sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Janela de oportunidade (09/01)

Se Barack Obama quer ter boas relações com o Brasil, basta que se oriente pelo que disse Calvin Coolidge e pelo que fez outro presidente americano, Franklin Delano Roosevelt

É com os dedos cruzados de esperança que a área econômica do governo brasileiro aguarda a posse de Barack Obama na Presidência dos Estados Unidos no próximo dia 20. Quem olha para o Palácio do Planalto e se fia nas aparências pode até enxergar antiamericanismo em certos momentos das relações entre os dois países. Mas quem procura saber da vida real percebe que a reza brava na Esplanada é pela recuperação na economia americana. Nos ministérios que contam, essa é melhor aposta para evitar que o Brasil breque numa intensidade politicamente prejudicial ao governo.

Houve um tempo em que Luiz Inácio Lula da Silva, então na oposição, debitava muitos dos graves problemas nacionais a uma suposta falta de vontade política dos governantes. Por esse critério, os ranzinzas poderiam observar agora que, como falta a Lula vontade política para fazer o Banco Central e o sistema financeiro servirem ao país, o nosso presidente deveria torcer para que Barack Obama consiga movimentar a grande locomotiva do norte.

É também a situação nos demais países latino-americanos, mais dependentes ainda da exportação de commodities e desprovidos de um mercado interno musculoso como o nosso. Daí que, paradoxalmente, o atual cenário de dificuldades políticas regionais esteja a abrir uma ampla janela de oportunidade para os norte-americanos estreitarem suas relações no hemisfério —e reafirmarem a hegemonia . Afinal, se o negócio dos Estados Unidos são os negócios, conceito creditado a um presidente americano, Calvin Coolidge, é possível que a fome esteja mais perto de se juntar à vontade de comer do que indicam as aparências.

Existem é certo os conflitos ideológicos. Mas hoje, como ontem, eles devem ser vistos com alguma reserva. Nos anos 30 do século passado, por exemplo, um vetor progressista no subcontinente era representado pelo nacionalismo apoiado em massas urbanas emergentes. Mais ou menos como agora (talvez não na Bolívia, onde a base de Evo Morales é também rural). No impulso anti-imperialista, correntes socialmente progressistas chegaram no Brasil a inclinar-se em direção à Alemanha de Adolf Hitler, flertando por exemplo com o antissemitismo. O que só mudou quando os Estados Unidos 1) deixaram claro de que lado estavam e que, portanto, o outro lado provavelmente perderia a guerra e 2) ofereceram ao Brasil oportunidades de desenvolvimento. Foi assim que Getúlio Vargas conseguiu fazer nascer a Companhia Siderúrgica Nacional, entre outras vantagens arrancadas do colega Franklin Delano Roosevelt.

Luiz Inácio Lula da Silva é o presidente brasileiro politicamente mais capaz desde Vargas, e certamente saberá extrair o máximo de Barack Obama. Nem o cenário mundial tendente à proteção das economias nacionais desautoriza o otimismo. Para ter sucesso, porém, Lula precisará encaixar a agenda certa.

Um ponto de honra é o etanol. O governo e os empresários brasileiros montaram uma espécie de “invencível armada” dos biocombustíveis, vislumbrando um passeio em mar de almirante, com as velas enfunadas pelo preço explosivo do petróleo e pelo pavor planetário com as mudanças climáticas. Só que as embarcações do álcool da cana-de-açúcar, a exemplo da esquadra de Felipe II da Espanha no século 16, ameaçam ir a pique, pela falta de mercado. Já faltava antes da crise global, quanto mais agora. Depois de investimentos maciços no setor, o cenário brasileiro é de oligopolização acelerada, estoques lá em cima, preços lá em baixo, rentabilidade em risco e empresários de pires na mão rumo a Brasília atrás de socializar os prejuízos.

Se Barack Obama quer ter boas relações com o Brasil nestes dois anos, basta orientar-se pelo que Calvin Coolidge disse e fazer o que Franklin Delano Roosevelt fez.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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6 Comentários:

Anonymous Pedro Brias disse...

Um dia eu gostaria de ser capaz de escrever com a sua ironia e a sua sutileza.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009 10:30:00 BRST  
Anonymous Jura disse...

