terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Incrível propensão (20/01)

Militantes e dirigentes do PT soltaram uma nota criticando a posição oficial do partido sobre a guerra em Gaza. É uma continuação do assunto tratado no post O antissemitismo, o pragmatismo e o horror da guerra. Destaco um trecho da nota dos críticos:
    Em nossa visão, a nota [da direçào do PT] posiciona equivocadamente o PT em relação a um conflito de notável complexidade, devido, em síntese, aos seguintes pontos:
    (...)
    ii. banaliza e distorce o fenômeno histórico do nazismo;
    iii. não registra a necessária condenação ao terrorismo;
    iv. não afirma o reconhecimento do direito de existência de Israel negado pelo Hamas;
    (...)
Os dissidentes foram ao ponto. Quanto à "nazificação", acho que o assunto está esclarecido pelo texto de Robert Fisk cujo link coloquei em post anterior. E é verdade, a posição oficial do PT não condena o terrorismo, nem defende que Israel deve ter o direito de existir. A crítica à direção partidária gerou várias reações em defesa da cúpula, como pode ser verificado no site do PT (uma boa maneira de localizar é fazer a busca por "Gaza"). Dois nomes chamaram minha atenção entre os críticos da posição oficial: os ministros Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vanucchi (Direitos Humanos). Quem lê este blog sabe das minhas diferenças com ambos quando o assunto é a reinterpretação da Lei de Anistia. A posição deles na polêmica petista sobre Gaza faz sentido. Seria complexo defender que a tortura é imprescritível e, ao mesmo tempo, relativizar a condenação do terror. Não ficaria bem. Ainda sobre o PT e Gaza, a resistência petista a condenar o lançamento de foguetes pelo Hamas contra a população civil de Israel faz crer que o PT considera essa uma forma legítima de luta, nas circunstâncias. Assim como é perceptível que há uma pressão no PT (e no PCdoB) para rever a defesa do direito de Israel à existência. Talvez por Israel ter virado um aliado fiel dos Estados Unidos. O curioso é que as relações entre a esquerda e o sionismo nem sempre foram ruins. A União Soviética reconheceu Israel logo de cara. Do outro lado do espectro, o Reino Unido se absteve na votação da ONU em 1947 que dividiu o território do mandato britânico na Palestina, entre um estado judeu e um árabe. Com o passar do tempo, e com a progressão da Guerra Fria, o nacionalismo árabe acercou-se da URSS enquanto Israel buscou apoio nos Estados Unidos. E houve então um realinhamento da esquerda mundial. Por falar em reposicionamento, as dificuldades atuais dos árabes da Palestina explicam-se também pela incrível tendência de seus líderes escolherem nas guerras o lado que vai perder. Estavam com o Império Otomano entre 1914 e 1918 (enquanto a Legião Judaica combatia no exército de Sua Majestade). Quando chegou a Segunda Guerra, inclinaram-se para a Alemanha de Adolf Hitler. Da Wikipedia, sobre o esforço britânico para recrutar gente na Palestina para as fileiras da luta contra o nazismo:
    Despite the efforts by the British to enlist an equal number of Jews and Arabs into the Palestine Regiment, three times more Jews volunteered than Arabs. As a result, on August 6, 1942, three Palestinian Jewish battalions and one Palestinian Arab battalion were formed. At this time, the Regiment was principally involved in guard duties in Egypt and North Africa. The British also wanted to undermine efforts of Hajj Amin al-Husayni who successfully drummed up Arab support of the Axis Powers against the Allies. (...) After early reports of the Nazi atrocities of the Holocaust were made public by the Allied powers, the Prime Minister Winston Churchill sent a personal telegram to the US President Franklin D. Roosevelt suggesting that "the Jews... of all races have the right to strike at the Germans as a recognizable body." The president replied five days later saying: "I perceive no objection...". After much hesitation, on July 3, 1944, the British government consented to the establishment of a Jewish Brigade with hand-picked Jewish and also non-Jewish senior officers. On September 20, 1944, an official communique by the War Office announced the formation of the Jewish Brigade Group of the British Army. The Zionist flag was officially approved as its standard. It included more than 5,000 Jewish volunteers from Palestine organized into three infantry battalions of the Palestine Regiment and several supporting units.
Vale aqui um link para Mohammad Amin al-Husayni, o Grande Mufti de Jerusalém (foto). Foi o fundador do moderno nacionalismo árabe palestino, cujas origens devem ser buscadas na revolta árabe de 1936-39. Durante o conflito mundial de 1939-45, o Mufti aspirava fazer aos judeus da Palestina o que os alemães faziam aos da Europa. Em frente. Logo depois da derrota do nazismo veio a Guerra Fria, em que o mundo árabe alinhou-se maciçamente à União Soviética. O resultado da Guerra Fria também é conhecido. Vejam que não estou aqui a dizer que o nacionalismo árabe ficou do "lado errado" nessas guerras todas. Eu apenas registro a insistência em escolher o lado que vai acabar perdendo. O exemplo mais recente foi dado por Yasser Arafat, que apoiou a tomada do Kuait pelo Iraque de Saddam Hussein, que depois seria derrotado na Guerra do Golfo. A História costuma cobrar um preço alto de quem fica do lado que perde. Especialmente de quem perde as guerras em que se envolve. Direta ou indiretamente.

