segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Proletários Armados pela CIA (19/01)

Talvez fosse adequado renomear o bando de que Battisti participava na Itália. Poderia ser, por exemplo, Proletários Armados pela CIA. Nem a sigla precisaria mudar

O ministro da Justiça, Tarso Genro, agiu politicamente quando impediu a extradição de Cesare Battisti, condenado na Itália por atos criminosos três décadas atrás, época em que o italiano participava de um tal "Proletários Armados pelo Comunismo". Não há nada de errado em Tarso agir politicamente. O ministro achou que deveria tomar a decisão e tomou. O Brasil já deu asilo e proteção a um monte de gente, da esquerda e da direita. Se o ministro agiu dentro da lei, aos que discordam dele resta apenas o jus esperneandi. Vamos ver o que dizem a Procuradoria-Geral da República e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Eu fui à Wikipedia saber o nome original do grupo de Battisti em italiano. Era "Proletari Armati per il Comunismo". Por que a curiosidade? Porque encasquetei com a tradução. Mesmo sem conhecer bem o idioma do país peninsular, acho que uma versão melhor para o português seria "Proletários Armados para o Comunismo". "Pelo" pode dar a impressão -errada- de que era o comunismo quem armava os tais "proletários" -e não que eles se armavam para supostamente alcançar o comunismo.

Pensando bem, nem uma coisa nem outra. Os grupelhos de extrema-esquerda que azucrinaram a Itália nos anos 70 do século passado nada tinham a ver com o comunismo, e portanto não poderiam ter sido armados por ele. Ao contrário, desempenharam na época o papel histórico -hoje já bem esclarecido- de força auxiliar e braço armado da direita italiana e dos Estados Unidos, para impedir que o Partido Comunista Italiano (PCI) chegasse ao governo em aliança com a principal sigla de centro-direita, a democracia-cristã. Então, se é para manter o "pelo", talvez fosse adequado renomear (em português) o bando de Battisti. Poderia ser, por exemplo, Proletários Armados pela CIA. Nem a sigla precisaria mudar. E aí não haveria mais dúvidas. Linguísticas ou políticas.

Todo esse debate seria cômico, se a coisa não tivesse sido trágica. Um caso clássico, sempre lembrado, foi o sequestro e morte do ex-premiê Aldo Moro, democrata-cristão que trabalhava para levar o PCI ao governo. Foi raptado e friamente assassinado pelas autonomeadas Brigadas Vermelhas, outra quadrilha, assemelhada aos tais "proletários armados" de Battisti. Eram os tempos da Guerra Fria. Os Estados Unidos vetavam a presença do PCI no governo italiano, também porque a Itália, membro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), tinha obrigações militares na confrontação com o Tratado de Varsóvia, a aliança bélica do então campo socialista, liderado pela União Soviética.

Hoje tudo isso é História. Mas, para azar do governo do Brasil, ainda tem gente por aí que acompanhou aquele processo e sabe distinguir o preto do branco, sabe quem foi quem naqueles anos. Um dos remanescentes é o atual presidente da Itália, Giorgio Napolitano. Enquanto a extrema-esquerda italiana se pintava de vermelho para ajudar a CIA, Napolitano era dirigente do PCI e trabalhava por um compromisso histórico que permitisse a real alternância no poder. Por causa da decisão de Tarso, Napolitano mandou dias atrás uma carta brava para Luiz Inácio Lula da Silva. Se quando concordou com o abrigo a Battisti Lula pensava numa desfeita dirigida ao premiê direitista Silvio Berlusconi, nosso presidente atirou no que viu e acertou no que não viu.

Mas política é política, e justiça é justiça. Vamos ver, repito, o que fará o STF. Enquanto isso, mais uma vez, o ministro Tarso Genro vai apanhando em público por tomar decisões alinhadas ao pensamento do chefe. Tarso é um ativo valioso para Lula. Faz o que Lula deseja que seja feito e depois absorve todo o desgaste. Tarso não é um ministro "do PT", até porque a força dele no partido não é lá essas coisas. Tarso é um ministro "de Lula". Para sorte de Cesare Battisti.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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11 Comentários:

Anonymous Paulo Araújo disse...

