sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Andando em círculos (16/01)

A cartilha “antineoliberal” do PT anda mais encalhada do que os dicionários que foram editados antes da reforma ortográfica

Quando os ministros da área econômica voltarem das férias, o presidente da República promete anunciar novas providências para enfrentar a turbulência econômica, especialmente a ameaça do desemprego. Depois dos países centrais, as economias dos países emergentes também caminham para um pouso forçado, ainda que com graus diferentes de risco. Então é bom mesmo se precaver.

México e Argentina, por exemplo, têm encontro marcado com a retração nominal do produto. Crescimento negativo do PIB. A situação do Brasil é um pouco melhor. As previsões mais realistas são de um crescimentozinho, medíocre. Os conformados dirão que será uma vitória, diante da crise planetária. Os nem tanto perguntarão se, afinal, não daria para fazer melhor.

Entre uns e outros, o governo, como já se escreveu aqui, cruza os dedos para que a economia americana arremeta, saia rapidamente do buraco e arraste para cima as demais. Inclusive a nossa. Enquanto não acontece, vamos nos segurando no invejável mercado interno e nas oportunidades abertas lá fora pela desvalorização do real. Se o Banco Central vê o dólar caro como problema, os exportadores festejam-no. São, literalmente, os dois lados da moeda.

A dúvida é saber se o governo está fazendo tudo o que pode e deve fazer na situação. E se está no caminho certo. As renúncias fiscais, por exemplo, servem para angariar apoio político e produzir eventuais suspiros apaixonados dos felizardos, mas o efeito macroeconômico é duvidoso. Numa crise como esta, que combina venenosamente iliquidez e deflação, o já naturalmente medroso capital fica ainda mais covarde. E a mesma coisa acontece com o consumidor.

A preocupação das empresas, das famílias e das pessoas hoje em dia é só fazer caixa e reduzir o endividamento. Ficar no azul e limitar os compromissos com despesas futuras. Claro que há exceções, os endinheirados que aproveitam o momento para comprar bem e barato. Mas não é essa a realidade para a maioria que faz o mercado, que faz girar a roda da economia.

Reduções de impostos e liberação de recursos para empresas têm efeito limitado num quadro assim. Se o consumidor segue atemorizado, o dinheiro a mais que sai do governo para as empresas não vai ser investido. Vai fazer caixa e abater dívida. Por isso a importância do crédito barato, para estimular as pessoas e as empresas. Uns precisam dele para se animar a consumir. Outros precisam dele para produzir o que vai ser consumido.

Até o momento, infelizmente, o desempenho do governo Luiz Inácio Lula da Silva no quesito do crédito barato é um fracasso retumbante. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) insiste que a taxa básica de juros poderia ser reduzida agressivamente, e que nada de ruim aconteceria à economia brasileira por causa disso. O presidente da Fiesp é conhecido pelas críticas sistemáticas ao Banco Central, mas desta vez as circunstâncias dão razão a Paulo Skaf.

Taxa Selic real de 3 ou 4 pontos percentuais continuaria sendo superatrativa num cenário de juro zero -ou negativo- nas principais economias. E não há espaço para repassar a preços finais os custos adicionais de importação, decorrentes do real fraco. Onde houver esse perigo, o governo pode intervir controlando o mercado. Coisa que um dia fez parte da cartilha “antineoliberal” do PT. Agora, com o partido confortavelmente acomodado na Esplanada, a cartilha anda mais encalhada do que os dicionários editados antes da reforma ortográfica.

Outro dia, o presidente do Banco Central bateu boca elegantemente com o presidente do Bradesco. O banqueiro reclamou da Selic alta. O ministro rebateu, reclamando do spread alto. Ambos têm razão, mas há uma diferença. Os bancos não podem impor a redução da Selic. Já o governo pode obrigar os bancos a reduzir o spread. Como? Levando os bancos a uma situação em que emprestar dinheiro a juros razoáveis seja a única forma de lucrar.

Enquanto os bancos puderem realizar lucros gigantescos emprestando dinheiro a juros estratosféricos para o governo e arrancando o couro dos clientes com tarifas absurdas (sem falar no serviço horroroso prestado nas agências), nada vai mudar. O presidente e os ministros vão sair e voltar de férias, vão organizar importantes — e ansiadas — reuniões em palácio e vão prometer as necessárias providências, que não virão. Vão continuar andando em círculos. De prático mesmo, só a torcida para que o governo Barack Obama comece bem.

Coluna (nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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7 Comentários:

Anonymous the talk of the town disse...

Alon,

Voltando de férias, depois de uma temporada de cerveja, praia e sol (nessa ordem) vejo que muito pouca coisa mudou.

Inclusive suas criticas. O Lula é um conservador. Isso tem que ficar claro no começo do texto, pois senão parece que vc ignora esse fato.

O Governo Lula poderia ter feito uma revolução de crescimento e distribuição de renda no começo, lá na gestão Palocci-Lisboa. Qdo as condições pós-estabilização, internas e externas, permitiriam uma queda nas taxas de juros, uma redução agressiva no nível da DLSP e um alongamento da dívida restante. Mas o Lula não bancou a Fazenda contra o BC. E o que veio depois é história. O BC leva todas. Pq? Pq o Lula é conservador, e ponto.

Eu aceito esse fato, pq os jornalistas não?

A situação mudou (vc deve estar pensando). Claro, mas não pense que ocorrerão mudanças drásticas daqui pra frente, esse "momentum" passou. O Governo Lula (como todo outro governo eleito) está perdendo o poder nos 2 ultimos anos. Os politicos sabem disso. Os economistas sabem disso. Com certeza os banqueiros sabem disso. E numa situação dessas, se o presidente pergunta pra 5 economistas qual a previsão de crescimento, "ceteris paribus", e eles respondem de 1 a 2%. Ele sorri e prefere deixar como está.

