sexta-feira, 13 de março de 2009

O Galileu do spread (13/03)

O economista Márcio Nakane, professor da USP e coordenador técnico da consultoria Tendências, é um Galileu Galilei do spread bancário. Clique na imagem abaixo para ver reportagem de ontem do Jornal Nacional da TV Globo sobre os juros.



Separei o trecho da reportagem referente a Nakane. A transcrição:
    Os juros regulados pelo Banco Central servem de referência para o mercado. É o valor que o governo paga quando pega dinheiro emprestado. Mas empresas e as pessoas pagam taxas bem maiores. Elas também vêm caindo, mas muito devagar. Um estudo mostra que, entre janeiro e fevereiro deste ano, a taxa básica dos juros caiu 7,27%. Já os juros para o consumidor tiveram uma redução menor: de 1,81%. Para as empresas, em média, não houve redução. Enquanto a taxa básica do governo está em 11,25%, a do empréstimo pessoal, por exemplo, chega a 90% ao ano. Márcio Nakane, professor de economia da Universidade de São Paulo (USP), estuda os motivos que fazem essa diferença tão grande. Ele diz que, nos juros que os bancos cobram, estão incluídos vários custos, como impostos e despesas administrativas, além do lucro. Mas o peso maior hoje por causa da crise é o da inadimplência. “Como o risco é maior, ou seja, existe uma boa probabilidade de que, ao emprestar, o banco não receba de volta esses recursos, ele, de alguma forma, embute nesse risco o preço que ele cobra que é a taxa de juros”, explica o economista.
Agora vejamos o que Nakane escreveu pouco mais de um mês atrás sobre o spread bancário (a diferença entre o juro que o banco cobra do tomador de dinheiro e o juro que o banco paga ao poupador) . O texto, com o título "Spread bancário e Inadimplência", está na Análise Semanal que a Tendências distribuiu na época aos clientes e motivou um post neste blog (Sem argumentos). Os negritos são meus:

    Existe alguma relação entre os movimentos de inadimplência e o spread bancário? A inadimplência aumentou porque o spread bancário se elevou? Ou a causalidade seria inversa: o spread bancário se elevou porque a inadimplência aumentou? Esta nota realiza um exercício simples de causalidade para tentar lançar alguma luz sobre a questão. (…) Em especial realiza-se o teste de causalidade de Granger entre as séries. A idéia deste teste é de precedência temporal, ou seja, se uma variável x causa (no sentido de Granger) uma variável y então valores passados daquela ajudam a prever o valor corrente desta (…) Os resultados do teste (…) indicam que tanto para pessoa física quanto para pessoa jurídica existe evidência de que o spread bancário causa inadimplência. Ou seja, aumentos na inadimplência podem ser atribuídos a elevações no spread bancário. Por outro lado, não existe evidência de causalidade no sentido reverso, ou seja, não há evidência de que a inadimplência cause o spread bancário. Ressalte-se que para pessoa jurídica o resultado do teste é mais duvidoso, uma vez que o p-valor do teste é de apenas 5,05%. (…) ressalva importante é que os resultados de não-causalidade da inadimplência para o spread não devem ser interpretados como uma desconsideração do risco de crédito na precificação de operações de empréstimo pelo setor bancário. A série utilizada de inadimplência diz respeito ao passado, ou seja, aos atrasos de empréstimos que foram concedidos no passado. Do ponto de vista do spread bancário, pode ser que o mais relevante seja um prêmio de risco associado à inadimplência esperada.
Mais claro impossível. O professor chegou à conclusão técnica de que não há como justificar o spread pela inadimplência passada. E que o spread abusivo é sim causa de inadimplência. Ele adverte para senões metodológicos, mas sentiu-se seguro o suficiente para assinar um texto com essas conclusões. E a sua declaração diante das câmeras é de uma sutileza fantástica:
    “Como o risco é maior, ou seja, existe uma boa probabilidade de que, ao emprestar, o banco não receba de volta esses recursos, ele, de alguma forma, embute nesse risco o preço que ele cobra que é a taxa de juros”.
Claro, o banco projeta uma inadimplência futura e parte para arrancar o couro dos clientes no spread. O que naturalmente resultará numa inadimplência alta, que por sua vez poderá ser evocada pelo banco na hora de explicar por que o spread é alto. O que isso tem a ver com projetar o spread a partir de uma inadimplência passada? Nada. Eu comparo o professor a Galileu Galilei porque
    se Giordano Bruno morreu na fogueira, Galileu Galilei preferiu um bom acordo com a Igreja e resmungou intimamente que, apesar de tudo, a Terra se move.
Clique nos links dos dois personagens para saber mais. O trecho está em Confissão obtida sob tortura não vale, um post velho. Ainda não chegou o dia em que alguém poderá dizer em rede nacional que a principal causa do juro alto é o cartel financeiro, que promove o assalto ao Tesouro e ao bolso do cidadão. Mas uma hora a ditadura do cartel vai acabar. E Márcio Nakane estará vivo para continuar seus estudos e seu trabalho. Assim como fez Galileu Galilei, que diante da Inquisição achou melhor não insistir na ideia de que a Terra se move. Sem porém abrir mão de resmungar, entre dentes, que ela se move. Até porque ela se move mesmo.

