sábado, 24 de janeiro de 2009

Inverteram a última tese de Marx sobre Feuerbach (24/01)

O ministro Tarso Genro diagnosticou outro dia na Folha de S.Paulo (Fala D'Alema) a anemia orgânica e intelectual da esquerda diante da crise econômica planetária. O diagnóstico foi certeiro. Os críticos do liberalismo e do imperialismo ("globalização") não poderiam sonhar com um cenário mais favorável: a desregulamentação do capitalismo e a atrofia do Estado não conduziram a humanidade ao paraíso prometido nos anos todos em que a liberdade do capital foi entronizada como dogma número zero da civilização. Entretanto, apesar das excepcionais condições objetivas, faltam as subjetivas. A esquerda parece contentar-se com o prazer de ver o adversário intelectualmente na lona. Satisfaz-se com o "eu bem que avisei". Propostas? Alternativas? Só nos limites do keynesianismo. O sujeito se levanta, incha a veia do pescoço, proclama a crise do "neoliberalismo" e da "globalização" e apresenta sua plataforma revolucionária: aumentar o investimento público. Parece pouco? É pouco. E isso quando a fórmula não vem acompanhada da liberalíssima "necessidade imperiosa de reduzir impostos". Daí que pessoas com ambições políticas e intelectuais além da média -como é o caso do ministro Tarso Genro- possam estar frustradas. Aliás, a crítica dele fez-me lembrar da décima-primeira e última tese de Karl Marx sobre Ludwig Feuerbach (o da foto). A tese é de Marx, mas quem a incluiu nas obras do filósofo alemão foi seu parceiro, Friedrich Engels:
    Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo [o mundo].
O que mais se vê hoje em dia é gente usando o brochinho do teutônico mas tocando a vida como se a tese tivesse sido escrita ao contrário. Antes, tratava-se de transformar o mundo. Agora, diante da suposta impossibilidade de mudar o mundo, o prazer está em interpretá-lo. Daí a satisfação em poder dizer o "eu não disse?". Clique aqui para conhecer essa e as demais teses de Marx sobre Feuerbach. Por que eu falo sobre a "impossibilidade" de mudar o mundo? O PT travou ao longo de anos uma feroz luta política em torno da reforma agrária. Sempre ressaltou que a concentração da propriedade fundiária no Brasil era um dos pilares da nossa cruel (falta de) distribuição de renda. Quando o PT estava na oposição, atacava sistematicamente os governos por distribuírem pouca terra, ajudando a perpetuar o latifúndio. Bem, o PT chegou ao governo e sua política agrária em nada difere do que vinha sendo feito antes. Distribui uma terrinha aqui e ali, enquanto promove a renegociação amiga das dívidas dos grandes proprietários rurais e é sócio da modernização conservadora, cujo exemplo mais emblemático é a indústria do etanol de cana-de-açúcar. Eu conheço esse pessoal há mais de trinta anos, e sei desde lá atrás que eles não dão a mínima para a reforma agrária. Que sempre a consideraram uma reivindicação pequeno-burguesa, superada historicamente pelo avanço do capitalismo no campo brasileiro, em parceria com a grande propriedade (via prussiana). Daí que eu não tenha me decepcionado, como se decepcionou por exemplo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST):
    "O presidente [Luiz Inácio] Lula [da Silva] diz por aí que ele é um aliado dos sem-terra. E também que é aliado dos latifundiários e do agronegócio. Então ele não é amigo de ninguém, ele é amigo dele mesmo. Ele não é nosso inimigo, mas também não é nosso amigo. Nós não convidamos o governo Lula para nossa festa porque vamos evitar constrangimentos."
A declaração é de João Paulo Rodrigues, da liderança nacional do MST. A festa de que ele fala? O Encontro Nacional da organização camponesa. Pois é, o radicalismo "socialista" dos críticos da reforma agrária nos anos 70 do século passado acabou nisto: na sociedade com o latifúndio capitalista. Ainda sobre a reforma agrária, é sintomático que o ministro de Lula mais preocupado com o assunto não seja nenhum petista, mas Roberto Mangabeira Unger. Que parece conhecer a importância de expandir a fronteira agrícola e ocupar os limites do Brasil com base na agricultura familiar. Escrevo aqui sobre a reforma agrária, mas poderia escrever sobre os bancos. Sobre a impotência governamental diante do oligopólio financeiro e da drenagem que o cartel promove na riqueza nacional. Ou poderia escrever sobre o contraste entre as declarações bombásticas de soberania e a submissão às pressões internacionais pela demarcação irracional de terras indígenas em área de fronteira. Ou sobre a ausência de uma reforma urbana. Quase uma década de governo petista terá se passado sem que o país progrida na democratização da propriedade nas cidades. Vejam que, exceto a demarcação das terras indígenas (assunto em que o ministro Tarso e eu temos posições bastante diferentes), são todos assuntos da agenda do PT na oposição. Eu faço este blog desde meados de 2005, quando voltei ao jornalismo depois de mais de uma década de "exílio interno". Sempre escrevi aqui que Lula faz um bom governo. Mas para a biografia dos protagonistas talvez seja insuficiente. Daí que de vez em quando certos assuntos saltem para a agenda, como que saídos do nada. É o caso do caso Cesare Battisti. Outro exemplo é o desejo recorrente de reinterpretar o alcance da Lei de Anistia. As coisas se passam como se de tempos em tempos, por espasmos, o presente se esforçasse para encontrar algum elo com o passado, para desesperadamente agarrar a mão do acrobata que balança no trampolim acima. Mas esse esforço de "coerência" só é visto em assuntos laterais. Ainda que úteis, nas circunstâncias. O governo Lula agora investiu mais de R$ 70 milhões no Fórum Social Mundial que acontece em Belém do Pará. O governo Lula nada tem a apresentar ali em assuntos como a reforma agrária, a reforma urbana ou o controle do sistema financeiro. Então, vai falar da punição aos torturadores e do refúgio concedido a Cesare Battisti. Ou, talvez, de como a aliança com o fundamentalismo religioso pode ser um caminho para o socialismo -por representar, quem sabe?, o elo mais fraco na cadeia imperialista. Não deixa de ser uma saída. Momentânea, mas certamente uma saída. Especialmente para quem se especializou em ler ao contrário a última tese de Marx (ou de Engels) sobre Feuerbach.

