domingo, 4 de janeiro de 2009

Unilateralismo nos olhos dos outros (04/01)

De volta à ativa, após uns dias de férias (em que postei algumas sugestões de leitura). A Folha de S.Paulo publicou dias atrás um texto traduzido do britânico The Independent com o título Guerra [entre Israel e o Hamas] é movida puramente por razões políticas. O artigo é ruim. O título, um sintoma da sua baixa qualidade. Mostrem-me uma guerra que não seja politicamente motivada. Ou uma que não tenha sido. Sabe-se disso desde pelo menos Clausewitz. A guerra é a continuação da política por outros meios. A situação das relações entre Israel e seus vizinhos parece complicada, mas vista de um ângulo político é coisa relativamente simples. Existe Israel. Existem também as nações árabes que já admitem a existência de Israel. E há os países e grupos políticos que mantêm o projeto de destruir Israel. Há três atores que assumem o projeto sem rodeios: a atual cúpula iraniana, o Hamas e o Hezbollah. Então, naturalmente, o conflito atual na Faixa de Gaza entre Israel e o Hamas é político, contrapõe estratégias políticas distintas para a região e estourou porque esses projetos antagônicos entraram numa etapa de desequilíbrio, dado que o equilíbrio entre eles é necessariamente instável, por causa do antagonismo. E a guerra acontece não apenas por culpa de políticos insensíveis, de olho nas eleições ou na popularidade. Isso é reducionismo e indigência intelectual. Por que o Hamas interrompeu o cessar-fogo? Porque vinha perdendo apoio popular, principalmente devido às dificuldades econômicas decorrentes, também, do bloqueio israelense a Gaza. E por que Israel bloqueia Gaza? Para enfraquecer o Hamas e para tentar conter o fornecimento de armas ao grupo, para evitar que ele adquira um poder militar semelhante, por exemplo, ao do Hezbollah. Por que Israel não bloqueia a Cisjordânia? Porque a Fatah não se alinha ao Hamas, ao Hezbollah e ao Irã no projeto de destruir Israel. A Autoridade Palestina, controlada pela Fatah, aceita discutir a solução de dois estados lado a lado em segurança. Que é a única solução possível. Será alcançada? Não se sabe. Nem se, muito menos quando. Há muitos obstáculos no caminho. Anos atrás havia uma tese de que o melhor projeto para a Palestina seria um estado laico democrático em todo o território. Uma tese irrealista, que na prática desapareceu, derrotada pela vida e pelos fatos. Até porque nem o Hamas e a Fatah, ambos palestinos, conseguem conviver pacificamente num mesmo estado palestino, já que um não admite ser governado pelo outro. Estado laico e democrático estável no Oriente Médio é peça de ficção. Nos últimos tempos parece ter surgido um relativo consenso em torno da ideia dos dois estados, coisa que eu defendo faz uns trinta anos. Ideia que enfrenta, porém, a oposição feroz de quem ainda deseja destruir Israel. É gente que está relativamente isolada, apesar de as aparências poderem indicar que não. A Síria, por exemplo, balança em direção a um acordo de paz com Israel nos moldes do pacto feito por Jerusalém com o Egito. Mas os rejeicionistas estão isolados, não estão derrotados. O Irã, por exemplo, acredita que poderá atingir seus objetivos (destruir Israel) quando possuir mísseis com ogivas nucleares. Esse é o substrato da guerra em Gaza. Uma guerra política. Como todas as outras. A diplomacia brasileira tem deplorado o uso da força por Israel em Gaza e recomendado o recurso das partes a instâncias internacionais. Curioso. Quando o Equador recorreu à arbitragem internacional para dirimir uma pendenga comercial dele com uma empresa brasileira Luiz Inácio Lula da Silva não achou bom, não viu graça nenhuma e mandou retirar o embaixador brasileiro de Quito. E ameaçou o Equador com um boicote comercial e financeiro. Um bloqueio à brasileira. Foi um ato de força, de uma potência regional contra um pequeno país da sua órbita. Uma recado para, entre outros, o Paraguai, que pede a revisão do acordo de Itaipu. Se Lula fez isso por causa de uma arenga negocial, o que faria, por exemplo, se o Paraguai lançasse foguetes sobre Campo Grande (MS) para tentar retomar o que pegamos deles na guerra de século e meio atrás? Lula iria choramingar na ONU ou adotaria outro tipo de providência? Pelo comportamento do Brasil no caso equatoriano, conclui-se que os organismos multilateriais podem até ter a sua utilidade para um governo brasileiro sedento de protagonismo, como é o governo do PT. Mas fica nítido que isso não vale quando se trata de assuntos no nosso quintal. Aqui, pelo menos, somos iguaizinhos a todos os outros países. Quando dá, resolvemos no braço. Quando não dá, amaciamos a voz e fazemos juras de amor à diplomacia. Unilateralismo nos olhos dos outros, como se sabe, é um suave refresco.

