sábado, 14 de fevereiro de 2009

Não fique chateado com o garçom, senador. Reclame do dono do restaurante (14/02)

O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) deu uma entrevista à revista Veja ("O PMDB é corrupto") para espinafrar o seu partido e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A certa altura, o jornalista busca confrontar o senador com os fatos:
    Mas esse presidente que o senhor aponta como medíocre é recordista de popularidade. Em seu estado, Pernambuco, o presidente beira os 100% de aprovação.

    O marketing e o assistencialismo de Lula conseguem mexer com o país inteiro. Imagine isso no Nordeste, que é a região mais pobre. Imagine em Pernambuco, que é a terra dele. Ele fez essa opção clara pelo assistencialismo para milhões de famílias, o que é uma chave para a popularidade em um país pobre. O Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo.

    O senhor não acha que o Bolsa Família tem virtudes?

    Há um benefício imediato e uma consequência futura nefasta, pois o programa não tem compromisso com a educação, com a qualificação, com a formação de quadros para o trabalho. Em algumas regiões de Pernambuco, como a Zona da Mata e o agreste, já há uma grande carência de mão-de-obra. Famílias com dois ou três beneficiados pelo programa deixam o trabalho de lado, preferem viver de assistencialismo. Há um restaurante que eu frequento há mais de trinta anos no bairro de Brasília Teimosa, no Recife. Na semana passada cheguei lá e não encontrei o garçom que sempre me atendeu. Perguntei ao gerente e descobri que ele conseguiu uma bolsa para ele e outra para o filho e desistiu de trabalhar. Esse é um retrato do Bolsa Família. A situação imediata do nordestino melhorou, mas a miséria social permanece.
Ao dizer que o sujeito se recusa a trabalhar quando tem o Bolsa Família, o senador revela desinformação. Ele se aventurou num assunto para o qual lhe faltam elementos. O repórter Lúcio Vaz informou no Correio Braziliense de 23 de novembro do ano passado que:
    O cruzamento de dados do Ministério do Trabalho e Emprego com os registros do Bolsa Família em todo o país mostra que os municípios que mais receberam o benefício, proporcionalmente à sua população, apresentaram um crescimento do número de carteiras de trabalho assinadas bem maior do que a média nacional nos últimos cinco anos. Enquanto a média do país ficou em 31%, os 500 municípios que mais receberam o Bolsa Família tiveram um crescimento de 42% no emprego formal. Se forem considerados os 300 municípios mais contemplados no programa, o percentual de crescimento chega a 52,9%.
Eu já havia tratado do assunto neste blog, em Ninguém é idiota por ser pobre. E também em Foi mal na escola? Cuidado com o seu Bolsa Família. Um trecho de Ninguém é idiota..., sobre a exigência de "condicionalidades" para que o beneficiário do programa não seja descadastrado:
    (...) acham que o pobre é um idiota e precisa ser coagido a ingressar na civilização. Acham que se não houver a "obrigação" de mandar as crianças à escola e de vaciná-las a mãe pobre (que é quem recebe o dinheiro) vai preferir colocar os filhos para trabalhar em vez de estudar e vai deixar de levá-los para tomar vacina. (...). O Brasil será um país melhor no dia em que forem eliminadas as burocracias inúteis, dinheiro que poderia ser mais bem empregado em outras coisas. Ou então economizado. Para não dizerem que só critico, vai aí uma proposta: cortar toda despesa relacionada à (pretensa) fiscalização das condicionalidades do Bolsa Família. Muito ou pouco, tanto faz. Nem que fosse uma coisa só simbólica, melhor seria lançar esses recursos (gastos com a burocracia) no superávit primário, ajudar a controlar a inflação e, assim, permitir ao beneficiário do Bolsa Família comprar um pouco mais com o dinheiro recebido. Mas isso não será feito. O governo (qualquer governo) precisa ter argumentos para explicar ao contribuinte que o dinheiro dado aos pobres não está sendo "desperdiçado". Isso num país em que cada dois reais em crédito rendem a quem empresta (os bancos) quase um real em juros.
Senador Jarbas, converse mais com o seu colega Eduardo Suplicy (PT-SP). Ele explicará como os programas de renda mínima servem para tirar pessoas e famílias da pobreza extrema, oferecendo portanto uma oportunidade para que o beneficiado e seus entes queridos possam avançar socialmente ainda mais. Ele poderá contar também como o dinheiro injetado nos municípios (especialmente nos pequenos) por ações como o Bolsa Família e a aposentadoria rural serve para movimentar o conjunto da economia local. Daí que os programas de renda mínima acabem resultando num ritmo maior de criação de empregos, como constatou o Lúcio. Ao contrário do que reza o senso comum, segundo o qual o Bolsa Família desestimula o trabalho do pobre. E um detalhe final. O ex-governador de Pernambuco se incomodou quando o gerente do restaurante que ele frequenta contou que o garçom que costumava servir o senador largou o emprego, supostamente porque passou a receber dinheiro do Bolsa Família. Não fique chateado com o garçom, senador, fique bravo com o gerente. Ou com o dono do restaurante. Imagine, senador, o tamanhinho do salário do garçom, para ele ter decidido trocar o emprego por dois cadastros no Bolsa Família, um para si e outro para o filho. Foi o que escrevi num de meus posts mais sintéticos (É fácil: paguem mais), sobre a eventual dificuldade de contratar mão-de-obra com carteira assinada em áreas cobertas pelo Bolsa Família:
    Fácil de resolver. Mole. Simplesmente, ofereçam salários maiores. Até que o trabalhador considere vantajoso trabalhar com carteira assinada.
Ou seja, se o trabalhador prefere ficar na informalidade para continuar recebendo o Bolsa Família é porque o trabalho formalizado não o remunera adequadamente. Em vez de ficar reclamando disso, seria conveniente pagar mais. Eis um aspecto pouco explorado na análise desse belo programa federal: ele oferece um colchão de proteção para que o trabalhador não tenha que vender sua força de trabalho a qualquer preço. Daí por que podendo optar pelo Bolsa Família é natural que qualquer um se recuse a trabalhar em troca de um salário aviltante. Ainda mais num restaurante bom o suficiente para servir a um ex-governador e senador da República.

