segunda-feira, 9 de março de 2009

O analista e o presidente (09/03)

Lula ter mais ou menos razão quando analisa as origens da crise faz pouca ou nenhuma diferença para o trabalhador que perde o emprego porque o patrão acha que as vendas vão cair

No próximo domingo, completam-se seis meses desde a quebra do Lehman Brothers, origem da crise planetária que começou na esfera das finanças e se estendeu pelo resto da economia. Seis meses costuma ser também um tempo suficiente para que inflexões na política monetária se reflitam na assim chamada economia real, a das coisas tangíveis. Ou seja, se o governo de Luiz Inácio Lula da Silva tivesse adotado medidas rápidas quanto aos juros quando a crise deu as caras, estaríamos agora começando a boa colheita.

Mas o que estamos a recolher, infelizmente, não são bons frutos de uma política acertada, são sinais cada vez mais claros de que tempos piores vêm aí, favorecidos também por decisões erradas, ou pelo medo de tomar as decisões certas. Os números da produção industrial divulgados semana passada foram muito ruins. Depois da queda vertical em dezembro, esperava-se uma recuperação razoável em janeiro. Mas a retomada foi insignificante, dando sinais de que o sonho de uma curva em V (ascensão rápida depois da queda) se foi. Já estamos na curva em U, com seu vale de estagnação. E corremos o risco real de escorregar para uma curva em L, sem saída visível para a pasmaceira.

Onde o governo errou? Não foi no investimento público. A administração Lula faz o que pode para acelerar o gasto estatal, dando felizmente de ombros para os que pedem “austeridade”. O problema está em outro lugar. Inacreditavelmente, o Banco Central tem aumentado os juros reais, dado que a desaceleração e a queda dos preços acontecem numa velocidade maior do que a da redução do juro básico. Além disso, as autoridades políticas e econômicas assistem passivamente à secura do crédito e ao aumento do “spread” bancário (a diferença entre o juro que o banco paga ao poupador e o que cobra do tomador de dinheiro).

Os bancos emprestam para cada vez menos gente e cobram cada vez mais caro. É um hábito econômico conhecido dos monopolistas. Se menos pessoas vão comprar o teu produto, aumenta a tua margem unitária. Ótimo para os bancos brasileiros, que assim se blindam para a travessia. Péssimo para as pessoas, para as demais empresas e para o país, que naufragam enquanto o capital financeiro fica só na calculadora, na observação excitada da própria capacidade de boiar enquanto os outros afundam.

O governo gastou tempo demais dando trela para conversa fiada, dando ouvidos para teses estapafúrdias sobre um risco inflacionário sabidamente inexistente. Ali pela virada do ano, os economistas de sempre, zelando pelos interesses de sempre, advertiam sobre o impacto que a depreciação do real teria nos preços internos, Só que ali já estava cristalino, até para os neófitos, que não havia nenhuma condição de as empresas repassarem a um consumidor intimidado a alta no custo dos insumos comprados em dólar ou euro. Mas essa picaretagem interessada andou frequentando o noticiário e o colunismo por tempo suficiente para legitimar uma “cautela” trágica, que agora vem apresentar a conta.

O presidente da República gosta de dizer que a crise começou lá fora. É verdade. E que estamos mais bem preparados para enfrentá-la do que no passado. Também é verdade. Mas quem vive de ter razão são os intelectuais. O fato de Lula ter mais ou menos razão quando analisa as origens da crise e as circunstâncias dela faz pouca diferença para o trabalhador ameaçado de perder o emprego porque o patrão acha que as vendas vão cair.

Se é verdade que a crise começou lá fora, também é verdade que aqui dentro seus efeitos se agravaram por causa dos erros do governo na condução da política monetária desde setembro -e na frouxidão oficial diante da gula e da arrogância dos bancos. Em miúdos: quanto mais seguros estão os empregos da diretoria do Banco Central e dos lobistas dos banqueiros no governo, mais você e eu temos motivo para preocupações com o nosso ganha-pão. E quem pode enquadrar o BC e os bancos não somos nem eu nem você, leitor. Não é Barack Obama. Nem o Conselho de Segurança da ONU. Não é o Papa Bento 16. Quem pode tomar uma providência nesse caso é Lula. Não o Lula analista do colapso do “modelo neoliberal”, mas o presidente da República.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

Acompanhe este blog pelo twitter.com

Assine o canal deste blog no YouTube

Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

4 Comentários:

Anonymous Too Loose Lautrec disse...

Vista pelo ângulo menos incriminador possível a questão pode passar pela opção de Lula pelo continuísmo e por práticas, por assim dizer, conservadoras, desperdiçando a oportunidade de promover mudanças essenciais.
Manter a política monetária foi um acerto, infelizmente acompanhada de total submissão aos interesses do setor financeiro (e dos setores privatizados também). Está consagrado o verdadeiro poder no País.
Nele não se corre riscos, os lucros são crescentes e garantidos. Insumos a custo zero e produtos a preços inventados. Um grande, seguro e benevolente - se não cúmplice – tomador. Assim nem a quebradeira das matrizes coloca em perigo os ganhos das subsidiárias locais. Dos nacionais, então, nem se fala, conhecem os caboclos, os caminhos e os descaminhos desde sempre.
Como se fez questão de afirmar: nunca antes se alcançou o ponto em que nos encontramos. Ou como preferia Itararé: “o ponto em que estamos é o ponto a que chegamos!”.
Dizem ser a crise oportunidade para competentes. Desses, ainda mais para aqueles comprometidos com mudanças. A marola virou mar encalpelado. Hora de saber da real competência do Governo e da validade da opção de Lula.
Oremos.

segunda-feira, 9 de março de 2009 11:05:00 BRT  
Anonymous Jura disse...

Assim que os bancos decidirem quem será o presidente do BC no próximo governo, quem quer que seja o vencedor, Lula troca.

Se não acertei o chute, foi bola na trave.

segunda-feira, 9 de março de 2009 12:37:00 BRT  
Blogger Richard disse...

NÃO TEVE NO INÍCIO DO 1º MANDATO, NÃO TERÁ AGORA!
Como disse um Anônimo (no outro post): tem eleição em 2010.
Cs acham que Lula vai arriscar fazer o que deveria ter feito desde o primeiro dia da presidência!?!?!
E o Jura levantou uma bola esperta: quem poderá ser o presidente do BC em 2010?! O Meirelles se aposenta (anúncia antes que é p/ dar um clima na eleição) ou fica para "garantir" a continuidade da política?!!?!?!Alguma suspeita, Alon?!!?!!?!

segunda-feira, 9 de março de 2009 18:07:00 BRT  
Anonymous Artur Araújo disse...

Alon, no geral, de acordo. Teste, porém, a tese da curva em W: setores diversos com tempos diversos de entrada, reação e saída da crise. Parece-me mais adequada ao desenho da estrutura de produção brasileira, particularmente para refletir diferenças entre exportadores e abastecedores de mercado interno. O L ainda não está no cenário brasileiro.

segunda-feira, 9 de março de 2009 19:02:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home