sábado, 21 de março de 2009

A conta do almoço começa a chegar (21/03)

A popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva caiu, dizem o Datafolha e o Ibope. Pouco, mas caiu. Quanto mais ela cairá? Sei lá. Discutir isso agora é meio bizantino, não acham? O importante é que houve a inflexão. Ela pode ser revertida? Claro. A queda pode se aprofundar? Claro. Então deixemos essa polêmica para os apostadores. Por que Lula desce a ladeira? Na minha opinião (bom de blog é poder dar opinião à vontade), pela relativa inação diante da crise. Não é só porque a crise está batendo mais na vida das pessoas e das empresas. É porque o governo, convenhamos, está aquém das necessidades do momento. Eu escrevi em dezembro, três meses atrás, com o título Faltam os meios para a vitória:
    Seu [de Lula] governo (...) ficará marcado pela maneira como tiver enfrentado a crise planetária da economia. E até aqui Lula vai bem, ao menos no terreno simbólico: ele é o governante que se recusa a aceitar a derrota, o líder que preparou o país para os tempos difíceis, o dirigente que nos fará atravessar a tempestade com o menor dano possível, desde que todos colaboremos e não paremos de consumir. (...) Lula, portanto, faz bem uma parte do serviço quando se comunica adequadamente. Mas comunicação não é tudo. Além de símbolos, líderes precisam dar aos liderados meios materiais para alcançar a vitória. Do contrário, o moral da tropa não resiste. Propaganda sozinha não enche barriga. Se a César deve ser dado o que é de César, dele também se exige que cumpra suas obrigações. E o nosso presidente, infelizmente, tem deixado a desejar num aspecto. Lula pede ao brasileiro que consuma com firmeza, mas não faz a parte dele para garantir que isso aconteça em circunstâncias minimamente seguras. Vejamos. Ou o cidadão consome com dinheiro próprio ou pega emprestado. Dinheiro próprio para o consumo, hoje em dia, só se o sujeito for rico ou tiver estabilidade no emprego. Se Lula deseja que o brasileiro fique firme na guerra do consumo, precisa dar um jeito de fornecer as armas e a munição: crédito abundante e barato. Mas o que se vê é o contrário: cada dia na crise é um dia a mais para os bancos aumentarem sua aversão ao risco, restringindo o volume de crédito e encarecendo os juros. (...) As nossas autoridades gabam-se de que a saúde dos bancos brasileiros vai muito bem. O que é bom. Lamentavelmente, porém, essa saúde se deve em boa parte a uma deformação. Os bancos brasileiros emprestam pouco e mal para os cidadãos e para as empresas. Os bancos no Brasil são um sucesso porque têm lucro garantido emprestando dinheiro para o governo a taxas siderais e cobrando tarifas escorchantes dos clientes. Além dos spreads indecentes. Ou seja, no caso brasileiro os bancos serem saudáveis é um sintoma de que o país está doente.
Sobre a saúde dos bancos brasileiros, a revista britânica economist.com traz uma reportagem que aborda nosso spread. Uma reportagem simples, mas com dois detalhes interessantes. Um é o gráfico com a comparação entre os spreads praticados nos Brics.


O gráfico é autoexplicativo. E tem também um trecho da reportagem que vale a pena transcrever:
    Brazil’s banks may be expensive, but at least they are safe. None has yet been troubled by the world financial turmoil. That may be because their profits from everyday banking were so high that they had no need to take silly risks.
    [Traduza com o http://translate.google.com]
Isso você já leu aqui neste blog, inclusive em Faltam os meios.... No Brasil, banco virou negócio de risco zero. Bom para os banqueiros. Mas, como não existe almoço grátis, quem vai pagar o pato é Lula. Já está pagando. O presidente pode sair desta? Pode, afinal ele é um gênio da política. Só que o povo não é bobo. Percebe que é perto de nenhum o senso de urgência do governo diante da secura do crédito e do assalto que os bancos promovem ao bolso das pessoas e das empresas.

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7 Comentários:

Anonymous Luca disse...