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17 Comentários:

Anonymous Vera Borda disse...

Boa essa, Alon. Queria ver a cara do Jarbas, que gosta mesmo é de garçon submisso, miserável, dependente dos tostões que ele dá de gorgeta. Se é que ele dá gorgeta, porque senador não deve nem pagar pela refeição.

sábado, 14 de fevereiro de 2009 20:04:00 BRST  
Blogger eumesmo disse...

Estamos feitos! Veja que rebuscada retórica este senador(?) tem. Mais parece argumentos de garoto do orkut. Com tamanha capacidade de argumentar sugeriria que abandonasse o senado e passasse a freqüentar comunidades políticas do orkut. É uma vergonha um senhor deste ocupar uma cadeira no Senado Federal. Diz que o partido é corrupto, mas não sai de lá por nada.

sábado, 14 de fevereiro de 2009 22:02:00 BRST  
Blogger Cesar Cardoso disse...

Deixa eu ver se entendi. O senador Jarbas Vasconcelos ainda não acredita que seu pupilo tomou uma lavada do neto do Arraes, é isso?

sábado, 14 de fevereiro de 2009 23:20:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O Jarbas Vasconcelos diz que frequenta um restaurante em Brasília Teimosa há mais de 30 anos. Pois eu digo que é mentira deslavada. O bairro é uma favela, se houver restaurante por lá deve ser um boteco desses típicos de favela, que vende pinga, torresmo e ovo cozido colorido.
Que ele nos informe o nome e endereço do restaurante para que algum leitor recifense possa checar a veracidade.

domingo, 15 de fevereiro de 2009 00:41:00 BRT  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Gostei do texto, muito bom mesmo.
Mostra que o Senador é um saudoso dos tempos de Casa Grande & Senzala.

Garçom bom é garçom com salário pobre e conformado.

Nem que recebam 1/4 de salário-mínimo.

domingo, 15 de fevereiro de 2009 09:22:00 BRT  
Blogger Flaubert disse...

Bem, apesar dos números indicarem que os municípios recebedores de bolsa-família estão em melhor situação econômica, não invalida as observações do senador. Uma coisa é dinamizar a economia local em virtude de mais dinheiro circulando, outra é realmente tirar as pessoas de condições empregatícias aviltantes e pô-las, de fato, em condições de se tornarem cidadãos capazes de romper definitivamente com o círculo vicioso da pobreza. De fato, o bolsa-família só resolve o problema imediato, e não o central, que é estrutural: a falta de oportunidades para que as pessoas possam ingressar na classe média, que só irá acontecer, para o séc. XXI, através da educação. Sem escolas e professores e alunos estimulados, o bolsa-família apenas permite ver os números de forma fetichista. Da mesma maneira que o PIB pode esconder nível de desigualdade profunda.

