sábado, 7 de fevereiro de 2009

Sem argumentos (07/02)

De reportagem hoje na revista Veja (Quanto custa o dinheiro):
    Os números são evidentes: a taxa média de juros cobrados pelos bancos subiu de 37% para 43% no último ano. Constantemente criticado por aqueles que defendem uma queda irresponsável da Selic, o presidente do BC, Henrique Meirelles, desta vez passou a bola: afirmou que a culpa pela alta nos juros deveria ser buscada nos bancos, que subiram excessivamente seus spreads. Na linguagem das finanças, recheada por termos em inglês, spread (pronuncia-se spréd) representa a diferença entre os juros que os bancos pagam para captar dinheiro no mercado (em geral, próximos da Selic) e as taxas que eles efetivamente cobram de seus clientes. Se o banco, por exemplo, toma dinheiro emprestado a 13% ao ano e o repassa cobrando 43%, o spread é de 30% (veja o quadro). Essa sobretaxa é cobrada pelas instituições financeiras para cobrir seus custos e também para auferir seus lucros, mas nela estão embutidas ainda a tributação e a inadimplência. Colocados contra a parede, os bancos argumentam que tiveram de subir suas margens de segurança por causa, principalmente, do aumento do risco de enfrentar uma onda de calotes. Já o governo considera a alta exagerada e inadmissível.
Eu coloquei aqui uma questão em Os burocratas e o tsunami:
    A explicação dos bancos para isso [spread alto] é o risco de inadimplência. Os bancos dizem que o spread é alto porque existe a ameaça de os empréstimos não serem pagos. Ora, uma das razões para a inadimplência é precisamente o juro exorbitante. Qual é o sentido de o banco cobrar do correntista 10% ao mês no cheque especial? O que isso tem a ver com as leis de mercado? Nada. Tem a ver é com cartel, com oligopólio.
Eis a dúvida central que precisa ser aclarada: o spread é consequência da inadimplência ou será que é justamente o contrário? Um interessantíssimo estudo de Márcio Nakane, publicado na Análise Semanal que a consultoria Tendências distribuiu semana passada aos clientes, mostra, tecnicamente, que os números apontam para a segunda alternativa. O economista concluiu que "existe evidência de causalidade do spread para a inadimplência, mas não no sentido oposto". Vai ficando cada vez mais difícil sustentar com argumentos o saque que o oligopólio financeiro promove no Brasil.

http://twitter.com/alonfe

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5 Comentários:

Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Uma discussão prévia ao spread deveria ser sobre o sistema econômico. Alguém é contra o capitalismo, nesse caso, que sentido faz discutir sobre o sistema bancário?
Bem, talvez faça. Eu sou contra o sistema capitalista. Eu não quero, entretanto, destruir o sistema capitalista, e sim eu quero vê-lo sendo superado. Para isto eu preconizo tudo que faça o sistema capitalista atingir o apogeu dele o mais cedo possível.
Então para os que são a favor do sisteema capitalista ou para os que querem ver o sistema capitalista atigir o ápice o mais cedo possível faz sentido discutir o spread bancário.
Ainda assim, antes de se discutir sobre o spread bancário é bom saber qual é a via que se acredita ser a mais apropriada para o sistema capitalista ser superado.
Analisando os últimos duzentos anos da economia mundial eu observo que a medida que a carga tributária cresce, maior é o crescimento da economia mundial. Sendo assim, eu sou favorável ao aumento da carga tributária.
Há, entretanto, um ponto que eu não consigo chegar a uma conclusão clara. Vejo o exemplo americano e observo que nos últimos 60 anos a economia americana cresceu puxada pelo mercado interno. Saio dos Estados Unidos e observo que os Tigres asiáticos, a Alemanha, o Japão, a China cresceram a custa do desenvolvimento puxado pelo mercado externo.
Penso que antes de discutir sobre o spread devemos indicar sobre o modelo de desenvolvmento que se acredita seja o melhor para que no país o capitalismo se mantenha para sempre ou atinja o ápice. É fazer o que você faz todo dia no seu blog: indicar que o seu ponto de vista é de quem defende a democracia, o nacionalismo e a esquerda.
Se formaos optar pelo desenvolvimento puxado pelo mercado externo (Creio que esse deveria ser o modelo adotado no Brasil para os próximos vinte anos) não devemos favorecer o consumo. Nesse sentido seria benéfico que o spread permanecesse alto.
PS. Gostaria que você se manifestasse sobre a propaganda que um post do Paulo Araujo para o seu texto "Um assunto recorrente" de 06/02/2009, reproduziu das páginas da revista Foreign Affairs. Ela é do governo brasileiro mesmo?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 07/02/2009

