terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Consenso. E até 2009 (30/12)

Do estadao.com.br:
    IGP-M tem deflação de 0,13% em dezembro

    Índice negativo eleva pressão sobre o Banco Central para corte de juros

    A inflação deixa de ser o foco de preocupação do cenário econômico traçado para 2009 e abre espaço para a queda da taxa básica de juros já no início do ano que vem, segundo apontam os resultados do Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Neste mês, o IGP-M registrou deflação 0,13% , num raro movimento de queda do indicador em dezembro. O resultado surpreendeu a maioria dos analistas ouvidos pela Agência Estado, que projetava estabilidade. No ano, o indicador acumulou alta de 9,81%, a maior marca desde 2004 (12,41%). Apesar de o IGP-M acumulado em 12 meses até dezembro ser o maior em quatro anos, o resultado de 2008 ficou abaixo do previsto ao longo do ano. Em julho, o IGP-M acumulado em 12 meses atingiu o pico de 15,12%, puxado pela disparada dos preços das commodities. E foram exatamente as commodities, que recuaram 45% em dólar desde julho, que trouxeram a inflação acumulada neste ano para um nível inferior a 10% em dezembro, mesmo com uma desvalorização do real. "A desvalorização do câmbio foi suplantada pela queda das commodities", diz o coordenador de Análises Econômicas da FGV, Salomão Quadros.
O cenário instantâneo, como pode ser conferido na leitura da reportagem, é de início de um processo deflacionário. Ou seja, o Banco Central empurra a economia brasileira para a deflação num momento de restrição de crédito. Só isso já seria motivo para colocar os diretores do BC no olho da rua. Mas os números divulgados ontem embutem outro detalhe, pouco explorado. O índice é fortemente influenciado pelo dólar. Ou seja, o vetor que empurra a economia para trás compensa em larga escala o vetor que empurra para frente os preços potencialmente influenciáveis pela desvalorização do real. Tudo coisa que já se sabia. Que já era possível prever há semanas. E que vem sendo repetido neste blog há semanas. Mas, como disse a revista Época a meu respeito, eu gosto mesmo é de ser original. Agora que até os porta-vozes jornalísticos do mercado financeiro já começam a a se render à realidade, acho que vou mudar de assunto. Será que eu vou conseguir? Para recordar, dê uma olhada nos arquivos deste blog nos dois últimos meses (clique aqui para ver novembro e aqui para dezembro). E Feliz Ano Novo.

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O próximo passo será pedirem preço mínimo e estoques reguladores. E uma pergunta aos especialistas (29/12)

Do estadao.com.br:
    Abaladas pela crise, usinas de álcool enfrentam inadimplência

    Em quase todas as regiões de São Paulo há atraso no pagamento a fornecedores; dez usinas foram adiadas

    José Maria Tomazela, SOROCABA - Pelo menos 6% dos canaviais ou 29,8 milhões de toneladas de cana-de-açúcar deixaram de ser colhidas no Centro-Sul do País, a principal região produtora. A sobra de 330 mil hectares de cana em pé é um dos efeitos da desaceleração dos investimentos no setor provocada pela crise internacional. No interior de São Paulo, pelo menos 10 usinas que deveriam entrar em operação este ano não ficaram prontas. Em Mato Grosso do Sul, dos 43 projetos com operação prevista até 2018, cerca de 20 já sofreram corte de recursos. A crise sucroalcooleira preocupa o secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, João de Almeida Sampaio. Ele se reuniu com representantes do setor para discutir a situação. "O desafio é garantir que as usinas cheguem à próxima safra em condições de moer", disse ao Estado. As usinas precisam de dinheiro para bancar as despesas da entressafra, que incluem a manutenção das máquinas, a renovação dos canaviais e o preparo das usinas para a nova safra.
Leia a reportagem. Isso era uma bola cantada, como se diz na sinuca. Se tiver curiosidade de saber o que se escreveu aqui sobre o assunto, faça na caixinha no alto à esquerda desta página uma busca por encalhado etanol. Leia especialmente A crise antes da crise, onde você verá que os problemas sucroalcooleiros são bem anteriores à eclosão da crise mundial. O colapso planetário da economia foi aliás uma bênção para o setor. Agora eles têm uma boa desculpa. Vamos fazer uma aposta? O próximo movimento da turma será tentar repassar ao Tesouro, mais uma vez, o custo de seus equívocos empresariais. Sem ter onde enfiar o produto, vão pedir que o governo compre o álcool que não conseguem vender no mercado. E por um preço que remunere, inclusive, o dinheiro caro que tomaram nos bancos para não ter que esperar o dinheiro baratinho que, graças a Luiz Inácio Lula da Silva, o BNDES iria colocar à disposição dos de sempre. Para fazer o de sempre: embolsar os eventuais lucros e repassar ao contribuinte os eventuais prejuízos. E fica aqui uma pergunta para alguém responder. Qual é o preço mínimo do barril de petróleo abaixo do qual a se inviabilizaria a produção brasileira de etanol para uso como combustível automotivo?

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Sem ter quem nos defenda (29/12)

Resta pouca dúvida de que o primeiro semestre de 2009 vai mostrar desaceleração da economia. Será um breque proporcional à falta de autoridade do presidente da República sobre as ações do Banco Central. E proporcional à impotência (ou à falta de vontade) do BC para enquadrar o sistema bancário. É verdade que o juro básico futuro mostra tendência de queda (o mercado não é estúpido e sabe que não existe poder absoluto), o que faz ainda mais espantosa a última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que manteve inalterada a taxa Selic.

Com argumentos enviesados, garantiram-se ganhos extras aos especuladores do câmbio, que poderão passar um fim de ano ainda mais gordo. No Brasil governado pelo PT o Banco Central autonomizou-se e foi cristalizado como uma espécie de estado-maior da banca privada. Na outra ponta da corda, pendurados pelo pescoço, o empresário e o consumidor comum sofrem com a resistência dos bancos a emprestar o dinheiro que, graças ao governo, irriga os cofres das instituições bancárias aos montões.

Se o PT estivesse na oposição, denunciaria o cenário com veemência, apontando-o como paradigma da crueldade social e econômica propiciada pelo neoliberalismo.Mas o PT está no governo e silencia. E como a atual oposição tem nesse assunto o rabo tão preso quanto o PT, o brasileiro acaba ficando sem ter quem o defenda.

Sobra Lula. Pesquisa após pesquisa, os analistas buscam razões para a popularidade recorde de Luiz Inácio Lula da Silva. E conforme aumenta o espanto dos especialistas, cresce também a busca por explicações de fundo subjetivo ou até místico. Inventa-se um “lulismo”, fenômeno inexistente mas útil, na sua virtualidade, para os autoproclamados sabichões tentarem explicar ao distinto público por que as coisas não se passam conforme o previsto, por que o presidente da República não é tragado pelo furacão.

Ameaçado por uma crise extremamente grave, com retração do consumo e risco ao emprego, o brasileiro apóia Lula porque está convencido de que o presidente faz o melhor possível diante das dificuldades e das limitações. Mas essa minha explicação corre o risco da tautologia, de tentar explicar-se por si mesma. Não basta dizer que Lula tem apoio porque a maioria gosta do governo dele. Isso é só uma tautologia. É preciso tentar compreender os porquês.

Para que as pessoas dessem as costas a Lula e decidissem seguir outro comando, seria necessário que os candidatos a líder dissessem abertamente o que fariam de diferente caso estivessem no poder. Mas isso não basta, seria imperioso que as alternativas tivessem alguma consistência ou racionalidade. Que ao menos parecessem motivadas por algum tipo de defesa do interesse público.

O que a oposição diz a respeito da insistência do Banco Central nos juros estratosféricos? Nada. O que a oposição acha do encarecimento e retração dos empréstimos bancários a empresas e consumidores? Aparentemente nada. Mas seria injusto dizer que a oposição está parada. A última dos partidos oposicionistas foi tentar impedir a destinação de recursos ao Fundo Soberano, um mecanismo que começou nebuloso mas que adquiriu inesperada funcionalidade, diante de uma crise para a qual o investimento público maciço é remédio receitado com entusiasmo.

Diz a oposição que o governo faria melhor se em vez de alimentar o Fundo Soberano usasse o caixa para reduzir dívidas. Aí o sujeito olha bem e respira aliviado, por a oposição não estar no governo. A hora não é de reduzir o endividamento público, mas de aumentá-lo. Junto com crédito abundante e barato, a expansão do investimento estatal é o outro mecanismo capaz de tornar a travessia mais suave. Só que a oposição, perfilada com o Banco Central na defesa do juro alto, trabalha para dificultar os investimentos públicos na hora em que eles são mais necessários.

E depois se espantam quando as pesquisas dão Lula lá em cima.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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domingo, 28 de dezembro de 2008

O protecionismo, objeto de um interessante editorial da The Economist (28/12)

O protecionismo é um tema recorrente neste blog. Faça aqui uma busca por "protecionismo", ou por "G20". O assunto vai ganhar importância conforme a crise for ocupando terreno nos próximos meses. Sobre o protecionismo, um leitor fiel envia email recomendando a leitura de um editorial da The Economist desta semana (Fare well, free trade). Ele, o leitor, brinca comigo dizendo que o pessoal da revista deve lido meu blog. Rimos juntos da piada, eu e o meu amigo. Claro que os caras não leram. A explicação é outra: eles e eu temos o cuidado, sempre, de ler a realidade.

