segunda-feira, 2 de março de 2009

Teste de QI. E a rasteira no eleitor (02/03)

Ficar conhecido como alguém que combate o fisiologismo é uma coisa boa. Você ganha o direito de cuidar dos seus próprios interesses fisiológicos sem ser incomodado

A brigalhada pelo comando dos fundos de pensão faz lembrar uma história que conheço há mais de trinta anos. Uma piada de centro acadêmico. E nem é tão piada assim. Dois líderes de facções adversárias conversam para tentar montar uma chapa de consenso na entidade. Estão num impasse. Quem fará a maioria? Um dos dois chefes políticos tem a ideia. “40% para vocês, 40% para nós e o resto para os independentes.” O outro sorri. “Ótimo. A gente interrompe a conversa agora e voltamos a falar amanhã de manhã. Eu trago a lista dos meus independentes e você traz a dos seus.”

Minhas homenagens ao eterno Centro Acadêmico “Oswaldo Cruz”, escola insubstituível de política e jornalismo. Toda vez que leio em algum lugar sobre a necessidade de “não ceder às pressões dos partidos” e de “preencher com técnicos” as vagas que dependem de indicação arbitrária do poder eu me recordo da historinha e ajusto o ceticismo um grau acima. Para o meu juízo de observador (crítico?) dos fatos, sempre que alguém comparece à imprensa argumentando que determinada posição estatal deve estar blindada contra indicações políticas eu desconfio de que o sujeito deseja mesmo é defender as suas próprias indicações políticas -e naturalmente resistir à ocupação de espaços pelos adversários. Modéstia à parte, a taxa de acerto nessas análises tem ficado perto dos 100%. Não por eu ser particularmente esperto. Talvez por ter tido a oportunidade de um dia montar uma chapa de centro acadêmico.

Uma arte na luta política é apresentar objetivos partidários (de uma parte) como a expressão do interesse geral. Daí que os meus apaniguados sejam sempre “técnicos” e “competentes”. Já os seus, se você estiver na rinha comigo, são necessariamente “políticos” e comprometidos com o “fisiologismo”. Entre nós brasileiros, aliás, ficar conhecido como alguém que combate o fisiologismo é uma coisa muito boa. Você ganha o direito de cuidar dos seus próprios interesses fisiológicos sem ser incomodado.

Viu gente brigando por causa de um cargo qualquer no governo? Faça o teste de “QI” (quem indica). Com essa medida simples, você evita cair em conversas que só deveriam enganar os ingênuos.

Eles de novo

Por falar em explorar a ingenuidade alheia, o governo planeja relançar o debate sobre a reforma política. A probabilidade de ela avançar não é grande, mas convém estar alerta. Como aprendi com o meu bom amigo Fernando Rodrigues, toda vez que a turma se move para mudar o sistema político há uma chance enorme de a mudança ser para pior.

Agora não é diferente. A proposta do governo para a reforma é uma estrovenga com a finalidade de limitar ainda mais o poder e o controle do eleitor sobre os políticos. Se ela passar tal como foi articulada no Palácio do Planalto, as cúpulas partidárias é que vão definir quem será eleito para o Legislativo (federal, estadual ou municipal) e o partido do governo terá sempre mais dinheiro do que a oposição para fazer campanha eleitoral. E se o detentor de mandato não estiver de acordo que o seu voto seja negociado com o Executivo pelos caciques partidários pode perder a legenda (ou uma vaga viável na chapa) na eleição seguinte.

Sobre a reforma política, uma curiosidade. O sistema defendido pelo PT, de lista fechada (com financiamento exclusivamente público) e cláusula de barreira, é vendido no mercado das ideias como a solução contra a dispersão partidária. Pois em Israel o voto é em lista fechada nacional e existe uma cláusula de barreira. O eleitor vota no partido e a legenda que não obtém um mínimo de votos fica fora do Knesset (Parlamento). E o principal problema do sistema israelense é justamente a dispersão partidária.