Não vejo como remarcar o preço da mão-de-obra possibilitaria que adolescentes pobres de 14 anos não se tornem grávidas,por exemplo. E a extinção da burocracia, e não a transformação numa verdadeira burocracia, provocaria uma liberalidade para o ócio improdutivo.
O circulo vicioso “pobreza gera pobreza” só se rompe quando a pobreza passa a incomodar. E não imagino que essa “mão-de-obra-estatalmente-sobrevalorizada”, ou “a mão diáfana”, vá em busca de meios de qualificação profissional e lute em busca de educação para os seus filhos junto a prefeitos e vereadores em cidades de interior.
E o governo Lula nunca propôs medidas preventivas e eficazes contra os desvios de verbas para os municípios, que é um dos fatores mais perversos que retarda o desenvolvimento.

Imaginemos também que a bolsa é uma “condição emergencial”, mas não ataca o problema tão com a Coréia do Sul fez. Mas aí já é exigir demais de uma classe política bastante corrupta e pouco republicana, como nos lembra o senador.

domingo, 15 de fevereiro de 2009 09:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É, Alon, tão equivocado quanto achar que pobre é necessariamente idiota é pensar o contrário, que, por ser pobre, ninguém pode ser idiota, ou indolente. Concordo com o Flaubert, a referência a pesquisa do Lúcio é correta, porém temo que não seja conclusiva contra a visão do senador.Lógico que a aposentadoria rural e o BF, ao despejar grana em economias tísicas, tendem a ampliar o emprego. No entanto, para refutar a tese dos estímulo à indolência, teria que se comprovar que os empregos com carteira assinada foram para os beneficiados do plano, não? Pois, como até as pedras sabem, qualquer crescimento econômico, por menor que seja, faz crescer o trabalho formal. Neste contexto, concordo com você quando diz que seria mais eficiente acabar com toda a burocracia em torno da contraprestação. Agora, que um efeito colateral de tal política é um velado estímulo à indolência, isso é inegável. Eu mesmo conheço casos semelhantes aos relatados pelo senador. E não vai aqui nenhum juízo de valor sobre "o" pobre. O raciocínio serve também pra os grandes "juristas", aqueles que vivem de juros, em vez de produzir. Quanto ao comentário do anônimo aí de cima, só lhe digo uma coisa: você não sabe nada da boemia recifense. Brasília Teimosa, apesar de ser um bairro pobre, pela sua localização privilegiada e pela visa monumental, sempre foi um reduto boêmio. Há bares cinquentenários ali (que saudade do trema!)...

Kbção

domingo, 15 de fevereiro de 2009 11:27:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Concordo com Flaubert e Kbção, que forneceram fatos e argumentos para além do Fla X FLU meramente ideológico.

Abs.

domingo, 15 de fevereiro de 2009 12:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Sua análise "matou a pau"! Para argumentação, um senador pega um suposta caso absolutamente isolado e ataca um programa social com a importância histórica do Bolsa-Família. Não é capaz de apresentar uma proposta sequer de melhora para um programa desse e tenta desqualificá-lo. Parabéns, Alon.

domingo, 15 de fevereiro de 2009 12:31:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

Parabéns, Alon. Defenitivamente não compreendo o que aconteceu com um outrora progressista Jarbas Vasconcelos, ao adotar o discurso pernambucano dos cavalcantis contra os cavalgados.
Pouco tempo atrás ele integrou uma comissão de senadores para "livrar a cara" de usineiros do Pará, na maior autuação do Ministério do Trabalho por trabalho degradante (escravo).
Será que é a recusa a este tipo de trabalho que o Senador chama de indolência?

domingo, 15 de fevereiro de 2009 14:04:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Uma indignidade!Esses indivíduos se recusam a permanecer na miséria!
Ah!Nostalgia da pedagógica chibata...

domingo, 15 de fevereiro de 2009 14:23:00 BRT  
Blogger Ricardo disse...

