sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Os burocratas e o tsunami (23/01)

Será que algum candidato à sucessão de Lula vai ter peito de defender na campanha eleitoral mais autonomia para o BC? O BC encarregou-se de desmoralizar a autonomia que lhe foi dada pelo presidente

A crise mundial já tem quatro meses e, finalmente, o Banco Central brasileiro começa a reduzir a taxa básica de juros. A explicação é que o BC estava esperando para ver se a economia nacional iria mesmo afundar. Como ela dá sinais de que está afundando, o BC decidiu agir. O Comitê de Política Monetária (Copom) recebeu as últimas estatísticas e concluiu que era preciso diminuir o custo do dinheiro.

Depois que os diretores do BC deixarem o atual emprego, tomara que nenhum deles seja nomeado para função pública que requeira capacidade de se antecipar aos fatos, ou aptidão para previsões. Deus nos livre, por exemplo, de o pessoal do Copom acabar designado para uma eventual unidade encarregada de alertar e proteger o Rio de Janeiro no caso de um tsunami.

Dá até para imaginar a cena. A central de monitoramento de tsunamis recebe a informação de que aconteceu um terremoto no meio do Oceano Atlântico. Os burocratas, no alto da serra, talvez em Teresópolis, começam a discutir o que fazer. Até que alguém coloca um ponto final na discussão. “Ainda não aconteceu nada. Por que então deveríamos nos precipitar? Não seria melhor esperar para ver com calma os efeitos do terremoto submarino e só depois agir? Com base em dados. E não apenas em suposições.”

É a lógica do Copom. De setembro para cá, a economia mundial vem brecando com violência, por causa da combinação letal de três fatores inter-relacionados: superprodução, escassez de crédito e queda na confiança do consumidor. E “mundial” aqui não é retórica. A crise está espalhada por todo o planeta, desde que se diagnosticou a fragilidade do sistema financeiro americano. Fragilidade que nasce de uma constatação: não há como a economia atual criar valor em ritmo suficiente para remunerar a massa de capital adiantado para produzir esse valor.

O terremoto submarino foi a quebra do Lehman Brothers. Desde então, o pessoal do BC está esperando para ver a força com que a onda vai bater no litoral brasileiro. Um primeiro impacto foram os 650 mil empregos formais perdidos em dezembro. Que, entre formais e informais, devem ter sido cerca de um milhão, se calcularmos o emprego total na proporção que o próprio governo usa para medir a criação de postos de trabalho, quando interpreta o saldo líquido do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) de carteiras assinadas.

Com um milhão de desempregados num único mês, o Copom decidiu agir. Mas seu movimento ainda é tímido. Quando a inflação cai muito rápido, reduções nominais expressivas do juro básico podem representar, paradoxalmente, aumento do juro real. Que os economistas façam as contas. Enquanto isso, o cidadão médio perde o sono, sem saber se amanhã vai ter como cumprir seus compromissos, sem a certeza de que na semana que vem estará empregado.

Isso para não falar no spread, a absurda diferença entre os juros que os bancos pagam ao poupador e os juros que eles cobram do devedor. A explicação dos bancos para isso é o risco de inadimplência. Os bancos dizem que o spread é alto porque existe a ameaça de os empréstimos não serem pagos. Ora, uma das razões para a inadimplência é precisamente o juro exorbitante. Qual é o sentido de o banco cobrar do correntista 10% ao mês no cheque especial? O que isso tem a ver com as leis de mercado? Nada. Tem a ver é com cartel, com oligopólio.

E os burocratas do Copom? Estes não precisam se preocupar. O emprego deles está garantido, por uma circunstância curiosa. O governo não tem coragem de mexer na autonomia operacional do Banco Central, para não melindrar o sistema financeiro. E a oposição construiu para si a tese de que a autonomia do BC deveria ser maior ainda, garantida por lei, para evitar que a condução da política monetária e cambial fique à mercê de injunções alheias à suposta tecnicalidade pura dos burocratas. Uma blindagem “moderna”.

Eu quero ver é algum dos candidatos à sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva ter peito de defender na campanha eleitoral mais autonomia para o BC. Pois o próprio BC encarregou-se de desmoralizar a autonomia que lhe foi dada pelo presidente.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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16 Comentários:

Anonymous the talk of the town disse...

Nao sou de fazer elogios. Mas esse foi um dos seus melhores textos.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009 08:49:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Quanto conceder maior autonomia ao BC, a resposta mais óbvia parece ser não. Seja quem for o próximo presidente, da oposição, da situação ou a continuidade do atual. Já no aspecto da produção mundial, o texto fala em superprodução. Creio que o termo seria grandes estoques, pois a produção está desacelerada. No Brasil, por exemplo, fornos siderúrgicos, pelo que foi divulgado, estão sendo ou já foram desligados para que a cadeia toda (siderúrgicas, distribuidores, indústria de transformação) ajustem o nível de estoque ao atual nível de demanda. A safra agrícola parece, também, que será menor. Bem como a cadeia petroquímica(plásticos)também desacelera.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009 10:00:00 BRST  
Blogger Richard disse...