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sábado, 27 de dezembro de 2008

Solange, a indemissível (27/12)

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) fracassou novamente na missão de prevenir os transtornos nos aeroportos nas festas de fim de ano. Desta vez o problema foi com a Gol. Há dois anos tinha sido com a TAM. Blog tem arquivo e é possível recordar (leia Desmilitarização) que no fim das contas a TAM foi absolvida pela Anac das acusações de overbooking de dois anos atrás. Na época do "caos aéreo" eu me irritei (leia Uma conversa de bar sobre Caim e Abel). Hoje, quando a Anac ameaça ir para cima da Gol, eu simplesmente dou de ombros. A Anac é mesmo uma comédia, pelo menos para quem não anda de avião. Para quem anda, é uma tragédia. Como as demais agências reguladoras em seus respectivos ramos. A Anatel, por exemplo, nada faz para impedir que o brasileiro pague um serviço de telefonia celular entre os mais caros do mundo. Minha proposta é conhecida. Uma maneira eficaz e imediata de conter os gastos de custeio seria extinguir as agências reguladoras. Que no Brasil não regulam nada. Pelo menos nada de bom. Escrevi em Madame de casaco de peles no calor:
    O argumento mais consistente que os defensores das agências apresentam para justificar sua posição, depois da evidente crise da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), é que as agências funcionam, sim, dependendo que quem for nomeado para elas. Ora, mas se o bom funcionamento da agência depende de quem é indicado para ela, e se essa indicação é invariavelmente política (como tem que ser), para que então serve mesmo a agência? Para acrescentar uma estação no calvário de quem precisa se relacionar com o estado para vender produtos ou serviços? Ademais, quem nomeia o diretor de agência é o Executivo. Por isso também é que a coisa é toda meio surreal. Verdade que depois de indicada a pessoa precisa passar por uma sabatina no Senado. Na maior parte dos casos trata-se apenas de uma formalidade. O exame que vale mesmo é o de QI. Quem indicou. Infelizmente, o Brasil é assim. Aí pegam um modelo que pode tar dado certo não sei onde e transplantam para cá. É como aquelas madames que andam de casaco de peles em Teresina (PI), Cuiabá (MT) ou Ribeirão Preto (SP). No caso desta última, no verão. Antes que briguem comigo advirto que as cidades foram escolhidas pela alta temperatura, e não por qualquer critério regionalístico. Madames de casaco de peles suando num calor de 40 graus, é isso que somos, brincando de agências "reguladoras" enquanto a vida dos consumidores é um inferno. Nossas agências reguladoras convivem bem, por exemplo, com uma telefonia celular caríssima para o consumidor, que precisa comprar um aparelho que só funciona em determinada operadora e não pode transportar o número quando resolve mudar de empresa [isso mudou parcialmente desde que o texto foi escrito]. As agências reguladoras são emblemáticas de uma certa ideologia, que busca "blindar" o estado contra as supostas más influências da política. A pessoa perde a eleição porque "o povo não sabe votar", mas deixa os seus amigos lá, nos cargos, para continuar influindo. Eu penso ao contrário, penso que o estado deve ser cada vez mais permeável à política.
As agências reguladoras são uma herança maldita dos anos 90, quando se acreditava que o mercado deveria ser vacinado contra os excessos da política, para acrescentar eficiência ao Estado e conforto ao cidadão. Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Criaram se novos cabides de empregos e duplicou-se o guichê. Isso não deixou o Estado mais eficiente e tampouco melhorou a vida do consumidor. Já que não deu certo, é preciso mudar. O caminho é simples e óbvio. Reabsorver na esfera governamental as funções das agências. Sem estabilidade de emprego para os encarregados de zelar pelo interesse público. Se eu, por exemplo, achar que a presidente da Anac, Solange Vieira, deve ser demitida, hoje não tenho o que fazer. Ela goza de estabilidade no emprego. Nem o presidente da República pode mandá-la embora. Teoricamente, é claro. As agências reguladoras acabaram dando nisso, viraram um abscesso. Coisa que não se trata com antibiótico, mas com bisturi. Solange não tem exibido a necessária competência, mas aposto que não será pressionada a sair. Não vai se passar com ela o que aconteceu com o antecessor, impelido a cair fora. Sabem por quê? Porque Solange é a favor da privatização dos aeroportos (dos lucrativos, é claro). Acontece agora o que se previu aqui no blog tempos atrás, depois que mudou o ministro da Defesa (leia Bravata e dinheiro, Ou vende a Infraero ou paramos o Brasil). A infraestrutura para viajar de avião no Brasil não melhorou, mas a cobrança da assim chamada opinião pública está bastante atenuada. Depois, quando eu digo que Luiz Inácio Lula da Silva é um gênio da política, as pessoas acham ruim. Lula acenou com um brinquedinho lucrativo para os amigos da opinião pública (leia Lula pede água a quem deseja o seu sangue). E a opinião pública acalmou-se. Os passageiros de avião no Brasil continuam à mercê do oligopólio, mas a perspectiva de bons negócios ajuda a desanuviar o ambiente.

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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Caos político e recessão na Ucrânia (26/12)

Faltam os meios para a vitória - Atualizado, com multimídia (26/12)

Barack Obama apareceu seminu em boa forma física e as fotos se espalharam pelo mundo. O efeito simbólico foi imediato: numa crise que exige imensas forças para debelá-la, precisa-se de um líder com energia suficiente para a missão. Milênios de civilização reduzem-se a um verniz fininho: na era da eletrônica e da informação instantânea, a tribo só está em busca de alguém capaz de mantê-la viva. Se, além de inteligência e sabedoria, o sujeito tem também músculos que exibem juventude e força, melhor ainda.

Líderes vivem de resultados, mas também de símbolos. Aliás, símbolos costumam ser essenciais para que líderes alcancem resultados e deixem seu registro na História. Vale também para Luiz Inácio Lula da Silva. Seu governo, como já se escreveu nesta coluna, ficará marcado pela maneira como tiver enfrentado a crise planetária da economia. E até aqui Lula vai bem, ao menos no terreno simbólico: ele é o governante que se recusa a aceitar a derrota, o líder que preparou o país para os tempos difíceis, o dirigente que nos fará atravessar a tempestade com o menor dano possível, desde que todos colaboremos e não paremos de consumir.

A oposição critica Lula por ter dito que o tsunami chegará aqui como uma marolinha, na qual não vai dar nem para surfar. É natural que a oposição ataque o presidente, mas Lula não tinha alternativa fora do otimismo. Winston Churchill pôde dar-se ao luxo de falar em sangue, suor e lágrimas porque era recém-chegado ao poder, porque não era apontado como responsável pelos equívocos que marcaram a política do Reino Unido às vésperas da guerra contra a Alemanha de Adolf Hitler. Estivesse há mais tempo no governo, teria que explicar por que, afinal de contas, os britânicos tinham se metido numa enrascada.

Um exemplo extremo de atitude otimista do líder aconteceu em novembro de 1941, quando os tanques alemães estavam nos subúrbios de Moscou mas mesmo assim Joseph Stalin fez questão de comparecer ao então tradicional desfile militar na Praça Vermelha, em homenagem ao aniversário da Revolução Russa. Quando Stalin e a cúpula soviética apareceram sobre o mausoléu de Vladimir Lênin, deram força à idéia de que o país poderia derrotar a invasão nazista. Se o discurso de Stalin tivesse sido transmitido só pelo rádio, o russo comum certamente pensaria, desconfiado: “Se o cara acreditasse mesmo na vitória, não teria corrido de Moscou". É a sabedoria popular.

Lula, portanto, faz bem uma parte do serviço quando se comunica adequadamente. Mas comunicação não é tudo. Além de símbolos, líderes precisam dar aos liderados meios materiais para alcançar a vitória. Do contrário, o moral da tropa não resiste. Propaganda sozinha não enche barriga. Se a César deve ser dado o que é de César, dele também se exige que cumpra suas obrigações. E o nosso presidente, infelizmente, tem deixado a desejar num aspecto.

Lula pede ao brasileiro que consuma com firmeza, mas não faz a parte dele para garantir que isso aconteça em circunstâncias minimamente seguras. Vejamos. Ou o cidadão consome com dinheiro próprio ou pega emprestado. Dinheiro próprio para o consumo, hoje em dia, só se o sujeito for rico ou tiver estabilidade no emprego. Se Lula deseja que o brasileiro fique firme na guerra do consumo, precisa dar um jeito de fornecer as armas e a munição: crédito abundante e barato. Mas o que se vê é o contrário: cada dia na crise é um dia a mais para os bancos aumentarem sua aversão ao risco, restringindo o volume de crédito e encarecendo os juros. Deu no estadao.com.br:
    A taxa média de juros cobrada nos empréstimos ao consumidor em novembro subiu quase quatro pontos no mês, de 54,9% ao ano para 58,7%, atingindo o maior nível desde março de 2006. No cheque especial, modalidade campeã de juros altos, o juro subiu de 170,8% ao ano para 174,8%. Segundo os dados divulgados nesta terça-feira, 23, pelo Banco Central, o movimento foi determinante para o crescimento do juro médio do crédito livre no País, que atingiu 44,1% no mês passado.
As nossas autoridades gabam-se de que a saúde dos bancos brasileiros vai muito bem. O que é bom. Lamentavelmente, porém, essa saúde se deve em boa parte a uma deformação. Os bancos brasileiros emprestam pouco e mal para os cidadãos e para as empresas. Os bancos no Brasil são um sucesso porque têm lucro garantido emprestando dinheiro para o governo a taxas siderais e cobrando tarifas escorchantes dos clientes. Além dos spreads indecentes. Ou seja, no caso brasileiro os bancos serem saudáveis é um sintoma de que o país está doente.

