sexta-feira, 13 de março de 2009

Integrar para não entregar (13/03)

Nossa soberania depende do exercício de uma liderança regional construtiva e agregadora. Se não o fizermos, alguém o fará por nós

O título desta coluna é o antigo lema do Projeto Rondon. Lema algumas vezes esquecido pelas nossas autoridades. Tem a ver com a Amazônia, ou com o festival de mesuras recebido pelo príncipe Charles, em visita à nossa terra. O eterno herdeiro do trono britânico veio a nós para fiscalizar como cuidamos da floresta. O assunto é nosso, mas Sua Alteza age como se fosse dele. São os resquícios da colonização. É mais fácil expulsar o colonizador da colônia do que extirpar a submissão colonial da alma do colonizado.

Semana que vem será a vez de Luiz Inácio Lula da Silva ir aos Estados Unidos, para o primeiro encontro com Barack Obama. Fotos recentes mostram o cabelo do presidente americano cada vez mais branco. Sem a crise, Obama não teria chegado tão cedo onde chegou. Mas não foram os próprios americanos que inventaram a história de não haver almoço grátis? Uma hora a conta vem. Ela veio. Lula e Obama se reunirão premidos por circunstâncias difíceis. Obama enfrenta ameaças que colocam em risco o Império, e Lula está acossado pelo espectro de perder em dois anos o que conquistou em seis.

Obama tem pouco a oferecer, nas circunstâncias. Talvez alguma coisa no etanol, área em que o Brasil quebra a cabeça para achar mercado, coisa complicada com o barril de petróleo a US$ 40. Os dois podem alcançar alguma convergência verbal sobre a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio, mas isso não será novidade. Já faz algum tempo que Brasil e Estados Unidos estão essencialmente de acordo quanto ao tema. O problema é convencer chineses e indianos de que devem abrir seus mercados aos produtos americanos e europeus. Não será fácil.

É melhor ter cautela quanto aos resultados práticos da cúpula entre os dois presidentes. Ainda que estejam de acordo na retórica, a vida costuma impor limites. Lula, por exemplo, critica dia sim dia não o protecionismo. Mas quando a Embraer colocou 4 mil na rua, a primeira ideia que veio à cabeça do nosso presidente foi perguntar por que as companhias aéreas brasileiras compram aviões americanos e europeus, em vez de encomendar à brasileira Embraer. Pois é.

Na esfera regional, Cuba já deixou claro que não precisa do Brasil e não quer intermediários na interlocução para por fim ao bloqueio americano de quase cinco décadas. Paciência. Já o caso da Venezuela é diferente. Lula recebeu de Hugo Chávez um mandato para debater as relações bilaterais com Obama. Trata-se de um assunto importantíssimo para o Brasil, pelos interesses envolvidos. Os americanos precisam do petróleo venezuelano, e Caracas precisa vender petróleo a Washington. Os americanos acham que Chávez pode muito bem um dia fechar a torneira. E Chávez acha que, pelo petróleo, os americanos estão dispostos a fazer com ele e o seu país o que fizeram com Saddam Hussein e o Iraque. E tudo isso logo ali na nossa fronteira norte.

Ao Brasil interessa desarmar a bomba. Uma América do Sul não hostil aos Estados Unidos, pacífica e livre de armas de destruição em massa é condição sine qua non para mantermos e ampliarmos a liderança regional. Então, nem que seja por puro pragmatismo, dada a dimensão relativa dos envolvidos, ou nós cuidamos da área ou se criará um cenário propício à intervenção externa. Em outras palavras, o exercício de nossa soberania depende também de como seremos capazes de exercer a nossa influência sobre os vizinhos, de modo construtivo e agregador. Se não o fizermos com competência, alguém o fará por nós.

Além do mais, discursos globalizantes à parte, a crise impõe aos países a busca e a defesa de mercados. No nosso caso, antes de qualquer outra coisa, trata-se de consolidar e ampliar o Mercosul. Se possível, estendê-lo a todo o continente. E isso só acontecerá se as diferenças políticas forem deixadas de lado em nome do nosso interesse nacional maior. Ou seja, evocando o antigo lema do Projeto Rondon, trata-se de integrar a América do Sul para não entregá-la. Política, comercial e militarmente falando.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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2 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

A se confirmar o que diz uma reportagem sobre a situação na Venezuela, a coisa por lá já estaria fora de controle.

http://www.noticias24.com/entrevistas/noticia/183/asegura-que-ya-estamos-en-crisis-y-vislumbra-un-panorama-aun-mas-oscuro/

sexta-feira, 13 de março de 2009 08:55:00 BRT  
Anonymous Bruno disse...

Creio que até Chomsky faz constante referências a necessidade vital e urgente da integração da AL, caso não queiram ficar vulneráveis sob o velho "divide and conquer".

sexta-feira, 13 de março de 2009 09:13:00 BRT  

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