segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Quando seremos um país melhor (23/02)

Será que deveríamos enveredar pelo caminho do qual os americanos estão doidinhos para sair? O do individualismo exacerbado?

Os programas sociais do governo têm lugar garantido entre os assuntos candidatos a virar polêmica na eleição de 2010. Segundo a oposição, uma suposta falta de “portas de saída” para os pobres beneficiários do programa Bolsa Família poderia levar —ou já está levando— a que a concessão do benefício acabe perenizando a dependência dos menos favorecidos em relação ao Estado, aos serviços públicos de assistência e promoção sociais.

Mas o que seriam as tais “portas”? Essa discussão é fácil de ser feita no plano abstrato. E no concreto? Qual é a porta de saída eficaz para um adulto pobre —ou miserável— cuja família sofre as consequências da degradação social? O que seria uma porta de saída viável para o núcleo familiar ferido pelo alcoolismo, pelas drogas ou pela prostituição de seus filhos?

Amiúde, o debate vem contaminado pelo preconceito. Devido a um elitismo ancestral, boa parte da sociedade brasileira olha os recursos públicos da proteção social, em particular o Bolsa Família, como um desperdício. Ou um mal necessário. Cuja vigência deve ser abreviada, e quanto mais cedo melhor. Como bem diz o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, o mesmo país que teve uma paciência de séculos para tolerar a escravidão agora se inquieta diante da perspectiva de o Estado precisar estender no tempo os programas sociais.

O Brasil é um país lindo, mas que continua a exibir algumas marcas tristes. Já conseguimos incluir maciçamente os pobres no sistema educacional, mas a criança pobre ainda recebe na escola pública um ensino inferior ao recebido pela criança rica e de classe média no ensino particular. Em outra área sensível, a saúde, as desigualdades são também enormes. Ainda que a vigência do Sistema Único (SUS) nas duas últimas décadas tenha conseguido o milagre de fazer do brasileiro pobre e doente um sujeito mais sortudo do que o seu congênere americano.

Aliás, uma pesquisa recente do jornal The New York Times e da rede de TV CBS dá pistas sobre o estado de espírito do cidadão daquele país quanto à necessidade de o poder público intervir na esfera social. A pesquisa perguntou às pessoas se o governo federal deveria prover um seguro de saúde nacional, ou se isso deveria ser deixado por conta de empresas privadas. A primeira opção teve 59% das preferências, contra 32% da segunda. O que mais impressiona é a mudança nas mentalidades. A mesma pesquisa feita há 30 anos dava à medicina privada uma vantagem de 48% a 40%.

Os Estados Unidos são um país admirável e admirado, mas em alguns aspectos nós estamos à frente. Um deles é a amplitude dos programas de apoio à população mais pobre e a rede de proteção e promoção social para os menos capazes. Os americanos construíram uma grande nação com base no princípio de cada um por si. Nós estamos ainda em fase de construção, mas já incorporamos à nossa obra nacional alguns elementos de cuja falta os nossos irmãos do norte se ressentem, por excesso de individualismo. Um defeito que agora, com Barack Obama, eles têm a oportunidade histórica de corrigir.

Será que deveríamos enveredar por um caminho do qual os americanos estão doidinhos para sair? O do individualismo exacerbado? Pois o incômodo diante da ajuda do governo aos pobres deita aí suas raízes. No fundo, ainda temos dificuldade de aceitar que os que podem menos sejam ajudados pelos que podem mais. Queremos a coesão social, a coesão nacional, mas resistimos a pagar o preço. Falamos em democracia, mas a democracia se enfraquece quando falta a noção de pertinência para uma parte.

Pensando bem, o Bolsa Família e as demais ações sociais do Estado brasileiro, nas suas diversas esferas, são um preço barato, que podemos pagar com tranquilidade. É uma fração pequena do orçamento público, diante de seus belos efeitos num país reconhecido mundialmente pela crônica e brutal desigualdade social. Melhor seria se essas políticas públicas fossem encaradas como um dado da realidade, um fato da natureza. No dia em que for assim, teremos nos transformado num país melhor.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

É engraçado como essa pergunta (quando seremos um país melhor) pode ser respondida com múltiplas escolhas.
Por exemplo:
1. quando os sindicatos não compactuarem com professores que não têm capacidade pedagógicas de dar aulas (APEOESP/CT/PT),
2. quando as centrais sindicais não aceitarem que o dinheiro dos trabalhadores do FGTS seja corrigido abaixo da inflação, enquanto o dinehiro é emprestado para a classe média com juros de TR + 9%
3. Quando essas mesmas centrais sindicais não fizerem outra coisa que não sejam montar o novo neogetulismo de criar um multiplidade de novos impostos sindicais para se montarem no poder e na estrutura estatal depois que, por alternância de poder, seu grupo for apeado democraticamente,
4. quando um partido que se diz socialista, se importar em melhorar a educação do povo, e não ajudar a empresários da "educação" a vender diplomas;
5. quando os bancos ganharem bilhões com o beneplácito do governo e esse distribuir benesses para suas coreias de transmissão, numa espécie de neogetulismo, para que se calem diante disso acriticamente;
5. quando a esquerda entender que o Brasil não pode ser dividido em a.L. e d.L. (antes de Lula e depois de Lula).
6. Pois é

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009 07:49:00 BRT  
Blogger Briguilino do Blog disse...

O que não combina com a realidade são estas "portas de saídas" arrotadas por alguns. Na vida real a mesma porta usada pra saída também serve de entrada.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009 08:38:00 BRT  
Anonymous RB de Mello disse...

