domingo, 30 de novembro de 2008

A luta para entrar no barco (30/11)

Não é só entre jornalistas (e entre políticos) que de vez em quando o debate descamba. Está sendo interessante acompanhar a polêmica entre o economista e colunista Paul Krugman, no The New York Times, e seus adversários colunistas, ou economistas. Dois deles foram especialmente contemplados pelo Nobel com bons argumentos e boas estocadas nos últimos dias: Amity Shlaes, escrevendo no Wall Street Journal, e George F. Will, no The Washington Post. Em meio à refrega, Krugman trouxe para o ringue a frase de Upton Sinclair, um escritor americano que tinha inclinações à esquerda:

It is difficult to get a man to understand something, when his salary depends upon his not understanding it.

É difícil levar alguém a entender algo quando seu salário depende de que não entenda. Eu registro aqui o "teorema de Upton Sinclair", como definiu Krugman em seu blog, apenas para dar idéia da alta temperatura. Você que me conhece sabe que eu prefiro o oposto, esfriar a polêmica e evitar que os argumentos cozinhem e se desnaturem no fogo das paixões. Foi o que escrevi em Este é um blog moderado. Habituem-se:

Um argumento que rejeito sistematicamente é o pecuniário. Algo mais ou menos na linha "fulano de tal só defende isso pois tem um emprego no -ou recebe dinheiro do- governo de sicrano". Há certos debates de que participo. De outros, não. Não entro em polêmicas que, a prevalecer a lógica, tendem a um beco sem saída. As aspas acima são um exemplo. Vamos trabalhar com a situação em que o personagem A acusa o personagem B de escrever textos (ou dar declarações) favoráveis ao governo de C porque leva algum tipo de vantagem monetária, direta ou indireta. Ora, se é razoável supor que B apoia C porque leva alguma vantagem, é também legítimo acolher a hipótese de que A só se opõe a C por não ter tido acesso aos benefícios recebidos por B. Pau que dá em Chico dá em Francisco.

Mas será possível discutir política assim, só no plano nas idéias? Tentemos. O conservadorismo econômico, em baixa, procura se levantar da lona antes que o juiz conte até dez. Uma vez de pé, a pancadaria só vai aumentar, precavenham-se. A agitação contra o empréstimo dos bancos públicos para a Petrobrás é um sintoma. Qual é a essência do debate econômico nesta crise? Se o Estado deve ou não se meter no mercado, estimulando a criação de empregos e garantindo uma certa renda para o trabalho. Quem acha que sim diz que em situações tendentes à depressão é preciso garantir emprego e renda para que o trabalhador/consumidor projete uma renda futura e tenha confiança para comprar. São situações em que a taxa de juros perde poder de tração, como aconteceu por exemplo na recessão japonesa dos anos 90, quando a economia parou de crescer mesmo depois de os juros ficarem negativos. Já a oposição a esse ponto de vista sustenta que o Estado proporcionar níveis de emprego e renda "artificiais" é prejudicial, pois reduz a produtividade do capital, já que incrementa custos, incremento que não será compensado pela criação do valor correspondente. Isso foi pinçado por Krugman do texto de Will. E o capital ficar assim, de breque de mão meio puxado, atrasaria a volta ao dinamismo econômico. Para detalhar mais o último ponto de vista: trata-se de reduzir o preço do trabalho e eliminar, por meio da consolidação, estoques menos produtivos de capital, para abrir caminho à recuperação. Onde está a razão no duelo intelectual? Dependendo do ângulo do observador, pode estar em qualquer um dos dois pólos. Ou em algum ponto intermediário. Pois não há uma "razão" única. O que há é a luta de classes, ainda que a expressão possa doer nos estômagos mais sensíveis. Cada um, cada lado, cada personagem peleja para que os recursos da sociedade, recolhidos pelo Estado, ajudem a atravessar a tempestade, a escapar do naufrágio. É uma disputa por vagas no bote salva-vidas. Até porque, recorde-se, não se ouviram dos radicais do mercado críticas na fase da crise, semanas atrás, em que se tratava de os Estados intervirem enlouquecidamente para salvar bancos. Agora, bem alojados no banquinho e enrolados no cobertor quentinho, dão pancadas com o remo nas mãos, nos braços e nas cabeças dos infelizes que se agarram ao barco para tentar sair da água.

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sábado, 29 de novembro de 2008

Filme sobre a Prússia Oriental (29/11)



Numa coincidência, dois leitores me pediram por email que explicasse melhor como foi a tomada da Prússia Oriental pelos soviéticos no final da Segunda Guerra Mundial. O pedido foi por causa das referências a Kaliningrado (antiga Königsberg). Aliás, por que será que os russos mudaram até o nome de Leningrado (para São Petersburgo), mas mantiveram "Kaliningrado" como a capital da ex-Prússia do Leste? Eu tenho um palpite. Voltando à razão deste post, o didatismo, achei no YouTube um bom vídeo sobre o tema histórico. Está dividido em cinco partes. Vale assistir. Clicando no vídeo acima, você vê a primeira parte. Ela e as demais estão linkadas abaixo. Cada uma dura cerca de dez minutos (o total, portanto, dá uns 50 minutos). Não é recomendável para pessoas de estômago fraco. Está em inglês.

Parte 1 - Parte 2Parte 3Parte 4Parte 5

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O editorialista do Estadão voltou das férias (29/11)

De um editorial de hoje de O Estado de S.Paulo (A Petrobrás deve respostas):

O espanto foi justificado, também, pelo fato de a Petrobrás ser uma empresa com ações cotadas no exterior e com acesso fácil, pelo menos até agora, ao mercado financeiro internacional. Em condições normais, não precisaria, portanto, concorrer com empresas nacionais - e, mais que isso, com empresas muito menores - na busca de empréstimos concedidos no mercado interno, especialmente de recursos destinados ao capital de giro, hoje muito escasso e muito caro para a maior parte das companhias.

O editorial, como sempre muito bem escrito, trata da polêmica sobre o empréstimo da Caixa Econômica Federal (CEF) à Petrobrás. Aliás, eu gostei de o Estadão ter escrito "Petrobrás" assim, com acento. Mas vamos ao que interessa. Diz o editorialista que a empresa petrolífera estatal (graças a Deus!) tem "acesso fácil" ao mercado financeiro internacional. E que, "em condições normais", não precisaria portanto "concorrer com empresas nacionais na busca de empréstimos concedidos no mercado interno". Pois eu tenho uma notícia exclusiva para o editorialista do Estadão. É um verdadeiro furo. Eu revelo agora a ele -e talvez ao país- que as condições do mercado financeiro internacional não têm sido "normais" nos últimos tempos. Há uma certa escassez de crédito e a situação das bolsas de valores não é exatamente propícia para operações de capitalização. Talvez o escriba esteja voltando de férias agora e tenha ficado meio desconectado. Mas isso não é problema. Ele pode acessar o excelente site www.estadao.com.br/economia e vai obter ali toda a informação necessária para ficar por dentro de como anda o mundo. É interessante a polêmica sobre o assunto. O que a Petrobrás fez? Como a empresa não deseja (ainda bem!) cortar investimentos, ela foi buscar recursos no mercado para pagar obrigações de curto prazo. E como os bancos privados brasileiros estão sentados cada um na sua pocinha de liquidez, sonegando à sociedade o dinheiro liberado pelo Banco Central
, a Petrobrás recorreu ao setor bancário estatal. Parabéns à Petrobrás, por resistir às pressões, por não cortar investimentos. E parabéns à CEF, e ao Banco do Brasil, por ajudarem. Aliás, banco estatal existe para isso mesmo. Mas teve gente que não gostou. Como por exemplo o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Então já sabemos como seria a coisa num eventual governo em que o senador desse as cartas. Sobreveio uma gravíssima crise financeira internacional, com o derretimento do mercado de capitais e o colapso dos mecanismos normais de crédito. Uma empresa estatal de papel estratégico como a Petrobrás precisa de dinheiro para não ter que parar investimentos. Numa situação assim, um eventual governo Tasso, pelo visto, mandaria a Petrobrás se virar com os bancos privados. Para aprender a não ser teimosa. Quem mandou querer investir em época de crise? Melhor seria, segundo essa visão, que a estatal se concentrasse exclusivamente em fazer caixa, ainda que isso pudesse ajudar a empurrar a economia brasileira para a recessão. Sabe como é, em primeiro lugar o acionista de Wall Street, depois o interesse brasileiro. Trata-se de uma visão que hoje em dia não dá mais ibope nem nos Estados Unidos. Onde aliás fica Wall Street. E você, acha o quê? É um bom debate, ainda que sem conseqüências práticas. Se eu bem conheço os presidenciáveis do PSDB (e eu posso dizer que os conheço razoavelmente), se fossem eles no governo teriam feito a mesma coisa. Assim como Ciro Gomes (PSB), conterrâneo e aliado do senador. Todos teriam mandado a CEF e o BB emprestarem o dinheiro para a Petrobrás. Daí por que o debate tem algo de inútil. O empréstimo está feito. E qualquer que seja o próximo governo é bastante provável que o hoje senador Tasso Jereissati vá mandar muito pouco nele. E boa volta ao trabalho ao colega editorialista do Estadão.