Por mais bíceps que exiba (sua aprovação já bate em 82%), Obama fracassará se não cuidar da musculatura do mercado de trabalho nos Estados Unidos. Se a União Soviética e os aliados tivessem perdido a guerra contra a Alemanha, a fala de Stalin em novembro de 1941 na Praça Vermelha teria ficado como uma caricatura para a posteridade, do modo que são vistos hoje os discursos de Hitler nos últimos dias. E o “sangue, suor e lágrimas” de Churchill estaria relegado aos arquivos. A história é escrita pelos vencedores. Quanto a Lula, seu cálculo político pré-crise embutia a idéia de que ele e os bancos poderiam chegar juntos à glória. Mas os últimos números da economia mostram que essa possibilidade subiu no telhado.

Publicado originalmente como uma coluna (Nas entrelinhas) na edição de hoje do Correio Braziliense. http://twitter.com/alonfe

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Leituras na crise: estatização do crédito (24/12)

Cresce a convicção de que a iliquidez do mercado creditício só pode ser enfrentada com algum grau de estatização. E há propostas criativas para tal. Leia How To Give Banks Confidence To Lend To Businesses, de Lucian Bebchuk and Itay Goldstein, do rgemonitor.com. Mas estatização não é apenas socializar prejuízos, é também socializar lucros. Um exemplo (do artigo):
    Suppose that the government wishes to get at least $200bn (€140bn, £133bn) of additional lending to companies. Under one possible mechanism, the government would facilitate banks’ putting together a diversified portfolio of newly originated loans by agreeing to bear part of any losses to the portfolio in return for a share of the upside. In the example considered above, to induce banks to put together a portfolio of new loans it would be sufficient for the government to agree to bear any losses to the portfolio of up to 10 per cent of the value of the extended loans. The share of the upside received by the government could be determined through a competitive process. Banks would submit bids indicating the share they would be willing to offer and the government would accept the highest offers that would collectively produce additional lending of $200bn.
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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Dois gráficos reveladores da fraude - ATUALIZADO (23/12)



A análise que a consultoria Tendências distribuiu esta semana aos seus clientes contém dois interessantes gráficos de barras. Clique na imagem acima para ampliá-los numa janela separada. O da esquerda mostra a queda vertical dos preços, em reais, de importados. Ou seja, o mergulho internacional das commodities vem compensando em larga escala a desvalorização da nossa moeda. O da direita revela que os estoques das empresas estão lá em cima. Ou seja, os dois principais argumentos que poderiam justificar os juros altos são furados. E se a Tendências sabe disso o Banco Central também sabe. Não há ameaça de importarmos inflação, nem risco de faltar produto. Ou seja, como escrevi em post anterior, a última ata do Comitê de Política Monetária é uma fraude. Não há cenário algum de incerteza quanto à inflação. O que há é uma ameaça real de recessão.

Atualização às 19:48 de 25/12 - Após a observação de um anônimo, vou trocar "queda vertical" por "desaceleração vertical", na terceira linha. O que não muda o sentido do post. E para o anônimo e outros eventuais interessados segue o link para o relatório da Tendências.

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Acordo essencial entre PT e PSDB (22/12)

O movimento mais recente dos ensaios para 2010 foi a reanimação da alternativa Ciro Gomes. Não nas pesquisas, onde parece ter perdido algum terreno para a bem exposta Dilma Rousseff. Mas na disposição política demonstrada por seu partido, o PSB, de confrontar o PT. Um sinal da nova atitude é a candidatura de Aldo Rebelo (SP) à Presidência da Câmara dos Deputados. O candidato é do PCdoB, mas veio dos aliados socialistas o impulso decisivo para que aceitasse entrar numa batalha de escassas possibilidades.

O PSB dá sinais de que caminha para afirmar uma identidade nas eleições de 2010. O que é essencial para a legenda defender -e se possível ampliar- seus espaços de poder regionais. O PSB desconfia de que não terá do PT a contrapartida local a um eventual apoio nacional dos socialistas aos petistas. E tem motivos para desconfiar. O recente caso de Salvador (BA), onde o PT trabalhou ativamente para tentar derrotar o PMDB, esteio da vitória de Jaques Wagner em 2006, deve ter deixado muita gente de barba de molho.

Já para o PT, a renovada disposição de luta do PSB preocupa apenas parcialmente. As planilhas do partido de Lula contabilizam o apoio certo do PSB, no primeiro ou no segundo turnos em 2010. O cálculo petista é levar Dilma Rousseff à rodada decisiva contra José Serra e, aí, arrastar as fichas dos eventuais votos dados a Heloísa Helena (PSOL). E receber por inércia o apoio do bloco PSB-PCdoB-PDT (se este último resistir aos cantos palacianos e até lá ainda fizer parte do bloco).

O cálculo petista contém boa dose de realismo, pois muita coisa precisaria mudar para que Ciro e Serra pudessem sentar à mesa e discutir um eventual apoio. As possibilidades serão maiores se o candidato do PSB for Eduardo Campos, mas o recente conclave da cúpula socialista indica que a aposta, neste momento, se dá em torno de Ciro. Que até voltou a dar entrevistas e a colocar a cara no noticiário. O PSB acha hoje que Ciro pode muito bem tirar Dilma do segundo turno e se transformar ele próprio no destino para os votos petistas órfãos.

Um bom cenário para a aproximação entre PSDB e PSB seria com Aécio Neves candidato pelos tucanos à sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva. O governador de Minas emite sinais quase diários a esse respeito. Toda vez que fala na sucessão repete a necessidade de seu partido ampliar as alianças para além do bloco com o Democratas e o PPS. A tese de Aécio é conhecida: ele, e não Serra, seria mais capaz de cindir estruturalmente a hoje base governista, sem o que uma vitória em 2010 ficaria, na opinião do mineiro, muito difícil.

Serra reage à concorrência interna com dois argumentos e dois movimentos. O primeiro argumento é que dificilmente o PSDB vai conseguir arrastar nacionalmente, em bloco, algum aliado de Lula. O segundo é que a ausência de verticalização abre o caminho para que o lulismo seja desmontado regionalmente. O primeiro movimento é aproximar-se do PT e do presidente, buscando a vacina contra a possibilidade de um rótulo antilulista daqui a dois anos. O segundo é sinalizar que Lula será tão bem tratado na condição de "ex" como o é hoje Fernando Henrique Cardoso.

De quebra, Serra aproveita para enfraquecer Ciro, o PSB, e outros vetores historicamente próximos de Lula. Como por exemplo o assim chamado "PMDB do Senado". No que o tucano tem obtido grande sucesso. E a um custo político quase zero. Nas últimas listas de melhores amigos elaboradas no Palácio do Planalto, os dois lugares de destaque são ocupados por Serra e pelos antigos amigos deste no PMDB.

O Planalto e o Bandeirantes estão de mãos dadas na dança para garantir que a disputa em 2010 seja entre ambos. Em São Paulo, aposta-se na tese de que a sociedade brasileira não gostaria de dar mais um mandato (ou dois) ao PT, ainda que admire Lula. Em Brasília, os prognósticos são de que o Brasil não gostaria de voltar aos tempos tucanos. Mas, divergências à parte, há um acordo essencial entre os controladores das máquinas petista e tucana: não querem mais ninguém no jogo. E contam para isso com o medo que costuma acometer os políticos brasileiros sempre que confrontados com a possibilidade de precisarem atravessar o deserto, de ficarem fora do grande banquete.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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domingo, 21 de dezembro de 2008

A vida real manda lembranças (21/12)