sábado, 7 de fevereiro de 2009 18:17:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Não tenho formação teórica, leitura e conhecimento que me permita ir além da simples opinião. Então, te falo do que sei por experiência.

Mantive um empreendimento comercial por mais de 15 anos. No começo do ano passado, vendi o meu negócio. Cansei.

Conheci não poucos micro e pequenos empresários que apertados pela falta de capital de giro acabavam, no desespero, recorrendo a cartões de crédito e cheque especial. O resultado disso no curto prazo todos sabemos.

Mesmo o financiamento especial a taxas menores para micro e pequenas é caro. As margens de lucro são apertadas nesse setor, os impostos federais, estaduais e municipais somados aos custos trabalhistas são insuportáveis para essa imensa parcela que sobevive na formalidade. Enfim, é muito difícil repassar os custos de captação de dinheiro nesse tipo de atividade. Ou seja, além das dificuldades provocadas pela falta de interesse dos sucessivos governos com os micro e pequenos, somam-se o sempre proibitivo custo do dinheiro oferecido pelos bancos.

Depois desses anos de trabalho, fico com a impressão que a lógica do sistema contempla esse cenário. Isto é, bancos sabem que se alguém topa pegar dinheiro com esse nível de custo é porque esse alguém está mesmo muito apertado. Logo, as chances do calote são mesmo muito altas. E, principalmente, quando o cara quebra nem adianta o banco correr atrás porque o sobra não vale nada. Ir atrás do passivo é muito mais caro e menos eficiente para os bancos do que embutir altos spreads nas operações de empréstimo.

Os bancos alegam com razão que não são agências beneméritas que atuam em prol do progresso social do povo brasileiro. Eu concordo, do mesmo modo que concordo que padeiros não fazem pão por altruísmo, porque ao fazer pão acham que estão ajudando a diminuir a fome no mundo, ou algo assim. Só pensa assim que não é padeiro. Só pensa assim quem nunca botou a mão na massa.

Uma saída que eu vejo como ex-empresário seria os governos oferecerem aos bancos alguma garantia ou seguro contra calote. Claro que operacional deve contemplar formas para evitar uma "farra do boi" para cima do dinheiro subsidiado. Esse controle precisaria ser bem pensado e estruturado. Criar formas para separar os empreendedores com negócios de viabilidade dos aventureiros e oportunistas.

Isso poderia contribuir, sem grandes pajelanças, para diminuir o spread. Mas isso não é feito. E não é feito porque nem os governos e nem os bancos estão interessados nisso.

Se eu fosse uns 35 anos mais jovem, eu diria que o atual governo é um lambe botas do capital financeiro que traiu os interesse do povo que dizia defender quando não era governo. Mas como estou mais velho, eu digo apenas que o atual governo é mais um que não liga pra isso. Que isso nem passa pela cabeça deles. Todos estão muito preocupados com coisas mais importantes, como as eleições de 2010.

Abs.

PS: Quem tem capital de giro próprio não é afetado pelo alto spread. Só é afetado quem precisa de dinheiro. A coisa começa a complicar quando diminui o número de pessoas com capital próprio e, consequentemente, aumenta o número de pessoas que não têm capital próprio.

PS2: Um exercício para os que acham que todo empresário, seja micro ou grande, mais dia menos dia acaba revelando a sua essência: porco capitalista explorador da mais valia.

