sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Mais torce do que age (09/01)

A Folha Online informa que o crédito consignado para aposentados recuou 72,9% em novembro, na comparação com outubro. Por quê? Porque os bancos acham que o teto dos juros nesse tipo de operação é baixo, 2,5% ao mês. Isso dá uns 35% ao ano. E é filé sem osso, adimplência garantida. Um spread lindo, se você fizer a conta de quanto o banco paga pelo dinheiro captado. Querem saber de uma coisa? Tanto o Banco Central como a federação dos bancos (Febraban) têm razão nas críticas mútuas. Está na coluna de hoje do Vinicius Torres Freire na Folha de S.Paulo (Incrível, fantástico, extraordinário):
    "Fala sério" , disse mais ou menos Henrique Meirelles a Marcio Cypriano, presidente do Bradesco, que reclamava dos juros altos do Banco Central na reunião de lideranças empresariais com a cúpula econômica do governo, anteontem. Foi "incrível, fantástico, extraordinário", como dizia um velho samba da Portela, um banqueiro do porte de Cypriano, falando pela Febraban, pleitear em público a redução emergencial da Selic. Mais divertido ainda foi que Meirelles cobriu a aposta de Cypriano: disse que o problema não era a Selic, mas o "spread" bancário, a diferença entre a taxa de juros cobrada do público e o custo de captação de fundos pelos bancos. Desde outubro, o "spread" de fato passou a flutuar em camadas ainda mais altas e rarefeitas da estratosfera. Os juros "básicos" na praça, em termos reais, caíram para o piso histórico, a uns 7%.
O afastamento político entre o BC e os bancos é mesmo uma coisa incomum. Decorre dos fatos, pois a realidade começa a dar sinais de que caminhamos para a recessão, e os bancos não querem pagar o pato (político). A produção industrial está em queda (não desaceleração, queda). Os últimos números da indústria automobilística são ruins. E os índices da indústria do final de 2008 não serão melhores, quando vierem a público. Há duas maneiras de combater a ameaça de recessão: investimento público e crédito barato. O primeiro digamos que esteja andando. O segundo é uma distante miragem. Luiz Inácio Lula da Silva sempre reclama que tem gente torcendo para o Brasil afundar na crise. Deve ser gente que não pode fazer outra coisa a não ser torcer. Já ele, que além de torcer pode também agir, por enquanto mais torce do que age.

http://twitter.com/alonfe

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4 Comentários:

Blogger Laguardia disse...

Prezado Alon

Há uma coisa errada no empréstimo consignado ao aposentado além dos juros.

O valor das aposentadorias está muito defasado, õs reajustes não tem acompanhado os reajustes do salário mínimo.

A aposentadoria que se recebe mal dá para cobrir os castos de saúde, principalmente de medicamentos.

Incentiva-se ao aposentado a fazer empréstimos, que tem que ser pagos com desconto no valor recebido do INSS.

Isto quer dizer que além de receber pouco o aposentado ainda vai ver seu rendimento reduzido pelo desconto do empréstimo.

Isto reduz ainda mais o que o aposentado recebe para suas necessidades básicas.

Paulo Paim apresentou um projeto para corrigir esta defasagem, projeto este que não vai passar pois tem a oposição do presidente Lula.

O que o aposentado precisa é de uma remuneração digna e não de um empréstimo consignado, que em nada ajuda ao aposentado, só ajuda aos bancos.

Lula realmente é um caudilho poplista que só sabe jogar para a torcida. Você tem 100% de razão ao dizer que ele mais torce do que age.