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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Propagandistas da mentira (28/11)

Quem começou, este ano, a guerra entre a Geórgia e a Rússia? Ora, a Geórgia. Do G1:

Tbilisi, 28 nov (EFE).- O presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, reconheceu hoje que foram as tropas georgianas as que iniciaram as ações armadas na separatista Ossétia do Sul, mas classificou estas medidas de "justificadas e apropriadas". "A pergunta não é por que foi a Geórgia a que começou as ações militares. Reconhecemos que começamos estas ações. Mas, tínhamos outra alternativa, quando estavam aniquilando nossos cidadãos?", disse perante a comissão parlamentar que investiga o conflito de agosto com a Rússia.

Leia a íntegra. Ou você pode preferir o relato da Reuters, bem mais completo:

Defense Minister [of Georgia] David Kezerashvili told the commission [bipartisan parliamentary commission probing the war] on Thursday that Georgia attacked the rebel capital Tskhinvali on Aug 7-8 because Russian forces were pouring across the border and it was a matter of time before they began attacking Georgian-populated villages. But at the time, there was no public statement from the Georgian leadership that Russian forces were invading. The shelling of Tskhinvali after a ceasefire of several hours and the subsequent ground assault was justified as a response to rebel shelling of Georgian villages.

Leia a íntegra. Assunto encerrado. O presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, quis dar uma de George W. Bush do Cáucaso e se meteu numa guerra preventiva contra a Rússia para retomar, à força, áreas em litígio (clique no mapa para ampliar). Achou provavelmente que os russos não reagiriam, preocupados com o que poderia achar a "comunidade internacional", entretida na ocasião com as Olimpíadas de Pequim. Saakashvili se deu mal. Meteu seu pequeno país numa guerra cujo desfecho inevitável era a derrota. O malucão talvez avaliasse que americanos e europeus acudiriam em defesa dele. Só por esse erro político já deveria estar fora do cargo, e no banco dos réus. Agora, a verdade se impõe. Para grande tristeza dos propagandistas da mentira, que tomaram o tempo do distinto público apresentando a Rússia como a responsável pelo conflito. Leia também

Esferas de influência
Carla del Ponte mostra quem são os "combatentes da liberdade" de Kosovo
A morte de Milosevic e o duplipensar ocidental e
O Versailles sérvio e a balcanização do Iraque.

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Um post velho que vale a pena ler de novo (28/11)

Tem uma seção com esse nome (ou quase) aqui no blog. Dei uma turbinada, com novos (velhos) posts. Está na coluna da direita, mais abaixo. Clique aqui para ver. Mas, atenção, depois volte para cá clicando no botão back (volta) do seu navegador. Um dos posts que resgatei é Uma conversa de bar sobre Caim e Abel. Foi na época do caótico overbooking da TAM no Natal de 2006. Resolvi relembrar porque no post Aula de Capitalismo o Alberto099 fez um comentário a respeito.

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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Razões para a permanência de Gates (27/11)

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, está cotado para ficar no cargo na nova administração. Por quê? Talvez porque as idéias dele tenham mais a ver com Barack Obama do que com George W. Bush. Incrível? Veja este trecho de coluna de Fred Kaplan na salon.com:

If the reports are true that Robert Gates will stay on as President Obama's defense secretary, the move is a stroke of brilliance—politically and substantively. In his nearly two years at the helm of the Pentagon, Gates has delivered a series of speeches on the future direction of military policy. He has urged officers to recognize the shift in the face of warfare from the World War II legacy of titanic armored battles between comparably mighty foes to the modern reality of small shadow wars against terrorists and insurgents. More than that, he has called for systematic adjustments to this new reality: canceling weapons systems that aren't suited to these kinds of wars and building more weapons that are; reforming the promotion boards to reward and advance the creative officers who have proved most adept at this style of warfare; rethinking the roles and missions of the individual branches of the armed services; siphoning some of the military's missions, especially those dealing with "nation building," to civilian agencies. From the start, he knew that he wouldn't have time to make a lot of headway in these campaigns—which, within the military, represent fairly radical ideas. His intent was to spell out an agenda, and lay the groundwork, for the next administration. Now it seems he's going to be in the next administration. And it's a good bet that President Barack Obama will be more receptive to Gates' agenda than President George W. Bush ever was. First, Obama is open to new ideas generally. Second, at his Nov. 25 press conference, Obama said he would direct his new budget director to go over every program, every line item, with an eye toward eliminating those that don't work or aren't needed—and he pointedly included the Department of Defense among the agencies to be audited. In short, Gates might be able to do many of the things that until now he has managed only to advocate.

Leia na íntegra. E leia uma análise sobre o atentado de ontem em Bombaim, na Índia, análise que (acho que) faz sentido à luz do texto de Kaplan.

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Leituras na crise (27/11)

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Aula de capitalismo (26/11)

Para os que ainda desperdiçam tempo com assuntos como, por exemplo, a suposta relevância do G20 para o desenho de uma nova arquitetura mundial das finanças, sugiro a leitura do artigo de hoje do ex-ministro Delfim Netto na Folha de S.Paulo (Falta de memória). É uma aula de capitalismo, dada por quem entende de capitalismo. Um trecho:

Agora é a vez de o G20 sugerir mais controle [sobre o mercado financeiro]. O tempo se encarregará de corroê-lo à medida que a infinita imaginação dos agentes financeiros for descobrindo novos "produtos exóticos" que os Bancos Centrais só entenderão quando ocorrer a próxima crise. Mas por quê? Apenas porque é assim que funciona o sistema que trouxe os homens da Idade da Pedra à Idade da Informática nos últimos 250 anos... O que talvez interesse agora é tentar adivinhar quanto durará a crise da economia real depois do acerto da economia financeira. A tarefa é impossível, mas o passado talvez nos dê algumas informações.

É espantosa a distância intelectual entre os que entendem de capitalismo e os simplesmente encarregados de propagandeá-lo. Ou de enrolar o distinto público. Leia mais em

Cada um por si,
Copia o Obama, Lula, não o Bush,
Capitulação e
A vida como ela é.

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Jogo do Poder com Aldo Rebelo (26/11)

O deputado federal Aldo Rebelo, ex-presidente da Câmara, é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também o colega Sérgio Fadul, chefe da sucursal de O Globo em Brasília. O ex-ministro da Coordenação Política revela qual é a sua posição na sucessão da Presidência da Câmara e fala também sobre outros temas, como a demarcação da terra indígena Raposa/Serra do Sol, o reequipamento das Forças Armadas e os conflitos na relação do Brasil com os vizinhos.



Atualização - Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5 - Parte 6


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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Obrigado, general Luiz Cesário (25/11)

Escrevi um ano atrás em E quando não houver pracinhas?:

Volto às comemorações do Dia da Vitória [na Segunda Guerra Mundial]. Está na hora de fazer com que deixem de ser apenas festas dos próprios pracinhas e de seus familiares. O tempo implacável fará chegar o dia em que, infelizmente, não mais teremos aqui remanescentes da heróica participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. Será uma pena se no dia em que os pracinhas não mais estiverem entre nós a memória daquela gloriosa jornada de luta dos brasileiros tiver partido com eles.