O final da reportagem na revista Veja desta semana sobre a crise na indústria automobilística americana tem este trecho:
    Com os choques do petróleo na década de 70, o mundo começou a se interessar por carros com menor consumo de combustível, mas a indústria automobilística americana, talvez por defeito de nascença, jamais conseguiu grande sucesso nesse segmento. (...). Quando a gasolina tornou a ficar barata, nos anos 90, GM, Ford e Chrysler se voltaram para os carrões, agora na versão utilitários. Em 1993, as três estavam outra vez no auge, com mais de 75% do mercado americano. E, de novo, deixaram de lado as eternas promessas de carros menores, carros elétricos, carros movidos a hidrogênio, carros do futuro. A conta chegou agora, e num momento em que é crescente a hostilidade ao automóvel. Ele é poluidor, aumenta as estatísticas de mortes violentas, faz barulho, desumaniza as cidades, produz intermináveis congestionamentos. É inimigo da saúde, um convite à obesidade e, nos países desenvolvidos, onde o transporte público é bom e barato, é visto como símbolo do egoísmo, do desperdício, do comodismo elitista, do isolamento social. Mas é um engano supor que estejamos perto do fim da era do automóvel. É mais provável que, no futuro, os carros fiquem apenas diferentes, talvez menores, mais econômicos, menos poluidores, quem sabe movidos a etanol no mundo afora, ceifando o domínio do petróleo.
Leia a íntegra. Tem explicação que não bate com a vida real. O negrito é meu. A última moda é relacionar a crise das montadoras americanas à suposta perda de protagonismo do petróleo. Do petróleo caro. Ora, se o problema de Chrysler, General Motors e Ford fossem carros ávidos por gasolina cara, o cenário global seria de esperança para as três, e não de ameaça. O barril de petróleo, que esteve no patamar de 150 dólares, patina hoje na faixa dos 40. Está muito barato, e nada indica que vá voltar ao nível estratosférico de meses atrás. Até porque só uma parte do preço era consumo. A maior parte era demanda financeira superaquecida, dinheiro em excesso procurando o melhor destino. Um dinheiro que desapareceu, dado que não representava valor real. Daí que o mundo pós-crise esteja mais amistoso ao petróleo, e portanto mais complicado para as fontes alternativas de energia. Em que situação a energia dita verde será capaz de derrotar estrategicamente os combustíveis fósseis? Quando ficar mais barata do que eles. A não ser que você acredite em histórias da carochinha, de que a humanidade vai optar por uma energia mais cara só para combater o aquecimento global. Há por certo questões estratégicas envolvidas, a coisa não é só oferta e demanda puras. Os Estados Unidos estão interessados em deixar de depender do petróleo árabe, persa e venezuelano. Mas isso não significa que os Estados Unidos estejam dispostos a aprofundar mais ainda a recessão, aumentando artificialmente o custo da energia consumida pelos americanos. É mais provável que, pelo menos no curto prazo, busquem um modus operandi pragmático com Vladimir Putin, Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Até porque o outro megafornecedor, a Arábia Saudita, já está convenientemente alojadona lista dos inimigos de Osama bin Laden. E portanto dos amigos de Washington. E o Iraque está no bolso. E o país-problema remanescente, o Afeganistão, produz papoula (heroína), e não petróleo. O risco maior para a indústria do petróleo não é ausência de demanda. É falta de investimento em perfuração e refino, por causa do preço excessivamente baixo. Coisa que a Opep quer reverter, mas não sabe se terá sucesso. De volta às montadoras americanas, o problema delas está nos custos. Salários altos para os operários, remuneração alta para executivos. Os republicanos no Congresso têm resistido a ajudar Detroit não por consciência ambiental, mas pelo desejo de quebrar a espinha dos sindicatos. Para quem quer matar sindicatos, a hora é agora. Só que Barack Obama tem que dar um jeito de fazer sobreviver a Chrysler, a GM e a Ford, visto que que o trabalhador organizado foi um elemento decisivo para a vitória dele contra John McCain. Se as montadoras americanas acabarem, o governo Obama acaba junto. Na mesma hora. O operariado sindicalizado preferia Hillary Clinton, e só pendeu para Obama quando na reta final da eleição a gravidade da crise fez desaparecerem velhas preferências e antigos preconceitos. E mesmo que as montadoras americanas sejam reinventadas, isso vai levar um tempo. Durante o qual o governo precisará protegê-las. Essa é a vida real.

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sábado, 20 de dezembro de 2008

A importância de Temer. E uma pergunta para Lula (20/12)

Um comentarista ficou espantado outro dia quando eu afirmei que Luiz Inácio Lula da Silva é um Robinho da política. Um grande driblador. Perguntou se era a sério, ou se eu estava ironizando. Foi a sério. Muito a sério. Ontem Lula deu mais uma de suas pedaladas. Foi quando teorizou sobre como ex-presidentes devem afastar qualquer ambição política, recusando-se, por exemplo, a disputar e ocupar novos cargos de poder. A turma interpretou como recado ao senador José Sarney (PMDB-AP). Que resiste a se dobrar à candidatura Tião Viana (PT-AC), o nome de Lula para o comando do Senado. Vejam só o que é a vida. E o que é a política. A então senadora Heloísa Helena começou a ser expulsa do PT quando se recusou a votar em Sarney para presidente do Senado em 2003. Sarney era o candidato de Lula, recém-empossado no Planalto. E Sarney já era um ex-presidente da República. Dado que Lula queria o senador pelo Amapá na cadeira, não achou ruim na época que ele, um ex-presidente da República, fosse para a briga. É pouco? Pois um tempinho depois Lula entrou com tudo na operação para aprovar a emenda constitucional que permitiria a reeleição dos presidentes das Casas do Congresso no meio da legislatura. Na época, os candidatos de Lula (à reeleição) eram João Paulo Cunha (PT-SP) na Câmara dos Deputados e José Sarney no Senado. Ali, Lula não só não achava ruim Sarney brigar para continuar no cargo como trabalhou ativamente para isso. Mas não deu, a emenda não passou. Graças à resistência de Renan Calheiros (PMDB-AL), que queria a cadeira de presidente do Senado. Depois Lula deu o troco em Renan, estimulando o PT tirar o chão do alagoano quando este mais precisava, na crise que culminou com sua renúncia ao comando da Câmara Alta. Assim como Lula já tinha dado o troco num aliado de Renan, o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), cuja reeleição à Presidência da Casa foi barrada pelo PT, aliado aos adversários de Renan e Sarney no PMDB. Ah, sim, Aldo tivera o apoio de Lula e do Planalto para conquistar um mandato-tampão após a renúncia de Severino Cavalcanti (PP-PE). Mas ali tinha sido outra coisa: tratava-se de evitar que fosse adiante um eventual processo de impeachment contra o presidente da República, por causa da crise desencadeada pelas acusações de Roberto Jefferson. Acolher um pedido de impeachment e dar sequência a ele é decisão monocrática, solitária do presidente da Câmara dos Deputados. Alguém duvida de que o candidato derrotado na sucessão de Severino, José Thomaz Nonô (PFL-AL), abriria o processo se tivesse a caneta na mão? Nem que fosse só por causa do caixa 2 de Duda Mendonça? Eu não duvido. Mas agora Lula não quer mais Sarney, quer Tião. Por quê? Porque Tião está com Dilma Rousseff, candidata de Lula à sucessão. E Sarney tem simpatias pelo nome de Aécio Neves, coisa que o presidente da República sabe. Então agora Sarney, que no passado foi o peão de Lula para obter o controle do Senado, recebe todo tipo de recado para cair fora. Inclusive na forma de teses sobre o necessário jejum político de ex-presidentes da República. Você quer ser capaz de fazer boas análises sobre os movimentos de Lula? Parta sempre de duas premissas. A primeira: Lula é PT, o mesmo tanto que o PT é Lula. A segunda: todos os movimentos do presidente desde a reeleição guiam-se pelo projeto de eleger o sucessor. Eu compreendi isso na plenitude no dia em que sentei diante do computador para escrever No comando da própria sucessão, um post de março de 2007 que fez algum sucesso. Voltando às duas premissas, na verdade elas podem ser lidas como uma só. Lula acorda e vai dormir pensando em como eleger alguém do PT afinado com ele para a sua cadeira. Alguém que não mexa com o sistema de poder instalado no palácio. Daí os limites colocados diante do ministro da Justiça, Tarso Genro. Por isso as dificuldades do bloco de esquerda (PSB-PCdoB-PDT-PMN-PRB), cujos ensaios de projeto próprio são vistos com desconfiança e nervosismo pelo Planalto e pelo PT. O jogo é complexo, dado que tampouco o PT e o governo podem comer apenas pela mão do PMDB, por razões óbvias. Daí que ciclicamente o PT trate de relembrar o caráter supostamente estratégico da aliança com os demais partidos de esquerda. Até porque um cenário de disputa em 2010 entre José Serra (PSDB-DEM), Dilma (PT-PMDB) e Ciro Gomes (Bloco de Esquerda) acabar numa boa, pelas contas do Planalto. Já que Ciro naturalmente tenderia a migrar para Dilma num eventual segundo turno dela contra Serra. Então o PT precisa do bloco (assim como precisa de Heloísa Helena candidata pelo PSOL), mas desde que não muito forte, desde que não capaz de passar a perna no PT. Como Eduardo Campos (PSB) passou, quando se elegeu, com o apoio do PT, governador de Pernambuco em 2006 depois de tirar o PT do segundo turno. Ainda sobre a sucessão no Legislativo, outro craque de bola é Michel Temer (PMDB-SP). A eleição dele à Presidência da Câmara passou a ser essencial para Lula. Por causa do papel estratégico da Presidência da Câmara? Não, por causa do papel estratégico da Presidência do PMDB. Temer não é confiável para Lula, que precisa de alguém confiável na Presidência do PMDB em 2010. É a luta pelo cartório, pela legenda, pelo tempo de televisão. E para evitar que o PSDB coloque a mão nesses tesouros. Lula quer Temer, cujo PMDB apoiou Serra na eleição municipal deste ano na capital paulista, longe da Presidência do PMDB na hora em que a sigla for decidir 2010. Um candidato de Lula a presidente do PMDB é Romero Jucá (RR), líder do governo no Senado. E Temer já garantiu a Lula que se ganhar na Câmara cede o comando do partido para Jucá, ou para outro nome indicado por Lula. Uma garantia de que o PMDB irá em 2010 para onde Lula quiser. Para o colo de Dilma. Um desenho perfeito. No qual Tião Viana teria o papel de equilibrar o jogo com Temer. Como Arlindo Chinaglia equilibra com Garibaldi Alves. Mas e a pergunta no título deste post? Lula disse que as muitas candidaturas na Câmara dos Deputados podem levar a um novo Severino Cavalcanti. Infelizmente eu não estava na hora em que o presidente disse isso. Porque eu teria tentado esclarecer a dúvida na hora. Eu fiquei curioso com uma coisa. Eu tenho uma pergunta para Lula. Os candidatos alternativos à Presidência da Câmara dos Deputados são Ciro Nogueira (PP-PI), Aldo Rebelo e Osmar Serraglio (PMDB-PR). Qual deles, segundo o presidente, tem mais o perfil de um novo Severino Cavalcanti? Para concluir, meu muito obrigado ao comentarista que, neste blog, alertou para a importância da disputa pela Presidência do PMDB. Por isso é que blog é bom. É a inteligência coletiva ajudando a superar as limitações individuais. Lembram quando eu disse que alguma coisa podia estar me escapando?

