terça-feira, 27 de janeiro de 2009

No governo, o aperto; no Banco Central, a gastança (27/01)

O governo federal tomou fortes medidas fiscais para enfrentar a crise. É um passo importante, no rumo certo. Principalmente porque mais disciplina fiscal reduz o campo de manobra do Banco Central na sua eterna resistência à necessária queda dos juros. Perdeu de novo, politicamente, o Congresso. As emendas parlamentares foram congeladas, apesar de representarem essencialmente investimento. E o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foi preservado. Mas voltemos aos juros. O primeiro gráfico (clique para ampliar) traz o câmbio dos últimos dias, desde a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que reduziu o juro básico em um ponto percentual:


Não há oscilação significativa do câmbio de 22 de janeiro para cá. O dólar nem espirrou. Ou seja, havia mais espaço ainda para cortar os juros. Para poupar o tempo dos entendidos, responderei aqui o argumento de quem credita a estabilidade do câmbio pós-Copom à precificação do corte da Selic antes mesmo da reunião do BC. Segue abaixo o mesmo gráfico, só que de um mês para cá (clique para ampliar):


Não se deixe enganar pela curva. Olhe nos números e veja como não há variação expressiva no câmbio desde dezembro. E o corte na Selic não poderia estar mesmo precificado lá atrás, na época em que o BC segurava os juros e os analistas pediam cautela contra as supostas pressões inflacionárias decorrentes da desvalorização do real a partir do estouro da crise, em setembro. Seria uma contradição em termos. Ou seja, não se trata de precificação, mas de margem. Pegar dinheiro emprestado em moeda estrangeira, trocar por real e emprestar ao governo brasileiro continua sendo um dos melhores negócios do mundo. E continuaria assim, ainda que o BC cortasse imediatamente a Selic em mais dois ou três pontos percentuais. O país economizaria no ano algo em torno de 30 bilhões de reais, ordem de grandeza do que o governo vai congelar agora e contingenciar em março. Eis o problema. O governo aperta o orçamento, o que é bom, mas infelizmente o Banco Central continua com a gastança. E sempre em nome da austeridade. Coisa de gênio.

http://twitter.com/alonfe

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1 Comentários:

Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Na minha avaliação equivocam-se os que percorrem a seguinte linha de raciocínio. O Banco Central é autônomo. A taxa de juro elevada está errada. A taxa de juro elevada facilita o ganho do capitalista externo ou o testa-de-ferro do capitalista externo que troca o dólar pelo real e empresta para o Banco Central. Por essa razão estamos em crise e sem perspectiva de sair dela.
Primeiro, é preciso ser ingênuo ou um grande defensor do governo para achar que em algum país do mundo com a importância econômica que tem o Brasil se possa falar em independência do Banco Central. No Brasil, o Banco Central não é autônomo e se Lula quisesse ter outra taxa de juro o Banco Central cumpriria as determinações do Presidente da República.
A taxa de juro no Brasil não é elevada, ou melhor, ela só é elevada de acordo com o ponto de vista. Para manter a inflação em nível que não destrua a popularidade do presidente da República, ela não é elevada. Assim a taxa de juro atual da economia brasileira não pode ser considerada errada. Ela pode causar danos, como o aumento da dívida pública, mas que até isso pode ser bem utilizado: os ganhos dos juros altos da rolagem da dívida pode ser utilizado pela iniciativa privada para grandes construções e obras de infraestrutura necessárias ao país. É preciso um pouco de engenharia e competência.
E não é a taxa de juro elevada que facilita o ganho do capitalista externo ou do testa-de-ferro desse capitalista. É a facilidade do fluxo cambial. O governo deveria criar dificuldades para essa transferência. E não cria não porque o Banco Central não deixa, mas porque ele não possui as condições políticas para implementar uma política como essa.
Essa facilidade de transferência de dólar para o real seria menor se o governo tivesse aprovado a CPMF que exigia menos esforço do que impor barreira ao fluxo cambial. Se ele não conseguiu aprovar a CPMF como ele conseguiria impor barreiras.
E finalmente, estamos em crise porque o mundo todo está e não em razão de políticas equivocadas do Banco Central. E talvez a situação brasileira seja a melhor entre os demais países com PIB superior a uns U$ 500 bilhões se compararmos a situação entre o 2º ou o 3º terimestre de 2008 e a situação que nós vamos nos encontrar no 2º trimestre de 2009. É claro que essa comparação só poderá ser obtida quando forem apresentados os dados do PIB do 2º trimestre de 2009 o que só vai ocorrer em setembro (e até lá poderemos estar todos mortos). Mas agora em início de março teremos a correta avaliação do que ocorreu no último trimestre do ano e assim avaliar melhor a nossa situação econômica.
Por enquanto, embora as exportações estão U$ 1 bilhão semanal mais baixo do que o esperado (Não me desesperei com o valor pouco expressivo das exportações e com os déficits de janeiro porque esse era o antigo padrão das exportações brasileiras, cair bastante no mês de janeiro e fevereiro e as importações ainda estão vinculadas a antigos pedidos) a perspectiva de crescimento puxado pelo mercado externo é verdadeira tendo em vista a alta desvalorização do real após a crise. As exportações de março poderão comprovar se a minha perspectiva é correta ou apenas um sonho.
Outra coisa, enviei um comentário para o seu texto “Por que brigam os ministros? Não tinha terra sobrando?” de 26/01/2009 em que dizia que você precisava de assessoria em economia rural. Isso não quer dizer que você não entende do assunto, como parece que você depreendeu. Creio que você deveria ouvir mais sobre esse assunto. Não precisa ouvir muito, pois, conforme eu lembrei em comentário que enviei para outro texto seu, mencionando frase que imagino tenha sido da lavra de Mary Mcarthy “An open mind about Vietnam has no mind at all”, não vale muito à pena vê todos os lados da questão. Minha crítica naquele post era você não admitir que o Presidente da República pudesse fazer propaganda da cana lá fora, ou querer que a propaganda espelhe exatamente a verdade. Eu, como defensor de Lula, mas não ao ponto de dizer que ele não é responsável pelo juro ou pela liberdade cambial no Brasil, penso que ele faz bem em divulgar os nossos produtos e em encontrar motes que tornem os nossos produtos mais atrativos. É lógico que como cidadão do mundo eu não ache essa prática saudável, mas o mundo não funciona assim como bem lembrou Obama no seu discurso ao se referir aos nossos adversários.
O primeiro comentário do Rodrigo Melo eu vejo como um complemento ao meu no sentido que mostra contradições de interesse e é assim que um governo democrático funciona. No parlamento, o fisiologismo é maior, por isso digo que o parlamento e, portanto, o parlamentarismo, por serem mais fisiológicos do que o executivo e o presidencialismo, são mais democráticos. Não havia fisiologismo no Iraque de Saddan Hussein, na URSS de Stalin etc. No segundo comentário do Ricardo, ele considera que a crítica a bloguistas que achavam que você não entende do assunto era para ele. Se foi para ele, tudo bem
Clever Mendes de Oliveira
BH, 28/01/2009 (Em Pedra Azul/MG)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009 14:09:00 BRST  

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