http://twitter.com/alonfe

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3 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

A razão democrática sabe perfeitamente que nenhum governo e nenhuma Razão de Estado estão imunes a críticas. A razão totalitária sabe perfeitamente que apenas um governo e uma Razão de Estado estão livres de ser criticados.

As agências internacionais trazem, desde o início do conflito, notícias sobre perseguições do Hamas aos seus opositores, sob o pretexto de punir os que estariam colaborando com Israel. O alvo principal são os militantes do Fatah, sobrando também para os demais árabes palestinos que por algum motivo são considerados inimigos do Hamas. Disso pouco se fala.

Quando disso se fala, é dito como um mantra que “a culpa é dos judeus”, pois os judeus sempre foram os culpados de todo o mal que vai no mundo. Sendo os judeus o puro mal, é preciso odiá-los. O que vai em Gaza é somente a “prova” (a justa-causa moderna para o mais antigo ódio do mundo) e a expressão de uma parte dessa maldade originária. Conseqüência lógica, elimine-se a fonte do mal para que a bondade natural possa finalmente triunfar e iluminar a Palestina. O mundo livre de judeus seria o “outro mundo possível” desses amantes de utopias totalitárias.

Não são poucos os que nas suas manifestações sobre Gaza (nos artigos de opinião, nas entrevistas e análises dos assim denominados professores e especialistas em Oriente Médio, nos blogs de militantes políticos, etc.) repercutem em diferentes modulações de voz a tese da “nazificação” de Israel. Tal tese não explicita, mas deixa oculto este outro inevitável corolário lógico: o sionismo atualiza no real (na história) o verdadeiro ser do Estado de Israel, isto é, o sionismo é a essência real e efetiva do nazismo. Neste delírio racional, na sua versão moderada, o Estado de Israel seria embrionariamente uma outra forma histórica do Estado nazista. Na modulação extremada, já seria a sua forma superior. As opiniões divergem sobre a forma, mas concordam sobre a essência.

Também não foram poucos os que aplicaram o conhecido método “recorta e cola e retira do contexto” sobre o livro do Robert Fisk, que duvido tenha sido lido pela maioria que o cita como prova da verdade. Quem puder ou quiser ler o texto do Fisk que está linkado no blog verá que o autor manda um explícito recado. Ele diz claramente que a sua canoa não foi feita com os paus que mostraram os arautos. Obviamente, aos arautos não darão a este Robert Fisk que não lhes interessa a mesma publicidade.

Nas defesas apaixonadas dos arautos da boa nova, repletas de indignação seletiva e assertivas sem provas, a surrada, mas eficiente, técnica sofista de convencimento. Tais retóricas acentuam a pouco evidente (para dizer o mínimo) face do Hamas - a face da vítima mansa e cordial que só deseja o diálogo e o supremo bem palestino - para convencer, pelo contraste, sobre a indiscutível natureza terrorista e genocida de Israel.

Essa a operação lógica do intelecto que busca inverter pela ideologia o significado histórico e real da palavra Holocausto.

E assim renasce o conselho de Goebbels: minta, minta, minta quando o que estiver em causa é o triunfo da nossa vontade.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009 16:53:00 BRST  
Anonymous Jura disse...

E essa agora? Kaddafi defende um Estado único em Israel/Palestina. Isso também significa negar a existência de Israel? Tem gato na tuba?

http://www.nytimes.com/2009/01/22/opinion/22qaddafi.html?th&emc=th

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009 17:37:00 BRST  
Anonymous Ricardo Melo disse...

Pobre Mufti, escolheu o lado errado na guerra.

Pobre povo palestino. Agredido e humilhado "não merece perdão" nem um Estado soberano. Afinal, sempre lembrarão do erro histórico do Grande Mufti...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009 08:03:00 BRST  

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