Este assunto depende não só do Bacen. Vale lembrar que o maior banqueiro do Brasil é o Governo: Banco do Brasil, Nossa Caixa, Caixa Federal, BNDES, e mais outros tantos Estaduais. Porque estes Bancos não reduzem os juros para forçar o restante do mercado a cair também?

sábado, 21 de março de 2009 10:49:00 BRT  
Blogger rene disse...

Esta é uma luta onde ninguem quer por o dedo. A ditadura financeira que oprime toda humanidade.
Precisamos de grana para viver, então trabalhamos. Para trabalhar precisamos mais, transporte, alimentação, vestimenta, educação, tudo custa.
Então o salario não dá, tem mais moradia, impostos e taxas, luz, agua, telefone, e por ai vai parar no cheque especial.
Ai o banqueiro sorridente exulta:
- Agora chegamos aonde eu queria.
E o pobre, que quer manter seu padrão de vida vai ficar refem do credito caro, que torna mais rico quem não precisa de nem mais um tostãozinho minguado.
Romper com isso, obrigar os bancos a disputarem cada real, assim diminuir a diferença entre o que pagam e o que cobram pelo dinheiro.
Que dinheiro?
Outro dia minha filha, 13 anos, perguntou?
- Pai, esse dinheiro todo fica onde? Ele existe?
Eu fiquei olhando pra ela e depois de pensar um pouco em silencio, respondi que não, é tudo numeros em uma planilha excel.

sábado, 21 de março de 2009 11:57:00 BRT  
Blogger sergio ferreira disse...

Caro Alon

Acredito ser conhecedor de sua postura de não crítica a colegas e jornais.
Voc~e já explicou esse ponto, e muito bem.
Nas sei que você tambémprocura ser bem criterioso com informações e números.
Pois bem, quanto a recente pesquisa datafolha, ela não pode ser comparada às anteriores.
Nas anteriores o sul representava no máximo 15% da amostra; na última, saltou para 28%, igual ao peso do nordeste.
O resultado disso nós sabemos: uma distorção, ainda que leve, sem que os critérios para essa elevação do peso do sul tenha sido explicado.

