sábado, 17 de janeiro de 2009

Obama seguiu o meu conselho. E o "smart power" de Lula (17/01)

Antes que você suspeite da minha sanidade mental (já que blogueiros são seres especialmente vulneráveis à megalomania), note que a primeira metade do título deste post deve ser lida como uma piada. Eu não resisti, quando vi esta notícia no estadao.com.br:
    Obama manterá Sobel na embaixada no Brasil, diz 'Post'

    AE/AP - Agencia Estado - WASHINGTON - O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, prorrogou por um período não definido a permanência do embaixador dos EUA no Brasil, Clifford M. Sobel. A informação foi atribuída a um importante membro do círculo de amigos do presidente George W. Bush e publicada hoje pelo jornal The Washington Post. A publicação não aponta as razões de Obama para manter Sobel. Aparentemente isso se deve ao desejo do futuro presidente de que o embaixador siga em suas gestões com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem o democrata espera trabalhar em um plano energético regional. Ex-dirigente do Partido Republicano, Sobel foi peça-chave no trabalho da administração no entendimento de Lula e Bush no setor dos biocombustíveis. Em uma reunião há dois anos em Washington, ambos concordaram em empreender um plano piloto de ajuda ao desenvolvimento de tecnologia em vários países do hemisfério ocidental. Sobel, a quem o Post identifica como "um importante doador" da campanha de Bush, também foi embaixador na Holanda.
Leia o resto da reportagem. Vamos resumir. Sobel foi um "importante doador" da campanha presidencial de Bush. Com a eleição do amigo, virou embaixador no Brasil. Onde articulou a agenda bilateral do etanol. Agora, segundo o "Post", Obama deve manter Sobel no cargo. Precisa explicar mais? Se não entendeu, leia de novo desde o começo. Num artigo de uma semana atrás (Janela de oportunidade), eu sugeri ao novo chefe da Casa Branca que nas relações com o Brasil combinasse os ensinamentos deixados por dois presidentes americanos: Calvin Coolidge e Franklin Delano Roosevelt. Ao primeiro atribui-se o esclarecimento de que o negócio dos Estados Unidos são os negócios. O segundo baixou aqui em 1941 e, em troca de dar o impulso decisivo à nossa siderurgia, conseguiu fazer o Brasil parar de flertar com o nazi-fascismo. O presidente da época, Getúlio Vargas, ponderou bem a situação e concluiu que só tinha dois cenários possíveis pela frente, mutuamente excludentes: ou fechava com Roosevelt ou o Brasil seria invadido pelos Estados Unidos, dada a nossa posição estratégica no Atlântico. Como Getúlio era um gênio da política, em vez de optar pelo filofascismo e por terminar pendurado num poste, escolheu o lado certo e ainda levou de troco, entre outras coisas, a construção da Companhia Siderúrgica Nacional. Agora, releia um trecho do que escrevi aqui em Janela de oportunidade:
    Luiz Inácio Lula da Silva é o presidente brasileiro politicamente mais capaz desde Vargas, e certamente saberá extrair o máximo de Barack Obama. Nem o cenário mundial tendente à proteção das economias nacionais desautoriza o otimismo. Para ter sucesso, porém, Lula precisará encaixar a agenda certa. Um ponto de honra é o etanol. O governo e os empresários brasileiros montaram uma espécie de “invencível armada” dos biocombustíveis, vislumbrando um passeio em mar de almirante, com as velas enfunadas pelo preço explosivo do petróleo e pelo pavor planetário com as mudanças climáticas. Só que as embarcações do álcool da cana-de-açúcar, a exemplo da esquadra de Felipe II da Espanha no século 16, ameaçam ir a pique, pela falta de mercado. Já faltava antes da crise global, quanto mais agora. Depois de investimentos maciços no setor, o cenário brasileiro é de oligopolização acelerada, estoques lá em cima, preços lá em baixo, rentabilidade em risco e empresários de pires na mão rumo a Brasília atrás de socializar os prejuízos.
Enquanto vizinhos e um pedaço da esquerda brasileira se esgoelam no antiamericanismo, Lula dá um jeito de que os bons negócios com os americanos continuem caminhando bem. É o preço (barato) para que o Brasil prossiga equilibrando o jogo com os "radicais" (na terminologia preferida dos gringos), os daqui e os das redondezas. A nova secretária de Estado, Hillary Clinton, disse na sabatina dela no Senado (de lá) que, doravante, o governo americano vai ser mais esperto, um poder inteligente, o "smart power". Desculpe Mrs. Clinton, mas em termos de esperteza, de "smart power", enquanto a senhora está se dirigindo ao galinheiro o presidente do Brasil já está voltando com o omelete. Como escrevi quase dois anos atrás, quando Bush nos visitou (As crianças estão brincando lá fora):
    Por enquanto, fica a impressão de que as crianças obtiveram permissão para brincar de anti-imperialismo no quintal, enquanto os adultos conversam na sala sobre grandes negócios.
Santa mudança ortográfica. Agora eu sei, com certeza, que "anti-imperialismo" tem hífen. Desdenhar da reforma é uma roubada. É a minha segunda reforma (a primeira foi em 1971), e vou tentar me adaptar rapidinho. Outra roubada? Ler só as seções de política internacional, sem ler as de economia.