http://twitter.com/alonfe

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12 Comentários:

Blogger Paulo C disse...

Shameless self-promotion:
A décima-primeira tese sobre Feuerbach

PS: Alon, nem publica este comentário, é só para você mesmo. E completamente off-topic, porque eu não escrevo poesia "engajada" com nada exceto, se eu tiver sorte, com a língua. Mas achei engraçada a coincidência.

domingo, 25 de janeiro de 2009 02:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O Alon cobrando coerência? Ha, ha ha!

domingo, 25 de janeiro de 2009 08:24:00 BRST  
Blogger Roberto Rosário disse...

O Alon está certo.
Pior ainda é ver esta (e outras mais) interpretações de obras de Marx sendo regurgitadas pela metade na academia. Nem intelectualidade os marxianos conseguem produzir.

domingo, 25 de janeiro de 2009 13:37:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Havia prometido a mim mesmo dar um tempo nos meus longos comentários. Mas aí você me aparece com este provocativo post.

Caro anônimo (Domingo, 25 de Janeiro de 2009 08h24min00s BRST)

Volte ao post e releia-o.

A tese sobre Feuerbach a qual Alon se refere rende, até hoje, panos para manga. Nesse escrito de Marx, um dos momentos da certeira crítica ao idealismo alemão. É como se ele dissesse: chega de delírio racional. Vamos nos ater ao exame dos fatos, isto é, ao que é efetivo. Se quisermos transformar a sociedade com ciência e arte, isto é, propor e efetivar uma outra tecitura para o mundo dos homens, é para e sobre a efetividade que os fatos demonstram que devemos exercer o nosso pensamento, pois é dessa matéria que a história é constituída. Digamos, por fim, que a partir daí Marx entrou na biblioteca de Londres e lá sentou a bunda durante anos a fio antes de escrever a sua crítica da economia política.

Recorro à clareza de pensamento do professor Roberto Romano, que em outro momento e circunstância tratou das questões que estão neste post:

