sexta-feira, 20 de março de 2009

Boas notícias de Washington (20/03)

Os Estados Unidos têm problemas suficientes para se darem ao luxo de arrumar confusão no quintal de casa. É só disso que se trata

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva alcançou sucesso no ponto mais delicado de seu encontro com o colega americano, Barack Obama. Os Estados Unidos manifestaram com clareza o desejo de restabelecer completamente a normalidade das relações com a Venezuela. A posição de Washington nada tem a ver com algum viés ideológico. Trata-se simplesmente de ratificar a essência da arquitetura diplomática vigente na Era Bush para a região. Manter a América Latina como esfera de influência, fazendo para isso as concessões políticas necessárias. Concessões cujo limite, naturalmente, é a segurança nacional dos Estados Unidos.

Mas não se trata só de replicar a doutrina, dado que sua aplicação nos oito anos de George W. Bush foi assim meio aos trancos e barrancos, por conta de um detalhe: algumas vezes, a desejada pax americana entrava em contradição com outro vetor, a “expansão da liberdade”. Daí que os Estados Unidos tenham assumido, no mínimo, uma atitude equívoca diante do golpe de estado que em 2002 derrubou Hugo Chávez, antes do contragolpe que o recolocou no poder. Também decorre dessa tensão entre dois vetores contraditórios que Washington se tenha deixado enlevar pelo canto de sereia do separatismo da meia-lua boliviana. Nos dois casos, a Casa Branca colheu derrotas que poderia ter evitado, se o approach tivesse sido mais pragmático.

São as ironias da história. Agora, com Barack Obama, há melhores condições para resgatar a essência pragmática da política de Bush. Os Estados Unidos têm problemas suficientes para se darem ao luxo de arrumar confusão no quintal de casa. Por mais crua que seja a descrição, é só disso que se trata. O bom é que a circunstância cria condições objetivas para o prosseguimento do avanço democrático no subcontinente. Desde, é claro, que se respeitem as regras do jogo.

Escrevi aqui em “Integrar para não entregar”, antes da viagem presidencial: “Os americanos precisam do petróleo venezuelano, e Caracas precisa vender petróleo a Washington. Os americanos acham que Chávez pode muito bem um dia fechar a torneira. E Chávez acha que, pelo petróleo, os americanos estão dispostos a fazer com ele e o seu país o que fizeram com Saddam Hussein e o Iraque. E tudo isso logo ali na nossa fronteira norte. Ao Brasil interessa desarmar a bomba”.

Mas como desarmá-la? A Venezuela deve garantir que não irá representar, em nenhuma circunstância, ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos. Em troca, os EUA não se metem nos assuntos internos da Venezuela. A reação suave do Departamento de Estado aos resultados do último referendo venezuelano foi um sinal de que essa linha está em curso. E o que Lula ouviu de Obama confirma o diagnóstico. Mas como assegurar que o pacto será cumprido?

Quando, depois da Crise dos Mísseis, Cuba obteve dos Estados Unidos a garantia de não intervenção, desde que a ilha nunca se transformasse em plataforma de agressão à potência vizinha, o aval veio da União Soviética. Não chega a ser só coincidência, portanto, que Chávez busque na Rússia o contrapeso para o que considera ser uma ameaça real vinda do norte. E aí chegamos ao ponto: quanto mais o Brasil estiver de mãos amarradas diante da tensão regional, mais espaço haverá para que a América do Sul sofra ingerência externa. Visto ao contrário: quanto mais o Brasil assumir o natural papel de liderança, menor será a probabilidade de intromissões alheias.

O conflito entre a Venezuela e os Estados Unidos arrasta todo o continente para uma lógica de confrontação. O que temos nós a ver com a disputa entre Washington e Moscou sobre o escudo antimísseis na Europa Oriental? Ou com o veto europeu e americano ao programa nuclear iraniano? Em teoria, nada. Mas, se a Venezuela for instada a se aproximar cada vez mais da Rússia e do Irã, nosso continente será lançado a um cenário de lutas que não são nossas. Se isso afinal se precipitar, a liderança brasileira passará a ser não mais do que ornamental.

Por isso é que são boas as notícias que vêm de Washington. A política tem mesmo horror ao vácuo. É ótimo que nós ocupemos o nosso espaço.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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13 Comentários:

Anonymous F. Arranhaponte disse...

É mesmo? Pois me parece mais fácil três camelas grávidas dançando cha-cha-cha passarem pelo fio de uma agulha do que os Estados Unidos levarem a sério a ameaça venezuelana (e acho que Chávez não leva tão a sério a ameaça americana - é mais pantomima para manter as massas eletrizadas).

Sem uns terroristas bem casca grossa ou a disposição para arrumar uma bomba atômica e ameaçar aliados dos EUA, país nenhum do mundo subdesenvolvido consegue incomodar de verdade os americanos.

Não se fala muito da ameaça venezuelana nas páginas da grande imprensa americana. Agora, o Irã cobre páginas e páginas.