A oposição vai errar se entrar por aí. A saída seria a possibilidade de emprego, coisa que ou não existe para todos e dentre os assistidos pelo Bolsa Família poucos teriam condições de alcançar os existentes. Vai ser um processo de longo prazo. Mais humano e melhor assegurar a continuidade e prometer aprimoramentos.
Agora, se a oposição quiser bom assunto nessa área é só ler com olhos críticos a matéria do Correio Braziliense revelando a diferença da economia de Brasília para com o resto do País (e do mundo). O marijanato implantado pelo atual governo é um tema e tanto a ser explorado. O salário na área pública alcançar 4 vezes do setor privado é coisa inexplicável, moral e politicamente insustentável. Collor levou uma eleição assim....
No caso tucano tenho dúvidas de queiram realmente mudar alguma coisa no estado a não ser o dono da mão que assina os cheques de pagamentos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009 09:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Além do estilo, seus comentários são muitos precisos e coincidentes com os meus para eu acrescentar alguma coisa. Tento achar uma brecha aqui e ali para contrapor um ou outro argumento, mas não há nada a acrescentar.
Poderia reproduzir esse primeiro parágrafo em relação aos comentários enviados para esse seu texto se não fosse pela sugestão para sermos um país melhor que transcrevo a seguir que tirei do primeiro comentário:
"1. quando os sindicatos não compactuarem com professores que não têm capacidade pedagógicas de dar aulas (APEOESP/CT/PT)".
No início da década de 80 ajudei um setor da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais a analisar e armazenar os dados estatísticos de um projeto de formação para professores leigos. Era uma proposta do governo Federal, provavelmente criação de Marco Maciel, e chamava-se Projeto Logos I e Logos II. Um dava formação de segundo grau e outro dava formação de primeiro grau. Era impressionante a quantidade de professores com apenas o primeiro grau. Da minha pequena cidade do interior de Minas, localizada a mais de 700 km de BH - Pedra Azul - havia nomes de professores famosos na cidade fazendo o curso. O curso era ministrado mediante módulos com o conteúdo repassado em apostilhas e com reuniões semanais (ou mensais) nos sábados para avaliação. O maior contigente era o que se destinava aos professores residentes em BH e na região metropolitana.
Contei para meu pai e ele nascido no início do séc XX relatou uma história que o irmão dele mais velho lhe contara. Cavalgando na fazenda, meu tio escutou uma cantoria repetida com vozes de crianças. Aproximou-se e viu uma professora com cartazes e crianças lendo os cartazes. Foi conversar com a professora e descobriu que ela não sabia ler, tendo ela dado como justificativa para estar ali o fato de ela não querer que as crianças fossem como ela.
O Brasil evoluiu muito do início do Séc. XX até hoje. Ainda somos um país atrasado. Muito mais atrasado ainda é estabelecer essa competição entre professores por mérito e mérito que reside mais em uma capacidade para o estudo ou leitura. Sem auê, muito poderia ser feito no combate à desídia.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 23/02/2008

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009 13:27:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

As famílias são o menor núcleo da organização social, que culmina nos Estados Nacionais.

No século XX as famílias ocidentais todas se tornaram socialistas em seu seio. Podem até ainda não terem se dado conta disso, mas caso se olhem no espelho desembaçado, verão com clareza:
Até o Século XIX era comum primogênitos terem privilégios em relação aos demais filhos. No século XX todos os filhos passaram a ser criados com igualdade. Da mesma forma, filhos homens e filhas mulheres tinham tratamento diferenciado, desde a educação até a distribuição da herança. Isso acabou.
Hoje, as famílias entendem que um filho com dificuldades, seja na escola, seja por menor aptidão para estudos, seja por cair em dependência química, precisa de assistência especial para sair daquela dificuldade. O mesmo com pais que ficam inválidos sem perceberem aposentadorias suficientes à subsistência.
O bolsa-família faz o mesmo quando extrapolado da família para o campo nacional.
Resumindo: as famílias se tornaram socialistas em seu seio.
Se um regime socialista já é compreendido (ainda que sem perceber) como bom para cada família, onde os pais querem o melhor para seus filhos, por que não é compreendido que pode ser bom para toda a sociedade?

Parece que os estadunidenses começam a perceber isso, quando a realidade da crise bateu à sua porta.

A elite no Brasil em vez de buscar o aprimoramento de soluções que temos à mão como o SUS, a universalização da educação pública, o bolsa-família para aqueles que ficaram para trás, preferem desqualificar o que construímos de bom. Isso é uma volta ao século XIX.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009 14:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não só as famílias são socialistas. As centrais sindicais também são. Todas dividem equanimimente entre a burocracia os bilhões dos impostos sindicais que o Lula ampliou e que o PT e a CUT juravam que iam acabar. Pobre Joaquinzão...
Deve ser por isso que o trabalhador é tão bem remunerado pelo FGTS: 3% + TR. Centrais sindicais fortes! He, he, he.
É por isso que eu digo: Se eu fosse a Febraban, eu votava era no Lula.
Calou a boca de todo mundo. Não tem passeata mais prá nada. Os socialistas todos (entre um Romané Conti e outro) ficam vociferando: Nóis faiz o bolsa família, sua burguesia imunda! Nóis é a favor dos póbri!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009 23:13:00 BRT  
Blogger Richard disse...

AGORA SIIIIIM. Lindo texto, arquivei este!
Mas acho que vc fez generalizações. Existem sim pessoas que acham um desperdício gastar dinheiro com pobre, dar esmola etc. Saõ os mesmos que votam com o PSDB mas tem vergonha de terem votado em FHC. É a nossa raíz católica (é pobre pq pecou) com um individualismo meio luso (vou p/ Brasil ganhar dinheiro e volto logo).
Creio que o meio termo está com Henri Ford: preciso criar um carro (produto) bom e que meu funcionário (povo) possa comprar (a porta de saída).

sexta-feira, 6 de março de 2009 16:54:00 BRT  

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