12 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Simplesmente sensacional.
Pablo Juan.

sábado, 17 de janeiro de 2009 11:54:00 BRST  
Anonymous Júlio Waissman disse...

Sua vantagem, Alon, é que você realmente parece conhecer o Lula profundamente. Talvez por isso você consiga escapar do blá-blá-blá, a favor e contra. Parabéns.

sábado, 17 de janeiro de 2009 11:56:00 BRST  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Alon: eu entendi mal ou você se posicionava contra a política do Etanol?

Ou você desaprovava apenas o destaque todo que o Etanol tem na política externa de Lula?

Meu palpite: Lula e o Itamaraty estão apostando alto nisso e devem ter uma visão de longo alcance.

A Embrapa já está investindo em pesquisa com cana na África, onde milhões de hectares estão ociosos, entre outras coisas pela falta de mercados e pelos subsídios dos países ricos.

Acho que isso é só o começo.

sábado, 17 de janeiro de 2009 13:24:00 BRST  
Anonymous Paulo Araújo disse...

Boa análise, Alon. Agora é aguardar pelos fatos que poderão confirmar ou falsear as suas hipóteses e as assertivas que as sustentam. Concordo que as evidências que fundamentam a análise são relevantes.

Só acho (impressão mesmo) que ela força em demasia o viés personalista. Que Lula é um pragmático, não se discute. Mas, quem mais no PT e nas forças políticas que o apóiam partilha com Lula essa visão pragmática da política e da economia? Quais são as forças políticas e econômicas em apoio ao governo, à direita e à esquerda, que não se esgoela, mas faz negócios?

Há, ainda, que comentar uma inverdade histórica no teu texto. Vargas fez sim evidente opção pelo fascismo. Inclusive, tal opção custou a vida de muita gente que se colocou em oposição às afinidades eletivas do governo Vargas. O governo Vargas não se aproximou do nazismo por pragmatismo, mas por ideologia. Não vamos esquecer que os anos que antecederam a ascensão do fascismo em escala planetária foram pródigos, à esquerda e à direita, de críticas às falidas e decadentes democracias liberais. O DNA dos principais ideólogos de Vargas não é democrático e nem é liberal. Também é muito fácil escolher ser pragmático numa conjuntura de derrocada dos países do eixo. O que mais Vargas poderia fazer? Afundar de mãos dadas com o nazi-fascismo? Como não têm escolha todos os que se são derrotados, Vargas não teve escolha que não fosse a rendição. O seu projeto político, o Estado Novo, é o de 1937 e começou a ser derrotado quando os japoneses atacaram Pearl Harbor. Nas palavras de Vargas e por ocasião da conferência dos países sul-americanos no Rio de Janeiro (início de 1942) que decidiram condenar os ataques japoneses aos EUA e romper com os países do eixo, a contragosto de Vargas:

“Grande parte desses elementos que aplaudem esta atitude (romper relações diplomáticas com a Alemanha) são os adversários do regime que fundei (o Estado Novo), e chego a duvidar que possa consolidá-lo para passar tranquilamente o governo ao meu substituto”.

Vargas e seu projeto político de orientação francamente nazi-fascista foram derrotados. O que ele fez com o governo americano foi negociar as condições da sua rendição.

Por último, existem outros elementos que a sua análise não considera, quando foca a aproximação do governo Lula em direção às ditaduras mais sanguinárias deste início de século. O que impulsiona essa aproximação não é apenas o pragmatismo. Há nessa aproximação importantes elementos políticos e ideológicos que não se deve simplesmente eludir sob a rubrica do “pragmatismo responsável”.