Um empregado (se for mulher e engravidar, aumenta) que ficou numa micro ou pequena por mais de 5 anos (se ficar por mais de 10, aumenta) recebendo nesses anos o salário todo "por dentro". Aí a empresa precisa demiti-lo por razões de sobrevivência do empreendimento. Façam as contas do custo dessa demissão “por dentro” com base num salário constante de R$ 500,00. Isso representa no um rombo que muitas vezes a empresa não consegue tapar. Aí, vai ao banco tomar dinheiro para cobrir o rombo. É o caminho do inferno.

sábado, 7 de fevereiro de 2009 18:41:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Esclarecimento

Meu comentário sobre as eleições de 2010 não deve ser interpretado como uma crítica antiliberal ao formalismo da representação político-partidária das democracias burguesas. O comentário é mais prosaico. O que quis dizer exatamente é que os atuais nouveau riche do poder sentiram bem o tanto que a rapadura é doce e que por isso não irão largá-la tão facilmente.

sábado, 7 de fevereiro de 2009 22:39:00 BRST  
Anonymous J.Augusto disse...

Alon, veja essa matéria do Valor Econômico, "Governo coloca em xeque bancos públicos", se ainda não viu, e confira se vale a pena acrescentar algo ao post...

O link, para não assinantes, está no clipping do sindicato dos bancários do Pará/Amapá (Junte as linhas, sem espaço):

http://www.bancariospa.org.br/
Noticias_lidos_contBancos.asp?
banco=Banpar%C3%A1&id=2597&titulo=
Valor:%20governo%20coloca%20em
%20xeque%20bancos%20p%C3%BAblicos

domingo, 8 de fevereiro de 2009 02:18:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
É preciso olhar o lado do governo. E em três aspectos há bons frutos em decorrência do alto spread. Como eu lembrei, na medida que o spread elevado reduz o consumo, ele permite que haja sobra da produção e essa seja exportada e assim favorecendo o crescimento da economia puxado pelo mercado externo ou, no mínimo evitando crises de Balanço de Pagamentos.
Depois, sabendo que ele não impede o crescimento econômico, pois o spread andou alto desde 2004 e desde então nós temos tido taxas acima da média dos últimos 30 anos, o governo pode utilizar o spread como uma forma de aumentar a arrecadação. Afinal, quanto mais alto for o spread e no seu entender maior for o lucro dos bancos, pois quando você os acusa de agirem como se fossem um cartel você está supondo que eles agem assim para aumentar o lucro, maior será o imposto de renda sobre o sistema bancário.
E o terceiro aspecto é que o spread elevado evita a alavancagem excessiva da economia, a principal razão para a crise americana que se espraiou sobre o mundo.
E por favor, faça uma análise mais específica sobre a propaganda que segundo Paulo Araujo o governo brasileiro fez publicar no Foreign Affairs, conforme o post que ele enviou para o seu texto "Um assunto recorrente" de 06/02/2009. Aqui em BH, parece que a revista ainda não chegou e pela internet eu não consegui ver a propaganda. Se a propaganda for do governo eu penso que fica muito mais gritante a semelhança entre Lula e FHC do que eu acreditava que existia.
Nesse sentido um argumento que você apresentou sobre o juro elevado para evitar a fuga de dólar torna muito mais verdadeira do que eu então pensei. Para mim, era diferente a situação de Lula e FHC. Lula mantinha o juro elevado para não deixar a inflação crescer e infelizmente, como conseqüência, havia mais entrada de dólar na economia e, portanto, maior valorização do real. No caso do FHC o juro era elevado para impedir a fuga de capital e, em conseqüência, havia, infelizmente para o Brasil, mas muito bom para a popularidade de FHC, redução da inflação e valorização do real.
Essa questão da percepção da população sobre a inflação e o que ocorre com a percepção nos momentos de crises deve ser motivo de uma discussão mais ampla. E é uma discussão com muitos reflexos na questão da popularidade do governante. Eu ainda pretendo colocar um post junto ao seu texto "Escolha racional no bunker", de 04/02/2009, mais argumentos em torno da popularidade do presidente.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/02/2009

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009 09:35:00 BRT  

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