Como sempre, Alon é mais contundente quando escreve a coluna "Entrelinhas"... vejo nesta um viés (hehehehe) crítico em relação ao governo Lula que não aparece um outros artigos deste blog.
Não lembro de vc ter criticado específicamente a manutenção da autonomia do BC, ao longo destes 6 anos, mesmo em momentos onde BC parecia contrariar todo esforço do governo.
Esta é uma parte do preço pago por Lula quando optou pelo continuísmo econômico, adicionado de programas sociais assistencialistas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009 11:47:00 BRST  
Blogger Heberth Xavier disse...

Alon, mil parabéns pelo texto. Sou colega seu (jornalista de economia do EM, aqui em BH) e não resisti: você disse tudo no post. Bobagem quem clama por independência do BC: o nosso é o mais independente do mundo, faz o que quer há alguns anos, sem inclusive dar satisfações ao Congresso (que, por sinal, na oposição e na base aliada, gosta de puxar-saco da equipe econômica, desde Malan, Palocci e demais). Creio ser muito difícil a tese da independência ser defendida na sucessão de Lula: Dilma, Serra, Ciro, para citar os mais citados candidatos, são contra...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009 18:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, queria contribuir para o seu raciocínio com um fato que está sendo relevado: o aumento de juros no início do ano de 2008 ("ameaça da infração") foi outra barberagem do BC, uma vez que os pensadores mais sérios e experientes (Delfim, Beluzzo, Paulo Nogueira Batista Jr., Nassif) alertavam que o aumento de preços decorriam dos preços internacionais das comodites e assim que as mesmas baixassem haveria queda nos indicadores de inflação - batata. Mas esta teimosia custou no mínimo R$ 20 bilhões no ano de 2008. O Congresso deveria instalar uma CPI para apurar crime de responsabilidade.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009 19:36:00 BRST  
Anonymous Luca disse...

O oligopólio no sistema financeiro inclui também os estatais BB, a Caixa Federal e a Nossa Caixa? Não creio que inclua. No entanto, cobram aproximadadamente os mesmos juros e tarifas dos demais bancos.
Já a autonomia do Banco Central inexiste na lei Brasileira. Quem assegura esta autonomia é o Governo, por opção. Lula parece acreditar que há vantagens políticas nesta decisão. Sou provavelmente o único comentarista deste blog que concorda com esta sensata decisão do Presidente.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009 20:01:00 BRST  
Blogger Briguilino do Blog disse...

Alon, de vez em quanto publico seus excelentes texto no blog do briguilino (com os devidos créditos)sem acrescentar uma virgula. Porém com este não resiste e escrevi o titulo assim: Os burrokratas e o tsunami. Desculpe-me.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009 20:16:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Sou um admirador da clareza e da objetividade com que você expõe as suas idéias, mesmo quando discordo delas.

Neste post eu mais concordo, sobretudo com a sua exposição da lógica que comanda as decisões do Copom. Faço apenas um contraponto ao que você diz sobre a autonomia do BC. Os elementos que você traz na análise me pareceram muito mais a evidência de que há uma grave distorção do conceito de autonomia na gestão do BC. Pelo que você aponta, o que eu vejo não é a autonomia excessiva da instituição na gestão da política monetária. De acordo com o seus argumentos, o que se vê é o reinado absolutista de um único pensamento econômico sobre política monetária. Há autonomia no BC, mas apenas para um único pensamento.

Lamentavelmente governo e oposição não conseguem ou não têm interesse em compor uma outra melodia. E então eu te pergunto: por quê?

sábado, 24 de janeiro de 2009 00:17:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, nenhum candidato defenderá a autonomia do Banco Central porque nenhum dos candidatos conhecidos nunca defendeu, e não em função do desempenho atual do Copom. No início do primeiro governo Lula me perguntava por que o presidente não concedia a tal autonomia (quer dizer, formalmente, preto no branco). Se era para fazer uma política séria de estabilidade de preços, a autonomia formal seria confortável para o presidente, desviaria a grita inevitável e recorrente contra os juros altos para a instituição, e livrava a cara do chefe. Acreditei que fosse para dar uma satisfação à esquerda heterodoxa, parte daquele papo de que aquela era uma política econômica de transição, coisa e tal. Depois de seus posts recentes, nos quais você invoca uma autonomia “de fato” para evitar a conclusão de que o presidente é o representante dos bancos no governo – ele apenas “não tem coragem de mexer na autonomia operacional do Banco Central, para não melindrar o sistema financeiro” –, mudei de opinião: a autonomia não veio justamente para preservar a política de aperto monetário e o Banco Central, que não agüentaria a fritura sozinho. Era necessário deixar claro que aquela era mesmo a política do governo. Caro Alon, os empregos perdidos no último mês não são conseqüência de o Copom não haver baixado os juros na penúltima reunião, aliás, os juros são uma arma muito mais eficaz contra o aumento de preços do que contra a retração econômica – para completar sua imagem da central de monitoramento de tsunamis, digamos que ela contassem com a possibilidade de levantar diques de areia em Copacabana. Para reativar a atividade econômica o instrumento fiscal é muito mais efetivo, não tem coragem de mexer na autonomia operacional do Banco Central, para não melindrar o sistema financeiro com o que economistas de todas as tendências concordariam (ainda que nem todos concordassem com a adequação do remédio). A lambança governamental do momento está sendo feita via BNDES, mais para livrar a cara dos “amigos” que brincaram de especular com câmbio do que para preservar empregos, a Miriam Leitão tem tratado disso também em seu blog.

sábado, 24 de janeiro de 2009 10:39:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Alberto, se o BC tivesse agido já em outubro, certamente entraríamos nopróximo fevereiro com outrocenário.

sábado, 24 de janeiro de 2009 13:02:00 BRST  
Anonymous Luca disse...