Iniciemos com as “origens”. Longe de atestarem a existência (real ou suposta) de um modelo apenas de pensamentos, paixões, desejos, o PT foi produzido tendo como padrões pelo menos três paradigmas (para saber quais, ler a íntegra do escreveu Roberto Romano. Link abaixo). Antes de continuar, devo dizer que não sigo o pensamento organicista e que, para mim, todas as formas de vida coletiva são produzidas pelo engenho e pelas mãos dos homens. Assim, eles podem tecer a sua existência em teares ideados pelas suas mentes e executados pelas suas mãos. Insisto na distinção produzida por Marx : “Uma aranha efetiva operações parecidas com as do tecelão e a abelha poderia envergonhar muito arquiteto humano (Baumeister), pela construção de suas celas. Mas o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que o arquiteto constrói (gebaut) a cela na sua cabeça antes de construí-la na cera. No final de todo o processo de trabalho emerge um resultado que já tinha sido concebido na representação (Vorstellung) no início, logo já existia de modo ideal (ideell)”. Teci considerações sobre esta vexata questio marxista e também epistemológica em artigo publicado pela Revista Educação e Sociedade (“A crise dos paradigmas e a emergência da reflexão ética, hoje” RES, Número 65, o texto pode ser lido na Internet no seguinte endereço: www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/hemeroteca/eds/vol19n65/eds_artigos19n65_2.pdf). Das metáforas filosóficas herdadas e ampliadas por Marx, a do “tecido” é das mais preciosas. Os laços que unem os “indivíduos concretos em situações concretas” (Ideologia Alemã) não são “reais” mas efetivos. Ou seja, eles não existem desde a Eternidade, mas foram fabricados em determinados tempos e determinados espaços finitos. Eles são o resultado de uma Wirklichkeit (onde o termo Wirken, “operar” enquanto verbo é essencial no seu lado semântico, bem conhecido sobretudo por Marx, mas já usado pelos pensadores alemães que o antecederam na recusa da “realidade” metafísica, é “tecelagem”) e não reportam-se à uma inamovível Realität. Se os laços sociais foram “tecidos” num certo tempo e num certo espaço, eles podem ser tecidos novamente, em lugar do tecido antigo e gasto. Se a sociedade, ou qualquer instituição humana, fosse “real”, seria tolice ou loucura tentar modificá-la, transformá-la em outra (de acordo com a frase que, de tanto ser repetida, esvaziou-se : “Die Philosophen haben die Welt nur verschieden interpretiert; es kömmt drauf an, sie zu verändern”). Em meu livro Corpo e Cristal, Marx romântico, no capítulo “Democracia e Universidade. Interpretação e Mundo na Tese 11 contra Feuerbach— Considerações para a crítica da ´prática-prática´”, apresentei o quadro em que surgiu a frase famosa e os seus efeitos sobre a cultura progressista). A técnica e o pensamento são essenciais quando se trata de transformar a sociedade, o que significa o seguinte: sem técnicas e saberes, unidas à vontade, impossível alterar instituições e mentes. Para esse alvo, é preciso ter um conjunto de representações que definem modelos variáveis. Estes, por sua vez, servem enquanto paradigmas que não se encontram fora do tempo e do espaço, numa Eternidade inatingível.”
http://www.adufpb.org.br/artigo.php?id=296

Se a metáfora do tecelão ativada por Marx é correta como premissa, então a questão é perguntar sobre a obra de tecelagem que nos sugerem aqueles que o Alon critica. O post indaga sobre quais tecituras e conclui, corretamente, que os críticos do tecido alheio não são capazes de oferecer, fora do idealismo em que estão imersos, uma outra tecitura da história. Enquanto eles discutem sobre a trama dizendo que ela é ruim e declarando bravateiramente aos quatro ventos a falência do liberalismo, os tecelões liberais estão a duras penas trabalhando para corrigir com a ciência e com a técnica a trama que se esgarçou. Enquanto os adversários trabalham a nova tecitura, os que o Alon critica declaram ao mundo que o “neoliberalismo” foi à lona. Que a pancada foi dura, eu não duvido. Mas nada autoriza proclamar o knockout barvateiro. Enfim, não sabem como bater. E se o capitalismo cair de podre, não sabem o que colocar no lugar. Enquanto eles proclamam a inexorável superioridade moral das suas imaginárias tecituras, os liberais trabalham, isto é, refazem ou iniciam novas efetividades. A arrogância não é privilégio da esquerda, mas é certo que encontra nela um solo bastante fértil para prosperar.

Para mim, o post enfileirou toda uma ordem de questões com as quais eu tenho muitas discordâncias. No entanto, não li o post como uma moralista "chamada no saco" dirigida ao campo da esquerda. Li o post como espécie de passada de régua bastante coerente com tudo o que o blogueiro vem escrevendo aqui, o que, aliás, não é de hoje.

Abs.

domingo, 25 de janeiro de 2009 14:41:00 BRST  
OpenID olhosdonorte disse...