Já eu não entendi, Alon. Sinceramente. Você está insinuando que os EUA devem comprar mais etanol do Brasil? Mas você não diz - com razão - que isso pressionará o preço dos alimentos e a fronteira agrícola? Ou então devem reduzir o protecionismo, que você já provou matematicamente que não vai acontecer?

Tô boiando.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009 10:56:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

S-E-N-S-A-C-I-O-N-A-L. Poderia levar o título daquele quadro do Silvio Santos, "Tudo por dinheiro".

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009 11:48:00 BRST  
Anonymous KLD disse...

Hahahahahahahahahahahahahahaha. Uma lição sobre como tratar os políticos brasileiros.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009 11:49:00 BRST  
Blogger Hugo Albuquerque disse...

Alon,

Que há uma torcida por Obama mundo adentro, não resta dúvida, mas eu creio que o buraco da economia americana seja mais embaixo - e são dois, diga-se de passagem.

Como Paul Krugman vem escrevendo há muito, muito tempo, não é possível um país viver tanto tempo muito além de suas possibilidades como os EUA - e não cansa de citar o exemplo emblemático do Império Espanhol.

Não vi no plano de governo de Obama nada de revolucionário na economia, por isso me preocupo tremendamente; o fato é que desde Reagan, os EUA passaram a usar de maneira mais enfática o espaço de manobra que ser emissor da moeda de reserva do ocidente - e depois do mundo - lhes concedia.

No entanto, confundiu-se poder grande com poder infinito, e o resultado foi a conversão do país em um Estado perdulário, que confiava numa conjuntura global eternamente favorável - com os países emergentes lhes rementendo importações baratas em largas escalas, ao mesmo tempo que financiavam o seu déficit público com os excentes gerados.

Esqueceram-se os americanos que o poder do Dólar era fruto de uma construção política e não econômica; os EUA cresceram menos que a média da economia mundial desde a segunda guerra mundial, e se naquela época representavam mais da metade das riquezas produzidas no planeta, hoje, respondem por apenas um quinto.

Se todos os dólares circulantes no globo, lhes fossem remetidos, haveria um inequívoco colapso econômico interno; dessa maneira a força dessa moeda decorre de uma algo totalmente abstrato: O poder dos EUA e sua capacidade potencial de exercer a hegemonia mundial - só que esse, por sua vez, não é infinito ou eterno, e coisas bem concretas atestam seu aumento ou dimunuição, uma delas é o seu grau de dependência do exterior, o que é comprovado concretamente através de sua dívida externa, o outro, mediante sua capacidade de exercer a hegemonia mundial e garantir a paz, que hoje é questionada.

A medida que os EUA se tornam mais incompetentes para conduzir o globo e apresentam uma dependência tanto fiscal quanto comercial do exterior, sua credibilidade e seu poder desabam; se as duas curvas se encontrarem ele acaba.

Em termos práticos, o grande gargalo no âmbito fiscal são os gastos militares - que envolvem não apenas as Guerras do Afeganistão e do Iraque como também com a manutenção de inúmeras bases militares pelo mundo, além do gasto na manutenção do seu arsenal e os gastos no aperfeiçoamento tecnológico deste.

Obama teria de fazer uma readequação estratégica dos forças americanas pelo mundo para tornar isso correspondente às suas condições, que são as de quem tem apenas um quinto da economia americana e não mais metade.

Por outro lado é necessário promover uma desvalorização controlada do Dólar para que não choque a economia mundial e ao mesmo tempo reduza o déficit da balança comercial.

Isso, claro, sem falar em aumentar a regulação do mercado financeiro americano, entre outras coisas.
Enfim, são medidas duras que representam um desafio ímpar para a administração Obama, que até o momento tem mostrado uma certa limitação política até mesmo dentro do próprio partido.

Por fim, depois desse longo, porém necessário comentário, eu creio que mais do que tomar medidas heterodoxas para reaquecer a economia - como Bush fez aos montes -, a nova administração terá de rever os fundamentos da economia americana, o que certamente significará um desgaste político pesado, que eu não sei exatamente se Obama está disposto a arcar - ou se tem condições políticas para isso.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009 12:44:00 BRST  
Anonymous Lucas Jerzy Portela disse...

"desde Vargas" não, Alon. Desde JK, por favor...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009 17:17:00 BRST  

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