipolarizada. Trata-se portanto de miná-lo. Para tal, nada melhor do que tirar do armário o abadá da “ética na política”. Desde que, naturalmente, o bloco não tenha que desfilar pelos pampas gaúchos.

Coluna (Nas entrelinhas) publcada hoje no Correio Braziliense.

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10 Comentários:

Anonymous J.Augusto disse...

Desde que não tenha também que desfilar pela Secretaria de Segurança Pública paulista.

sexta-feira, 6 de março de 2009 04:35:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Um texto espetacular.

sexta-feira, 6 de março de 2009 08:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Este é mesmo um blog porreta.

sexta-feira, 6 de março de 2009 08:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Sensacional.

sexta-feira, 6 de março de 2009 08:37:00 BRT  
Blogger Maybe Tomorrow disse...

Ola Alon,a sessão do "jarbas"eu assisti. Lembrei do ZorraTotal uma comédia em vários atos.O congresso esta perdido, promíscuo, sem senso de ridiculo e pior nem o que fazer eles sabem. Abr.Yvy

sexta-feira, 6 de março de 2009 10:45:00 BRT  
Anonymous Moses disse...

Alon, aqui do RS vejo de forma um pouco diferente a representação. Não como intimidação, mas como substrato para a mídia daqui ir deslegitimando a denúncia em si. As coisas nos veículos da RBS, BandRS, Guaíba, etc, têm soado como "viram, tanto não eram sérias as denúncias que Luciana agora pode ser punida pela brincadeira". Outro ponto que revolta não se tratar de intimidação é que o PSOL nada mais pode fazer, portanto não precisa ser intimidado. Ao apresentar as denúncias, os parlamentares foram claros, dizendo onde estariam as provas, mas o acesso a elas só poderia ocorrer por ordem judicial, a qual só viria a existir caso os parlamentares fossem processados por Yeda.
Grande abraço!

sexta-feira, 6 de março de 2009 11:25:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A galera que representa contra Luciana é a mesma que quer criar uma Frente Anticorrupção...VALHA-ME DEUS!

sexta-feira, 6 de março de 2009 13:22:00 BRT  
Anonymous RB de Mello disse...

Ao primeiro olhar se trataria de resposta política a ato político. Bala trocada não dói. Como dizem no Sul.
No entanto, o encaminhamento de ações no Judiciário, se ocorrer, já representará resposta de quem não teria o que temer.
Se o PSOL e não visasse atingir criminal e politicamente a Governadora, teria indicado a existência de fatos e onde poderiam ser encontrados. Sem acusações duríssimas e frontais, exceto após a revelação por quem de direito dos tais fatos.
Seria a ação correta.
A palavra foi lançada, não pode mais a Deputada recuar nem os danos apagados. O fato ganhou pernas.
Intimidar tem a ver com futuro e esse prescinde da Deputada. Para o mal ou para o bem. Logo, esse não deve ser o sentido da ação do PSDB.
A Deputada terá de ir até o fim e quebra de decoro é conceito vago. A acusação à Governadora foi de prática criminosa. Estender o conceito de livre manifestação até aí pode ser uma demasia tanto quanto negá-la peremptoriamente. Melhor aplicar a cada caso.

sexta-feira, 6 de março de 2009 16:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

José Dirceu,foi cassado com acusações abstratas,estendidas aos quadros do PT,histórico.Provou-se ,algo?Contudo, a pecha que cada um dos acusados leva,desde então e por muito tempo, ainda,uma
provável absolvição, torna-se mera atenuante.

sexta-feira, 6 de março de 2009 21:27:00 BRT  
Anonymous RB de Mello disse...

Modifico em parte comentário anterior. Interessa mais à sociedade assegurar ao parlamentar a livre expressão. Ainda que sob risco de graves danos as pessoas sem direito igual.
Contudo, não haverá justiça se não garantido o direito do ofendido de responder e de ser pelo menos ressarcido na medida do dano.
É certo, porém, que o fato midiático dificilmente será integralmente revertido. Daí que,inexistindo a culpa formada, serão aceitáveis providências de cunho defensivo e de impacto, sem desabono de obrigatórias medidas judiciais. Por sinal, no caso dos parlamentares, sempre insuficientes, vez que livre para se manifestar, não poderá ser obrigado, por exemplo, à retratação.
No mundo político as comissões de ética ocupam esse espaço de discussão em que acusadores e acusados podem ser igualados e julgados, cabendo somente o estabelecimento de pena ou fato político.
Obrigado

domingo, 8 de março de 2009 10:21:00 BRT  

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