sábado, 31 de janeiro de 2009

Livre-comércio nos intervalos do FSM (31/01)

"Globalização" é um termo apenas da esfera da propaganda. Não há diferença essencial entre o que se quer dizer com "globalização" e o que já se dizia com imperialismo. Ou seja, não é uma categoria nova. Já escrevi isso outras vezes. A preferência por "globalização" em vez de imperialismo é uma herança do pós-colapso do socialismo europeu. Quando o paradigma intelectual passou a ser o "fim da históra", mandaram-se para o arquivo as categorias do marxismo assim dito clássico. Junto com imperialismo, aposentaram-se, por exemplo, a mais-valia e a luta de classes. O imperialismo passou a ser visto como um fenômeno quase natural, cuja superação passaria pela sua "humanização". Daí o surgimento de categorias como a "globalização solidária". O anti-imperialismo era bem identificado com os movimentos de libertação nacional. E a "antiglobalização"? É o quê? No máximo, um vetor associado a causas ambientais, ao multiculturalismo. Ao desejo piedoso de remodelar o imperialismo. O que leva a situações bizarras. Luiz Inácio Lula da Silva compareceu ao Fórum Social Mundial em Belém. Um evento assumidamente "antiglobalização". Num dos intervalos, o presidente foi conversar com os jornalistas, para manifestar sua preocupação com as tendências protecionistas deflagradas pela crise econômica mundial. Ou seja, Lula teme que o livre-comércio seja afetado pelas pressões que, em todos os países, trabalhadores e empresários fazem sobre os governos em busca de proteção para a mão-de-obra e o produto nacional. Mas, notem bem, o principal pilar da "globalização" é o livre-comércio. O bichinho era a menina dos olhos do odiado (no FSM) George W. Bush. Resumindo: Lula compareceu a Belém para falar mal da "globalização" durante as atividades oficiais e defender o livre-comércio nos intervalos. Talvez esteja em paradoxos assim a origem da perplexidade dos intelectuais.

http://twitter.com/alonfe

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3 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

A burritsia é contra o que eles chamam de "governos capitalistas", ignorando que capitalismo não é forma de governo, mas um modo de produção que caracteriza umas das etapas do desenvolvimento histórico da humanidade, de acordo com Marx. Não há nada mais burro e francamente anti-Marx do que declarar-se contrário à globalizão, pois ser contra ela é ser contra a realidade (Do mesmo modo, não é uma estupidez declarar-se contrário ao modo deprodução feudal?). A globalização não é esse monstro gerado pelo vil capitalismo, mas integra e constitui um processo histórico iniciado a centenas de anos. Se há um mérito que não se retira de Marx é o da previsão rigorosa do mercado global no capitalismo, que não é outra coisa diferente da globalização hoje em curso acelerado. No meu entendimento, tal tecido feito pelas mãos dos homens diminuiu a miséria e tem operado como um modo de produção francamente hostil às ditaduras.

Essa parolagem de convescote sobre o “outro mundo possível” é mesmo autocentrada e, portanto, infantil. Ela parte de uma certeza que é compartilhada por um grupo e se apresenta como verdade universal. Pensar igual é o cimento que mantém firmemente unidos os indivíduos do grupo, que expulsa do seu convívio o diferente. Este cimento é a imagem de um mundo permanentemente em crise ou em franca decadência. Este o elemento comum que unifica e dá sentido à arenga, seja ela ambientalista, econômica, social, política, etc. O axioma comum a todos esses discursos é o da “boa physis” vilipendiada pela ciência, pela técnica, pela razão que, finalmente, criaram este maléfico presente com o seu capitalismo e com a sua nefasta globalização. Ou seja, tudo é culpa da civilização corruptora da “boa physis” humana. Nessa mentalidade tosca e pré-Marx, estão presentes o instinto de rebanho, o instinto de turba, o instinto de torcida, a gritaria por slogans, o espírito de seita. Tudo ou é preto ou é branco. Todas as formas são duras. Não há lugar para os matizes e para a multiplicidade das formas. Como dizia o Lefort, são os egocratas com a sua ideologia de granito.

Uma última consideração: silenciam sobre tais metafísicas os atuais doutores da igreja de Marx. Você, eu e todos os que leram as Teses sobre Feuerbach (principalmente a Tese 11, a que diz que está na hora [kayrós] de parar com os delírios racionais sobre mundos possíveis) poderíamos fazer uma crítica rigorosamente de Marx contra o FSM. Mas eles não a fazem. Por quê? Por motivos bastante prosaicos: os padres da igreja precisam de grana, prestígio social e, sobretudo, os seus doutores têm uma irrefreável vontade de adesão ao poder do líder e ao poder das maiorias.