Hoje, o presidente da Rússia fez uma visita ao monumento no Rio de Janeiro que homenageia os brasileiros mortos no conflito de 1939-45. Da Folha Online:

O presidente russo, Dmitri Medvedev, participou nesta terça-feira de cerimônia em memória aos brasileiros mortos em combate na Segunda Guerra Mundial, no aterro do Flamengo (zona sul). Durante a estadia na cidade, Medvedev participará de reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de churrasco com o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), e fará turismo. Na cerimônia desta manhã, Medvedev foi recebido pelo comandante do CML (Comando Militar do Leste), general Luiz Cesário da Silveira Filho, além de representantes da Marinha e da Aeronáutica, pracinhas da Segunda Guerra e cerca de 300 homens das três Forças Armadas. Nenhum representante do Executivo brasileiro recepcionou o presidente russo. O ministro Nelson Jobim (Defesa), cuja presença estava prevista na cerimônia, segundo o Exército, não foi ao evento. A assessoria de imprensa do ministro informou que ele participaria, nesta manhã, de reunião com a comissão da Frente Parlamentar de Defesa Nacional. Medvedev depositou flores no monumento em homenagem aos combatentes brasileiros e cumprimentou ex-combatentes. Acompanhado de comitiva de dez carros, o presidente russo deixou o local por volta das 12h (...)

Como brasileiro, devo agradecer ao sr. Medvedev pela reverência aos nossos quase 2 mil compatriotas caídos nos campos de batalha italianos. Considerando que a União Soviética teve mais de 20 milhões de mortos na guerra (para ampliar e detalhar os números, clique na imagem acima, retirada da Wikipedia), o gesto do presidente russo é uma baita homenagem. Coisa de quem sabe o que representa. E sabe de onde vem. E eventualmente sabe, por isso mesmo, para onde quer ir. Pena que nenhum líder político brasileiro tenha se dado ao trabalho de comparecer. Certamente tinham compromissos mais relevantes na agenda. Para nossa sorte, estava lá o comandante militar do Leste, Luiz Cesário da Silveira Filho. Além de um punhado de bravos pracinhas e três centenas de soldados e oficiais. Obrigado, general, por ter mitigado o constrangimento. O país deve essa ao senhor. E vamos ficar na torcida para que nossos governantes compareçam pelo menos ao churrasco citado na reportagem.

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Venezuela: base governista enraizada e ampliada, oposição consolidada (25/11)

Em meio à polêmica sobre quem ganhou e quem perdeu as eleições na Venezuela, um dado é relevante. O nascente PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) obteve nas eleições locais de domingo quase 1,2 milhão de votos acima do "sim" governista derrotado no referendo constitucional do fim do ano passado. Foram agora cerca de 5,5 milhões de votos, contra 4,3 milhões do "sim" em 2007. O número indica que o partido, recém-criado por Hugo Chávez, conseguiu ampliar o enraizamento, ou então conseguiu mobilizar intensamente sua base, o que não ocorreu ano passado. Ou as duas coisas. Talvez porque a nova Constituição proposta (e rejeitada) propunha esvaziar o poder local mais tradicional. A oposição obteve agora 4,2 milhões, contra os 4,5 milhões do "não" no referendo. Ou seja, a oposição parece consolidada na sua fatia de mercado, com perdas numéricas apenas marginais entre os eleitores. O dados podem ser checados no site oficial abn.info.ve, nos textos

PSUV conquistó 77% de las gobernaciones y 81% de las alcaldías

Cronología de triunfos de la Revolución Bolivariana

Gobierno incrementó en 20% votos obtenidos en relación a elecciones del 2007

Já em
Presidente Chávez destacó ascenso de votos obtenidos en distintas elecciones desde 1998
, nota-se que a oposição obteve avanços em relação às eleições locais de 2004, ainda que tenha perdido espaço agora na comparação com o statu quo pré-eleitoral, já que uma parte dos eleitos pelo situacionismo quatro anos atrás mudou de lado. E a oposição ganhou em centros importantes, o que lhe a coloca num novo patamar de ação política. Se souber trabalhar, e não enveredar pelo golpismo, tem seu caminho eleitoral a percorrer, o que não se vislumbrava até o referendo de 2007. O desafio de Chávez (se não conseguir aprovar o direito a uma nova reeleição) é encontrar um sucessor que mantenha o PSUV unido. O da oposição é achar um meio de dividir o PSUV. De todo modo, uma coisa é fato: o processo eleitoral venezuelano foi essencialmente democrático, como a própria oposição reconhece. Incluída aí a votação 100% automática, conduzida sem contestações pelo Conselho Nacional Eleitoral. Para a Venezuela, é um avanço e tanto.

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Ativismo estatal (25/11)

No Brasil, banco acabou se transformando numa combinação de companhia telefônica (presta serviços, cobra tarifas) com repartição pública (recursos garantidos pelo Orçamento)

O presidente da República tem afirmado que alguns efeitos da crise planetária serão atenuados no Brasil porque a regulação do nosso sistema bancário é superior. A explicação mais razoável talvez esteja em outro lugar: os bancos brasileiros exibem certa solidez em meio à turbulência porque emprestam pouco. Isso os torna menos expostos à inadimplência do que os colegas de outros países. Mas não chega a ser propriamente uma qualidade. É um defeito, ainda que represente vantagem em períodos atípicos. Como agora.

Já faz um bom tempo que o crédito para as pessoas e empresas comuns deixou de ser o foco da atividade bancária nacional. Lucrativo mesmo é emprestar o dinheiro para o governo e cobrar tarifas salgadas do cidadão que precisa usar o banco para as atividades do dia-a-dia. Algum tempo atrás, um levantamento mostrou que a receita com tarifas já cobrira as despesas do setor bancário com salários. Apontou ainda que a velocidade de elevação dos ganhos com tarifas nos dez anos analisados pelo estudo era seis vezes maior do que o crescimento das folhas de pagamento no mesmo período.

Ou seja, a saúde operacional dos bancos está cada vez mais dissociada do que deveria ser o “core business” do sistema, recolher os recursos disponíveis na sociedade e direcionar para quem precisa de dinheiro, para investir ou consumir. Daí que, sintomaticamente, o sistema bancário brasileiro exiba alguma blindagem diante da crise.

No Brasil, banco acabou se transformando numa combinação de companhia telefônica (presta serviços, cobra tarifas) com repartição pública (recursos garantidos pelo Orçamento). É bom para o país? Não necessariamente. Pode ajudar em época de terremoto, como agora, mas não é algo normal. Até o governo começa a dar sinais de incômodo. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, chegou a dizer no fim-de-semana que o sistema financeiro brasileiro não está à altura das necessidades nacionais.

O ministro referia-se ao “empoçamento”, a retenção pelos bancos de boa parte da liquidez (dinheiro) que o governo vem injetando na economia para estimular o crédito. Ora, a fala do ministro é positiva, mas exige complementação. E o governo, vai fazer o quê? O banco não deixa de emprestar dinheiro porque é mau. Ele não o faz porque não precisa fazer. Se quiser sentar em cima da liquidez e esperar, pode aguardar confortavelmente na sua pocinha, já que as despesas do dia-a-dia estarão cobertas por outros meios.

Só há uma maneira de obrigar os bancos a emprestar: fazer disso uma atividade essencial. Um caminho sempre tentado é reduzir e tabelar as tarifas. Os tímidos movimentos que o governo esboçou para desembaraçar esse nó deram em quase nada. Em parte porque o governo de fato se preocupa em não criar problemas para a saúde dos bancos, no que age bem. Em parte porque a força política dos bancos continua tão grande quanto sempre foi. Se não maior.

Outro caminho, no qual o governo tem bastante mais autonomia, é reduzir fortemente a taxa básica de juros. Quando emprestar ao governo ficar relativamente menos atraente, as instituições financeiras vão precisar encontrar outras formas de fazer receita. Talvez daí comecem a estender para valer o crédito às pessoas e às empresas. Como acontece nos países mais avançados. E talvez (oh, otimismo) estabeleça-se alguma concorrência no nosso mercado bancário.

O debate sobre a taxa de juros no Brasil é histórico e acabou virando um Fla-Flu. O Banco Central defende os juros altos como uma eficaz vacina antiinflacionária, por reduzir a demanda. E alguma razão o BC tem. Já os críticos dizem que o juro brasileiro não tem a ver com os preços internos, mas com a necessidade de manter um real artificialmente valorizado para baratear as importações e proporcionar ganhos apetitosos aos especuladores, para fechar as contas externas.

