terça-feira, 30 de setembro de 2008

“Muda o disco, cara!” (30/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Eu tenho a curiosidade de saber quem foi o gênio que, certo dia, soprou a dica nos ouvidos da oposição: “vamos dizer que o Lula só está indo bem porque, diferentemente do Fernando Henrique, não teve que enfrentar nenhuma crise internacional”

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Um erro grave em gestão empresarial é subestimar a concorrência. Arrogância diante dos competidores é fórmula certa para ser ultrapassado por eles. Qualquer aluno de graduação em administração e negócios sabe disso. Quem ainda tiver dúvida deve observar o que se passa com a oposição brasileira. Apostaram lá atrás que o governo Luiz Inácio Lula da Silva daria com os burros n’água. Contra todas as evidências, mantiveram ferozmente essa previsão como única hipótese de trabalho. Os resultados da escolha estão aí. Nas pesquisas, como a CNI/Ibope divulgada ontem.

Outro pecado capital é basear estratégias de guerra em premissas pouco seguras. Quando as premissas são desmoralizadas pelos fatos, a estratégia vai junto de roldão. Eu tenho, por exemplo, a curiosidade de saber quem foi o gênio que, certo dia, soprou a dica nos ouvidos da oposição brasileira: “Vamos dizer que o Lula só está indo bem porque é um cara de sorte, porque, diferentemente do Fernando Henrique, não teve que enfrentar nenhuma crise internacional”. Consultem os arquivos da imprensa para constatar a profusão de vezes em que tucanos e democratas disseram isso.

Bem, o mundo vive a mais aguda crise financeira desde 1929 e há uma chance de o Brasil, assim como outros emergentes, sofrer relativamente menos do que seria habitual. Se isso acontecer, o presidente da República poderá utilizar doravante como bumerangue contra a oposição todo o trabalho de propaganda feito por ela própria. “Enfrentei a crise mundial mais grave dos últimos oitenta anos, e mesmo assim fiz mais do que vocês jamais fizeram.” Alguém duvida de que Lula tem esse discurso engatilhado? No lugar dele, você agiria diferentemente?

Talvez tenha faltado lá atrás algum chato para estragar os animados convescotes dos caciques oposicionistas. “E se tiver uma crise e o Lula sair-se melhor do que a encomenda, o que vamos dizer depois?” As pesquisas mostram Lula nas alturas, mas é necessário fazer justiça. A popularidade do presidente e da administração é obra a quatro mãos. Seria mesquinho não reconhecer no ativo político do petista a valorosa contribuição dos que, supostamente, teriam por missão opor-se a ele.

O leitor poderá enxergar essas lucubrações como engenharia de obra feita, análise confortável a posteriori. Para minha sorte, uma varredura nos arquivos deste jornalista (neste blog) mostrará que o deprimente cenário para a oposição ao governo federal foi vaticinado lá atrás. O que não chega a ser vantagem, já que pelo jeito ninguém deu pelota para minhas previsões. E foram muitas as vezes. Daí as críticas dos amigos. “Puxa, mas você vai escrever de novo sobre as razões da fraqueza da oposição? Muda o disco, cara!”

Eu mudo, se a oposição também mudar. Claro que, como em certas histórias de suspense, há a possibilidade teórica de as coisas chegarem a um final feliz para os nossos oposicionistas. Apesar de Lula e seu governo terem a aprovação de oito em cada dez brasileiros, os nomes do PSDB aparecem na frente dos possíveis concorrentes do PT, inclusive da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, a predileta do Planalto. Mesmo faltando dois anos para a eleição, não deixa de ser curioso que, num quadro maciçamente favorável a Lula, nomes tucanos estejam bem.

Também já escrevi aqui sobre a fragilidade desse retrato. Gilberto Kassab (DEM, São Paulo), Eduardo Paes (PMDB, Rio de Janeiro), Márcio Lacerda (PSB, Belo Horizonte) e João da Costa (PT, Recife) são bons exemplos de postes alavancados por administrações e administradores competentes e bem avaliados. E perguntei: se governadores e prefeitos conseguem fazer poste voar, por que Lula não conseguiria?

Meu palpite é que, tirando o imponderável, a oposição só terá chance de derrotar o candidato de Lula (qualquer um) em 2010 se conseguir promover uma divisão decisiva na base política do governo federal. Se sobrevier um racha dramático entre o bloco (se ainda for bloco) PSB-PDT-PCdoB e o PT. Ou se uma grande fatia do PMDB resolver bandear-se. O problema, de novo para a oposição, é que nada sinaliza nesse sentido. O bloco de esquerda anda em rota de reaproximação com o petismo. E o PMDB exibe grande satisfação com a gorda fatia de poder que lhe cabe no consórcio governista.