Abs.

sábado, 17 de janeiro de 2009 13:53:00 BRST  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Uns comentários sobre Vargas:

Antes da Era Vargas, e durante ela, "democracia liberal" era sinônimo de "dâne-se o povo", melhor seria usar o termo presidencial "sifu o povo".

No início do século XX, "democracia liberal" era irmã gêmea de "liberalismo econômico" ou, se preferirem, de "livre cambismo".

No tempo de Vargas, mulher e pobre não votavam no mundo todo. No Brasil a "democracia" era mero "acerto" entre setores da elite oligárquica.

A "democracia" com a sua conotação popular e "politicamente liberal" que conhecemos hoje, só surgiu com a contribuição de partidos de esquerda e sindicatos depois da II guerra. Aquele negócio de wellfarestate e tudo o mais.

Então não dá para acusar Vargas de não ter sido democrático. Isso praticamente não existia no mundo. Inclusive nos EUA pré-Roosevelt a "demoracia" era uma brincadeira de plutocratas.

O que coube a Vargas fazer ele fez, ao menos quase tudo: controlou as oligarquias agrárias, controlou a plutocracia paulista, lançou as bases da industrialização brasileira, unificou o Brasil sob um Estado nacional.

Antes de Vargas, cada oligarquia local geria os seus interesses diretos sem visão nacional:Partido Republicano Paulista, Mineiro, Gaúcho...

Se Vargas não foi "democrático", ao menos não foi entreguista e colonizado como a direita brasileira de hoje é.

sábado, 17 de janeiro de 2009 16:35:00 BRST  
Blogger Vinicius Duarte disse...

Alon
Adorei,apesar de ser de esquerda,aquela:as crianças estão brincando la fora.
Enquanto a Vargas não me parece que ele era um nazi-fascista radical(isso não é redundáncia pois,acredito eu,ate entre eles havia os moderados)como todo mundo diz.É fato,não tentarei negar,que ele flertou como esse tipo de ideologia(convenhamos,ele nunca morreu de amores pelos estadunidenses).Mas,tenho que dizer,que Getúlio Vargas foi um verdadeiro robinho da política(classificação que outrora você Alon deu para o Lula)pois,como nenhuma outra pessoa,soube aproveitar as chances e sair das inrascadas políticas que apareciam(pesquisem sobre sua vida e "obra" que vocês entenderão o que eu estou dizendo).

domingo, 18 de janeiro de 2009 00:18:00 BRST  
Anonymous Clairton disse...

Parabéns Ricardo Melo, você disse tudo. Se dependesse dos "democratas" liberais a democracia burguesa seria até hoje uma democracia censitária.

De certa forma, é o que acontece atualmente nas democracias burguesas, com a tal da "independência" dos bancos centrais...

domingo, 18 de janeiro de 2009 12:14:00 BRST  
Anonymous Robeerto disse...

"Luís Inácio Lula da Silva é o presidente brasileiro politicamente mais capaz desde Vargas". A afirmação que precede o raciocínio carece de explicação e justificativa. Jogada como prato feito, tipo "a nova cozinha francesa é uma bosta" (by Paulo Francis) a premissa mais parece jogação de confete, torcida a favor ou admiração pessoal que análise independente. Por que Lula seria assim tão capaz? Ou os demais que foram uma lástima? Ou o país que tem avançado institucionalmente, sendo assim, o próximo presidente sempre será mais capaz que o antecessor? Sei não, Alon, mas creio que a história tende a reservar a Lula uma imagem mais folclórica e presepeira que a da capacidade.

domingo, 18 de janeiro de 2009 13:52:00 BRST  
Anonymous Frank disse...

Eu acho q se fará um ajuste de percepção acerca do q foi a era Lula, uns anos à frente.

Parece-me um governo/presidente claramente "over-rated". Visões apaixonadas, elogios derramados, etc. compôem um leitura excessivamente contaminada pela emoção - não aqui no Alon, é claro.

Sobre Vargas e a tal da política "pendular": não se pode esquecer do papel do Osvaldo Aranha, um interlocutor próximo e importante de Vargas, a contrapor a "ala alemã", representada principalmente por alguns figurões do meio militar.

domingo, 18 de janeiro de 2009 22:57:00 BRST  
Anonymous Paulo Araújo disse...

