segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Um Atatürk árabe (05/01)

Infelizmente, é inútil discutir política, inclusive a política internacional, por um ângulo apenas ou principalmente humanitário. Por quê? Porque os bons sentimentos e a compaixão só entram no cálculo dos líderes políticos como uma variável relacionada à propaganda. Uma variável de segunda linha, subordinada a outras. Ontem, por exemblo, aconteceu o seguinte em Bagdá. Da BBC:
    Ataque suicida mata mais de 30 xiitas

    Pelo menos 35 peregrinos xiitas foram mortos em um ataque feito por uma mulher-bomba neste domingo próximo a uma mesquita em Bagdá, informaram as autoridades iraquianas. Cinquenta e cinco pessoas ficaram feridas com a explosão na área de Kadhimiya, onde os peregrinos haviam se reunido para realizar uma cerimônia religiosa. As autoridades dizem que 16 dos peregrinos que morreram eram iranianos. A polícia afirma que o homem-bomba detonou as bombas que estavam presas ao seu cinto fora da mesquita de Imam Moussa al-Kadhim. Procissões de peregrinos xiitas pelo Iraque têm sido alvos de insurgentes sunitas. Eles estavam se preparando para um feriado que lembra a morte de Imam Houssein, um dos netos de Maomé. Na sexta-feira, 23 pessoas haviam sido mortas em um ataque suicida contra um encontro de líderes tribais sunitas em Yusufiya, 20 quilômetros ao sul de Bagdá. Cerca de 110 pessoas ficaram feridas.
Um atentado terrorista contra civis iraquianos de fé xiita. Eles estavam nas proximidades de uma mesquita, para uma comemoração religiosa. Uma história chocante e repugnante. Mas que não mereceu maiores atenções. Pelo ângulo humanitário, deveria rivalizar com as tragédias atuais da população civil de Gaza. Explicações? Deve haver várias. Vou pinçar uma. O terror sunita é parte constitutiva da insurgência iraquiana contra o ocupante americano e o governo fantoche de Bagdá. Por isso, o terror sunita é visto com simpatia por muitos que se opõem à ocupação do Iraque. Daí que as vítimas de ontem em Bagdá não mereçam destes a mesma justa indignação e a mesma justa revolta desencadeadas pelas imagens do sofrimento humano em Gaza. Os xiitas, aliados aos curdos, governam o Iraque por obra e graça dos americanos, que deram cabo da hegemonia sunita do Partido Baath, de Saddam Hussein. Eis por que o sacrifício de xiitas no Iraque por meio do terror sunita pareça digerível para os nossos indignados de ocasião. E, por falar em curdos, quem sabe os da Turquia devessem aproveitar a oportunidade para exigir a autodeterminação e o fim da ocupação militar turca em seu território. O atual governo da Turquia tem manifestado uma posição muito firme em defesa do povo palestino. Seria portanto natural que os princípios que Ancara defende para os palestinos valessem também para os curdos. No embalo de seus nobres sentimentos humanistas, o governo turco poderia -quem sabe?- admitir a verdade sobre o genocídio dos armênios. Mas isso é, reconheço, uma provocação. O mundo não precisa de mais provocações. Ele anda precisando mesmo é de um Kemal Atatürk árabe. Os palestinos poderiam ter tido o seu Atatürk. Yasser Arafat teve a chance de sê-lo e desperdiçou, em Camp David em 2000. Por que escrevo este post? Especificamente sobre Gaza, tenho vetado um bom número de comentários com juízos morais e acusações criminais. Não perca o seu tempo aqui com isso. Comentários assim não irão ao ar. Este não é um blog de propaganda. É de política. Leia também A teoria unificadora e A segunda chance, um post sobre o desastre diplomático em Camp David-2000, a origem recente da tragédia nacional palestina.

http://twitter.com/alonfe

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

7 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

Então, Alon, se este é um blog de política, que tal discutirmos a campanha israelense em Gaza à luz das eleições de 10 de fevereiro? Afinal, ao que parece, o objetivo político do condomínio Olmert-Livni-Barak de neutralizar o discurso falcão de Bibi Netanyahu com a guerra contra o Hamas tem sido bem-sucedido, pelo menos nas pesquisas...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009 23:16:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A respeito da "desproporcionalidade" da resposta israelense, o artigo do filósofo André Glucksmann no Le Monde de hoje é imperdível

http://abonnes.lemonde.fr/opinions/article/2009/01/06/gaza-une-riposte-excessive-par-andre-glucksmann_1138303_3232.html

terça-feira, 6 de janeiro de 2009 08:56:00 BRST  
Blogger Nehemias disse...

Outro caso é o genocídio em Darfur.
Os mortos contam-se as dezenas de milhares, mas a cobertura jornalística, com algumas excessões, é infíma, tipo nota de pé de página.