Bravo, Alon. Oportuníssima lembrança.

Abs.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 05:49:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, considerando o que você esclarece, por que, então, o governo (ou parte dele?)entra numa celeuma dessas? Vale a pena correr o risco de consequências diplomáticas mais graves do que as reações conhecidas até agora por parte da Itália?

Swamoro Songhay

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 11:47:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado, você esqueceu que o ministro tomou a decisão CONTRA a recomendação do comitê que foi criado para tratar destas questões, conforme noticiado. Como bom esquerdista parte da conclusão desejada para selecionar os fatos que interessam. E manda os outros para o paredão do esquecimento.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 13:30:00 BRST  
Anonymous Jura disse...

Muito bem, Alon. Italiano é fácil para quem fala até alemão e hebraico, imagino.

"Proletários Armados pelo Comunismo" seria "Proletari Armati dal Comunismo", e não "per il comunismo" como você corretamente observou.

Mas você também observou que Lula atirou no que viu e acertou no que não viu. Se isso também estiver correto, significa que o Presidente foi mal informado. E quem o teria informado mal? Se foi o próprio Tarso, ele é mais responsável pela decisão do que parece.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 15:59:00 BRST  
Anonymous roberto disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 18:22:00 BRST  
Anonymous Paulo Araújo disse...

Alon

Uma pergunta:

Onde, nesta medida do governo Lula, o pragmatismo? Exatamente, onde está aquele pragmatismo que você apontou no post "O antissemitismo, o pragmatismo e o horror da guerra"

Por que Lula, o pragmático, cedeu aos argumentos de quem o aconselhou a comprar a briga com a Itália? Principalmente, quem o aconselhou e quais os argumentos?

Não vale responder reproduzindo as declarações públicas, já que essas todos os que lêem jornal conhecem. :)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 19:24:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Ao final, Lula vai dizer que "não sabia de nada e que foi mal informado" e vai aproveitar para defenestrar Tarso Genro.

Cá prá nós, que país em sã consciência, com interesses os mais diversos, dá guarida a um criminoso ao tempo em que desqualifica a justiça de outro país? Ainda mais contrariando voto do CONARE e parecer do Procurador Geral da República e o Itamaraty?
Depois, D. Lula vai chorar as pitangas por não ter sido convidado para reunião do G-8, etc, etc ...
Maldita republiqueta de bananas !

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 20:08:00 BRST  
Anonymous Vinicius Duarte disse...

Alon
Não que eu esteja pensando que você esteja mentindo,ate porque por mais absurda que seja essa história no que diz respeito as ações humanas quase tudo é possivel,más para mim parece improvável.Más,como a muito tempo se vê de tudo nesses movimentos que se dizem esquerdistas ou direitistas,se isso for verdade so resta para mim ficar indignado,como bom esquerdista que sou,pois ver grupos terroristas jogando o nome de ideologias justas na lama,neste caso sem ao menos ter a verdadeira intenção de polas em prática,é simplesmente revoltante.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 22:31:00 BRST  
Blogger Laguardia disse...

Alon

Minha pergunta é, se hoje Mengele estivesse vivo e preso pela PF Tarso Genro também concederia a ele asilo político? Para mim quem mata um mata 10.000. Um é tão criminoso quanto o outro.

Battisti cometeu crime na Itália e foi julgado e condenado. Não importa se foi armado pela CIA ou pela KGB. Continua um criminoso condenado e que deve ser extraditado.

Quando é que Lula e seus companheiros v~ao colocar a justi'ca e as leis acima da ideologia?

terça-feira, 20 de janeiro de 2009 21:32:00 BRST  
Blogger jose carlos lima disse...

Não concordo com o teor do seu texto.