Caro Frank

A figura histórica do Osvaldo Aranha é controversa. Americanófilo convicto, seu mérito é reconhecido por ter sido um contrapeso importante à maioria do governo Vargas, o próprio incluído, que não disfarçava a simpatia pela política do III Reich e seu ideário anti-semita. No entanto, em sua gestão como Ministro do Exterior, emitiu circulares secretas anti-semitas e não impediu que um processo administrativo afastasse a bem do serviço público o embaixador Luiz Martins de Souza Dantas, um grande (e desconhecido) brasileiro reconhecido como um dos justos no memorial Yad Vashem.

A historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro tem uma importante obra de pesquisa, solidamente fundamentada em fontes primárias, sobre o anti-semitismo de Estado no Brasil.

Para quem quiser conhecer o que Tucci Carneiro pensa a respeito.

Uma entrevista da historiadora na revista da FAPESP

http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3489&bd=1&pg=1&lg=

E um artigo que vale a pena ler para conhecer o teor dos estudos da pesquisadora.

A Muralha anti-semita

“Existem pelo menos 24 circulares secretas anti-semitas emitidas pelo Itamaraty entre 1937 e 1948, além da primeira “ordem permanente de serviço”, que antecipava o teor racista da já citada circular nº 1.127 (7 de junho de 1937 e anterior à gestão de Aranha). Este conjunto de proibições tinha conseqüências imediatas na vida daqueles que procuravam fugir das perseguições nazistas que culminaram, em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial, na morte de 6 milhões de judeus, além de milhares de ciganos, testemunhas de Jeová, deficientes físicos e dissidentes políticos. Ao negar vistos aos judeus interessados em emigrar para o Brasil, o governo Vargas deixou de salvar milhares de vidas.”

http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=613&pagina=2

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 05:43:00 BRST  
Anonymous Ricardo Melo disse...

A História desnuda Vargas, mas não apenas Vargas.

Até o chamado pós guerra (II guerra), o que hoje entendemos por "democracia" não valia meia pataca.

No começo do século XX o liberalismo levado às últimas consequências alimentou em todo o mundo uma profunda adimiração da "opinião pública" por líderes com diversas colorações "autoritárias".

Mussolini era elogiado por um refrão de música popular nos EUA.

Hitler era o máximo.

E, individualmente, todos os líderes e seus seguidores tinham os seus podres.

Não era "inn" falar bem de judeu em praticamente qualquer canto.

É fácil encontrar "defeitos" em personagens "vítimas" do contexto de época.

Alexandre o Grande teve o "defeito" de ser homossexual.

Hojse se sabe que até Allende foi vítima intelectual do dito "racismo científico" e que ele cultivava um certo desprezo pelos índios, os quais ele julgava como um obstáculo para o progresso e civiização.

Buscar vícios, defeitos pessoais ou até falhas graves em personagens históricos é tarefa fácil, eles são todos vulneráveis.

Quem quiser achar "anti-semitismo" nas ações de Vargas não vai ter problema, vai achar com muita facilidade. Vai achar isso em Vargas e também em 95% das lideranças políticas não-judaicas dos tempos de Vargas.

O que realmente difere Vargas do resto dos "estadistas" brasileiros do passado - e até do mundo - não foi o seu anti-semitismo.

Vargas criou o que conhecemos por Estado brasileiro na vera acepção da palavra.

Possibilitou que o país saísse da condição de espaço únicamente exportador de matérias-primas.

De quebra, no seu período "democrático" ainda criou a Petrobrás.

Com licença, senhores. Podres e verrugas vocês encontrarão na biografia de Vargas, Lula, Allende, etc.

Esse tipo de estudo "Histórico" tem, entre outras serventias, o propósito de "relativizar" a validade de lideranças nacionalistas e progressistas.

É interessante como até agora não surgiu uma História sobre o anti-semitismo de Franco ou Pinochet.

As verrugas ficam só para os anti-imperialistas e progressistas, os de esquerda.

Fico só pensando o que os "historiadores" do futuro vão descobrir de podres sobre cada um de nós no futuro...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 10:21:00 BRST  
Blogger Richard disse...

Oi Alon, Getúlo Vargas foi um gênio sim. E fez muito mais do que ser o "Pai dos Pobres".
Lula, como vc sabe, já não sei se terá a mesma sorte.
Vamos ver como serão os papos dele com Obama. Aliás, já falaram em encontros para março, abril, antes da Cúpula das Américas, com Lula indo ao encontro de Obama ou este procurando o outro... enfim, vamos ver quem realmente vai precisar de quem!!!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 13:03:00 BRST  

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