O post foi muito bom. A Alon sempre trazendo argumentos e explicações ricas e profícuas. Se a trama liberal que bem tecida (para os fins deles),está hoje se esgarçando, os demais tecelões de esquerda e outros não conseguem pegar as pontas desta trama esgarçada para tecer as suas próprias tecituras, criando nova trama. Esse momento nebuloso, delicado, pode ser fértil.
Como sempre parece que falta uma pauta de ações para transformação entre aqueles que criticam. Falta a pauta para dizer que fio pegar e para onde seguir a tecitura. É preciso lembra que nao se pode fazer tal trama sem olhar o passado recente... (e passado)de onde provem algumas legitimidades ou ilegitimidades para falar e pregar certas coisas.

domingo, 25 de janeiro de 2009 16:42:00 BRST  
Anonymous Tiago Mesquita disse...

Alon, post excelente. Em geral a crítica ao governo não pensa projetos nacionais fica num disse que disse que não diz nada, mas vamos à reforma urbana.
Acho que o melhor projeto do PT no assunto é a urbanização de favelas em Belo Horizonte. Além da urbanização, é um projeto ambicioso de legalização dos moradores de áreas irregulares. Acho que tem escala, volume e é aplicável a todo o país. O que você acha do Vila viva? O que você acha do Ministro Patrus Ananias?

domingo, 25 de janeiro de 2009 21:21:00 BRST  
Blogger André Egg disse...

Alguém acha que o Marx teve sucesso em propostas para transformar a sociedade? Decerto a URSS, ou a China, ou Cuba são os modelos.

O que sobra de Marx é a capacidade de compreender o funcionamento do capitalismo. Só quem entende isso continua marxista no século XXI.

O PT não implantou tudo que propunha quando era oposição? Será que é porque não tem nem 20% do congresso, quase nenhum governador, poucos prefeitos de grandes cidades, até mesmo poucos ministros?

Quem achar que dá para fazer assim tão fácil, lembre o que aconteceu com Allende no Chile...

Conseguir se equilibrar na corda-bamba da política atual tem sido o grande mérito de Lula.

E o saldo de seu governo será positivo.

Trouxa quem acreditava que "Lula lá" seria A Revolção.

domingo, 25 de janeiro de 2009 22:56:00 BRST  
Blogger Richard disse...

Caro Egg, Lula foi eleito pela MUDANÇA! Palavra esta que está, em destaque, no dicionário de Barack Obama... e não está lá a toa!!!
Lula jogou fora toda força que teve nos primeiros dias em "equilibrar-se na corda-bamba da política". Com isto, não sobrou muito para fazer as MUDANÇAS necessárias (incluindo a política e a tributária de que fala o Alon), somente ganhando algum mérito os programas assistencialistas na linha Bolsa-qq-coisa.
O PT não é a esquerda, mas apropriou-se, ainda mais quando chegou ao poder, de todos os slogans, teses e sonhos. Como não realizou "nem 20%" do prometido, deixou a percepção de que o sonho acabou... ou não era realmente possível.
Lula vai gastar uma grana para levar sua própria claque ao FSM e tentar escapar de críticas mais contundentes de integrantes vivos da esquerda, aqueles que não ficam só no "eu bem que avisei".
Vc pode me achar um trouxa, mas tenho certeza que até vc esperava mais deste (des)governo!
E, para vc, eu talvez seja mais trouxa ainda por acreditar que muitas idéias boas vão sair do próximo FSM... e que muitas destas idéias serão implementadas pelo Grande Irmão do Norte. Os milhões de trouxas que apostaram na MUDANÇA prometida por Obama talvez tenham mais sorte que os pragmáticos que acham, até o momento, que Lula faz um "bom governo".

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009 12:31:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Andre Egg,
Concordo com você.
Não creio, entretanto, que a tese de Marx nos impeça de querer interpretar o mundo, ainda mais quando nos sentimos fracos para o transformar.
Na minha interpretação, as outras interpretações são fracas por apontar a crise como crise do neoliberalismo, ou liberalismo. Neo liberalismo é modelo do mundo acadêmico, mas não há nem houve governo insano que tenha ousado adotá-lo. A crise que temos é do modelo Keynesiano, que foi o modelo adotado a partir da crise de 30. Na década de 70 o governo Nixon ao acabar com o padrão ouro deixou claro isso ao dizer: "somos todos keynesianos" Com Ronaldo Reagan nós tivemos o crescimento do déficit público para a estratosfera e o mesmo se repetiu com George Walker Bush.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/01/2009

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009 13:02:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Paulo C.,
Você deve conhecer o poema Politics de W. B. Yeats para contrapor a declaração de Thomas Mann segundo a qual "No nosso tempo o destino do homem apresenta o seu sentido em termos políticos".
No endereço (http://www.oindividuo.com/convidado/martim27.htm) voce pode encontrar o poema completo de Yeats. Sou a favor da política e a considero superior a qualquer atividade (O que significa que, embora tenha gostado do texto no endereço indicado, não concordo com algumas das ideias do autor sobre política), mas dou razão à Yeats.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 26/01/2009

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009 14:19:00 BRST  
Anonymous Paulo Araújo disse...