Uma boa forma de se tirar a dúvida é uma pesquisa, entrevistas com figuras que participaram daquilo. Que tal Achille Lollo, na Itália acusado de homicídio, preso no Brasil, o STF não autorizou sua extradição. Sobre Achille Lollo na wikipédia:

"Sua atuação na Itália:

(...)
Quando estudantes, durante a decada de 1970, Achille Lollo militou no grupo extra-parlamentar italianoPotere Operaio (Poder Operário), até sua fuga do país. Muitos militantes no passado dessa organização são hoje expoentes do mundo político, intelectual e cultural italiano.

Na noite de 16 de abril de 1973, Achille Lollo, junto a outros três integrantes do grupo Potere Operaio(Paul Gaeta, Diana Perrone e Elisabetta Lecco), despejou gasolina na porta de um apartamento no terceiro andar de via Bernardo da Bibbiena 6[6], próximo à praça Primavalle, onde vivia, com a família, Marco Mattei - que na época tinha 48 anos -, secretário da seção local do neofascista Movimento Sociale Italiano, e organizador de atentados contra a esquerda e anti-fascistas. O Movimento Sociale Italiano reunia ex-militantes fascistas e reivindicava os crimmes mussolinianos contra o mundo do trabalho italiano. À época, a Itália vivia os seus "anni di piombi" (anos de chumbo), inaugurados sobretudo pelos atentados terroristas promovidos pelos serviços secretos italianos e pela CIA, contra a esquerda e o movimento operário italiano - "Estratégia do Terror". Por um erro, a gasolina destinada a incendiar a porta penetrou sob ela, atingindo o apartamento. Mario estava na cama quando vio o brilho das chamas. Jogando-se pela janela, salvou a vida. Sua esposa pegou os filhos de 9 e 4 anos e foi para o andar superior, onde foram socorridos pelos bombeiros. Outras duas filhas, de 19 e de 15 anos, desceram por um balcão. Os últimos dois filhos ficaram presos no quarto. O maior dos dois chegou a colocar a cabeça fora da janela. Há fotos dramáticas sobre os fatos. Os bombeiros os encontraram carbonizados, sob a janela que não conseguiram pular[7].

Lollo foi condenado por homicídio culposo e tentativa de homicídio (dois consumados e seis tentados. Este episódio da violenta década de 1970, ficou conhecido como Rogo di Primavalle, ou seja, o Incêndio de Primavalle.

(...)

O pedido de extradição

A denúncia de que Achille Lollo vivia em Copacabana partiu do Partido Alleanza Nazionale (AN), de extrema-direita, herdeiro parcial da herança mussoliniana, dirigido por Gianfranco Fini. Fini é atualmente importantelíder de sustentação do coalização de direita do primeiro-ministro italiano Sílvio Berlusconi.

Achille Lollo apresentou-se na sede do Consulado Italiano do Rio de Janeiro, como italiano residente no exterior, para votar, visto a prescrição de sua pena. Achille Lollo revelou não haver renunciado à cidadania italiana. Declarou que, no Brasil, como de conhecimento público, dedicar-se, há longos anos, ao jornalismo e à editoria. Preso alguns meses em 1993 por força de "mandado internacional de captura da Interpol", foi logo solto por ordem do Supremo Tribunal Federal do Brasil.

Achille Lollo lembrou ter sido julgado e condenado por atos políticos e a Constituição Federativa do Brasil de 1988 determina que "não será concedida extradição de estrangeiro por crime político ou de opinião".

http://josecarloslima3.blogspot.com/2009/01/lollo-hoje-casa-de-mattei-apos-o.html

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009 00:08:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

"Pelo Comunismo" no sentido de pela causa do comunismo parece-me correto.

Haver grupos de luta armada infiltrados pela polícia não é o mesmo que esses grupos serem criaturas do estado ou da cia, como o artigo faz crer. Já os atentados da piazza fontana que inauguraram o período de terror, esses sim foram perpetrados pela extrema-direita em conluio com o estado. O PCI é que era o aliado do sistema impedindo desde o final da guerra qualquer movimento realmente anti-capitalista.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009 22:43:00 BRST  

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