Nehemias

terça-feira, 6 de janeiro de 2009 09:39:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Culpar Arafat pelo fracasso daquela reunião é simples hipocrisia. A proposta era inaceitável então e é inaceitável hoje. Seria concordar em retalhar o país e com a submissão eterna a Israel.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009 10:42:00 BRST  
Anonymous Fernando Trindade disse...

O blogueiro acerta muito, mas neste post derrapa. É excessivamente pró-Israel,o que,por outro lado, não deixa se ser previsível.
Sobre a invasão israelense de Gaza de agora vale o que o General Patraeus disse sobre a invasão americana do Iraque: 'Qualquer estudante de história sabe que não há solução militar'.
Quanto a Atatürk, foi o mais radical dos modernizadores ocidentalistas do mundo muçulmano e tal modernização fracassou, por desrespeitar com arrogância a cultura islâmica. São os filhos e netos de Atatürk, Nasser, Bem Bella e outros que questionam a ocidentalização forçada.
É preciso ultrapassar os paradigmas superados da Modernidade (a heuristica pós-moderna está aí para ajudar a quem tiver boa vontade).
O atual governo turco, dirigido pelo partido dos islâmicos moderados é o mais adequado, tanto para o País,como para o Mundo. A alternativa a ele são os fundamentalistas islâmcios de um lado e os laicos ocidentalistas de outro. Ambos só levarão a Turquia para o autoritarismo e\ou o caos.
Todos somos etnocentristas (e não é uma questão de escolha política), mas se se quer um mínimo de convivência pacífica é preciso reconhecer a inevitabilidade do outro, por mais que isso desagrade à nossa matriz ego-narcísica.
Atenciosamente, Fernando Trindade

terça-feira, 6 de janeiro de 2009 13:14:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Prefiro"Verão de ´42", onde a guerra,se faz presente,num simples telegrama.
Israel,tenta reduzir, essa empreitada, a uma ficção jornalística,produzida por correspondentes virtuais,onde a pedrada de um adolescente palestino,é mais grave, do que míssil de um F-16,ou bomba de fósforo, sobre uma escola,que irão pulverizar 40 estudantes.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009 15:48:00 BRST  
Blogger Leonardo Bernardes disse...

Juro, não consegui terminar de ler o post. O trator da simplificação só sai da garagem quando você fala de Israel.

Bem, se o ângulo humanitário não é adequado para enquadrar a política internacional, então vamos tentar outros ângulos. Sob qual deles a solução militar israelense é ou pode ser vitoriosa? Apenas sob o viés eleitoral. Imaginar que a hostilidade cessará pela intervenção militar é ingenuidade, para ser eufêmico. O Hamas e os grupos terroristas vivem de fomentar o ódio contra Israel baseados em condutas como essas -- assim como a direita radical israelense se alimenta da intransigência dos dos radicais islâmicos.

Mas a comparação entre o atentado contra xiitas no Iraque é inominável. Quando uma nação que participa de todos os avanços políticos, institucionais e tecnológicos do ocidente resolve ignorar os direitos humanos mais elementares em prol de um ofensiva fadada ao fracasso em todos sentidos -- salvo o eleitoral --, não se pode, não se deve compará-la ao conflito entre etnias, apenas porque os conflitos em que todas as partes se envolvem apresentam números de mortos relativamente próximos. É uma simplificação grosseira e não vou me ocupar explicando o porquê da ilegitimidade da comparação, pois você já sabe.

Voltando às questões humanitárias. Bem, talvez os políticos não as tomem senão no interesse propagandístico, mas deveria ser diferente. Por isso é tão importante insistir na ênfase dada aos ataques israelenses. Os sionistas de bom caráter, embora não menos cegamente comprometidos em validar a ofensiva, insistem em comparar Gaza com outros conflitos no mundo, estranhando que não se dê tanta atenção aos outros focos de violência no mundo. Questão interessante, mas que em nada diminui o ônus israelense. Enjaular 1,5 milhões de pessoas, impedir que elas tenham acesso a comida, assistência médica, água, eletricidade, impedi-las de se proteger propriamente do frio, enquanto deflagram uma guerra sangrenta que faz pouca distinção entre combatentes e civis, é sem sombra de dúvida uma circunstância peculiar. Acima de tudo porque do outro lado não há apenas milícias e grupos de oposição armados e violentos, mas um dos principais exércitos do mundo, munido de armas sofisticadas na tecnologia e crueldade (as armas que se valem de fósforo branco). Às pessoas que não pesam esses aspectos talvez não caiba a designação de políticos, mas de assassinos. Pois a palavra se ajusta tanto aos que promovem a matança, quanto aos que ordenam e silenciam.

Afinal, esse post é sobre Israel e Gaza, não sobre o Iraque.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009 11:12:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home