Alon

Como a promessa está quebrada somente (espero) para este post, Lá vai.

Quando Roberto Romano escreve que a metáfora do tecelão foi herdada e ampliada por Marx, é preciso saber que o professor refere-se aos filósofos das Luzes, principalmente Diderot, reconhecendo assim uma ligação direta de Marx com o Iluminismo. Tal ligação, fundamental para o pensamento de Marx, é hoje negligenciada ou mesmo criticada por expressivos setores da intelectualidade que se reivindica de Marx. Não é por acaso, portanto, que hoje assitimos com preocupação o contrabando das idéias de pensador nazista Carl Schmitt para o campo da esquerda, bem como a não menos preocupante inversão do verdadeiro significado histórico do Holocausto. Peço também atenção para a decisão de Bento XVI que, mais uma vez, envergonha os católicos. Aquela que na semana passada reabilitou para a Igreja que se diz de Cristo um hierarca do catolicismo de origem britânica que negou publicamente e com todas as letras a efetividade do Holocausto. Não sei se no ato de absolvição veio expressa a necessária penitência e afirmação de arrependimento: retratação pública da impostura com o devido pedido de perdão aos judeus.

Sobre a metáfora do tecelão em Diderot, consultar o verbete da Enciclopédia sobre a indústria e a técnica de tecelagem, entre outros escritos.

Abaixo, uma notável evidência dos vínculos de Marx com Diderot na metáfora do esgarçamento do tecido social.

Marx ligou-se diretamente à cortante idéia do século XVIII: nada seria estável. Tal idéia, que, recordando, foi banalizada ao extremo pelas frivolidades do pós-modernismo nos anos 80 (refiro-me especificamente ao badaladíssimo “Tudo Que É Sólido Desmancha No Ar” de Marshall Berman), está expressa em um dos seus mais importantes escritos:

“Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de idéias secularmente veneradas, as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes mesmo de ossificar-se. Tudo que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas.” (Manifesto Comunista)

Conversam num banco em Argenson os dissolutos Marx e Diderot.

"Qu'est-ce que ce monde, monsieur Holmes? Un composé sujet à des révolutions, qui toutes indiquent une tendance continuelle à la destruction; une succession rapide d'êtres qui s'entre-suivent, se poussent et disparaissent: une symétrie passagère; un ordre momentané" (Diderot, D. Lettre sur les aveugles. Oeuvres Philosophiques, Paris, Garnier, 1964, p. 123.)

Arrisco uma tradução via Google e com ajuda de dicionário, avisando que o meu francês quase não dá para o gasto:

O que é este mundo, Sr. Holmes? Um composto sujeito a revoluções, as quais indicam uma continua tendência para a destruição, uma rápida sucessão de pessoas que “s’entre-suivente” (que se seguem ao acaso?), que se impulsionam e se escondem (se afastam?): uma simetria fugaz, uma ordem momentânea "(Carta sobre os cegos. Oeuvres philosophiques, Paris, Garnier, 1964, p. 123.)

A “Carta sobre os cegos” é considerada pelos estudiosos do assunto um “texto nuclear na moderna demolição da metafísica”.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009 15:23:00 BRST  
Blogger André Egg disse...

Curioso que esta parte do Marx fica convenientemente esquecida.

Tá cheio de marxista que nunca leu Marx, a ficar com a parte fácil da inevitabilidade do socialismo, movido pela classe mais dinâmica da sociedade capitalista - o proletariado.

Não é bem assim, e está-se precisando ler Marx direito.

Coisa que a turminha que aprendeu dele pelos soviéticos tem um pouco de dificuldade.

Para o Richard eu diria que o Lula só foi eleito quando abandonou o discurso de MUDANÇA. Só votei nele por falta de melhor opção (em 1998, 2002 e 2006) - mas não acreditava em mudanças muito significativas de um governo que se elege com os aliados que a turminha do Zé Dirceu escolheu.

A vantagem é mesmo que os governos recentes foram tão ruins que é difícil não ficar bem na comparação.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009 12:50:00 BRST  

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