sábado, 31 de janeiro de 2009 16:48:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Eu tenho crítica antiga ao uso do termo globalização que talvez eu já tenha enviado para o seu blog. Você não gosta das coisas antigas, mas fiz uma consulta na internet e parece que ele não consta em nenhum outro blog, então mando ele para esse seu texto intitulado "Livre Comércio no intervalo do FSM" de 31/01/2009.
Na minha crítica eu digo:
"Qualquer QI acima de 100 sabe que Globalização é um termo que não admite definição consistente.
Se um QI acima de 100 conseguir fazer uma definição consistente de globalização ele perceberá que o seu significado já é de uma definição conhecida: Imperialismo, Capitalismo, Comércio Exterior, Telecomunicação, Internet, Queda do muro de Berlim, Fim da URSS, etc.
Mas se esse intelecto privilegiado, aprimorar a sua definição e chegar a algo ainda não definido, sem dúvida que ele não conseguirá dar duas ou mesmo uma conseqüência ou efeito importante ao seu novo achado terminológico.
Mas, supondo ainda que não se trata de um mero achado, e sim de uma definição precisa e inovadora fruto de um QI já chegando aos 200 e de um esforço abnegado (ai tá uma contradição: um esforço abnegado não é próprio de um QI privilegiado).
Então chegamos a este ponto: estamos diante de uma definição consistente, que não é sinônimo de outro termo e possui uma ou duas conseqüências importantes. Bem nesse caso, há um muro intransponível: encontrar para ela um termo inicial. Essa já não é mais uma tarefa para um super dotado. Para sair desse atoleiro, é preciso ser Deus. Isto se a própria definição não for Deus. O que cai na primeira esparrela: é sinônimo de uma definição pré existente. Ou na última: um termo inicial. E esta última, se nos orientarmos por um achado de Fernando Pessoa, é intransponível: “. . . não haver Deus é um Deus também . . .”"
Essa crítica era endereçada para os que usam o termo "Globalização" aleatoriamete. Para esses eu ainda fazia a complementação:
"De todo modo, eu espero que nos próximos textos, quando utilizarem o termo globalização façam ao menos uma referência ao sentido que se quer dar à expressão. Algo como: globalização, aqui entendido como a circunavegação, ou, globalização neste texto usado para referir-se as normas de Direito Romano, etc, etc e tal."
Minha opinião é que esse termo não deveria ser empregado a menos que a pessoa referisse explicitamente de que se tratava. Excetuando o Paulo Nogueira Batista Neto, eu não tinha muitos argumentos de autoridade em defesa da minha crítica.
Em 1997 juntou-se a mim alguém de importância: John Kenneth Galbraih. Em entrevista a Enio Carreto no Il Corriere della Sera, e saída na Folha de São Paulo de 02/11/1997 diante da seguinte questão posta pelo Enio Carreto:
"Corriere - Mas as reações em cadeia não seriam também um efeito da globalização?"
J. K. Galbraith deu a seguinte resposta:
"Galbraith - Globalização é um termo que eu não uso. Não é um conceito sério. Nós, os americanos, o inventamos para dissimular nossa política de entrada econômica nos outros países. E para tornar respeitáveis os movimentos especulativos de capital, que sempre são causa de graves problemas."
Não era bem o que eu dizia, mas ajudava na minha cantilena.
Agora vejo o Paulo Araújo defendendo a globalização. Ele não deu um sentido para ela a não ser no sentido de intensificação e espraiamento do capitalismo. Bom, nesse sentido, considerando o termo como um processo cujo o início não seria bem definido a não ser que ele fosse associado ao surgimento da moeda, ou um pouco mais além ao surgimento da civilização com o surgimento das primeiras práticas capitalistas eu não teria não teria argumentos a opor. Acrescentaria apenas que o processo de intensificação e espraiamento levará ao apogeu e portanto à superação do capitalismo. Por isso que eu defendo todas as práticas que levam a essa superação. Aprendi que o capitalismo mais se desenvolveu com o aumento da carga tributária que significa também aumento do poder do Estado e, portanto, aumento do poder dos poderosos ou de quem controla o Estado que normalmente são os poderosos.
Acompanhando cada país observo que o aumento da carga tributária, apesar de aumentar o poder do Estado, que está a serviço de quem detém poder, isto é, capital permite que a distribuição de renda melhora.
Assim, se globalização significa aumento da carga tributária, o Paulo Araújo pode estar certo que ele terá mais um aliado em defesa do conceito.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/02/2009

domingo, 1 de fevereiro de 2009 11:07:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
A falta de vírgula depois de capital e antes de permite tirou o sentido da frase " . . . o aumento da carga tributária permite que a distribuição de renda melhora." E a frase ainda melhoraria se o verbo melhorar estivesse no subjuntivo. Espero que você e os blogueiros tenham paciência e tempo para ir entendendo o que pretendo dizer apesar dos meus erros.
Aproveito para contar outra do meu radicalismo contra o termo globalização. Eu dizia que os que criticavam ou falavam bem da globalização assim o faziam por ingenuidade ou por falta de boa-fé (Não era falta de boa-fé) que eu dizia. E dava como exemplo o Lula e o Milton Santos. Antigamente Lula falava da globalização por ingenuidade. Depois ele observou que falando em globalização ele tinha melhor trânsito junto ao Forum Econômico Mundial em Davos. A partir dai ele falava em globalização por falta de boa-fé.
O Milton Santos percebeu que na Universidade todos falavam em globalização e que ele teria mais dificuldade em difundir suas idéias se fosse visto como um intelectual negro que se opunha a globalização. Por isso a tentativa dele em dar um conteúdo bom a globalização, como se depreende já do título do último livro dele, escrito em 2000, "Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal" pela Editora Record.
Continuo pensando, como expressei em outro texto, que você quer um governo com um discurso muito certinho. Só FHC, que falava sempre como estivesse em sala de aula para alunos submissos, fazia discursos iguais. E mesmo ele tinha uma certa modulação. Lula tem que falar de acordo com os interesses do país e se esses interesses são melhores atendidos com esse discurso pluralista (Eu ia dizer dualista) ele deve continuar a fazê-lo. É claro que o jornalista pode utilizar isso para criticá-lo, mas seria melhor que o jornalista apontasse em que esse discurso é prejudicial ao país.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/02/2009

domingo, 1 de fevereiro de 2009 19:29:00 BRST  

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