É uma pena que Alon acredite mais nas estultices estatísticas mal-coordenadas do Ministério mais interessado em "mostrar" resultados do Bolsa-Esmola do que num dos raros senadores sérios deste país. Entre ele e os números, prefiro ver o que vejo na mão-de-obra que temos contratado aqui mesmo em SP. Eles pedem para serem demitidos para poderem receber o Bolsa-Esmola/Seguro-Desemprego por fora.
O pior é você desconsiderar aspectos completamente negativos da natureza humana. O Bolsa-Família não mexe uma vírgula na dependência da pessoa em relação ao Estado, não transforma ninguém em cidadão: apenas famélicos em famintos dependentes. Aplausos ao Senador por dizer aquilo que nossas oposições, por medo de declarações como a do Alon, se negam a dizer.

domingo, 15 de fevereiro de 2009 18:24:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Jarbas Vasconcellos,discursou como usineiro,daqueles que fizeram a triste fama de Pernambuco e que foram quase totalmente extintos,pelo sacrifício de milhares de "camponeses",nas décadas de lutas,desde o século passado.
Parece determinado ,a acabar seus dias de militãncia política, na vala comum da história,reservado aos reacionários,cumplices do atraso ,patronos do retrocesso.

domingo, 15 de fevereiro de 2009 23:12:00 BRT  
Anonymous jeronimo disse...

Ricardo, você só acha o senador certo,porque tem tudo, você e igual o senador, pois bem diga-me se o senador apresentou algum projeto que beneficia a probresa ou criou emprego quando era governador, lembre-se que os probres ou miseráveis precisa de comer promeiro, para depois trabalhar ou procurar fazer alguma coisa que ihe gere renda. não fique do lado do senador, porque ele nunca passou fome e mama na teta do povo a mais de 40 anos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009 11:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O que me espanta é o seguinte: o brasileiro de classe média, leitor de veja e outras tais, vai passar suas férias na Europa. Volta maravilhado com a civilização e com a quase inexistência de miseráveis absolutos. Não ocorre ao viajante que este fato decorre dos governos europeus distribuírem dinheiro para que seus cidadãos não caiam na indigência. Por lá, a sociedade civil achou por bem pagar um preço para evitar a miséria total. Mas quando nosso personagem volta, o discurso não muda, é assistencialismo pra cá, bolsa vagabundo pra lá. É triste. É não enxergar causa e efeito.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009 12:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuewerker,
Muito bom o seu texto. Talvez pudesse ser melhor, afinal ninguém é perfeito. Com o intuito de encontrar uma falha o reli. Não encontrei o que acrescentar.
Havia lido a entrevista na revista Veja do senador Jarbas Vasconcellos. Serviu para mostrar que o senador de Pernambuco perfila com o Pedro Simon como um dos varões de Plutarco. Talvez ainda haja mais uma meia dúzia deles. Todos eles ávidos para ensinar à plebe ignara e rude quais os valores mais nobres que devemos seguir.
Todos eles professam a ética heterônoma. Ensinam-nos como devemos comportar. Chamo essa ética de ética da soberbia, pois ética para mim só a autônoma: eu me imponho uma conduta que considero como ética.
PS: Talvez como os outros textos esse também não seja incluído como comentário no seu blog. Não sei o que está acontecendo. No site do Luis Nassif ele alertou aos blogueiros sobre o problema de o sistema transformar as mensagens de blogueiros que já foram vetados como span. Vou tentar enviar a mensagem não na conta do Blogger mas no nome do usuário ou clocar um nome suspeito.
Escrevi o texto ontem mas não houve tempo de enviar o email. Hoje antes de enviar eu observei os comentários. Espantei-me com o teor dos comentários a favor do Senador. Há bons argumentos, com uma roupagem técnica. Parece que a visão que eles reproduzem é o da nossa universidade. Fico a pensar a dificuldade para o corpo técnico do PT em aceitar o Bolsa-família. No imaginário da nossa elite intelectual não se deve dar o peixe ao pobre, mas sim ensiná-lo a pescar. Quem vai ensinar são funcionários públicos regiamente pagos.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/02/2009

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009 13:19:00 BRT  
Anonymous Gaius Baltar disse...

Alon, você tem razão em algumas das suas críticas às considerações do senador Jarbas sobre o bolsa família. Agora, estranho o fato de você não dedicar uma única palavra aos aspectos mais polêmicos e relevantes da entrevista, as acusações de corrupção generalizada nos partidos políticos brasileiros.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009 14:49:00 BRT  

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