sábado, 10 de janeiro de 2009 15:11:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Como um ponto de vista de esquerda você está bem respaldado em defender o desenvolvimento puxado pelo mercado interno. Você tem um companheiro de jornada ilustre: André Lara Resende. Como um esquerdista, da entourage do PMDB, em 1986, aconselhou o governo Sarney a abrir mão de uma política voltada para o mercado externo que tinha assegurado em 84 um crescimento de mais de 4% e em 85 um crescimento de cerca de 7,8% (É claro que a inflação havia subido, mas isso era só problema político que podia ser resolvido reduzindo para uns 5% a 4% o crescimento nos 2 a 3 anos seguintes) e aconselhou a se adotar no lugar uma política de incentivo ao consumo interno. Em 8 meses o país estava de novo de joelhos pedindo ajuda a banca internacional. E a história se repetiu com Collor no período da Zélia (Houve o confisco é certo, mas na seqüência o cruzeiro ficou valorizado e acabou o saldo na balança comercial e o crescimento criando como única alternativa para o crescimento o mercado interno), com FHC no primeiro mandato dele e mesmo no segundo pois a desvalorização de 1999 foi logo equilibrada com uma inflação residual e um juro altíssimo (chegou a 45%) que deu fôlego à valorização do real e a impossibilidade de o Brasil competir no mercado internacional. Mesmo assim com a pequena desvalorização o país cresceu 4% em 2004 e continuaria a crescer se não fosse a barbeiragem sem tamanho do "Apagão Elétrico".
Não esqueça que o André Lara Resende, altamente solidário com a sorte dos mais pobres, que de certa forma são os que mais se sacrificam quando se adota a opção pelo desenvolvimento puxado pelo mercado externo, quando o plano naufragou passou a se dedicar a corrida de automóveis (nas horas vagas, pois em 93 abriu empresa com Luis Carlos Mendonça de Barros com capital de menos de 10milhões de dólares ou de reais (ou cruzeiros) e em 1995 ou 1996 extinguiram a sociedade com mais de 100 milhões de reais ou dólares)
Eu que sempre dei mais ouvido ao direitista do Ignácio Rangel não concordava com o argumento de que o imposto mais injusto fosse a inflação, mas sabendo das dificuldades políticas que ela causa para o chefe do executivo em países democráticos, principalmente quando há reeleição não me preocupo em que se utilize os instrumentos disponíveis para manter a inflação baixa. E concordo com o que o Ignácio Rangel dizia: o pior para a classe trabalhadora é o desemprego. Como países como Japão e Alemanha e agora a China se tornaram grandes potências com políticas econômicas de incentivo ao mercado externo não desejo outro caminho para o Brasil. Ainda mais que não sei de exemplo de país que se tenha tornado grande potência se que o início do desenvolvimento desse pais tenha se dado pela via do comércio exterior.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 10/01/2009

sábado, 10 de janeiro de 2009 17:19:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Lula mais torce do que age. Se ele agir conforme você deseja, provavelmente o país irá se encaminhar para o desenvolvimento puxado pelo consumo interno.
Se ele agir menos mas evitar que o dólar fique abaixo de 2,20 provavelmente até o final do ano o país voltará a crescer e a passos firmes. A segunda opção, na sua opinião parece ser a de um fraco e incompetente, mas na minha é de um estadista.
Vamos ver qual é o caminho que ele vai percorrer.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 10/01/2009

sábado, 10 de janeiro de 2009 18:02:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, já vi coisa mais bizarra. Também um diretor do Bradesco, creio que Lázaro Brandão, não lembro em que governo, mas antes do plano Real, disse que o governo tinha de baixar os juros, porque ele já estava cansado de ganhar dinheiro fácil. Engraçado como a idéia de que banqueiro sempre ganha com juros altos tornou-se um falso truísmo, mas ela só é verdade quando os bancos não passam de brokers da dívida pública e, portanto, não são propriamente bancos. Como o crédito no Brasil cresceu rapidamente nos últimos anos, e o Bradesco deve ter sido um dos bancos que mais participou nesse crescimento da oferta de crédito, a preocupação de Cypriano provavelmente não tem origem apenas em seu compadecimento com os ditos setores produtivos, mas com a perspectiva de perdas com a recessão. Não é propriamente o “pato político” que a Febraban não quer pagar, até porque esse “pato” eles pagam sistematicamente, em um país cuja ideologia hegemônica (de esquerda) enxerga os bancos como parentes próximos da bandidagem. Agora, mais engraçado, é ver burocratas experientes como Alan Blinder ou o ex-banqueiro Meirelles dizerem-se surpresos com a elevação dos spreads e a redução do crédito em momento de retração econômica, quando esse é o movimento defensivo natural, não apenas do capital sobre o qual “estão sentados”, é bom lembrar, mas também do dinheiro dos depositantes. A diferença entre banqueiros e burocratas está justamente aí: enquanto os primeiros precisam responder continuamente pelo valor do capital (acionistas) e de seus passivos (depósitos), os segundos contam com toda complacência da “viúva”. O mais absurdo da crise é justamente o Sr. Paulson torrar indiscriminadamente dinheiro público para corrigir a lambança regulatória em que sua repartição esteve envolvida, e vendendo a mentira de que evitaria a recessão. A diferença entre o pânico dos burocratas nos países centrais e a última decisão do Copom está justamente em que esta última sinaliza que por aqui ainda não vigora o salve-se quem puder, ainda que venha a se revelar exageradamente conservadora. Lá como cá, a recessão “está contratada” e tanto o Sr Paulson é impotente para impedi-la como a contribuição do Copom para agravá-la ou suavizá-la é marginal. O presidente deveria confiar mais em sua intuição, se a marola é um conceito físico relativo (podendo ir da marola criada pela queda de uma gota d’água à tsunami, que é a marola de um terremoto) o que se passa por aqui ainda é uma marola, e menos no aspone keynesiano que o incentivou a recomendar um comportamento irresponsável aos cidadãos, consumindo e gastando mais, para salvarem seu governo.

domingo, 11 de janeiro de 2009 12:32:00 BRST  

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