sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Um grito parado no ar (27/02)

O PMDB que se cuide. Por sua força e suas fraquezas, a agremiação está no alvo. E nele ficará, pelo menos até definir com quem vai casar em 2010

Enquanto em São José dos Campos os demitidos da Embraer constatam a inutilidade (para os trabalhadores, claro) do sindicalismo brasileiro, em Brasília a curiosidade converge para os próximos lances do affair PMDB. No chão das fábricas (e das lojas, e dos escritórios) Brasil afora o facão vai solto, mas nos carpetes da capital só se quer saber dos movimentos para atrair a noiva desejada. Atrair pela sedução ou pela força. Na base da conversa ou arrastada pelos cabelos. Ou ambas as coisas.

Nos muitos palácios de Brasília, entre uma e outra lamentação pública sobre a situação dos empregados postos na rua por causa da crise (ou a pretexto dela), o esporte da hora é bater no PMDB. Os mais otimistas (ou ingênuos) dirão que estamos diante de uma nova oportunidade para melhorar a política brasileira, para escoimá-la de alguns graves defeitos. Já os mais habituados a raios em céu azul procuram enxergar o que vai por trás das cortinas, tentam saber quem movimenta as cordas que fazem o boneco saltitar.

Desde que o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) abriu fogo contra o seu próprio partido, distribuindo acusações sem porém nomear os culpados, ficou um grito parado no ar. Um Gianfrancesco Guarnieri atualizado à Matrix. De onde virá a bala? Quem vai acender o pavio? Quem vai tomar o primeiro tiro? Quem vai estar, por falta de sorte, no caminho dos estilhaços depois que tirarem o pino da granada?

Mas essas são apenas especulações, enquanto o jornalismo vai à caça da materialidade, já que ninguém deseja ser furado. O PMDB que se cuide. Mercê de sua força e de suas fraquezas, a agremiação está no alvo. E nele ficará, pelo menos até definir com quem vai casar em 2010. Dependendo da escolha, pode continuar na mira mesmo depois.

Dos defeitos do PMDB fala-se muito. Aliás, segundo o senador Pedro Simon (PMDB-RS), falhas encontradiças em todo o espectro partidário. Mas as qualidades do PMDB também são conhecidas, ainda que menos comentadas. A sigla tem musculatura e capilaridade. Ao PT e ao PSDB, por exemplo, falta o segundo quesito. O peemedebismo ocupa no espectro político um centro de viés democrático e vagamente nacionalista, o que acaba ajudando a legenda a obter músculos e a se manter localmente enraizada. O PMDB, numa comparação, preenche o lugar que entre 1945 e 1964 era do getulista Partido Social Democrático (PSD), fundado basicamente pelos interventores estaduais que Getúlio Vargas havia nomeado no Estado Novo.

Há uma certa unanimidade, entre os historiadores, de que a estabilidade política brasileira da Segunda Guerra Mundial até a queda de João Goulart podia ser medida em função da solidez da aliança entre o PSD e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), também getulista mas vindo de outra vertente, o sindicalismo. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Se o PMDB é o herdeiro do PSD, o fio da meada leva a que o PT seja hoje o continuador de fato da velha tradição petebista. Ironias da história.

Daí que, agora como no passado, tanto a paz no que resta de governo a Luiz Inácio Lula da Silva como as perspectivas futuras do projeto de poder petista repousem na aliança que, aos trancos e barrancos, o antes antigetulista e visceralmente udenista PT foi obrigado pela vida a concertar com o mais do que pessedista PMDB. O PT parece ter compreendido isso bem. Assim como a oposição. O que torna arriscada a vida do PMDB, colhido no fogo cruzado.

Na política, assim como na guerra, as alianças costuram-se não principalmente pelas afinidades, ou por objetivos comuns. Tal visão idílica costuma frequentar os escritos dos teóricos, mas na vida prática os movimentos, aproximações e afastamentos são bem mais influenciados pelo temor do que pela paixão. O PMDB é um partido grande, porém flácido e dividido. Não tem uma cara, não tem um condutor que se coloque à frente dele e funcione como anteparo. Quando o PT foi alvejado na crise de 2005, havia Lula como reserva de força. Hoje, quando o PSDB tem um de seus governadores cassado e outra seriamente enrolada em todo tipo de confusão, o prestígio e o respeito angariados por José Serra e Aécio Neves funcionam como escudo.