Essa é a polêmica tradicional. Que entretanto ficou esvaziada por um detalhe: o mundo e o Brasil mudaram. O que deve preocupar agora as autoridades brasileiras não é mais o crescimento potencialmente excessivo, mas a recessão. E dificilmente haverá oportunidade melhor para baixar os juros com firmeza. Pois nem trabalhadores nem empresários estão em condições de subir preços com base numa expectativa de inflação. Onde houver esse risco, caberá ao governo agir. A hora, aliás, é de o Estado retomar seu ativismo. Também porque um dos efeitos mais visíveis da crise é a oligopolização, nos bancos e em outros dos principais ramos econômicos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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domingo, 23 de novembro de 2008

Hora de agir (23/11)

De Dani Rodrik, no Valor Econômico:

O colapso continuado das moedas dos mercados emergentes e suas conseqüentes pressões comerciais lhes dificultarão ainda mais a tentativa de impedir um aumento substancial nos níveis da taxa de desemprego. Na ausência de um escudo para as finanças dos países emergentes, o cenário apocalíptico de um ciclo vicioso protecionista que relembra a década de 1930 já não pode ser descartado. O Federal Reserve (Banco Central americano) e o Fundo Monetário Internacional já tomaram algumas medidas positivas. O Fed criou uma linha de swap para quatro países (Coréia do Sul, Brasil, México e Cingapura), de US$ 30 bilhões cada. O FMI anunciou uma nova linha de curto prazo para um número limitado de países com boas políticas. A dúvida é se essas iniciativas serão suficientes e o que acontece com os países que não poderão se beneficiar destes programas. Haverá muito tempo para debater um novo Bretton Woods e a construção de um aparato regulador global. A prioridade por enquanto é salvar os mercados emergentes das conseqüências da insensatez financeira de Wall Street.

Leia a íntegra. Atenção para dois trechos. Se não houver um escudo para as finanças dos emergentes crescerá o protecionismo. Ou seja, crescerá o protecionismo. E é certo que haverá muito tempo para debater uma nova engenharia institucional das finanças, mas a prioridade agora é salvar os países, financeira, econômica e socialmente. O texto de Rodrick mostra também como a crise afeta igualmente os emergentes cujas exportações são baseadas em primários e os cuja pauta se concentra nos industrializados. Coloca ainda em dúvida se o grande volume de reservas dos emergentes será suficiente para enfrentar o tsunami. Hora de agir. De mudar o curso, como defendi em À espera da tempestade. No caso brasileiro, não faz sentido torrar reservas e manter juros lá em cima para defender o real a qualquer custo. Melhor será admitir a desvalorização e cuidar para que ela não se propague inflacionariamente. A hora paradoxalmente é favorável, já que num cenário de retração não há muito como os agentes econômicos reindexarem os preços. E onde há oligopólio sempre será possível o governo intervir, controlando. Um real desvalorizado dará nova competitividade às nossas exportações e desestimulará as importações. É hora de agir. E de agüentar o tranco.

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Passo em falso (23/11)

Do elcomercio.com, de Quito (Equador):

Correa insiste en arbitraje externo

El Presidente de la República estuvo en Manta y allí se refirió a varios temas coyunturales. Habló de la deuda externa, el incidente diplomático con Brasil...

El presidente Rafael Correa aseguró ayer que no aplicará paquetazos, que analizará la deuda externa con sus abogados y lamentó la decisión de Brasil de llamar a consulta a su Embajador en Quito por el caso Odebrecht. Estas declaraciones las realizó ayer, en Manta, durante su acostumbrada cadena radial de los sábados. “No entendemos porqué tiene que haber un incidente diplomático de algo que es un problema netamente comercial y financiero. Un problema que empezó con Odebrecht, que mientras más escarbamos más apesta”, dijo el Presidente. “¿Qué hizo Ecuador frente a esta controversia? De acuerdo con el contrato se fue a un arbitraje a París para que se revise la cláusula y la validez del contrato. No hemos suspendido el pago o botado el contrato a la basura”, explicó. Y añadió: “nos duele mucho la medida de Brasil de retirar a su Embajador, y así se lo dijimos a Lula, pero no permitiremos que al país se lo estafe”. No tenemos porqué pelearnos con Brasil, pero si ese es el caso, ya la responsabilidad que la asuma cada quien. Haremos respetar al país y defenderemos sus intereses, agregó. Correa dijo que Ecuador quiere mucho a Brasil y que en lo personal admira al presidente Lula, “pero si un problema comercial-financiero lo quieren convertir en un incidente diplomático, eso es responsabilidad exclusiva de Brasil. Siempre tendremos los brazos abiertos para el Embajador, el pueblo y su Presidente”.


Leia a reportagem completa. O presidente do Equador está certo. Se os equatorianos têm pendências com o Brasil na esfera empresarial, os problemas devem ser solucionados nos termos definidos em contrato. O Brasil decidiu reagir politicamente, chamando de volta o embaixador em Quito. Por quê? Para quê? O Equador não tem por acaso o direito de questionar contratos com empresas brasileiras? Luiz Inácio Lula da Silva deu um passo esquisito nesta história. Vai ganhar aplausos no curto prazo, de quem defende um afastamento brasileiro em relação aos governos da Venezuela, da Bolívia e do Equador. Mas terá comprometido parte do capital político que acumulou junto aos demais líderes regionais. Vai receber elogios de quem prega tratar na ponta da bota os vizinhos acusados de "populistas". Mas no futuro perceberá que foi um passo em falso, politicamente falando. Deu argumentos aos inimigos dele, Lula, que não se tornarão seus amigos só porque o presidente resolveu exibir os dentes para Correa. O equatoriano, aliás, prepara uma contestação de parte da dívida externa do país andino. Você tem dúvida de que ali tem muita dívida fajuta, contraída de modo e em termos ilegais e corruptos? Você leu este post? Releia. Aqui é possivelmente o único lugar em que você encontrará uma opinião assim.

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sábado, 22 de novembro de 2008

Cotas agora, para torná-las desnecessárias (22/11)

Minha opinião sobre as cotas na univeridades é conhecida, apesar de ser um assunto de que trato pouco. Está em um texto de julho de 2006, De volta, começando pelas cotas:

Há bons argumentos dos dois lados. Entretanto, a posição de quem é contra tem uma fragilidade estrutural: nada propõem no lugar. Sabe-se que tratar igualmente os desiguais é reforçar os mecanismos que reproduzem e ampliam a desigualdade. Por isso, tratar desigualmente os desiguais é às vezes necessário para diminuir a desigualdade. Quem ganha mais paga mais imposto de renda, e todo mundo acha isso natural. Aliás, o combate à regressividade está presente em todos os discursos sobre a necessidade de uma reforma tributária. Mas os melhores exemplos de regressividade no país estão em outros lugares: na educação e na previdência social. São dois paraísos reservados para os brancos e a classe média, por meio das universidades públicas, da previdência dos servidores públicos e dos fundos de pensão das estatais. (...) Talvez um sistema misto de cotas raciais e sociais, expurgado das aberrações, possa ser um caminho, como alías já vem sendo cogitado. O Bolsa Família e a recuperação do poder de compra do salário mínimo não deixam de ser modalidades de cotas sociais.

Depois propus Cotas adicionais, temporárias e declinantes:

Ainda sobre as cotas raciais, assunto abordado em post anterior, vai aqui uma complementação. Sugiro que elas sejam adicionais, temporárias e declinantes. Adicionais, porque novas vagas devem ser adicionadas ao sistema público de ensino superior -e não reservar aos pretos, pardos e índios parte das vagas já existentes. Acho que isso reduziria as resistências "brancas" à iniciativa. Temporárias, porque devem ser adotadas por um período determinado, já que a meta é convergir para mais igualdade -e não perenizar uma desigualdade de sinal contrário. E declinantes, porque seria desejável que as cotas fossem sendo suavemente eliminadas. Num exercício hipotético, se fosse estabelecida, por exemplo, uma cota de 25% das vagas nas universidades públicas para negros, pardos e índios, ela poderia eventualmente ser reduzida ao ritmo de 0,5 ponto percentual ao ano, para que fosse completamente eliminada em cinqüenta anos.