Ele está ganhando de 1x0 (ou 2x1, dependendo do observador). Um placar perigoso. Mas é um tecnico conservador, das antigas. Sabe que o melhor defesa é o ataque, mas não confia tanto assim na sua equipe. Prefere montar um retranca e esperar esse 15min finais terminarem pra levantar o caneco.

Vai dar certo? Eu não sei.Nem sei se entraremos em recessão como todo mundo diz (os ultimos IGPs e produção industrial foram assustadores, mas não se esqueça dos estoques e das sazonalidades do periodo. O mesmo raciocinio vale pro desemprego. Muita calma nessa hora...).

Interessante é analisar (e aqui é um dos poucos lugares que faz essa analise, mas só de vez em qdo) é a atitude do time adversario. O que a oposição propoe? O que os pré-candidatos fizeram até agora? Algo ousado? Algo inovador?

Eu acho que não, a não ser que tenha perdido algo nesse periodo de desintoxicação que passei a beira-mar.

Então pense, se quem almeja o poder, não propõe nada, imagine que está sentando lá esperando acabar os 2 anos? A ideologia PT era neoliberal qdo era oposição. Agora é situação.

Isso muda muita coisa...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009 09:46:00 BRST  
Anonymous Luca disse...

A análise sobre a questão do Governo estar fazendo tudo o que pode e deve, deixou de incluir um aspecto fundamental. O gasto da máquina pública. O chamado custeio cresceu à taxas superiores a 8% ao ano (descontada a inflação)na gestão Lula.
Com a crise o Governo deveria se comportar com a mesma prudência que as famílias, gastando menos e pressionando menos a demanda por crédito (até a Petrobras foi se socorrer na Caixa Federal!). Devendo menos o Governo deixaria mais recursos para ser emprestados ao público no sistema bancário e os juros e spreads tenderiam a cair.
Vale lembrar também que o Sistema Financeiro Brasileiro já é estatizado em sua maior parte e que os bancos do Governo praticam tarifas e juros nos mesmos patamares que os bancos privados.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009 09:47:00 BRST  
Anonymous Jura disse...

Talk of the Town:

Gostei da sua análise, mas você acha que se trata só do conservadorismo de Lula ou o presidente do BC foi eleito antes que ele?

Alon:

Gostei do título.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009 13:51:00 BRST  
Anonymous the talk of the town disse...

@ Luca
Corte nos gastos de custeio é conversa pra boi dormir. Todo ajuste que a máquina pública podia fazer já fez. Melhorias de Gestão estão sendo implementadas desde o Governo Collor. E vao continuar independentemente de quem seja o Presidente. Só fala isso quem não conhece o SIAFI.

@ Jura
É inegavel que na situação em que o Lula assumiu (parte culpa da tragedia do 2º mandato do FHHC, parte culpa das besteiras que o PT sai falando por ai) ele ia ter que jogar o jogo com as cartas que a elite financeira deu pra ele. A questão é que ele teve 2 ou mais momentos pra promover mudanças nessa area, só que não quis partir pro ataque.

O Henrique Meirelles não é um presidente do BC ruim, muito pelo contrario. Os juros subiram na hora que tinham que subir, o GRANDE problema é que não baixaram o qto poderiam ter baixado qdo as condições eram favoraveis. Só isso, e grande parte da culpa é pq o Presidente achou que assim tá bom, assim tá bom demais...(rs).

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009 14:56:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Parece que a questão não é andar em círculos. É não andar sem culpar os outros. Quando a crise agravou-se, nota do PT atribuiu a crise que se avizinhava em vários setores internos, ao neo-liberalisnmo do governo FHC, que já saiu do poder faz mais de 6 anos. Antes da crise, a bonança econômica, mesmo neo-liberal, era unicamente obra do partido. Com tais formulações, não tiveram tempo de verificar que a economia entrou na crise com déficit em contas correntes e sofreu uma maxidesvalorização cambial dada pelo mercado. Antes, todos orgulhosos do derretimento do US$ frente ao R$. Agora, dada as condições com crise, União Européia, EUA, China e demais economias estarão cuidando de seus interesses e com certeza, estarão olhando para nossa economia como um mercado para seus produtos. Não ainda como e não como formuladora de uma nova ordem econômico-financeira mundial. Assim, o partido terá de mostrar se tem condições de formular algo que mantenha a economia ao menos preparada para uma retomada a partir do segundo semestre de 2009 e nos 12 meses de 2010. Ou será que o novo outro será o Obama?

Swamoro Songhay

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009 16:31:00 BRST  
Anonymous Luca disse...

@ the talk...

De fato a máquina pública vem melhorando sua eficiência em muitos aspectos, mas o gasto de custeio vem subindo de forma notavel neste Governo. Enquanto a arrecadação foi crescente, com os bons ventos da economia mundial, tudo ok. Mas, com a economia e arrecadação em declínio o cenário muda bastante. Não creio que este Governo va cortar gastos em final de mandato. Sobra apenas, lamentavelmente, aumentar o defificit público, pressionando a taxa de juros real e a inflação.
Quanto ao SIAFI (e o sono do boi), fica para outro post.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009 17:40:00 BRST  
Anonymous Carlos disse...

O momento é de seguir a mesma política de Obama, ou melhor de keynes, o governo é o único que tem condições e coragem para gastar nesta hora. Esquecer o superavit primário, neste ano, abaixar os juros e investir forte em infra-estrutura, reduzindo o custo Brasil, aquecendo a demanda. Os resultados da renúncia fiscal na atual conjuntura serão pífios.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009 22:44:00 BRST  

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