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6 Comentários:

Blogger Franco Vieira disse...

Alon, nesse caso, é fácil perceber que o uso da causalidade de Granger está, fundamentamentalmente, errado. A explicação sobre o seu funcionamento é perfeita. Mas o autor esqueceu um simples detalhe: o objetivo do spread bancário é justamente prever a inadimplência. Talvez os bancos simplesmente tenham tido sucesso na previsão.


É claro que maiores taxas de juros causam maior inadimplência (afinal, quanto maior a dívida, mais difícil é paga-la). Mas, se for para apontar um culpado, são os consumidores. Pois são eles que se submetem ao bom e velho cheque especial, aos financiamentos em 30 anos e outros absurdos financeiros, por conta de impaciência ou irresponsabilidade.

sexta-feira, 13 de março de 2009 13:59:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

Sabe-se - e a construção gramatical adotada é a filha dileta do off - que a redução da SELIC parou em 1,5% não por qualquer preocupação com inflação de demanda, mas por um singelo cálculo sobre:
a) eventual fuga de aplicações para cadernetas de poupança, de menor rentabilidade para a banca;
b)risco de redução de margens, pois taxas de juros "muito baixas" não permitem bons spreads;

sexta-feira, 13 de março de 2009 14:17:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Quem saiu lucrando com os juros na estratosfera?
Esta pergunta teima em não calar!

sexta-feira, 13 de março de 2009 21:44:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ele não se contradisse em hora alguma. A inadimplência esperada causa um aumento no Spread. Ele disse isso em ambas as declarações. E um aumento no spread leva a um aumento na inadimplência. Esse tipo de simultaneidade é extremamente comum em economia. O equilibrio resultante é algo a ser tratado matematicamente, ao invés de somente especular sobre qual fator é mais ou menos importante

domingo, 15 de março de 2009 02:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A independência da Tendências Consultoria a credencia como interlocutor neutro no debate sobre os spreads bancários.

A frase ficou bonita?

domingo, 15 de março de 2009 12:05:00 BRT  
Blogger Franco Vieira disse...

Anônimo, não foi uma contradição. Foi um erro.

Nakane fez uma pergunta: "A inadimplência aumentou porque o spread bancário se elevou? Ou a causalidade seria inversa: o spread bancário se elevou porque a inadimplência aumentou?"

A resposta é bem clara: aumentar o spread (a "sobretaxa" de juros) aumenta a inadimplência, já que com mais juros, é mais difícil pagar a dívida.

No entanto, o contrário também ocorre. Se a inadimplência aumentar de repente, sem aviso, é óbvio que os bancos irão repassar isso via aumento de spread. Pois, caso contrário, eles irão ter seus lucros prejudicados.

A questão é muito mais simples, estão é complicando.

O erro está na abordagem usada: Nakane botou tudo numa linha do tempo, o que não nesse caso não prova nada. Ele diz que "não há evidência de que a inadimplência cause o spread bancário". Ok, então se de repente muitos parassem de pagar aos bancos, você acredita mesmo que os juros cobrados ao consumidor não vão aumentar?

Em casos em que há decisão humana, onde uma variável tenta "prever" a outra, tentar encontrar causalidade com esse método (linha do tempo) é muito mais difícil. Não se pode atribuir toda a iadimplência ao aumento no spread, sem considerar a causa estrutural (a crise).

O que quero dizer é: a análise de Nakane não é uma prova científica de que, se os bancos tivessem mantido o spread anterior, não haveria um grande aumento na inadimplência.

Na verdade, posso até propor um método muito mais eficaz para realizar a medição do "golpe bancário": basta comparar os lucros desse ano com os dos anos anteriores, pré-crise. Se estão de acordo, o aumento no spread apenas refletiu o aumento natural na inadimplência. Se o lucro aumentou de repente, o spread de fato foi abusivo.

domingo, 15 de março de 2009 18:20:00 BRT  

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