A Câmara dos Deputados acaba de aprovar um sistema misto de cotas nas universidades federais. Ele deve ser bem discutido e decidido pelo Senado, onde o projeto começou a tramitar. O assunto das cotas costuma ser discutido de modo principista. Sim ou não. Eu prefiro ser pragmático. Cotas agora, com o objetivo de fazê-las desnecessárias. E eu espero que o Senado não derrube o critério social para as cotas. Por que o branco pobre não merece ser também ajudado pelas leis a melhorar de vida?

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sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Parabéns a Lula e a Serra (21/11)

Estão de parabéns o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador José Serra pela venda da Nossa Caixa ao Banco do Brasil. Lula não deu ouvidos ao PT, que teme o fortalecimento de Serra para 2010. Serra não deu ouvidos aos porta-vozes dos banqueiros, que desejavam um leilão de venda amplo, com a participação dos bancos privados. Que coisa feia! O PT de mãos dadas com os banqueiros contra o fortalecimento do Banco do Brasil! A absorção da Nossa Caixa é essencial para que o Banco do Brasil possa competir nestes tempos de consolidação, que é o outro nome da oligopolização do mercado bancário. A operação permite ao governo de São Paulo obter recursos para investimentos, sempre importantes mas agora vitais, por causa da crise. E o dinheiro foi conseguido sem privatizar. Serra aplicou em si próprio uma vacina contra prováveis ataques daqui a dois anos (se ele for candidato). Como é que vão acusá-lo de "privatizante"? Daí a razão por que o PT está incomodado. Não é só por causa do dinheiro adicional nos cofres paulistas. O Brasil precisa, hoje mais do que antes, de bancos estatais que estejam preparados e dispostos a emprestar dinheiro para fazer a economia andar. Até porque no Brasil é mesmo uma moleza. Banco pode viver bem sem emprestar. Basta cobrar caprichadamente nas tarifas e investir na Selic. Leia Duas boas notícias. E as pressões para privatizar a Nossa Caixa, de três semanas atrás. Além de tudo o preço parece ter sido bom. Da Bloomberg:

``The price is a little bit higher than I was expecting. So people may be a bit surprised,'' said Pedro Fonseca, an analyst at Keefe, Bruyette & Woods Ltd., in a telephone interview from London. ``Nossa Caixa has got plenty of liquidity, a decent branch network and judicial deposits of Sao Paulo state which is useful. It's a good fit and it's a good asset.'' (...) The price per share paid by Banco do Brasil gives Nossa Caixa a market value of 7.6 billion reais, said finance vice- president Aldo Mendes. That's more than the 7 billion reais speculated in Brazilian newspapers during the past month. Brazil's Bovespa stock market is closed today for a holiday.

Leia a reportagem Banco do Brasil to Pay $2.25 Billion for Nossa Caixa.

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Um gesto rebelde (21/11)

Se há tantos bons países que dispensam o uso de instrumentos como a medida provisória, se há tantas e variadas nações nas quais o chefe do governo está impedido de produzir leis monocraticamente, por que razão o Brasil não pode simplesmente remover esse mecanismo do arcabouço legal?

O gesto do presidente do Congresso, Garibaldi Alves (PMDB-RN), de mandar de volta ao Executivo a MP 446, que livra a cara das entidades pilantrópicas, foi simples e eficaz. Luiz Inácio Lula da Silva agiu como o zagueiro confiante que quer sair driblando. Garibaldi tomou a bola e fez o gol. Há gestos singelos que sintetizam certos quadros e lançam luz sobre a realidade. Todos discutem agora se, legalmente, Garibaldi poderia ou não ter feito o que fez. Mas ninguém diz que ele errou porque a MP era sem dúvida urgente. Eis a questão.

É claro que a MP 446 não tinha urgência nenhuma. Dito isso, é o caso de perguntar por que o polêmico assunto não poderia ter sido tratado por meio de um projeto de lei com urgência, que trava a pauta legislativa se não for apreciado num certo prazo. Ora, porque Lula está acostumado a mandar MPs à vontade. E o Congresso aprova. Sempre havia sido assim, até esta quarta-feira.

A Câmara dos Deputados e o Senado têm um punhado de candidatos à Presidência das Casas na eleição do começo do ano que vem. Com seu movimento simbólico, Garibaldi vai obrigá-los a dizer na campanha o que exatamente farão com as medidas provisórias. Se vão dar um fim nelas, se vão limitá-las para valer ou se, como sempre, vão jogar para a platéia, fazer belos discursos e depois deixar tudo como está.

Foi a infeliz mania de deixar tudo como está que permitiu o enxerto das MPs no texto constitucional de 1988. O fato histórico tem uma explicação bonita: argumenta-se que o espírito da Constituição é parlamentarista, o que acolheria um mecanismo como as MPs. E há a explicação real: o governo da época não admitiu abrir mão de algo que funcionasse como os decretos-leis da ditadura. E o governo da época teve força para impor a sua vontade. Assim como foi forte o suficiente para manter o presidencialismo.

Bem, mas já faz tanto tempo que a Constituição foi aprovada, já são tantas as vezes em que ela foi emendada, e por que não se tomou ainda uma decisão razoável sobre as MPs? Por uma razão: quem está no governo não abre mão delas e quem está na oposição sonha com o dia em que, conquistado o poder, delas poderá fazer uso.

A necessidade irremovível das MPs é um dos mitos fundadores da enrolação política brasileira, do lero-lero institucional. Peço que o leitor aponte, se tiver tempo e paciência para pesquisar, uma única medida provisória que não pudesse ter sido enviada ao Congresso como projeto de lei, ainda que com urgência. Faça o teste.

A rebeldia de Garibaldi Alves abre uma janela de oportunidade para o Legislativo agir. Se os deputados e senadores vão ocupar o espaço, isso é outra conversa. No fundo, eles já se acostumaram, faz tempo, com as regras do jogo. Os burocratas dos ministérios discutem exaustivamente um projeto qualquer. Em seguida, negociam com o Palácio do Planalto. Depois, os interessados dão um jeito de conseguir que o presidente edite uma MP. Aí a papelada vai ao Congresso, onde se nomeiam relatores fiéis. Que por sua vez levam a coisa ao plenário para aprovar no vapt-vupt. Se houver alguma dificuldade, medicam-se algumas feridas orçamentárias nas bases políticas dos parlamentares, em volumes necessários para que a MP passe no voto. E só.

As medidas provisórias são um mecanismo legal que permite, na prática, fechar o Congresso Nacional. Informalmente, ao atirar na irrelevância as estruturas congressuais, como as comissões. E também formalmente, graças à norma que faz as MPs não votadas bloquearem a pauta da Câmara dos Deputados e do Senado.

Por que o Congresso não age em relação a isso? Porque não quer. Porque, na essência, está acostumado, habituado, acomodado à situação. De vez em quando alguém vai lá e faz um discurso bonito, para sair no jornal. Uma vez baixada a poeira, a vida volta ao normal. Vamos ver se agora, com o gesto rebelde e elogiável do senador Garibaldi Alves, finalmente vai ser diferente.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Muita conversa, pouco serviço (20/11)

Em busca do remédio infalível para livrar a cara da autoridade cuja competência e desempenho estão em xeque? É fácil. Pesque no receituário algum item de agenda caro aos formadores de opinião e pronto. É cura na certa. E se você tiver habilidade, e operar bem, poderá acumular pontos no programa de blindagem que lhe permitirá, no futuro, escapar de outras armadilhas colocadas pela vida real.

Tome-se o exemplo do Ministério da Saúde. Tão logo assumiu, o titular da pasta abraçou a bandeira da liberalização do aborto. Foi o que bastou para que o lançassem na coluna dos modernos, renovadores e competentes. Bem, mas a gestão dele acumula derrotas políticas estratégicas, como a perda da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) no Congresso e a rejeição, pela Conferência Nacional de Saúde, do modelo de fundações que o ministro defende como essencial para flexibilizar a contratação de mão-de-obra. Até o debate sobre o aborto caiu no vazio. E daí?

E daí que nada. A dengue vai numa escalada nunca vista, sem que se notem os resultados da ação ministerial para combater a doença. Quando a praga explodiu no Rio de Janeiro meses atrás, o ministro apressou-se em culpar o prefeito, adversário político do governador, que por sua vez é aliado do ministro. Quando a doença deu as caras em outros lugares, não se notou a mesma fúria acusatória. Compreende-se.