Recentemente, o ministro peemedebista de Minas e Energia, senador Edison Lobão (AM), circulou por São Paulo e reuniu-se com a nata da nata do PIB. Dos grandes (e põe grande nisso) empresários convidados, não faltou ninguém. Lobão, que ao assumir a pasta foi alvejado de todos os lados, recebeu da platéia VIP tratamento dado a político de primeiríssima linha. A conta das mesuras deve ser espetada no pré-sal e nos megaprojetos do PAC. Quem viu, diz que foi de assombrar.

Ora, não está no DNA do PMDB trocar o certo pelo duvidoso, dar as costas a belezuras assim.


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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Muitíssimo municipal (29/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

O lulismo não existe. O que há é um governo com bons resultados, comandado por um presidente com boa capacidade de comunicar as realizações e admirado por sua trajetória

Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

“Eleições muito municipais” foi o título da coluna no primeiro dia deste ano. O “olho”, textinho que vem logo abaixo do título, dizia: “O governo Lula tem tudo para alcançar bem o terço final de 2008. O que deve levar a oposição a trabalhar duro para fugir da federalização do pleito.” E concluía: “Ela [a oposição] tem boa chance de conseguir. O eleitor médio costuma estar bem mais preocupado com a própria vida do que com as brigas dos políticos em Brasília. Vêm aí eleições muito municipais.”

Hora de checar. O primeiro turno acontece só no domingo, mas é possível antever que não haverá onda tsunâmica favorável a tal ou qual partido. Não veremos a canonização em massa do petismo ou dos aliados do Palácio do Planalto, nem a extinção da oposição. Os partidos da base do governo federal devem sair das urnas com maior expressão numérica simplesmente porque já são mais fortes hoje, estão no poder e não há motivo no país para um terremoto. E a oposição vai se mostrar algo competitiva, mesmo num cenário nacional amplamente favorável ao situacionismo.

É o que vem sendo escrito aqui desde janeiro e retomado em colunas nas últimas semanas. O eleitor é pragmático na essência. Decidirá principalmente com base na realidade local ou regional. Vai chancelar boas administrações e trocar as más. Alguns bons prefeitos poderão sofrer, por causa de circunstâncias políticas locais.

Em São Paulo, por exemplo, a proporção das forças eleitorais é mais ou menos a mesma de 2004. Em Curitiba, um tucano tem boa vantagem contra uma petista que teve Lula e companhia na campanha. Verdade que no Nordeste a exploração da imagem de Lula chega a extremos. Mas isso nada tem a ver com “lulismo”. Tem a ver com a necessidade de o candidato a prefeito mostrar que é capaz de trazer verba de Brasília. E nem sempre funciona.

Uma coisa, entretanto, confesso que não fui capaz de prever. Dado meu otimismo crônico sobre a capacidade de o ser humano aperfeiçoar-se, não antevi a obsessão com que Luiz Inácio Lula da Silva se meteria na disputa local, para enfraquecer adversários e vitaminar o projeto de seu grupo. Erro meu. Um bom amigo jornalista, expert em observação e análise política, vive me dizendo que as pessoas sempre repetem os mesmos equívocos. Doravante, vou dar ainda mais ouvidos a ele.

Todos devem recordar-se de como a estratégia hegemônica do PT nas eleições municipais de 2004 ajudou a desencadear a crise política do ano seguinte. De um lado, gerou brutais insatisfações na base do governo, por causa do apetite com que o petismo se lançou sobre espaços dos aliados. De outro, vitaminou na operação política do PT vetores de financiamento heterodoxo, que cobraram seu preço quando um aliado, no caso Roberto Jefferson, sentiu-se com motivos para romper.

Não estou a afirmar que teremos a repetição da crise. Com a popularidade de Lula lá em cima e o cenário favorável da economia, é altamente improvável que 2009 repita 2005. Até porque a distribuição de canetas no consórcio federal está bem mais equilibrada do que há quatro anos. E político não troca o certo pelo duvidoso, não costuma rasgar dinheiro.

Mas convém ficar de olho. Uma das deformações características do poder acontece quando o governante começa a acreditar em excesso na própria propaganda e nos áulicos. Os bons números e a boa avaliação do governo Lula desencadearam a crença na existência de um “lulismo”, hipotético fenômeno messiânico catalisado pelo também hipotético amor que a população, especialmente a mais pobre, nutriria pela carismática pessoa do presidente da República. E o PT achou que iria pegar uma carona.