http://twitter.com/alonfe

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12 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Também concordo com o seu artigo onde defende dois Estados independentes: Israel e Palestino. Mas, acredito, que a questão principal que azeda as relações entre judeus e palestinos seja a dos assentamentos de colonos na Cisjordânia. É uma provocação aos palestinos e`à diplomacia mundial. Por que a ONU não exige de Israel (e faça cumprir) o imediato desmantelamento destes quistos no território alheio.

domingo, 4 de janeiro de 2009 11:22:00 BRST  
Anonymous Ary da Silva Martini disse...

Depois dessa ginástica toda, fiquei cansado.

domingo, 4 de janeiro de 2009 17:33:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Então descanse.

domingo, 4 de janeiro de 2009 17:52:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, para variar você conegue manter o equilíbrio, mesmo num assunto em que você visivelmente tem lado. Parabéns. Eu não meu alinho com você, mas o respeito.
Maria Fuad.

domingo, 4 de janeiro de 2009 17:57:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Não sei até que ponto a reação do governo brasileiro em relação ao Equador foi tomada por razões internas ou externas. Na minha percepção o governo queria mostrar para a população que é um governo forte. Você trouxe razões externas. Nada as obsta, mas ainda prefiro as minhas.
Não sei se já mencionei uma frase de Winston Churchill aqui no seu blog, mas desde o fracasso de Doha, eu tenho combatido as críticas que se fizeram ao governo brasileiro com ela. Dizia Churchill, provavelmente após a percepção que a Inglaterra estava saindo do cenário mundial como a grande superpotência que fora no Séc. XIX: "Toda a história do mundo se resume no fato de que quando as nações são fortes nem sempre são justas, e quando elas querem ser justas não são suficientemente fortes".
Em alguns dos comentários que enviei para outros blog, associei essa frase ao texto de José Luís Fiori que saiu publicado no Valor Econômico de 23/05/2008 intitulado "A turma do deixa disso". Com a frase e o texto fica muito mais fácil explicar quase todas as ações do Brasil no Mundo. É claro que como se trata de opinião, frase e texto podem estar errados. Não é essa, entretanto, a minha opinião.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 04/01/2009

domingo, 4 de janeiro de 2009 18:51:00 BRST  
Blogger Vinicius Duarte disse...

Gostei da comparação entre a guerra que esta se dando agora e a que houve no séc.XIX.
E digo como brasileiro,em relação a guerra do Paraguai,que é uma vergonha o que fizemos aquela povo pois,apesar de não termos começado a guerra,nossa reação foi,como esta acontecendo agora em Gaza, extremamente desproporcional,desbamcando em um verdadeiro genocídio(leiam sobre a historia desse conflito que vocês entenderão).
Já no caso do conflito em Gaza,e ai esta a diferença do nosso caso para o deles,o "buraco é mais embaixo" pois temos que considerar o conflito em Gaza como mais de um episidio de uma "novela" que se arrasta a mais de 60 anos.Ha 60 anos houve uma das maiores injustiças da historia da humanidade que foi exatamente a expulsão do povo palestino de suas terras pela criação do Estado de Israel.E a 60 anos o problema decorrente disso vem afligindo os povos daquela região,problema esse que é o estopim de guerras e mais guerras.

domingo, 4 de janeiro de 2009 18:57:00 BRST  
Blogger Nehemias disse...