Mas, de novo, e daí? Afinal, o ministro é a favor do aborto. E agora mandou avisar que é também contra o fisiologismo. Outra droga tiro e queda. 100% de efetividade. O sujeito está metido em problemas políticos que não sabe resolver? É incapaz de conseguir apoio parlamentar para suas propostas e planos de ação? Calma, que nada está perdido. Culpe-se o fisiologismo que infesta a política nacional. Sem nunca, é claro, esquecer de citar o PMDB. Só para fixar, por associação. Sabe como é: falou em fisiologismo, tem que falar no PMDB.

Se houvesse espaço para dúvidas, para crítica, alguém poderia levantar a lebre. Os deputados e senadores são por acaso fisiológicos apenas na relação com o Ministério da Saúde? E os demais ministérios? Pois é. Se há os ministérios que andam e os que não andam, e se o fisiologismo é o que supostamente impede estes últimos de caminhar, conclui-se necessariamente que as pastas bem administradas, que conseguem executar o orçamento com eficiência e mantém boa relação com o Congresso, são comandadas com viés fisiológico, aceitam o fisiologismo como regra na relação entre os poderes.

Por esse raciocínio, concluir-se-ia que o ministério de Luiz Inácio Lula da Silva está loteado entre os incompetentes e os fisiológicos. Uma conclusão estúpida. É o que em lógica se chama demonstrar por absurdo. Pegue uma premissa e desenvolva. Se os passos lógicos estiverem certos e se você chegar a uma tese sem sentido, comece a desconfiar da premissa que você adotou. A lógica, portanto, sugere duvidar da hipótese de que o ministério da Saúde não anda por resistir ao fisiologismo dos políticos.

Mas uma coisa é a lógica. Outra é o marketing. Se, por exemplo, o ministro da Saúde diz que a Funasa é um foco de corrupção, seria lógico pedir que detalhasse a acusação, apontasse os possíveis culpados e mobilizasse a Polícia Federal e o Ministério Público para as devidas providências. Se ele não fizesse isso, deveria automaticamente ser posto em maus lençóis. Mas não. Como o ministro é a favor do aborto e contra o fisiologismo, e como a disputa dele é com o PMDB, não precisa explicar nada. Não precisa fazer nada. Apenas ficar firme na performance.

Esta coluna está pegando no pé do ministro da Saúde, por falar muito e fazer pouco. Por dar pouca conseqüência ao discurso. É a minha modesta opinião, que naturalmente pode ser contestada. Com fatos. Registre-se, em favor do criticado, que há outros como ele na Esplanada. Não vou citar nomes para não correr o risco de ser deselegante, se porventura omitir algum. E também para não desperdiçar assuntos que podem ser matéria-prima de futuras colunas.

Na divisão dos poderes, os encarregados de falar — no vídeo, no áudio ou no impresso — são o Legislativo e Judiciário. Ao Executivo cabe executar, especialmente o orçamento. Quer encontrar um ministro que esteja fazendo pouco? Procure algum que esteja falando muito.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Valeu, parceiro (19/11)

Vejam este trecho do artigo de hoje de Leôncio Martins Rodrigues no Estadão (São Paulo, cidade conservadora?):

Localizando sociológica e ideologicamente (e de modo extremamente esquemático) os que foram vencedores [nas eleições para prefeito paulistano, desde 1985], o resultado é uma lista política e socialmente heterogênea: um professor de colégio, mato-grossense de nascimento, de classe média e difícil definição ideológica e partidária (Jânio da Silva Quadros); uma candidata de “esquerda”, de classe média pobre, solteira, nascida em Uiraúna, na Paraíba (Luiza Erundina de Souza); um rico empresário paulistano de “direita”, de origem árabe (Paulo Salim Maluf); um candidato negro de classe média alta, também de “direita” (Celso Roberto Pitta do Nascimento); uma candidata de “esquerda”, de classe alta tradicional (Marta Teresa Smith de Vasconcelos Suplicy); um candidato de “centro”, de classe média baixa, de origem italiana (José Chirico Serra); e por fim um candidato de “direita”, de classe média alta, de origem árabe (Gilberto Kassab). O exame da relação dos políticos eleitos depois do retorno da eleição popular para prefeito não revela a predominância, na capital paulista, de um eleitorado preconceituoso e conservador (...)

Agora vejam o post Preconceito, de 27 de outubro, que transcrevo:

Um registro sobre a eleição. É inegável que existe muito preconceito em São Paulo. Social, racial, religioso. É igual nos outros municípios do Brasil. E do mundo. Nunca soube de trabalho científico que comprovasse o suposto superávit da capital paulista em matéria de preconceito. Claro que você tem o direito de discordar. Então diga-me uma coisa. Que grande (ou média, ou pequena) cidade brasileira elegeu, desde a redemocratização de 1985:

1. Alguém fortemente suspeito de ser alcoólatra.

2. Uma assistente social vinda do interior da Paraíba.

3. Um descendente de libaneses.

4. Um negro vindo do Rio de Janeiro.

5. Uma mulher que se tornou famosa por apresentar programas de orientação sexual na televisão numa época em que isso era motivo para escândalo.

6. O filho de um quitandeiro de origem italiana.

7. Um político solteiro, apesar de seus quase 50 anos, instado pelos adversários na campanha eleitoral a dar detalhes sobre sua vida afetiva e familiar.

Você percebeu que descrevi, do meu jeito, os sete prefeitos que São Paulo elegeu desde 1985, quando voltaram as diretas na cidade. Está na hora de o PT parar de desperdiçar tempo e energia com a agenda da "São Paulo preconceituosa". Quanto antes melhor, principalmente para o PT.

Nem o título deste post é original. Tem a ver com Jair Rodrigues e Paulinho da Viola. Saiba por quê. Mas você tem que ler até o fim.

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A Índia vai se dar bem (19/11)

Este é um post para (tentar) fazer pensar quem acha a reforma agrária um atraso de vida. Escrevi tempos atrás que temos uma dívida com os indianos e os chineses, por terem impedido em Genebra a conclusão da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Está em Amigos indianos e chineses:

Enquanto isso, em Genebra, Índia e China cuidavam de brecar um acordo global que ameaçaria os pequenos agricultores e a indústria emergente de países que não se conformam com a permanência na segunda divisão da economia mundial. O Brasil é mesmo uma nação de sorte: se não sabemos zelar pelos nossos interesses, temos quem o faça por nós. Obrigado aos indianos e aos chineses.

Sobre a necessária proteção à nossa indústria, tratei dois posts atrás (A vida como ela é). Agora leia esta interessante reportagem da Bloomberg:

India's New Roads May Buffer Economy From Recession

The 100 kilometers (62 miles) of rural roads India is adding each day may save Asia's third- largest economy from the worst of a global recession. New roads built so far under the $27 billion program have brought urban markets within reach of 60 million village dwellers over the past five years, letting them earn money selling fruits, vegetables and milk that would have spoiled otherwise. They are now spending their cash just as the world economy falters. ``Rural demand is keeping the economy kicking along,'' said Shashanka Bhide, chief economist at the privately funded National Council of Applied Economic Research in New Delhi. ``Growth will slow in India, but not as dramatically as the rest of the world.'' Some of India's biggest companies are already benefiting: shares of Hindustan Unilever Ltd., the biggest maker of household products, and Hero Honda Motors Ltd., India's largest motorcycle maker, are up this year while the benchmark stock index has plunged 57 percent. Domestic spending will help cushion India from the worst global meltdown since the Great Depression, according to the Reserve Bank of India.

Leia a reportagem completa. E você verá que, em resumo, a agricultura familiar indiana está capitalizada, graças também a investimentos públicos em infra-estrutura para armazenamento e escoamento eficazes da pequena produção rural. E esse dinheiro no bolso do pequeno agricultor é hoje a esperança de que a crise econômica planetária chegue à Índia em versão atenuada. Pena que a reforma agrária tenha sido deixada em enésimo plano aqui no Brasil. Uma reforma agrária baseada na estrutura familiar, na expansão ordenada da fronteira agrícola. No estímulo à produtividade. Não aconteceu. Nem antes com o PSDB e nem agora com o PT. Políticos urbanos demais. Uma turma que eu conheço dos anos 70, quando já defendiam que a luta no campo não era pela reforma agrária, mas pela formalização do trabalho rural assalariado. Eu poderia dizer políticos "sulistas" demais, mas seria um erro. O que faz a prosperidade em muitas regiões do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná? A agricultura familiar. O certo seria dizer políticos elitistas demais. E leia também Esquerda e direita, sócias, para ver como, na minha opinião, a aliança do ambientalismo global com os movimentos sociais no Brasil serve como motor auxiliar desse elitismo. E, já que você está a fim de ler, leia também O ambientalismo num só país, de dois anos atrás.