Bem, mas política internacional não é o meu forte. Vai ver estou totalmente errado

sexta-feira, 20 de março de 2009 09:28:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Arranhaponte:

A equação inaceitável é

Venezuela+Irã=Iraque+Coréia do Norte.

Sacou?

sexta-feira, 20 de março de 2009 09:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O Brasil não tem vocação belicista. A tradição é sempre por conciliação. Mesmo o envio de tropas ao Haiti, reforça tal vocação, mais para humanitária do que para conflitos. Os EUA estão trabalhando fortemente para reduzir sua dependência energética baseada em fósseis. Até lá, não vão querer criar problemas maiores com qualquer outro fornecedor, como intervenções militares ou outras formas que não a negociação. Se com o governo anterior não houve intervenção militar direta na Venezuela, por que ocorreria sob Obama? O fato é: como o Brasil, ao qual não interessa conflito bélico nas suas fronteiras, poderá exercer sua influência em prol do entendimento? Se Chávez optou pela Rússia, fica claro que a tarefa não será fácil. Porém, não impossível.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 20 de março de 2009 10:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A águia está meio atordoada porém sua natureza rapinante e belicosa,permanece. Nosotros que somos tan sinceros,temos traquejo em cafuné.Portanto,pratiquemo-lo,sem pudor,esse relaxante costume indígena,certamente,Darcy Ribeiro,aprovaria.

sexta-feira, 20 de março de 2009 16:54:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

sexta-feira, 20 de março de 2009 18:59:00 BRT  
Blogger Carlos disse...

Muito boa a análise e mostra mais um tento marcado pelo governo Lula, que começa a colocar o Brasil na sua posição mundial. O Brasil sempre foi fraco em política internacional. Foi preciso um presidente operário para deixarmos de ser subalternos.

sexta-feira, 20 de março de 2009 19:01:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

sexta-feira, 20 de março de 2009 19:26:00 BRT  
Blogger pauloaraujo573 disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

sábado, 21 de março de 2009 10:03:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

sábado, 21 de março de 2009 10:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A postura reconciliadora dos Estados Unidos, até certo ponto, tem paralelo com a Política da Boa Vizinhança no contexto pós Crise de 29, Washington num momento de dificuldades e tendo outras prioridades necessita garantir seus interesses passando por outros caminhos que diminuam os gastos militares e ao mesmo tempo tentando melhorar a sua imagem perante seus vizinhos. Sendo assim, da mesma forma que a Boa Vizinhança substituiu o Big Stick, a Boa Vizinhança II, substituiu o Big Stick II da Era Bush. Considerando o processo histórico como sendo algo até certo ponto cíclico, na minha opiniao, os vizinhos latino americanos da Grande Águia do Norte não devem se iludir de que estamos entrando numa nova fase onde os Estados Unidos fizeram uma reflexão de suas posturas e de que agora em diante a Era belicista e intervencionista está definitivamente encerrada, talvez no máximo pelos próximos oito anos, considerando uma reeleição de Obama, isso se a crise internacional não definir novos contornos que possam prenunciar matizes mais militaristas como caminho para a superação da mesma. De qualquer maneira, numa Era Nuclear, a saída militar como caminho para a superação da crise torna-se mais arriscada do que foi a Segunda Guerra, como caminho para a superação da Crise de 29, creio que os atores internacionais da atualidade têm consciencia disso, o que me deixa mais tranquilo. Dizem que a História não se repete a não ser enquanto farsa de si própria, mas de qualquer maneira considero as similaridades entre os dois momentos históricos citados inevitável, o que vc acha Alon? Tentei postar no seu Blog esse comentário, mas o número de caracteres foi grande, também postei este comentário no blog do Nassif onde encontrei o link para seu Blog, . Se puder comentar o que acha do paralelo que fiz, seria interessante saber sua opinião, obrigado e um abraço.
Alexandre

sábado, 21 de março de 2009 11:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Considerando a observação do Anônimo de Sexta-feira, 20 de Março de 2009 16h54min00s BRT, que tal perguntar, se a àguia está atordoada, o que acha a Diplomacia Brasileira da presença russa? Se a reorganização da IV Frota Americana para o Caribe e Amércia do Sul foi tomada como maléfica, a presença da frota russa seria benéfica?

Swamoro Songhay

segunda-feira, 23 de março de 2009 11:14:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Espaço?! Que espaço?!?!?! Chavez é, ou faz o possível para ser, o líder maior da AL!
Lula, como FHC e quase todos os antecessores, só tem olhos para o 1º mundo. Lembre-se que seu maior sonho internacional (depois de conquistar a Copa de 2010) é ter um assento no Conselho de Segurança da ONU. Não é na OEA... ele quer logo a ONU!!!
E depois, ir à Washington servir de "intermediário" do Chavez não é coisa de Estadista, certo?!

segunda-feira, 23 de março de 2009 16:01:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Não dá pra remover a postagem do Carlos?!?1 Este cara deve ser maluco!!!

segunda-feira, 23 de março de 2009 16:05:00 BRT  

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