quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Com meses de atraso (22/01)

Virou consenso o ponto de vista defendido insistentemente aqui desde a eclosão da crise econômica mundial, em setembro. O de que uma queda radical e imediata do juro básico não teria maiores efeitos sobre a inflação, por causa da imensa dificuldade (impossibilidade) de repassar a alta do dólar aos preços finais, dada a redução abrupta da demanda. Redução alimentada pela restrição (em volume e preço) do crédito e pelo declínio da confiança do consumidor. Se tiver curiosidade, pode percorrer os posts de outubro, novembro e dezembro. Verá quantas vezes o tema foi aqui repisado, enquanto em outros lugares você ouvia falar da "cautela" necessária para observar os efeitos da desvalorização cambial nos preços. Ontem, o Banco Central reduziu o juro básico em um ponto percentual. Poderia tê-lo reduzido em dois. Ou três. Quem fez a conta hoje foi o Leonardo Zanelli, no blog da Miriam Leitão.
    A redução da taxa de juros feita há pouco pelo Copom, de 1 ponto percentual, reduziu a Selic para 12,75% ao ano. Havia espaço para isso, a inflação está cedendo, o câmbio não afetou. Se o corte fez com que o Brasil caísse da segunda para a quarta posição entre os países com as maiores taxas de juros nominais do planeta, atrás de Venezuela (18,6%), Turquia (13%) e Rússia (13%), o país permanece na nada honrosa primeira posição entre os países com os maiores juros reais do planeta: 7,8%, bem acima do segundo lugar, a Hungria, que tem 5,8% de juros reais. É bom lembrar que em todos esses países a inflação é maior do que a do Brasil, e na Venezuela o último número divulgado de inflação foi 25%.
Esse é o resumo da ópera. O nosso juro básico real ainda é, de longe, o maior do mundo. Ou seja, pegar dólar (ou euro, ou libra) emprestado, trocar pela moeda brasileira e emprestar ao governo brasileiro continua a ser um dos melhores negócios do mundo. Filé de carne argentina sem osso. Uma delícia. Outra observação. No intervalo de pouco mais de um mês, o BC fez duas reuniões. Na primeira, deixou o juro como estava. Na segunda, baixou em 1 ponto percentual. Ora, por mais que a situação tenha se agravado, ela já estava bem grave em dezembro. E a crise começou em setembro. Em dezembro, até eu que sou leigo já tinha percebido o tamanho da onda. A discrepância radical entre as duas decisões mostra que o BC talvez esteja meio perdido. Ou ele estava errado em dezembro, ou está errado agora. Outra hipótese é que ele venha se conduzindo politicamente, num grau maior do que seria desejável. Mais preocupado em defender seu espaço de poder do que em agir profissionalmente. Espera-se que o próximo governo corrija isso, pois o governo atual parece impotente para lidar com a situação. Ainda sobre os quatro meses de atraso na inflexão do BC, alguém deveria fazer a conta do que (e quanto) isso vai representar numericamente em empregos perdidos. E mandar a fatura para Luiz Inácio Lula da Silva.

http://twitter.com/alonfe

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6 Comentários:

Blogger Fernando disse...

Kd a oposição?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009 10:06:00 BRST  
Blogger Leonardo Bernardes disse...

Cadê a oposição? Bem, tem alguém ganhando nessa história toda, não é? Ou você acha que isso é um masoquismo institucional?

O PT, se tivesse na oposição, tava chiando barbaridade. Agora, com o PT leniente e a oposição fazendo vistas grossas, quem vai nos salvar?

Sabe quem? As urnas, como sempre. Quando a patacoada toda começar a ameaçar a estabilidade do PT, daí eles começam a agir com celeridade. É bom que seja rápido, pois Alckmin já tá de mãos dadas com Serra. Nuvens negras se avizinham no horizonte petista.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009 13:11:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A leniência com a alta Selic e o alto spread vem de longe. O fato de que a conjuntura internacional favorável permitiu o aumento do emprego e do crescimento não significa que essa leniência não tenha tido custos. O crescimento e o investimento poderiam ter sido maiores durante as vacas gordas mundiais. Na bonança também se perde...
Você só está preocupado agora por uma questão eleitoral.
Mas, creia, crescer 8% é melhor que crescer 5% e construir 10 fábricas é melhor que construir 8!
Se o gato - não importa sua cor - pode caçar 10 ratos, por que caçar só cinco?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009 04:44:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Concordo com tudo, mas vamos problematizar.

Desde o 1º governo Lula eu tive inveja dos 8% ou mais de crescimento da Venezuela e Argentina dos Kirchner.

Hoje, olhamos para os lados e vemos esses e outros se debatendo com inflação acima de 20%. Dá até calafrios.

Será mesmo que os economistas podem mesmo nos conceder o "caminho do meio", com alto crescimento e inflação controlada?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009 08:11:00 BRST  
Anonymous Alexandre Porto disse...

Não precisa tirar Meirelles para baixar os juros. Basta o Conselho Monetário Nacional aumentar a meta de inflação para 8 ou 9%. Meirelles baixa os juros no dia seguinte.

Meirelles apenas persegue a meta definida pelo governo. Leia-se ministros petistas da Fazenda e Planejamento.

Mas aí é claro no dia seguinte estaremos aqui reclamando da inflação.

Vc viu o IPCA-15 de Janeiro?

domingo, 25 de janeiro de 2009 22:51:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Alexandre, o IPCA está refletindo em grande medida preços administrados. Não é uma tendência para o futuro. Aliás, o governo deveria cuidar mais duramente desses preços "administrados".

domingo, 25 de janeiro de 2009 23:08:00 BRST  

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