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terça-feira, 18 de novembro de 2008

Samuel Pinheiro Guimarães em Jogo do Poder (18/11)

O secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, é o entrevistado desta quarta-feira em Jogo do Poder, programa que eu apresento às 22:30 na CNT, logo após o CNT Jornal. Veja aqui como sintonizar em sua cidade. Participa também o colega Sergio Leo, repórter e colunista do Valor Econômico. O número 2 do Itamaraty fala do novo quadro mundial e regional criado pela crise econômica planetária e pela eleição de um novo presidente nos Estados Unidos.



Atualização - Clique na imagem para ver a primeira parte da entrevista. Nos links abaixo, a íntegra:

Parte 1 - Parte 2 - Parte 3 - Parte 4 - Parte 5


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A vida como ela é (18/11)

O entusiasmo com o G20, a novíssima e incensada instância de poder mundial que supostamente viria para substituir o G7, sofreu um baque bem na largada. Da BBC Brasil hoje de madrugada:

Brasil e Argentina defendem barreiras para importações

Dois dias depois de assinarem a declaração conjunta do G20, que inclui uma rejeição ao protecionismo e a promessa de passar um ano sem criar barreiras ao comércio, autoridades do Brasil e da Argentina defenderam o aumento da Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul para produtos como vinhos, pêssegos, lácteos, têxteis, couro e móveis de madeira, entre outros. A decisão de aumentar barreiras para estes itens faz parte do comunicado divulgado nesta segunda-feira pela Secretaria de Indústria do governo argentino, após reunião, em Buenos Aires, entre negociadores dos dois países. "(Os dois governos) decidiram levar à próxima reunião do Mercosul (em dezembro, em Salvador) os requerimentos para o aumento da TEC para vinhos, pêssegos, lácteos, têxteis, produtos de couro, móveis de madeira, entre outros", diz o texto. Perguntado pela BBC Brasil sobre esta iniciativa, anunciada após reunião do G20, em Washington, um assessor da Secretaria de Indústria da Argentina afirmou que "não há contradição", já que a idéia de aumentar a TEC não significa medida ampla, mas sim "específica para produtos sensíveis à entrada de similares produzidos fora do bloco". O assessor ainda destacou: "Isso não é protecionismo. É defender nossa produção. Todos os países do mundo estão cuidando de suas indústrias sensíveis, vulneráveis neste momento (de crise financeira internacional)".

Leia a reportagem. Insensíveis, esses burocratas, tão preocupados com a vida como ela é, tão impermeáveis ao salamaleque dos patos mancos. Recorde-se o que escrevi dois dias atrás em Capitulação, ao argumentar sobre os efeitos danosos que um compromisso sério de liberalização comercial teria para a economia brasileira:

(...) somos um país de sorte. Essa reunião do G20 daqui a pouquinho terá caído no vazio.

Só não achei que seria tão rápido. Nem que a coisa partisse exatamente do Brasil. Eu achava que quem ia enterrar o G20 seriam os Estados Unidos, quando Barack Obama estabelecesse algum mecanismo para proteger a indústria automobilística dos EUA da concorrência estrangeira. Quando ele finalmente mandar para casa os republicanos lunáticos. Um pouco na linha do que está em Cada um por si:

Quanto mais cedo os países acordarem para a realidade, melhor. A hora é, essencialmente, de cada um cuidar da própria casa. Cada um com os seus problemas.

Talvez a emoção despertada pela reunião do G20 em Washinton tenha sido excessiva e precipitada. Vamos aguardar os próximos capítulos. E leia alguns bons motivos para salvar a indústria automobilística americana em A Bridge for the Carmakers, The Future Is in Sight. They Just Need Help Getting There, de Jeffrey Sachs, o convertido.

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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Drible para a arquibancada (17/11)

Recebi emails perguntando por que digo que o etanol brasileiro está encalhado, como fiz no post anterior. Quem tiver oportunidade, deve gastar um tempo e ler a reportagem "Momento de cautela e revisão de investimentos", publicada nas páginas 46 e 47 da revista especial "Biocombustíveis, a força do verde", que circulou hoje com o Valor Econômico. A publicação se dá simultaneamente à 1a. Exposição Internacional de Biocombustíveis. Ou seja, uma revista cujo objetivo principal não se situa na esfera da crítica. Não achei a versão digital para linkar. Se alguém achar, avise. Algumas informações tiradas da reportagem. O setor, que teve forte expansão nos últimos anos, está cauteloso e revendo planos por causa da queda de preços do açúcar e da crise financeira. Companhias gigantes estão jogando projetos para o futuro. Das 32 usinas que deveriam começar a moagem de cana em 2008, dez adiaram para o próximo ano, segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Ainda de acordo com a entidade, "as safras 2007 e 2008 não foram suficientes para gerar receita de forma a cobrir os custos variáveis, ao contrário de 2006, quando os preços foram positivos, capitalizando as companhias". Pior: "Muitas empresas anteciparam recursos próprios e ainda não tiveram o repasse do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)". Com a crise, os credores dos "recursos próprios" (bancos) passaram a exigir mais garantias, e isso trouxe "grande insegurança ao setor". A desvalorização cambial juntou-se a esse cenário, provocando um grande endividamento, segundo a KPMG, empresa de auditoria e consultoria financeira e tributária, responsável pelo setor sucro-alcooleiro. Ora, mas por que o mercado, mesmo antes da crise, perdeu fôlego? Para saber a resposta, o leitor precisa voltar na revista, à página 40, onde há uma reportagem com o título "Longo caminho para tornar o etanol em commodity" e o subtítulo "Os passos necessários são a padronização internacional do combustível e o aumento do número de países produtores". O texto começa assim: "Gigantes do etanol, Estados Unidos e Brasil trabalham juntos para que o combustível ganhe mais espaço no mercado internacional. Juntos os dois países respondem por uma produção anual de 53 bilhões de litros, ou seja 90% da oferta global". Vejam que estratégia genial, a do Brasil. Os Estados Unidos estão incomodados com o fato de dependerem de um punhado de países inconfiáveis produtores de petróleo. Diante disso, nossa proposta é que os Estados Unidos passem a depender só de nós, já que segundo Luiz Inácio Lula da Silva o etanol de milho deveria ser abandonado pelos americanos, por seu altíssimo custo social. Escrevi há um ano, em Comida em vez de álcool:

O Brasil está de olho no mercado americano de etanol e deseja que os Estados Unidos deixem de punir o álcool brasileiro com taxas que o tornam menos competitivo nos postos de combustível do grande irmão do norte. Os americanos resistem, até porque não faria sentido para eles trocar de dependência, sair do petróleo importado para o etanol importado. A mudança da matriz energética nos Estados Unidos obedece principalmente a vetores geopolíticos. É isso que o governo brasileiro talvez não tenha ainda entendido completamente.

Depois, escrevi em Dá para criar gado no pré-sal?:

Por que os Estados Unidos deveriam trocar uma dependência por outra? Qual é a vantagem de parar de depender das importações de petróleo e passar a depender das de etanol? Nenhuma. Ou seja, o mercado planetário para o etanol brasileiro só existirá se os Estados Unidos forem eles próprios um importante produtor. Como acontece com o petróleo. E os americanos, atualmente, só podem produzir etanol em grande escala a partir do milho. E quando puderem fazê-lo a partir de outras fontes, como a celulose, poderão deixar de lado o nosso álcool de cana. Como aconteceu, por exemplo, no ciclo da borracha. A aventura brasileira do etanol é um equívoco. Um equívoco rentável para alguns no curto prazo.