Qualquer que seja a taxa de juros interna ou o grau de autonomia do BACEN, o fato é que esta enorme retração da economia mundial fez secar a fonte de dólares, antes abundante no mundo. A reserva Brasileira (os tais 200 bi de dólares) é pequena para financiar o enorme déficit público que ocorrerá pela queda na arrecadação conseqüente da atividade econômica reduzida e do aumento dos gastos correntes do Governo Federal nestes anos recentes. Sobram apenas três caminhos ao Governo neste cenário de déficit crônico das contas públicas: Gastar menos (o que todos duvidam que vá ocorrer), arrecadar mais (que teria um custo político letal) ou conviver com inflação e crescimento baixo, cenário que se torna quase uma maldição inevitável. Será preciso coragem política para desenhar a solução, material que costuma faltar em fim de governo. É mais provável que fique para o próximo Governo.

sábado, 24 de janeiro de 2009 21:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Tá na cara que você é um excelente comentarista político, mas, de economia, não entende nada. Poderia começar fazendo um cursinho de econometria, outro de teoria da moeda, outro de história monetária etc etc. Um dia, quem sabe, um cara tão inteligente como você poderia transformar esse conhecimento em idéias mais felizes...

sábado, 24 de janeiro de 2009 23:05:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, desculpe a falha no controle de qualidade do comentário anterior. É sempre complicado conjeturar sobre o que aconteceria se as decisões passadas fossem outras, mas é inevitável. Na sua resposta você supõe seis meses de “gap” entre a decisão e o efeito, como normalmente se supõe, ok, em fevereiro a situação teria mudado, mas teria mudado substancialmente? Estamos falando em diferenças de 0,25 ou 0,5 de ponto percentual certo? O último ponto inteiro de redução dos juros é quase um escândalo, né não? E o comunicado do Copom foi no sentido de o mercado não se acostumar com esse ritmo. A questão é que as coisas não simétricas, quando a inflação repica os juros saltam escandalosamente, quando é para reduzi-los é sempre no conta gotas, mas quando a economia se retrai a inflação não acompanha no mesmo ritmo. O Banco Central deve mirar na inflação porque a política monetária tem escasso efeito sobre a produção. O Japão passou uns dez anos com a economia parada e os juros encostados em zero, se não me falha a memória os juros nominais chegaram e ser fixados em zero mesmo. Na conjuntura atual as decisões do Copom são praticamente irrelevantes, as decisões relevantes estão sendo tomadas em outras instâncias e a meu ver equivocadamente. Assim como não adianta dar liquidez aos bancos, se a intenção é que eles saiam emprestando como se a crise tivesse desaparecido (claro a liquidez serve para que eles não quebrem) , também as empresas que devem estar tecnicamente quebradas por terem brincado de “hedge funds” não vão sair investindo o dinheiro do BNDES, se a intenção é preservar o emprego e a renda melhor seria o Tesouro gastar diretamente, em infra-estrutura por exemplo.

domingo, 25 de janeiro de 2009 09:45:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Puxa anônimo, agora eu fiquei preocupado. Se um cara tão ignorante quanto eu é seguido -ainda que meses depois- por gente tão sábia e tão preparada, talvez o nosso país esteja mesmo em maus lençóis.

domingo, 25 de janeiro de 2009 15:11:00 BRST  
Anonymous the talk of the town disse...

O Anonimo é só um troll. E fato que em determinados momentos o Alon tem uma visão economica falha. Mas a pergunta hj (se o Anomino é tao exxxperto assim...e acompanha os blogs dos melhores economistas do mundo) que se faz é realmente de que servem os economistas?

Com a crise no capitalismo, quais as bases deverão ser criadas para a Economia, enquanto ciencia. Todos os livrinhos texto que o Anonimo lê, vao ter que ser re-escritos. Isso ele nao percebe. A economia está a beira da morte, nenhuma das ferramentas disponiveis por tal ciencia estão funcionando mais.

Ele poderia começar explicando o que tem de errado no texto.

Mas ele nao vai responder, pq ? Pq ele é só um troll...

domingo, 25 de janeiro de 2009 17:28:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Eu gostaria que vocês me ajudassem, corrigindo minhas obervações quando elas são tecnicamente falhas. E aí? Quem se oferece?

domingo, 25 de janeiro de 2009 23:10:00 BRST  

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