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Um outro ponto de vista (19/12)

Leitores reclamam que recorro demais a Paul Krugman para legitimar argumentos. Bem, é natural que a autoridade dele me ajude a argumentar. Mas sejamos pluralistas. Coloquei na seção Blogs o de Greg Mankiw, professor de Harvard que pensa de um jeito bem diferente de Krugman. Leia o post Stimulus Spending Skeptics. Há nele diversos links para outros posts interessantes.

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Precisa traduzir? (19/12)

A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) tem um trecho revelador. Do estadao.com.br:
    Mesmo admitindo que o País enfrenta a "interrupção do ciclo de expansão industrial", a produção de bens de capital "perdeu dinamismo", a criação de empregos formais também desacelerou e a balança comercial "perdeu vigor", o Banco Central manteve a taxa Selic em 13,75% na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da semana passada por não sentir segurança quanto à trajetória da inflação. A ata do Copom, divulgada ontem, mostra que o BC não aceitou se desviar da estratégia preventiva e não desistiu de trabalhar para que a inflação não estoure o teto da meta deste ano, 6,5% - o centro da meta é 4,5%, batalha já perdida.
Leia a reportagem. Mas por que o Copom está "inseguro" quanto à inflação?
    Ao ficar claro que a manutenção da Selic foi uma decisão construída numa reunião de quatro horas, na semana passada, o Copom disse que prevaleceu a idéia de que "o ambiente macroeconômico continua cercado de grande incerteza". Um dos argumentos desenvolvidos com mais detalhes na ata do Copom é uma comparação entre as "economias maduras" e as "economias emergentes", como a do Brasil. "Nas economias maduras, onde a ancoragem das expectativas da inflação é mais forte", a recessão "reduz rapidamente" as pressões inflacionárias, diz a ata. "Já nas economias emergentes, onde os efeitos secundários da elevação dos preços de matérias-primas sobre os preços ao consumidor e as pressões da demanda aquecida sobre a capacidade de expansão da oferta vinham sendo mais intensos, as pressões inflacionárias têm maior persistência."
O negrito em "vinham" é meu. A ata do Copom tem cheiro de fraude. Os diretores do BC explicam que "nas economias emergentes (...) os efeitos secundários da elevação dos preços de matérias-primas sobre os preços ao consumidor e as pressões da demanda aquecida sobre a capacidade de expansão da oferta vinham sendo mais intensos (...)". É a justificativa do Copom para não baixar a taxa de juros. Ora, o que é "vinham"? É o pretérito imperfeito do indicativo do verbo "vir". Se houvesse risco real, a palavra não seria "vinham", seria "vêm". Em vez do pretérito imperfeito, viria o presente do indicativo. Elevação de preços de matérias primas? Mostrem-me um, só um economista que assine hoje embaixo de previsões sobre riscos reais de subida explosiva de preços de commodities. O barril de petróleo, por exemplo, já caiu mais de dois terços. Tanto que a Opep corre para cortar a produção. Outro fato que a ata do Copom trata no pretérito imperfeito são "as pressões da demanda aquecida". Tem mesmo que ser "vinham", porque demanda aquecida é outra coisa que não existe mais. Basta dar uma olhada no noticiário. Insisto: a ata do Copom tem cheiro de fraude. Justificam-se os juros daqui para adiante com base numa realidade que ficou para trás, como mostram as próprias escolhas verbais da diretoria do Copom. O uso do verbo "vir" no pretérito imperfeito é o rabo do gato deixado de fora quando o gato tenta se esconder (a comparação com o bichano não é original neste blog). Bem, há diversas explicações sobre as recentes atitudes do Copom. Uma é política. Outra é econômica. O Banco Central não pode dizer, mas teme que a redução dos juros, essencial para injetar oxigênio na economia e desafogar os gastos públicos, possa conduzir o país a uma crise cambial. A uma fuga de dólares. À queima de reservas. O que empurraria o Brasil para algum tipo de retenção forçada do capital externo que aqui ingressou. Nada a ver com a inflação, já que repassar aumentos passados a preços futuros numa economia que recua é nonsense. E há uma terceira possível explicação, inspirada na coluna que Paul Krugman escreve hoje no The New York Times a propósito do escândalo Madoff (The Madoff economy), refletindo sobre os efeitos nefastos da hegemonia do capital financeiro sobre o conjunto da sociedade:
    At the crudest level, Wall Street’s ill-gotten gains corrupted and continue to corrupt politics, in a nicely bipartisan way. From Bush administration officials like Christopher Cox, chairman of the Securities and Exchange Commission, who looked the other way as evidence of financial fraud mounted, to Democrats who still haven’t closed the outrageous tax loophole that benefits executives at hedge funds and private equity firms (hello, Senator Schumer), politicians have walked when money talked.
O dinheiro, como uma espécie de flautista de Hamelin (outra comparação não original) dos políticos. O Banco Central pode fazer o que quer porque se autonomizou em relação à política, ganhando ele próprio um viés (êta palavrinha maldita) político. E os políticos que poderiam enquadrá-lo? Bem, talvez "politicians have walked when money talked". Precisa traduzir? E leia mais n'O Hermenauta.

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Mudança de música (19/12)

É notável que antes mesmo de ir morar na Casa Branca Barack Obama esteja a receber de Luiz Inácio Lula da Silva tratamento mais duro e mais confrontante do que o dispensado a George W. Bush em seis anos de convivência. As celebrações em torno de Cuba, na Bahia esta semana, têm tudo a ver com os compromissos históricos de Lula e do PT (e também com a linha desenvolvida pelo Itamaraty nas quatro últimas décadas). Mas o fato é que Lula esperou Bush virar um “lame duck” (pato manco, político que não manda nada) antes de dar o passo decisivo para reintegrar Havana ao hemisfério.

Reabsorver Cuba na comunidade de nações latino-americanas é um movimento lógico e há muito aguardado, no contexto de uma estratégia de integração regional. Estratégia aliás essencial para o Brasil. Principalmente agora, quando o protecionismo ganha musculatura e o livre comércio internacional perde ibope. Vide o fracasso das tentativas, impulsionadas em grande medida por Lula, de reanimar a moribunda Rodada Doha da Organização Internacional do Comércio (OMC).

Vivêssemos outros tempos e o baile diplomático da Costa do Sauípe teria transcorrido sob os acordes de uma orquestra diferente. Ou pelo menos com uma música mais suave. Lula passou seis anos alimentando boas relações com Bush. E gabando-se delas. Antes da eleição americana, não foram poucos os sinais saídos do Planalto apontando que uma vitória republicana teria, em termos práticos, vantagens comparativas para o interesse nacional brasileiro. A “simpatia” palaciana por Obama só veio a público, tardia e repentinamente, quando a vitória do democrata se desenhou com sinais mais nítidos.

Ouço aqui e ali que Lula anda desconfortável com a importância apenas relativa que recebe do futuro ocupante da Casa Branca. E que teria ficado incomodado porque em vez de receber um telefonema do recém-eleito precisou ligar para Washington. Só no retorno pôde falar com o “president-elect”. Foi um mau sinal. Sinal amarelo. Se Lula interpretou assim, interpretou bem.

Ao longo de seis anos, Lula partilhou com Bush certas teses, ainda que com graus diferentes de convicção. Uma tese comum era a fé no comércio mundial como alavanca para o desenvolvimento, especialmente nos países menos abastados. A estratégia diplomática do governo brasileiro orientou-se por aí. A dança para introduzir o nosso etanol no mercado americano foi, por exemplo, o foco principal da visita de Bush ano passado ao Brasil. Imaginava então o Planalto que a emergência das preocupações com o aquecimento global seria a oportunidade de ouro para substituirmos, em grande parte, a gasolina que abastece os carrões na superpotência.

Isso rendeu a Lula atritos com Hugo Chávez e Fidel Castro, defensores da tese de que plantar mais combustível significa, globalmente, produzir menos comida. Levou também o Brasil a relativizar na OMC sua tradicional aliança com os demais emergentes para, num movimento arrojado, acercar-se dos desenvolvidos em busca de um consenso que afinal fracassou. A cena mais recente do enredo deu-se agora em Washington, na reunião do G20 convocada por Bush. Quando o Brasil subscreveu os dogmas sobre a liberdade comercial como remédio por excelência para superar a crise econômico-financeira desencadeada pelos créditos podres americanos.

Mas Obama parece não estar nem aí para esse conjunto de idéias. Até porque chegou ao poder derrotando-as. Hoje em dia ele leva jeito de andar mais preocupado com a proteção dos empregos americanos e com a regulação do indomável mercado financeiro. Nem os projetos para combustíveis alternativos ajudam. Os Estados Unidos querem auto-suficiência nisso. Não pretendem trocar a dependência da gasolina árabe, persa e venezuelana pela dependência do etanol brasileiro.