Já o PMDB não tem quem o proteja, não tem um líder capaz de rivalizar com os demais caciques, não tem uma luz que aponte para o futuro. Não tem um projeto nacional. É situação de alto risco para um partido grande e que virou fiel da balança.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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12 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Talvez a resistência do PMDB e sua aparente invulnerabilidade,esteja nessa composição difusa,amorfa,que se molda de acordo com as manipulações internas,pressões externas,demandas eleitorais,mantido pelo seu sistema circulatório por onde circula o fluido vital do fisiologismo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009 15:57:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

Boa essa sua análise, Alon. Mas penso que justamente pelo PMDB não dispor de uma liderança nacional (nem para servir de anteparo, nem de alvo), ele é imune a estes ataques enquanto partido, e tenho impressão que esse surto de moralismo, trará mais consequencias regionais do que nacionais.
O eleitor sensível a esse moralismo votará em nomes e não em partidos.
A divisão do PMDB parece mais vistosa, quando analisa-se as candidaturas presidenciais de 2010. Parte do partido caminha com Dilma outra com Serra. É líquido e certo que ninguém conseguirá arrastar o partido inteiro para sua candidatura. E parece que tudo se move em função das duas candidaturas presidenciais.
Mas a guerra maior, que tem menos apelo midiático, é nos estados e municipios, começou a ser travada logo após as eleições de 2006, e é a disputa pelo eleitorado de centro-direita.
O PMDB a partir do momento em que não faz oposição ao governo Lula, pelo contrário, divide o bônus da bonança, atrai o eleitor de centro-direita, que assimilou Lula, se recusa a votar no PT, mas passa a preferir o PMDB, ao PSDB ou ao DEM, cujos governos trazem más lembranças ao eleitor.
Não se esqueça que caciques do PMDB tem canais de tv regionais, domina jornais regionais, mais do que o PSDB, e pelo menos tanto quanto o DEM.
Ataques ao PMDB serão revidados contra quem está atacando na imprensa regional, talvez mais eficaz do que a nacional.
Não sei quem ganha com esta estratégia.
Arrisco a dizer que é o próprio PT, ao parecer o lado "honesto" do governo, enquanto o PMDB seria o lado menos "honesto". Além de eventuais aventureiros como foram Collor e Enéas.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009 17:10:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

O PMDB não é uma imensa superestrutura que se eleva perigosamente no éter da política. Ele tem sim uma sólida base histórica e material de sustentação que remonta aos primórdios da nossa fundação como nação independente: poder executivo imperial concentra os dinheiros e políticas públicos e barganha a distribuição das suas "benesses" com os interesses regionais das oligarquias. Disso, a política velha do é “dando que se recebe” e a permanência e a reprodução dos seus agentes (no Brasil, político é como um título nobiliárquico a ser herdado por direito natural pela descendência do patriarca) na condução dos negócios do Estado.

O fato a lamentar é que os velhos e bons mdbistas se foram e os que permanecem...

Não quero dizer romanticamente que no passado as coisas são sempre melhores e que o presente é somente decadência. Vigaristas e demagogos existem em todas as épocas. Apenas quero lembrar os "históricos" do MDB para que os mais novos tenham um parâmetro para medir a estatura dos atuais estadistas da República, se é que vivemos em uma.

Por último, o livro que sempre me vem à mente quando penso sobre a atual realidade política brasileira e latino-americana: "O 18 Brumário de Luis Bonaparte". Neste monumento, Marx leva a ironia de Vitor Hugo ao extremo, quando o escritor francês fala sobre o pilantra golpista e líder de uma quadrilha que tomou de assalto o poder, depois de consagrar-se nas urnas com milhões de votos. O sobrinho que se dizia a reencarnação de Napoleão, dizem Hugo e Marx, é somente o anão (le petit) nesta farsa política encenada na França posterior às revoluções de 1848.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009 17:26:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Ops! No caso de Marx do 18 Brumário, não se tratava de farsa, mas sim de uma tragédia.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009 17:37:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009 18:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Enquanto esses políticos fazem suas barganhas para conquistar mais poderes ,o coitado do trabalhador brasileiro estão as margens das despedidas ,na rua da amargura sem esperanças nenhuma nesses politiqueiros que estão somente pensando em si próprio pensando em seus castelos,condominios de luxo,mansões,luxúrias de nenhum brasileiro botar defeito e tambem até ilhas particulares meus compatriotas.O povo não tem a mímima idéia dos bens de algum

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009 19:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Mera tese que o PMDB não possua candidatos viáveis à presidência. Não tem é interesse nisso.
Candidaturas são construídas. Dilma é um exemplo em andamento. Sozinha não concorreria a vereadora em Porto Alegre ou Belo Hortizonte.
E não é caso único. Candidatos avulsos e mesmo não profissionais da política são comuns. Tem de todos os tipos.
Sucesso: Collor. No caminho ficaram Silvio Santos, Heloisa Helena, Antônio Ermírio, Roseane Sarney e outros que nem lembro. Tem o Gabeira no caso recente do Rio de Janeiro.
Na verdade candidatos naturais seriam pouquíssimos. Por conta de exclusões diversas sobra apenas o Serra nessa condição.
O PMDB, se quisesse e assim também pensassem eventuais candidatos, possui quadros próprios bastante viáveis se trabalhados. Ainda se chegassem ao segundo turno. O Jarbas é um, Sarney seria outro, Cabral é mais um e por aí afora.
Isso que nem cogitei na busca de personalidades não partidárias e tão do gosto de uma sociedade tão descrente dos políticos profissionais.
A crise está zerando o jogo. Quem afirmará em sã consciência, em meio ao turbilhão, de que passando o cavalo encilhado se negue o PMDB a mandar sozinho no erário?
Tapar seus olhos têm sido o objeto de PT e PSDB. Continuarão conseguindo? A um preço viável?

