segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Sem luz no túnel (12/01)

O Hamas não sossegará enquanto Israel fizer parte do mapa. E Israel não sossegará enquanto o Hamas for uma ameaça militar

A atual guerra em Gaza começou porque Israel acredita ter força para criar uma nova situação no terreno, em que o Hamas passe a avaliar mais seriamente o custo político de lançar foguetes sobre o sul e o litoral de Israel. Se o governo israelense aceitasse passivamente uma realidade em que seu território é alvo permanente de foguetes, é provável que fosse removido pelos eleitores e substituído por outro, disposto a transformar o status quo, pela força se necessário.

Do lado do Hamas, o conflito de agora pode ser visto como a agudização de uma guerra pré-existente, desencadeada quando o partido islâmico decidiu recorrer ao bombardeio de Israel por foguetes lançados de Gaza, como meio para alcançar seu objetivo tático. Ou seja, legitimar-se como única opção política eficaz para os árabes palestinos. Por ter conseguido, pela luta armada, afrouxar o torniquete que Israel impõe ao território costeiro desde que o Hamas primeiro venceu as eleições e depois, por meio de um golpe de estado, adquiriu ali o monopólio do poder.

Esse é o objetivo tático do Hamas, porque o alcance estratégico da sua plataforma é conhecido: remover Israel do mapa e instalar uma república islâmica em toda a área entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo. Mesma meta do partido libanês Hezbollah. Nos últimos tempos, a convergência entre o Islã e o nacionalismo árabe na Palestina acabou fortalecendo as duas guerrilhas, o que faz ainda mais difícil uma saída negociada. Pois a premissa do pacto seria a existência de pelo menos um país não islâmico, Israel, no território abrangido pelo mandato britânico na Palestina entre as duas guerras mundiais do século passado.

Do lado israelense também existem correntes extremas, que, lastreadas em elementos da fé judaica ou em considerações estratégicas, julgam inaceitável abrir mão de um pedaço da terra de Israel. Terra que incluiria, pelo menos, todo o país atual, mais Gaza, Cisjordânia e o Golã, este conquistado à Síria e posteriormente anexado. Até pouco tempo atrás eram forças politicamente declinantes, mas retomaram musculatura diante da perspectiva de confronto crescente com os palestinos e com o Irã (e seus satélites).

Aliás, antes da eclosão da guerra em Gaza o gabinete terminal de Ehud Olmert —herdeiro da derrotada política de recuos consecutivos e concessões unilaterais— procurou acelerar os contatos com Damasco para encaminhar a devolução do Golã em troca de um acordo de paz e de relações diplomáticas normais. Acordo que certamente enfrentaria resistências políticas em Israel. Do lado sírio seria menos complicado, pois a oposição está suprimida. O problema para a Síria seria a reação do Irã. E, em consequência, do Hezbollah.

Mas agora o que está na pauta é a guerra em Gaza. Cada contendor tem o seu motivo para guerrear e, como é comum em situações assim, guerreia-se também no terreno da propaganda, com os oponentes apresentando a sua própria guerra como justa. E a do outro como injusta. Na batalha da propaganda, pede-se que Israel renuncie ao uso da força. Israel argumenta que isso equivaleria a aceitar, no vizinho ao lado, o protagonismo e o armamento crescente de um grupo que luta de armas na mão para destruir o estado judeu. Ao Hamas, pede-se que largue as armas e reconheça o direito de Israel a existir. O Hamas enxerga a proposta como um apelo à sua capitulação. Não deixa de ter alguma razão.

Daí que Israel e o Hamas sejam hoje inimigos inconciliáveis. E que os breves períodos de relativa paz entre ambos sejam só hiatos de preparação para o próximo conflito. Mas há os otimistas, segundo quem a nova correlação de forças trazida pela guerra criará condições para levar as partes a suavizar seus respectivos projetos. Neste caso parece particularmente difícil. Equivaleria a pedir que Israel ou o Hamas praticassem o suicídio parcial — coisa que ainda não foi inventada.

Por enquanto, o Hamas dá sinais de que não sossegará enquanto Israel fizer parte do mapa. E Israel não sossegará enquanto o Hamas for um risco militar. A doutrina e a História ensinam que um inimigo assimétrico pode representar ameaça real. E o impasse pode piorar caso a Autoridade Palestina, hegemonizada pela laica Fatah, perca relevância como representante institucional de seu povo. Estaríamos então diante de um novo quadro, no qual um estado palestino se tornaria politicamente inviável. A não ser, é claro, que Israel fosse riscado do mapa. Coisa que só aconteceria num cenário de hegemonia estratégica global do Islã. O que não está no horizonte.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Infelizmente a situação é essa mesma. O Hamas enquanto o Irã não chega e daí a possibilidade de conflagração mundial.
Taxa de risco pendente da postura e velocidade de ação do próximo governo americano.
A diferença, com o uso de armas nucleares, será que os sobreviventes do novo conflito retornrão a idade da pedra. As jogarão uns nos outros até a extinção. A vitória, no caso, será do Islã - terão sido todos martirizados.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009 12:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

impressionante como um cara inteligente, por ser judeu (?) nao consegue enxergar o outro lado, aLON.Mais de uma de suas assertivas sobre o conflito, pode ser revertida, et pour cause, com maior impacto, bastando trocar os nomes dos contendores,fazendo" onde se lê Israel, leia-se Hamas".
Que coisa!
Na minha cabeça nao entra que as eleiçoes isaelenses, desde M.Begin
dando cadeiras, fieis da balança e
maiorias mesmo aos fascistas de direita em Tel-Aviv a midia sempre chamou de democraticas e legitimas. Agora a eleiçao de 2006 em Gaza e Jerusalem Leste, nao, ahi ja é coisa ilegitima, de terroristas! Voce nem toca nesse ponto essencial, e nas razoes de terem os palestinenses deixado de lado o partido da Fatah.
Voce me decepciona, Alon.(aggostinho)
(coloco aqui anonimo, pela simples razao que com nome etc noa consigo postar)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009 13:45:00 BRST  
Anonymous Ricardo disse...

Eu sugiro ler algumas das matérias postadas recentemente pelo Norman Finkelstein (em seu site, se não segues a linha de Alan Dershowitz que ele é um "self-hating jew!" ou algo desse calão) ou mesmo os debates recentes no Democracy Now como fonte mais lúcida de informação que o lugar comum.

Daria o canal do youtube do Al Jazeera english, mas creio que deva ter algum pré-conceito em relação ao canal (sem falar também no calão de comentaristas dos usuários do youtube da estirpe de apoiadores de Ron Paul/ Alex Jones/ New World Order e outras esquisitisses da direita "libertária" "paleoconservadora" americana que a direita mainstream chama de "esquerda", que estão sempre na beirada do anti-semitismo - senão além da beirada).

Esse é um blog de maior inteligência que o normal, e é triste ver algo que possa estar sendo um ponto cego, que eu mesmo possuía até meses atrás, ser um empecilho na sua busca de uma aproximação maior a clareza.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009 06:24:00 BRST  

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