Obrigado pelo blog e abraços

Sérgio

sábado, 21 de março de 2009 15:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Venho acompanhando a popularidade dos nossos presidentes há muito tempo e tenho a impressão que ainda avaliamos os nossos governantes de acordo com as peculiaridades da sociedade e da economia brasileira. Talvez daqui a 40 anos não haverá mais memória inflacionária entre os eleitores brasileiros e as pesquisas de popularidade no Brasil se assemelharão às pesquisas na Europa e nos Estados Unidos: a economia vai bem a popularidade do presidente vai bem, salvo quando surge uma situação atípica como a invasão do Iraque.
Atualmente as pesquisas no Brasil não seguem a lógica da economia. Foi uma pena não ter dado divulgação maior às pesquisas anteriores à divulgação do PIB (A menos que elas não ocorreram, o que não é muito provável, pois há uma pesquisa mensal não sei se da Confederação Nacional dos Transportes ou da Confederação Nacional da Indústria). Se tivesse sido divulgada mais essa pesquisa, ela demonstraria que não foi o PIB do 4º trimestre de 2009 que causou a queda de popularidade do presidente, pois creio que, nas pesquisas posteriores a 2008, o índice de popularidade do presidente apresentou-se ainda bem elevado.
O que fez a popularidade do presidente cair foi a divulgação da queda do PIB. Não vou culpar só a imprensa, pois não foi só a divulgação que causou a queda na popularidade, foi também a descoberta de que o baque que o PIB sofrera fora enorme (Esse enorme é um termo um tanto quanto revelador, mas não é o caso) que criou uma certa desconfiança da população em relação à capacidade de Lula para administrar a economia.
Para dois textos seus mais recentes eu comecei a analisar essa questão da popularidade relacionada com o PIB, sendo eles: "Deflação" de 16/03/2009 e "Um apelo à ortodoxia" de 14/03/2009. A idéia central do meu argumento sobre a popularidade diz respeito a capacidade de percepção da população em relação aos dados econômicos e o caráter um tanto egoísta de nós todos, seres humanos.
No meu entendimento, a percepção pela população que a economia vai bem ou vai mal é mais demorada. Mesmo quando há desemprego as pessoas não pensam que a economia está sendo mal conduzida porque o desemprego não é com elas, mas com o outro. A inflação ao contrário, ela atinge todo mundo igualmente. E de imediato cria-se uma má vontade para com o governante. Quando há uma crise as pessoas temem-na pela inflação que ela possa causar e não pela queda do PIB.
Assim, se agora fosse perguntado aos entrevistados se eles acreditavam que a inflação iria subir no futuro próximo haveria uma gama muito grande de entrevistadores que diriam que sim. Essa é uma questão tão importante que eu tenho certeza que os institutos de pesquisas já a fazem há muito tempo. E eu venho percebendo isso desde a época de FHC. Havia uma queda de popularidade de FHC com uma das várias crises que surgiram no governo dele, mas em seguida com a queda da inflação (E a queda da inflação era um indicativo de que a economia ia mal) os índices de popularidade melhoravam.
E há uma particularidade importante nas crises do governo FHC. No primeiro mandato de FHC, com o câmbio controlado, as crises de origem externas tornavam a economia menos líquida e, portanto, com menos crescimento e menos inflação. Quando a crise surgia a popularidade caia, mas lá na frente, mesmo com a economia ficando pior a popularidade do presidente se recuperava, uma vez que o que era o grande temor da população, a volta da inflação não acontecia.
Agora nós temos uma situação semelhante. Tenho certeza que apesar de ser exatamente agora o momento com menor possibilidade de inflação pelo caráter deflacionário da crise e a desvalorização do dólar não teve conseqüências inflacionárias, maior é o temor da população da volta da inflação. Lá na frente, como a inflação não vai voltar, a popularidade do presidente da República ainda em queda um pouco pelo temor que a crise vai fazer a inflação voltar deverá se recuperar a medida que se vai ficando distante da crise e a inflação não estiver dando nenhum sinal de vigor.
Como por uma questão de aritmética, o PIB do primeiro trimestre (a produção vai iniciar em um patamar bem baixo e vai subir devagar) apresentará redução em relação ao PIB do quarto trimestre (A produção estava no mais alto patamar em 30 de setembro e caiu desde então em um ritmo bem acentuado entrando talvez até em parte do primeiro trimestre de 2009) a popularidade do presidente talvez ainda sofra um leve declínio quando em junho se divulgar o PIB do primeiro trimestre de 2009.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/03/2009

sábado, 21 de março de 2009 19:27:00 BRT  
Anonymous Vene disse...

Os spreads bancários são realmente escandalosos no Brasil, mas eu concordo com o primeiro comentarista: a solução está nas mãos do Presidente e seu governo, que é dono de alguns dos maiores bancos de varejo do País. Basta usar a Caixa, banco 100% público (sem prejuízo a acionistas individuais, portanto) e por fogo na concorrência.

domingo, 22 de março de 2009 13:02:00 BRT  
Blogger sergio ferreira disse...

Eu levantei uma questão que após análise dos números se mostrou infundada.
Estão corretas as ponderações da pesquisa datafolha, ao contrário do que sugeri acima.
Errei!

abçs

domingo, 22 de março de 2009 18:13:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pode ser que, futuramente, se esteja discutindo a performance das curvas dos índices de popularidade. Serão em "V", em "U" ou no formato de "L"? Contudo, o fato importante: já se percebe na população, associação do Governo com o partido mais na berlinda hoje. Não demora e isso tudo vai sendo colado no Governo e em suas ações. Mais um pouco ainda e as ações de dissociação terão um custo político grande e negativo, prejudicando a condução de medidas atenuadoras da crise. Já em vários aspectos, esta começa a ser associada mais a problemas internos e não externos como em seu início há cerca de sete meses. Se for assim, as curvas dos índices de popularidade poderão apresentar tendência de conformação em "L".

Swamoro Songhay

segunda-feira, 23 de março de 2009 11:34:00 BRT  

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