Daí por que talvez o Brasil tenha percebido a necessidade de ajustar também a sua posição. O que se dá com um coeficiente de atrito inusitado. É sintomático, por exemplo, que o chanceler Celso Amorim seja um dos dois atores de relevância mundial que criticaram frontalmente Barack Obama antes mesmo da posse.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Jogo do Poder com Luiz Barreto (17/12)

O ministro do Turismo, Luiz Barreto (PT), é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Em pauta as novas oportunidades para o mercado turístico interno depois da desvalorização do real, as iniciativas do governo para investir na infraestrutura turística e o quadro político nacional. Participa também o jornalista Gustavo Paul, de O Globo.



Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5


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Pesquisas sulamericanas (17/12)

Três pesquisas no www.angus-reid.com. Tudo em inglês:

Argentines Back Government’s Economic Measures

The majority of people in Argentina approve of the way the government of Cristina Fernández de Kirchner has handled the current economic situation, according to a poll by CEOP. 63 per cent of respondents say the government is effectively tackling the possible impact of the global financial crisis on the country’s economy, while 24.3 per cent disagree. In addition, more than 70 per cent of respondents agree with the president’s plans to start new infrastructure projects, create a Production Ministry, and cut taxes for companies hiring new employees. Leia na íntegra.

Ecuadorians Agree With Foreign Debt Default

The majority of people in Ecuador believe their country should refrain from paying its foreign debt, according to a poll by Cedatos/Gallup. 61 per cent of respondents support a default. Rafael Correa, a former finance minister, ran for president as an independent leftist under the Alliance Country (AP) banner. In November 2006, Correa won a run-off with 56.69 per cent of the vote. He officially took over as Ecuador’s head of state in January 2007, and vowed to change the country’s Constitution. Correa’s party nominated no candidates to the National Congress. Leia na íntegra.

Two-Thirds of Peruvians Displeased with García

The popularity of Peruvian president Alan García continues to be low despite a recent surge, according to a poll by CPI. 69.2 per cent of respondents disapprove of the president’s performance, down 8.5 points since October. Leia na íntegra.

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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A inflação do IGP-10 registra recuo de 96% (16/12)

Da Folha Online:

O IGP-10 (Índice Geral de Preços - 10) teve ligeira variação positiva de 0,03% em dezembro, uma desaceleração acentuada em relação a novembro, quando a alta foi de 0,73%. No ano, o indicador teve variação positiva de 10,27%. Os dados foram divulgados nesta terça-feira pela FGV (Fundação Getulio Vargas). O resultado no ano atinge, assim, a maior marca desde 2004, quando a alta foi de 12,4%. No ano passado, o índice acumulou alta de 7,38%.

O título da reportagem é Inflação pelo IGP-10 fecha o ano em 10,27%, maior desde 2004, diz FGV. Questão de gosto. Qual é a importância da inflação acumulada nos últimos doze meses? Nenhuma. Ou talvez alguma, no caso de contratos indexados pela inflação passada. E só. Para efeito de análise sobre a tendência dos preços, vale a medida de curto prazo, que já pega o período da crise. Se não, vamos misturar laranjas e bananas. E deixar de olhar o "big picture", como dizem os americanos. Importante mesmo é a desaceleração. O IGP-10 foi 0,03% em dezembro. Contra 0.73% em novembro. Uma desaceleração de 0,70 ponto percentual. Ou seja, uma queda de 96% na taxa, de um mês para outro. Daí por que coloquei o título acima no post. E você, prefere qual? O meu ou o da Folha Online?

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Bom de drible (16/12)

Luiz Inácio Lula da Silva é um gênio da política. Um Robinho da política. Ontem o presidente foi a uma conferência sobre direitos humanos. E botou a boca no trombone. Falou sobre aborto. Que segundo Lula é um tema de saúde pública. Mas a conferência era sobre direitos humanos, não sobre saúde pública. E não vale recorrer à criptodialética de boteco, segundo a qual tudo supostamente se relaciona. Se tudo se relaciona, por que o presidente não falou, por exemplo, sobre a expectativa em torno da estréia do Fenômeno no Corinthians? No evento sobre direitos humanos, Lula falou de aborto, segundo ele um assunto de saúde pública, para gerar uma polêmica que interessa a ele. E para deslocar uma polêmica que não interessa a Lula, e que tem tudo a ver com direitos humanos: a pressão que um pedaço do governo brasileiro faz para revisar a Lei de Anistia (leia Os radicais do conforto. E uma resposta impossível sobre amigos e inimigos). Ora, já que a opinião pública não consegue se concentrar em mais de um assunto por vez (meu salário por um lide!), e já que tudo que o presidente diz tem potencial para ser notícia, a receita é óbvia. Quer evitar um assunto? Então arranje outro. Já se sabia que o aborto é uma pauta útil para o ministro da Saúde escapar de certos temas incômodos. Como por exemplo a dengue (leia Muita conversa, pouco serviço). Ou como a hanseníase. Deu na Folha Online em novembro:

Em seis meses, o Brasil será o único país do mundo que não atingiu a meta de eliminar a hanseníase, afirmou Yohei Sasakawa, embaixador da OMS (Organização Mundial da Saúde) para a eliminação da hanseníase. Segundo ele, o Nepal -que também não eliminou a doença- apresenta uma curva decrescente de prevalência, e estima-se que eles eliminarão a doença até maio de 2009.

Leia a reportagem. Agora é Lula quem recorre ao truque do ministro José Gomes Temporão. Uma cultura que se dissemina na Esplanada. Se não há disposição para enfrentar certos problemas, é útil desenvolver um método para driblá-los com eficácia e elegância. Pedala Robinho!

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E coragem para isso? (16/12)

As pesquisas CNT e Ibope confirmam a alta popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas como vão ficar os índices de aprovação do presidente quando os sinais da crise estiverem mais evidentes por aqui? Quando a criação de empregos desacelerar? Vamos especular. Assim mesmo, no chutômetro. Pois eu acho que, mantida a atual disposição de forças políticas, Lula tem chances de atravessar a crise sem graves danos na imagem ou na popularidade. Quando as pessoas votam num presidente da República elas escolhem um líder. Um líder para as horas boas e as horas más. Para enfraquecer o líder é preciso que a oposição ofereça alternativas mais vantajosas de liderança. Mais vantajosas para os liderados, não para os candidatos a líder. A oposição brasileira não consegue apresentar uma única idéia substancialmente diferente de como enfrentar o tsunami econômico mundial, para que o Brasil saísse dele melhor do que sairá com Lula. E o cidadão comum que hoje apóia o governo, e que prtanto está potencialmente disposto a votar para que as coisas continuem como estão, fica sem grandes motivos para mudar de lado. A questão dos juros já foi tratada aqui ad nauseam. Outra coisa reveladora são as "medidas de exceção" propostas pelo presidente da Companhia Vale do Rio Doce. Retirar "temporariamente" direitos trabalhistas para, em troca, supostamente reduzir demissões. O governo flerta com a idéia. Aliás, Lula flerta com essa plataforma "neoliberal" de vez em quando (leia A reforma trabalhista de Lula e o Livro Vermelho de Mao Tsetung). Só para fazer uma média com os empresários. Se Lula estivesse na oposição e alguém propusesse mexer em direitos trabalhistas, o mundo desabaria. Lula aproveitaria para tirar o máximo proveito possível desse ensaio de insensatez do governante. Porque o certo agora não é flexibilizar direitos dos trabalhadores, mas fazer o contrário: reforçá-los. Demitir um empregado, por exemplo, deveria ficar mais caro. Isso desestimularia as demissões e ajudaria a evitar mais desemprego. Crédito em bancos estatais só deveria estar disponível para quem não demitisse. E o governo deveria dar crédito muito barato para empresas que contratassem agora, no meio da crise, uma certa porcentagem adicional de sseu contingente laboral. Quer demitir? Então vai pegar capital de giro nos bancos privados, pagando os juros da livre iniciativa. Capitalismo nos olhos dos outros é refresco. O resumo da ópera: Lula governa gerando benefícios para os pobres e segurança para os ricos. Daí a sua popularidade. Lá atrás, a oposição tentou minar a primeira perna (lembram do "bolsa-esmola"?). O resultado foi ruim. Agora a oposição teria que mirar na segunda. E coragem para isso?

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

"A nova nacionalidade brasileira" (15/12)

Coloquei na seção Textos de outros o interessante e esclarecedor artigo A nova nacionalidade brasileira, do professor José de Souza Martins, a propósito da Raposa Serra do Sol. Saiu publicado ontem no Estadão.

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Salomônicas (15/12)

Peço licença ao leitor para tratar de vários assuntos numa só coluna. Para não perder o pé. Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal encaminhou uma decisão sobre a terra indígena Raposa Serra do Sol que permite duas leituras. Os defensores da demarcação contínua festejaram porque o veredito, se confirmado, retirará da área os produtores de arroz. E os -como eu- mais preocupados com os aspectos relacionados à soberania nacional gostaram de ver o ministro Carlos Alberto Direito indicar que as Forças Armadas terão ampla liberdade de ação e de movimentos dentro da reserva. E de vê-lo reafirmar que os índios não são donos dela.

Quem tem mais motivos para comemorar? O tempo vai dizer. Como o relator, Carlos Ayres Britto, aceitou as observações de Direito, parece que o tribunal irá mesmo por um caminho salomônico, ainda que de cabeça de juiz possa sair qualquer coisa. Antigamente, incluíam-se as urnas e as barrigas de mulheres grávidas nessa categoria, mas as pesquisas eleitorais e os exames pré-natais têm enfraquecido um pouco o ditado original.