Note-se que a crise de superprodução do etanol brasileiro manifestou-se antes mesmo do estouro da bolha financeira. Publicações do setor sucro-alcooleiro no meio deste ano já falavam na queda de preços do produto. Uma commodity cujo preço caía mesmo quando o mercado mundial estava em ebulição na demanda por commodities. Caía por falta de mercado. E para quem vai sobrar agora a conta? Para o BNDES, que será empurrado a emprestar dinheiro a juros de metade da Selic para que os amigos do governo paguem suas dívidas com os bancos, como diz a própria reportagem. E, por falar em superprodução, acho que já está na hora de parar de tratar a crise, a planetária, como simplesmente financeira. A situação das montadoras americanas é o sintoma de que talvez estejamos diante de um cenário clássico de superprodução, como desenham as teorias que mais bem caracterizam o impasse decorrente da queda tendencial da participação do trabalho na composição do valor da mercadoria. Daí por que a idéia do "mercado financeiro mundial mais regulado" não passa de uma platitude, com a qual se desperdiçará algum tempo apenas para enrolar o distinto público. E para encantar os incautos. E como nenhum dos arquitetos da "nova ordem mundial" estará vivo quando sobrevier a próxima crise, possivelmente ainda neste século, podem por enquanto se dar ao luxo de driblar para a arquibancada. Enquanto a arquibancada tenta descobrir como pagar a condução de volta para casa. Porque, infelizmente, a c... já está feita.

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domingo, 16 de novembro de 2008

Capitulação (16/11)

A reunião do G20 adotou uma posição frontalmente contra os interesses do Brasil, e isso será saudado pelo Brasil como um grande avanço. Segundo a Folha Online de hoje:

G20 decide retomar liberalização comercial para estimular negócios

Os líderes do G20 concordaram ontem em suspender, por um prazo mínimo de 12 meses, a adoção de qualquer nova barreira comercial em seus mercados como forma de estimular as transações entre os países. No documento conjunto divulgado após a cúpula realizada em Washington, os chefes de Estado também se comprometeram a acelerar as negociações da Rodada Doha para a liberalização do comércio global.

Veja as principais decisões. George W. Bush conseguiu emplacar na reunião a idéia de que um comércio mais livre é o caminho para enfrentar a crise mundial. Luiz Inácio Lula da Silva bateu palmas e foi de carona, ainda que vá apresentar as conclusões do conclave dos patos mancos como obra dele. E até certo ponto foi mesmo. Como já tratado neste blog, a política externa brasileira nos últimos tempos anda fissurada por resolver um problema: encontrar mercado para o nosso encalhado etanol. Lula está metido até o pescoço nos negócios do etanol e precisa abrir caminho para os empresários que confiaram nele e se enfiaram na empreitada. Bem, talvez não seja totalmente correto dizer que a diplomacia brasileira está restrita a isso. Uma definição melhor é que a política externa brasileira orienta-se principalmente pela busca de compradores para nossas commodities, para nossos produtos de origem agrícola, primários ou semi-industrializados. Já era assim antes mesmo de as commodities despencarem por causa da crise planetária das finanças (que já não é só das finanças). Para conseguir isso, o governo brasileiro topa abrir generosamente as portas, inclusive na esfera das compras governamentais. Considerando que o PT passou anos atacando a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), é uma guinada e tanto, não acham? Greta Garbo, quem diria?, acabou no Irajá. Lula está cada vez mais parecido com Fernando Henrique Cardoso. Uns dirão que é realismo. Outros, como eu, que é capitulação. Se nossa ambição para o século 21 for só isso, transformarmo-nos em fornecedores de matéria-prima para os países desenvolvidos e para os emergentes mais ciosos de seu projeto nacional (China, com sua indústria, Índia, com seus serviços, Rússia, com seu poderio militar), tadinhos de nós. Mas somos um país de sorte. Essa reunião do G20 daqui a pouquinho terá caído no vazio. Barack Obama, por exemplo, prometeu estimular as empresas que ajudem a criar empregos nos Estados Unidos. E punir as que ajudarem a criar empregos fora dos Estados Unidos. Outro ponto da plataforma de Obama: investir 150 bilhões de dólares em energia limpa, para criar alguns milhões de postos de trabalho. Ele vai defender o etanol de milho. Prenunciam-se tempos (mais) difíceis para o etanol brasileiro nos Estados Unidos. Uma coisa boa é que 2010 está logo aí: quem sabe elegemos um presidente (ou presidenta) que se preocupe com os empregos brasileiros como Obama se preocupa com os americanos? Eu aposto que os patos mancos voltarão de Washington para seus países cantando vitória por causa dos resultados do G20. Mais ou menos como o então primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, quando chegou em casa após ter celebrado o Pacto de Munique em 1938. Clique na foto dele, no alto, para saber mais.

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Entre os imperdíveis (16/11)

A reportagem de capa da revista Época desta semana traz os "80 blogs que você não pode perder". São 50 nacionais, 20 internacionais e 10 da própria revista. Dos 50 nacionais, 10 são blogs de política (se eu não errei na conta). O Blog do Alon está entre eles (clique na imagem à direita, copiada da revista, e você verá este blog no canto superior à direita, indicado pela seta vermelha). Como foi que a Época selecionou os blogs para a reportagem dela?

Num universo tão grande, como distinguir os milhões de blogs pouco inspirados daqueles que você nunca mais vai conseguir viver sem ler? ÉPOCA pediu ajuda a 25 dos principais blogueiros do país. Cada um mandou seus 14 blogs preferidos. Juntamos à lista as indicações dos especialistas da redação. Das duas centenas de blogs, peneiramos os mais votados, os mais surpreendentes, os mais legais. Ficaram 50 brasileiros e 20 internacionais. Além dos nossos, que você já conhece. O resultado não é um ranking. Nosso objetivo não foi montar uma lista dos melhores blogs, mas sim uma espécie de guia de navegação pela blogosfera.Os blogs foram dispostos em ordem alfabética e separados em categorias. A variedade dos assuntos reflete a pluralidade de temas. Para cada blog há um resumo do que é imperdível e um trecho literal, para dar voz aos próprios blogueiros.

A revista se refere assim ao Blog do Alon (a ilustração à esquerda é da revista):

O jornalista Alon Feuerwerker define seu blog como um "ponto de vista democrático, nacional e de esquerda". Em seus bons textos, ele costuma ter uma abordagem original e provocadora. Concentra-se em política nacional e internacional. Na coluna da direita, seleciona "posts velhos que talvez valha a pena ler de novo".

Valeu moçada! Ser lido é bom. Ser valorizado pelos colegas é melhor ainda! Vamos em frente!

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sábado, 15 de novembro de 2008

Copia o Obama, Lula, não o Bush (15/11)



Barack Obama falou hoje pela primeira vez como presidente eleito por meio de um vídeo na web, hospedado no YouTube e acessível pelo site da transição, change.gov. Gastou 18,5 segundos para tratar da reunião do G20 e outros 195,5 para dizer o que vai fazer com a economia americana. O G20 ocupa menos de 9% do tempo do "president-elect". Obama não é trouxa. Ele não vai ao G20 misturar-se com os culpados pela crise. E não haveria mesmo por que o sujeito politicamente mais forte hoje no planeta desperdiçar tempo e consumir capital político no conclave dos patos mancos em Washington (saiba o que é um lame duck, um pato manco), reunido pelo mais manco dos patos, um George W. Bush suplicante em defesa da liberdade para os mercados, do livre comércio e contra o protecionismo. Sai dessa, Lula, se é que ainda dá tempo. É como escrevi dias atrás em Cada um por si:

(...) com que tema você acha que Barack Obama vai gastar mais tempo quando puser os pés na Casa Branca (ou até antes): 1) as alternativas para uma nova engenharia institucional planetária das finanças ou 2) os planos para criar empregos nos Estados Unidos?

A resposta de Obama, no vídeo (a transcrição está no change.gov):

Even as we dig ourselves out of this recession, we must also recognize that out of this economic crisis comes an opportunity to create new jobs, strengthen our middle class, and keep our economy competitive in the 21st century. That starts with the kinds of long-term investments that we've neglected for too long. That means putting two million Americans to work rebuilding our crumbling roads, bridges, and schools. It means investing $150 billion to build an American green energy economy that will create five million new jobs, while freeing our nation from the tyranny of foreign oil, and saving our planet for our children. It means making health care affordable for anyone who has it, accessible for anyone who wants it, and reducing costs for small businesses. And it also means giving every child the world-class education they need to compete with any worker, anywhere in the world.

Copia o Obama, Lula, copia. Deixa o Bush para lá.

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