>Se Lula fez isso por causa de uma >arenga negocial, o que faria, >por .exemplo, se o Paraguai >lançasse foguetes sobre Campo >Grande (MS) para tentar retomar >o .que pegamos deles na guerra de >século e meio atrás?

Acho que o Lula deveria se preocupar mais com outra "Faixa de Gaza", aquela que fica aqui no país dele, no Rio de Janeiro. A "Faixa de Gaza" aqui do Rio, a Av. Leopoldo Bulhões, em Benfica (tente atravessa-la a noite, e vc vai descobrir o porque do apelido, isso, é claro, se vc conseguir chegar até o final).

Sem menosprezar o sofrimento dos civis palestinos (e, também, por outro lado, as centenas de foguetes que caem na cabeça da população do sul de israel), vi que 500 pessoas, do lado palestino, morreram desde o início da Guerra (5 em Israel). Não fiz as contas, mas quantas pessoas morreram em São Paulo, Recife, Rio e BSB nos últimos dias por violência urbana? Acho que o número deve ser parecido.

Mas nosso governo parece mais preocupado em se envolver em assunto internacional complexo, espinhoso e distante, do que com a segurança de seu próprio povo aqui no Brasil. Estamos em Guerra faz muito tempo.

Abs,

Nehemias

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009 10:33:00 BRST  
Anonymous Luca disse...

O caso do calote do Equador deveria deixar um aprendizado para o Brasil.

Dar crédito para uma pais cujo Governo trata o direito de propriedade como algo incerto? É mais do que insensatez. É burrice pura e simples.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009 12:37:00 BRST  
Anonymous Luiz Lozer disse...

Querido Alon

Não entendi por que que você barrou o meu comentário, não era ofensivo nem raivoso. Não entendi, acho até que você, por razões óbvias, devia evitar esse tema.


Luiz

terça-feira, 6 de janeiro de 2009 13:30:00 BRST  
Blogger Leonardo Bernardes disse...

A guerra é movida por razões políticas no sentido de que são questões políticas internas que animam as ações -- particularmente, a eleição em fevereiro e a possibilidade de derrota apontada pelas pesquisas de opinião. Tanto que as recentes pesquisas apontam crescimento da intenção de votos após as investidas israelenses, em favor do Kadima, claro. Não sei em que sentido essa opinião é indigente, ela parece bem razoável considerando que os ataques foram planejados com 6 meses de antecedência, antes mesmo do cessar fogo ter sido sancionado.

Claro que o Hamas vive de fomentar o ódio contra Israel, mas com base no que você diz que ele estava perdendo força? Se estivesse perdendo força então a tática israelense de aprisionar os palestinos e mantê-los em regime de privação serie eficiente, o que não é verdade. Por que explicar não a quebra do cessar-fogo, pois o prazo já havia expirado, mas sua não renovação, pela perda de força do Hamas e não pela intransigência quanto a política de aprisionamento israelense? Ou porque não explicar como reação aos pequenos ataques praticados por israel DURANTE a vigência do acordo? "However, others say that the truce was thrown into jeopardy in November when the Israeli military killed six Hamas gunmen in a raid on Gaza. The Palestinians noted that it was election day in the US, so most of the rest of the world did not notice what happened. Hamas responded by firing a wave of rockets into Israel. Six more Palestinians died in two other Israeli attacks in the following week."

Longe de ser uma simplificação, parece uma possibilidade real em vista do pouco valor que um país organizado, rico e poderoso, demonstra pelos civis de um terrotório pobre, fraco e representado politicamente por uma força terrorista.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009 13:48:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Luiz, releia seu comentário e vc verá por que vetei. Mas o debate segue. Abs.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009 17:50:00 BRST  
Anonymous Frank disse...

Alon, esse artigo está fantástico.

Muita gente encantada com a Realpolitik (sobretudo no atual governo e apoiadores) tem dificuldade para entender q se trata de uma via de 2 mãos.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009 20:22:00 BRST  

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