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009 19:56:00 BRT  
Blogger Leonardo Bernardes disse...

Alon,

Se não me falha a memória, você é partidário da ideia de gastar mais em tempos de crise, certo? Bem, pode ser delírio meu..

Em todo caso, vale conferir o comentário que o Sergio Leo faz em seu blog sobre o aumento do déficit público americano para 12%. Na crise, pode gastar mais. Mas só nos EUA.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009 20:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

FRANCISCO (BELÉM / PARÁ).

O PMDB não tem projeto e nem interesse em um plano alternativo para o país. O que importa para a maioria dos seus caciques (como é o caso de Jader Barbalho aquí no Pará) é a barganha política, que sempre traz benécias para as suas campanhas, através de indicações em estatais. Caso dos CORREIOS aqui no estado do Pará que anda muito mal administrado e caindo pelas tabelas, porém servindo de suporte para campanhas políticas de partidários do PMDB/PA, principalmente para os Srs. JOSÉ PRIANTE E JADER BARBALHO).

sábado, 28 de fevereiro de 2009 09:59:00 BRT  
Blogger Pedro disse...

O que falta ao PMDB na realidade é uma grande liderança, que seja capaz de unir a legenda, a exemplo de Ulisses Guimaraes, Humberto Lucena, entre outros, o que a legenda tem a fazer é tomar posição, quem se rebelar que, que expulse da legenda, o Jarbas está atrapalhando o Governo Lula, que para os pobres é o melhor Governo da História política dos últimos 50 anos, e isto causa inveja ao PSDB (que esteve no poder por 8 anos) e ao DEMO (que jamais vai chegar ao governo), pois representa tudo que é de ruim do passado), nele está alojado toda turma do antigo PFL (partido falido), tanto é que mudaram de sigla (DEMO), o que o PMDB tem a fazer é se unir e ajudar o PT com o maior projeto político( para os pobres) ja visto no País, todos os índices econômicos provam a realidade brasileira.

sábado, 28 de fevereiro de 2009 10:21:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Sua análise está primorosa, tanto na extensão como no conteúdo, mas o comentário de J. Augusto ainda é melhor que o seu, em especial, pelo fecho que ele dá, em que parece dizer que o que está ocorrendo é obra da estratégia do PT.
Não compartilho da mensagem final que infiro do texto do Paulo Araujo que o Brasil repete a Europa de 150 anos atrás. O Brasil possui uma das políticas mais avançadas no mundo. Há muitos direitos eleitorais que só alcançaram alguns países europeus 50 anos após ter ocorrido no Brasil. Muitas coisas ocorrem primeiro aqui para depois se reproduzirem nos outros países. E os nossos defeitos também existem na política americana e na política inglesa
Ao colocar como particularidade brasileira a prática fisiológica é bom lembrar que o fisiologismo é pratica inerente ao sistema democrático de tal forma nele impregnado que não existe democracia não fisiológica, a menos que se considere como tal a democracia de Cuba, a do Iraque na época de Saddam Hussein e outras assemelhadas.
O texto de J. Augusto apresenta o atual momento político como fruto daquilo que eu incluo como própria da chamada Teoria Conspiratória da História. Tenho também a minha, mas antes de referir-me a ela apresento uma outra que li em outras plagas que referia a coincidência da entrevista do Jarbas Vasconcelos com o inferno austral do PSDB com a cassação do Cássio Cunha Lima e das denúncias contra Yeda Crusius e os índices de popularidade de Lula.
A minha Teoria Conspiratória da História é a minha crença no domínio da política brasileira pelos intelectuais da USP e o poder político da FIESP que só deixam ir para o segundo turno dois políticos de São Paulo. E para esse grupo, uma disputa entre Dilma e Serra é a garantia de continuidade do domínio do poder estatal pelo mesmo grupo político por mais 4 ou 8 anos. É uma disputa que tem como principal meta para se perpetuar a destruição de qualquer candidatura carismática. Se se pode dizer que há algo de diferente na política brasileira há que se apontar a impossibilidade do surgimento de qualquer candidato com carisma em partido forte para disputar a eleição. Por isso que um ano antes a revista “The Economist” esteja apontando que a disputa se dará entre Serra e Dilma, Dilma nunca disputou cargos públicos. E Serra sem o apoio do Real, quando disputava a eleição para prefeito de São Paulo, não passava de 10% dos votos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/03/2009

domingo, 1 de março de 2009 16:08:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Caraca Alon! Outra conversa de botequim?!? Assim num dá!!!
CadÊ o cara que redigiu um artigo brilhante (que eu quardo com carinho0 dando os possíveis futuros para Lula?!?!
Mas tem uma coisa que me acendeu a luz amarela, é "as qualidades do PMDB também são conhecidas, ainda que menos comentadas. A sigla tem musculatura e capilaridade. Ao PT e ao PSDB, por exemplo, falta o segundo quesito".
Pra mim, isto significa que Lula fará QUALQUER COISA para se manter no poder e usará os 80-e-tantos % de popularidade para tal. Sugiro vc ficar atento!

sexta-feira, 6 de março de 2009 16:32:00 BRT  

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