Já no Banco Central faltou um Salomão. O Comitê de Política Monetária decidiu dar seu aviso à sociedade brasileira: manda quem pode, obedece quem tem juízo. O Copom, que é quem manda, manteve a taxa básica de juros em 13,75%. Ou seja, aumentou a Selic em termos reais, já que os índices de inflação estão em queda livre. Não conheço analista que esteja preocupado a sério com um possível repique da inflação por causa do dólar mais caro. A desaceleração econômica reduziu dramaticamente o espaço para repassar custos a preços finais.

Um exemplo. No site do Bradesco tem um boletim de conjuntura econômica chamado “Zoom de mercado”. O mais recente, assinado por Dalton Gardimam e Denis Blum, diz: “A nosso ver, a economia do Brasil deve retomar sua tendência de crescimento somente no 3T09. Isso não será suficiente para melhorar o PIB do ano calendário de 2009, que acabamos de revisar, reduzindo para 1% (antes 2,2%). O país está próximo a uma recessão técnica (dois trimestres em seguida de ‘crescimento’ negativo do PIB sobre o trimestre precedente)”. E concluem: “A melhor resposta a esse problema evidente é reduzir as taxas de juros: o mais breve possível, isto é, na próxima reunião [do Copom]”.

3T09 é o terceiro trimestre do ano que vem. Outra informação interessante no boletim é que até importadoras de carros estão reduzindo os preços ao consumidor. Apesar da forte alta do dólar. Aí eu pergunto: se a realidade é essa e se nem os analistas de bancos defendem a posição do Banco Central, qual é a base das decisões recentes do Copom? Caso a resposta seja “a política”, ou então “as pressões sobre o BC acabam fazendo com que o Copom reaja e adote uma posição política”, trata-se de revisar o modo pelo qual são indicados os membros do colegiado monetário. Se a função é política, que se façam eleições para preencher os cargos.

Quem também anda precisando de um Salomão (ou de dois deles) para evitar a balbúrdia é o Congresso Nacional, no processo de sucessão das Mesas. A boa notícia da semana foi a possível candidatura à reeleição do presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN). Se houver mesmo base jurídica, seria uma solução bastante adequada. Garibaldi foi o único presidente do Senado na história recente a combater o nepotismo, além de enfrentar o Executivo, com a devolução de uma medida provisória, e o establishment da Casa, com as novas licitações para áreas estratégicas. O senador potiguar merece mesmo mais dois anos no cargo. Para completar o trabalho.

Ah, sim, houve também o pacote do governo para enfrentar a crise. Lá do céu, o Rei Salomão deve ter ficado com inveja. O embrulho incluiu medidas econômicas, como usar as reservas cambiais para financiar as exportações, e políticas, como deixar uns trocados no bolso do cidadão que paga Imposto de Renda (IR). O governo aproveitou para fazer cortesia com o chapéu alheio, já que esta última decisão, combinada com as isenções no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), afeta diretamente o repasse a estados e municípios. Luiz Inácio Lula da Silva ficou bem com a classe média à custa de prefeitos e governadores. E aproveitou para ganhar umas palminhas de quem vive pedindo por mais e mais renúncia fiscal.

Afinal, se os dois analistas do Bradesco estiverem mesmo certos, o que vem por aí vai exigir mesmo a queima de muita gordura de Lula. Gordura política, é claro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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domingo, 14 de dezembro de 2008

Uma pesquisa sobre Cuba, na Flórida (14/12)

A Florida International University/Brookings Institution entrevistou por telefone 800 cubano-americanos na Flórida no primeiro dia deste mês. A margem de erro é 3,6 pp. Vamos aos resultados.

você é a favor ou contra que os Estados Unidos mantenham o embargo a Cuba?
a favor - 45%, contra - 55%

você é a favor ou contra que os Estados Unidos restabeleçam relações diplomáticas com Cuba?
a favor - 65%, contra - 35%

você é a favor ou contra eliminar as atuais restrições a que os cubano-americanos viagem a Cuba?
a favor - 66%, contra - 34%

você é a favor ou contra eliminar as atuais restrições a que os americanos viagem a Cuba?
a favor - 67%, contra - 33%

você é a favor ou contra eliminar as atuais restrições a que os cubano-americanos enviem dinheiro a Cuba?
a favor - 65%, contra - 35%

Leia aqui.

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"Medidas de exceção" no aniversário do AI-5 (14/12)

O presidente da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), a Vale, disse a seguinte frase em entrevista que o Estadão publica hoje:

"Precisamos tomar medidas de exceção".


Leia a entrevista. Roger Agnelli pede que certos direitos trabalhistas sejam abolidos temporariamente, para que supostamente haja menos demissões na crise. Eu tive uma idéia a partir das declarações de Agnelli ao Estadão. A Vale poderia usar uma parte do dinheiro economizado com a "flexibilização" dos benefícios, contratando uma boa assessoria de comunicação para o seu presidente. Falar em "medidas de exceção" no fim de semana em que se comemoram 40 anos da edição do AI-5 é de um simbolismo e de um amadorismo atrozes. Haja ato falho...

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sábado, 13 de dezembro de 2008

Verdades históricas (13/12)

Há uma polêmica interessante nesta passagem dos 40 anos do Ato Institucional número 5 (AI-5). Abro um parêntese. É curioso que o aniversário do golpe dentro do golpe seja lembrado, enquanto permanece a indiferença quanto a um outro 13 de dezembro, dez anos depois, em que o AI-5 foi finalmente revogado. Recorda-se o golpe, mas não a extinção do instrumento jurídico que o cristalizou. Curioso. Fecho o parêntese. O debate atual sobre as razões para o AI-5 envolve, como dizia antes dos parênteses, um aspecto que merece reflexão. Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? O aprofundamento da ditadura foi uma reação à esquerda armada ou a esquerda armada foi uma resposta ao aprofundamento da ditadura? O debate vem sendo travado de forma esquemática, talvez porque isso interesse aos atuais protagonistas da política brasileira. O PT é um partido que tem no DNA a contribuição dos remanescentes da guerrilha urbana. Que se uniram ao sindicalismo comandado por Luiz Inácio Lula da Silva e à esquerda católica para criar a legenda hoje dominante no Brasil. Daí por que a polêmica esteja, digamos assim, abastardada (sem querer ser politicamente incorreto). Aos petistas e aliados interessa apresentar a luta armada dos anos 60 e 70 do século passado como um contramovimento democrático legítimo, quando todos os demais canais de resistência haviam supostamente se fechado. O que não é verdade. Eleições, por exemplo, continuaram a acontecer durante toda a ditadura. O horário eleitoral gratuito, por exemplo, foi inventado em plena ditadura. E aos adversários do PT interessa apontar o AI-5, e a ultraditadura que ele trouxe, como uma reação à guerrilha. Que chamam de "terrorismo". O que tampouco é verdade. Aliás, não houve terrorismo no Brasil naquela época. Houve guerrilha. Escrevi em Reconhecer o patriotismo alheio:

Há uma diferença conceitual entre guerrilha e terrorismo. A guerrilha se caracteriza pela disposição de combater assimetricamente uma força armada regular ou um poder constituído. O terrorismo se caracteriza pela disposição de infligir morte e sofrimento à população civil, com objetivos políticos.