Por uma razão simples. Lá, como aqui, o eleitor tem preferido espalhar o voto por um número maior de legendas do que seria do agrado dos candidatos a monopolizar a política. Dos bem-pensantes. E ali, do mesmo jeito que aqui, ainda não encontraram um modo de obrigar o eleitor a votar de uma maneira mais conveniente aos bem relacionados. Por isso ali persiste, e se agrava, a dispersão. O que impõe complicadas negociações para formar um governo, dado que o sistema é parlamentarista. Pelo menos isso, o parlamentarismo, parece que desta vez aqui não vão querer propor. Parece.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Por que,Israel? Berço da democracia
meso-oriental? Reconheço que é uma nação de gigantescas dimensões.Seus limites situam-se nos extremos dos cinco continentes, e possui uma capacidade arrecadatória invejável sem ser impositiva.Chile , não serve?
Ou outra nação-boutique,qualquer.
O que temos é produto genuinamente nacional,e não se admite importados. Aceitemos nossas jabuticabas:ao natural, em compotas ou geléia,porém jabuticabas...

segunda-feira, 2 de março de 2009 10:20:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

A questão é saber até que ponto a liderança desce escada abaixo. Não é por que eu boto alguém da minha confiança num posto que todo mundo irá segui-lo como ele segue a mim.

É por isso que eu não acredito em choque de gestão. O meu burocrata pode não ser melhor do que o seu. Ou vice-versa. O melhor mesmo é contar com uma burocracia sempre pronta a atender qualquer um de nós. Que não precise ser reconstruída de 4 em 4 anos, porque não dá tempo e dá um trabalhão danado pra começar o governo.

Bom, mas isso daria muito poder aos burocratas, né? Mas há boas maneiras de controlá-los, desde que a gente aprenda a se controlar também.

A gestão no centrinho funcionou bem? Por quanto tempo?

segunda-feira, 2 de março de 2009 16:11:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Oi Alon, depois de um tempo sumido, retorno e vejo que a qualidade dos seus artigos piorou!
Falou, falou, falou mas não disse o que interessa: A QUEM INTERESSA O COMANDO DO REAL GRANDEZA?!?! Sabemos dos envolvidos, conhecemos as acusações, desconfiamos dos movimentos e interesse escusos, mas... o que um "observador (crítico?) dos fatos" vê que nós não vemos?!!?!
Denovo, falou, falou e não disse o principal: PORQUÊ DA REFORMA POLÍTICA AGORA?!?!?! Novamente, nós conhecemos os movimentos, alguns nomes, mas... será que esta é mais uma cortina de fumaça, falta de assunto no governo ou existe MESMO a possibilidade dela ser MUITO PIOR do que se espera?!?!?!
Pra delirar com o sistema político israelense, sou mais o Ali Kamel!

sexta-feira, 6 de março de 2009 16:13:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Richard, não é que os artigos tenham piorado, talvez você venha de ler artigos muito melhores em outro lugar. Os textos aqui continuam como sempre foram. Algumas observações. A quem interessa o comando do Real Grandeza? Ora, ao PT e ao PMDB agora, já que ambos estão no governo. E ao PSDB no futuro, já que ele pretende chegar ao governo em 2011. Interesses escusos? Se você souber de algum, me avise. Aqui, infelizmente, não perfilamos naquele tipo de jornalismo para o qual "escusos" são os interesses dos outros, se é que me entende. Leia o posto que escrevi hoje (6/3). Quando à reforma política agora, ela serve em parte como cortina de fumaça e em parte para pavimentar os projetos de monopólio de poder, como está explicado no post. Quanto a delirar, por que você acha que se trata de delírio? Tem alguma observação a fazer sobre o sistema político israelense? Ou acha que eu não deveria ter usado esse exemplo? Se é essa sua posição, poderia explicar por quê? Para terminar, este não é um blog dedicado a dizer o que há "por trás" das coisas. Este é um blog que costuma, modéstia à parte, estar à frente. Abs.

sexta-feira, 6 de março de 2009 16:32:00 BRT  
Anonymous Daniel disse...

Eu concordo com o financiamento público, e com a claúsula de barreita, agora, com o voto em lista jamais....

sábado, 7 de março de 2009 00:42:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Oi Alon, "delirar" com o sistema israelense não tem nada a ver com os judeus, que fique bem claro! Mas é que existem outros sistemas mais antigos e experimentados... o próprio sistema inglês, ou o espanhol que é mais moderninho... só acho que deu margem pros anti-semitas de plantão! Eu quero que Israel se exploda, mas nós estamos discutindo é o sistema político.
E, que pena que vc não se interessa pelo que rola "por trás"! Discutimos aqui nossas vivências... mas, creio eu, só vc vive no centro do poder (sem PH)! Minha vista cansa de ler as entrelinhas de Nas Entrelinhas!!!

segunda-feira, 9 de março de 2009 18:19:00 BRT  

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