A não ser que você seja um propagandista, ou esteja viciado em propaganda, convença-se disso. Guerrilha é uma coisa. Terrorismo é outra coisa. Tome cuidado com os conceitos, porque nos exercícios de maniqueísmo a História se converte numa caricatura de si mesma e você acaba perdendo o pé. Vamos aos fatos. O Brasil percorreu o século 20 como um país de pouco apreço pela estabilidade democrática, com a vida política sendo marcada, à esquerda e à direita, pelo recurso à violência e aos golpes de estado. A Revolução de 1930, que desbloqueou o caminho para a construção da moderna democracia em nosso país, foi um golpe de estado. A redemocratização de 1945 foi consumada num golpe de estado. Juscelino Kubitschek só tomou posse em 1955 porque o marechal Henrique Teixeira Lott deu um golpe de estado. O golpe foi também o instrumento para implantar o Estado Novo em 1937, assim como para derrubar João Goulart em 1964 e impedir a posse do vice Pedro Aleixo quando Artur da Costa e Silva ficou doente em 1969. Esses foram golpes que deram certo. Um que não deu certo foi o de 1935, quando os comunistas tentaram tomar o poder num levante militar, depois de verem seu projeto político legal, a Aliança Nacional Libertadora(ANL), ser colocado na ilegalidade por Getúlio Vargas. Outro golpe abortado foi o de 1954, quando a direita pretendia emparedar Vargas e foi emparedada por ele, que meteu uma bala no coração e virou o jogo. Estude o Brasil do século 20 e você verá um país marcado por rupturas (e tentativas de rupturas) institucionais. O relativo consenso em torno da via democrática para o poder no Brasil é coisa recente, de um quarto de século para cá. Um consenso moldado por, pelo menos, duas circunstâncias. A primeira foi a chegada aqui do chamado eurocomunismo, resultado direto da reflexão produzida no Partido Comunista Italiano depois da queda de Salvador Allende no Chile. A segunda foi a completa derrota militar aqui da guerrilha, urbana e rural. O que compeliu a esquerda, em alguns casos a contragosto, a atuar politicamente por meio de formas de luta "mais atrasadas", como se dizia na época. Coisas como disputar eleições pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), organizar entidades estudantis de massa e movimentos populares. Até a formação do PT, em 1980, ainda havia na esquerda quem defendesse o voto nulo. Lembro bem de um debate que fizemos na Faculdade de Medicina da USP na eleição municipal de 1976. Foi na "Sala do sono" (nome sintomático; existe ainda?) do Centro Acadêmico "Oswaldo Cruz" (CAOC, veja a relação dos presidentes). Era para ser uma discussão em torno de candidatos, mas acabou virando uma polêmica sobre o voto no MDB versus o voto nulo. Isso em 1976, dois anos depois de o MDB impor uma derrota duríssima à Aliança Renovadora Nacional, a Arena, o partido da ditadura. O voto nulo era alimentado na época por dois vetores principais. Havia a posição de uma parte das organizações trotskistas, que se opunham à participação em partidos que não fossem operários. E havia a posição de remanescentes da guerrilha, que se recusavam a aceitar um fato: a luta armada no Brasil havia sido derrotada. Ora, se a via armada no Brasil tivesse sido apenas um caminho radical para reagir à ditadura, seria natural que quando os caminhos democráticos se abriram, com o resultado de 1974, os sobreviventes do militarismo aderissem entusiasticamente à via pacífica. Não foi o que aconteceu. Mesmo com todos os sinais de temor dados pelo regime (Lei Falcão, Pacote de Abril) diante do crescimento da oposição legal, permaneciam as ressalvas dos herdeiros políticos de Carlos Marighella. Eu sei porque vi, participei e polemizei. Não é de ouvir falar. A verdade histórica é que a luta armada no Brasil surgiu como uma alternativa para a tomada do poder pela esquerda, depois do que se acreditava tivesse sido o colapso final do assim chamado populismo. Como a frágil democracia brasileira não havia conseguido resistir ao golpismo da direita, golpismo estimulado pelo temor nas elites e na classe média diante da ascensão política das massas populares urbanas, um pedaço da esquerda, muito influenciado pelas revoluções em Cuba e na China, concluiu-se que a democracia, da forma que existira entre 1945 e 1964, havia partido para não mais voltar. E que se tratava de recorrer à violência revolucionária para superar (destruir) o Estado burguês. Leia Fidel no Chile de Allende, do site Gramsci e o Brasil. Por isso é que eu concordo com Lula: precisamos tratar os combatentes dos anos 60 e 70 não como vítimas, mas como o que foram, militantes que fizeram uma opção pela via chamada de revolucionária. E o outro lado? Dizer que o endurecimento do regime de 64 se deveu à eclosão da guerrilha é uma falsificação histórica. A direita deu o golpe e o aprofundou, com os atos institucionais e os casuísmos, para evitar não a tomada do poder pelos guerrilheiros, mas para impedir que a oposição chegasse ao poder pela via eleitoral. Israel Pinheiro e Negrão de Lima, cujas vitórias nas urnas mineiras e cariocas em 1965 provocaram o AI-2 em 1966, não eram da guerrilha. Eu não vou me estender sobre isso. Quem estiver curioso ou tiver dúvidas, que leia os livros do Elio Gaspari sobre a ditadura, a obra definitiva sobre como os grupos militares, articulados a facções civis, digladiaram-se por duas décadas para continuar no poder, ou chegar a ele. E leia também 31 de março, há 42 anos.

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Falta de liderança ou excesso de matemática? (12/12)

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, bateu duro no presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama. Naturalmente, Amorim não falava por si, mas pelo seu chefe, Luiz Inácio Lula da Silva. Do estadao.com.br:

Amorim culpa Obama pelo fracasso da Rodada Doha

Eleito nos EUA não assume suas responsabilidades como líder, diz chanceler

Jamil Chade, GENEBRA - O chanceler Celso Amorim fez o que deve ter sido um dos mais duros ataques públicos de uma autoridade estrangeira contra o presidente americano Barack Obama desde que o democrata foi eleito e corre o risco de ser até considerado um "incidente diplomático" antes mesmo de Obama tomar posse. Ontem, Amorim disse que Obama não estaria assumindo suas responsabilidades como "líder" e que a falta de um sinal de flexibilidade por parte do presidente eleito na área comercial é o que estaria levando um acordo na Rodada Doha ao fracasso. Para Amorim, se não houver um entendimento agora, dificilmente o processo conseguiria ser relançado no futuro. Em Genebra, já é quase unanimidade de que a Rodada Doha chegou a seu ponto final diante do verdadeiro caos entre os governos. Amorim preferiu culpar Obama, a intransigência do governo de George W. Bush e a pouca coordenação na transição. "Ninguém pode se esconder de suas responsabilidades. Líderes precisam mostrar que são líderes e não podem se esconder", atacou o chanceler, após reuniões ontem em Genebra. No dia de sua eleição, Amorim comemorou e afirmou que esperava construir uma relação de "parceria" entre Brasil e EUA. Os americanos estão sendo intransigentes nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) e todos apostam que hoje será anunciado o colapso do processo, depois de sete anos de reuniões e conferências. Washington quer a abertura dos mercados dos países emergentes para aceitar um acordo comercial. Mas o Brasil, Índia e China se recusam a zerar suas tarifas de importação para setores industriais considerados como estratégicos nos EUA. O ministro brasileiro fez questão de reiterar sua oposição às demandas americanas ontem em reuniões na OMC.


Leia a reportagem. Releia, se quiser, Cada um por si, de um mês atrás. Ou Copia o Obama, Lula, não o Bush. Ou Capitulação, sobre a reunião do G20 da qual os jornalistas e Lula saíram convencidos de que haviam presenciado a emergência de uma nova ordem econômica mundial, marcada pelo multilateralismo e pela abertura dos mercados, supostamente o bálsamo que nos tiraria da crise. Pois o G20 tinha finalmente sobrepujado o G8. Claro, pode ser ser que a Rodada Doha avance, seja concluída e que tudo no fim dê certo para os autonomeados salva-vidas do comércio internacional. Aí eu farei minha autocrítica pública. Neste blog. Até porque você me cobraria, e com razão. Além dos posts acima escrevi também A vida como ela é e Hora de agir. Hoje, depois de ler a reportagem com a indignação de Amorim, olhei por sorte o blog de Dani Rodrik, onde me deparei com a seguinte preciosidade:

Some unpleasant Keynesian arithmetic

How much of a boost to economic activity will a fiscal stimulus provide? For those who believe that we have entered a Keynesian world of shortage of aggregate demand--me included--the answer depends on the Keynesian multiplier. The size of this multiplier depends in turn on three things in particular, the marginal propensity to consume (c), the marginal tax rate (t), and the marginal propensity to import (m). If c=0.8, t=0.2, and m=0.2, the Keynesian multiplier is 1.8 (=1/(1-c(1-t)+m)). A $1 trillion fiscal stimulus would increase GDP by $1.8 trillion. Now suppose that we had a way to raise the multiplier by more than half, from 1.8 to 2.8. The same fiscal stimulus would now produce an increase in GDP of $2.8 trillion--quite a difference. Nice deal if you can get it. In fact you can. It is pretty easy to increase the multiplier; just raise import tariffs by enough so that the marginal propensity to import out of income is reduced substantially (to zero if you want the multiplier to go all the way to 2.8). Yes, yes, import protection is inefficient and not a very neighborly thing to do--but should we really care if the alternative is significantly lower growth and higher unemployment? More to the point, will Obama and his advisers care?


Ou seja, se a propensão ao consumo é baixa, erguer barreiras comerciais é uma boa maneira de multiplicar o efeito digamos desenvolvimentista de um pacote de estímulos fiscais. Ou seja, os Estados Unidos podem até não subir alíquotas de importação, mas a coisa mais improvável neste momento é que baixem as barreiras comerciais, pois isso levaria a desperdiçar as centenas de bilhões de dólares do déficit fiscal mobilizado para tentar tirar o país da crise. Para aceitarem abrir-se mais aos produtos estrangeiros, os Estados Unidos exigirão em troca a abertura agressiva de mercados em ramos nos quais eles, americanos, são melhores: bens industrializados, de alto valor agregado. Claro que eu não conhecia essa equação de John Maynard Keynes, mas é só uma questão de raciocinar. Por isso, chanceler Amorim, não é que Obama não seja um bom líder. Ele é um líder americano, não mundial. Aliás, não existem líderes mundiais, só nacionais. E o projeto brasileiro (de Lula) de aproveitar a crise planetária para promover um avanço decisivo no comércio internacional e encaixar aí o nosso (dos usineiros) encalhado etanol não tem base real. Pode vir a ter, desde que o governo do PT decida promover uma ampla abertura do mercado brasileiro aos produtos americanos. Logo o PT, que extraiu o máximo de dividendos políticos quando resistiu (no que fez bem) aos esforços dos governos anteriores para fazer avançar a Alca (Área de Livre Comércio das Américas). A diplomacia encontra seus limites quando esbarra com coisas que a conversa não pode resolver por si. Não é falta de liderança, chanceler, é excesso de matemática. Afinal, o PIB que se deseja é o PIB vezes [1/(1-c(1-t)+m)]. Por isso é que talvez os sonhos de um G20 protagonista tenham sido algo exagerados. Talvez o G8 tenha mesmo se tornado obsoleto. mas é provável que ele seja substituído não pelo G20, e sim pelos muitos G1. Que neste caso não é o nome do site da Globo, mas uma notação possível para o cada um por si. Ah, sim, os negritos no texto do Rodrik são meus. E leia também Dani Rodrik is letting the cat out of the bag, de Michael Pettis, do Asia Ecomonitor, que foi onde eu achei o texto de Rodrik que inspirou este post.

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