O lulismo não existe. O que há é um governo com bons resultados, comandado por um presidente com boa capacidade de comunicar as realizações e admirado por sua trajetória. E, se o eleitor é capaz de dar suporte a uma administração federal competente, é também capaz de reconhecer os méritos de gestões estaduais e municipais bem-sucedidas, ainda quando comandadas por adversários do grupo político do presidente da República.

O melhor exemplo é, de novo, São Paulo. Marta Suplicy tem consigo um sólido terço do eleitorado. Os eleitores são dela, não de Lula. Os problemas e desafios também. A ex-prefeita vai disputar um segundo turno duríssimo contra, provavelmente, Gilberto Kassab, ainda que Geraldo Alckmin nunca deva ser subestimado. E a eleição em São Paulo será decidida com base na composição política local e no duelo das expectativas administrativas.

Ela, como as demais, será uma eleição muitíssimo municipal
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sábado, 27 de setembro de 2008

Tarda, mas não falha (27/09)

Da Folha Online, hoje:

Aeronáutica descarta problemas em radares em acidente com vôo 1907 da Gol

Os equipamentos de comunicação e vigilância no controle do tráfego aéreo brasileiro não tiveram responsabilidade no acidente do vôo 1907 da Gol segundo documento divulgado pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), da FAB (Força Aérea Brasileira).

O boletim contém os resultados da investigação técnica feita até o momento sobre o acidente entre a aeronave Legacy, prefixo N600XL e o Boeing 737 da Gol, que completa dois anos na próxima segunda-feira (29). O acidente ocorreu no dia 29 de setembro de 2006 e deixou um saldo de 154 pessoas mortas.

O documento isenta de toda responsabilidade os equipamentos de comunicação e vigilância no controle do tráfego aéreo brasileiro. Assegura também que as avaliações feitas pela Comissão de Investigação mostram que o transponder (responsável pelo sistema anticolisão do Legacy) estava em condições de uso, porém não estava em operação no momento da colisão.

O documento confirma que não foram encontrados erros de projeto ou de integração nos equipamentos de comunicação, de rádio e navegação, transponder e TCAS do Legacy. As análises destes equipamentos foram acompanhadas, em conjunto, por investigadores e técnicos brasileiros e americanos nas instalações dos fabricantes do Legacy.


Clique para ler a reportagem completa. Se tiver curiosidade, tempo e paciência, faça uma busca por legacy+gol e leia o que se escreveu aqui sobre o tema desde janeiro do ano passado, desde o post Envergonhem-se. Em resumo, o choque dos dois aviões foi causado por erro (crime) dos pilotos americanos do Legacy. E ponto final. Num país mais cioso de sua soberania, eles estariam até hoje retidos para julgamento. Bem, todo o alarido em torno da "falência" do controle nacional do tráfego aéreo foi grosseira manipulação política e midiática, cujas raízes devem ser buscadas nas pressões pela privatização ("desmilitarização") do sistema, na ambição sem limites de um grupo sindical (controladores de vôo) e no plano palaciano (afinal fracassado) de passar uma rasteira na Força Aérea Brasileira.

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Um texto de seis meses atrás (27/09)

Fiquei com vontade de escrever algo menos conjuntural sobre a crise financeira. Aí lembrei de um trecho do que escrevi em março, em Um mundo cada vez mais perigoso:

"A economia dos Estados Unidos tomou um tranco porque o país mais rico do mundo não produz riqueza suficiente para, simultaneamente, 1) alimentar o altíssimo nível médio de consumo de seus cidadãos, 2) manter uma máquina militar atuante e capaz de garantir sua hegemonia planetária na era das guerras assimétricas e da emergência de múltiplos países candidatos a potência e 3) poupar e captar poupança suficiente para alavancar um crescimento sustentado. Há quem busque as explicações para a crise na esfera da circulação e das finanças. Eu, que não sou especialista, prefiro enveredar pela observação da produção e do estado da economia nacional da superpotência. Os fatos indicam a atualidade do conceito de imperialismo e a fragilidade das idéias alicerçadas na ilusão de um mundo "globalizado", em que as fronteiras e os estados nacionais perdem progressivamente a importância."

Clique aqui para ler Um mundo cada vez mais perigoso. Nada há de novo que deva ser acrescentado ao que foi dito seis meses atrás.

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terça-feira, 23 de setembro de 2008

O velho mundo novo (23/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

O Estado americano está aí para defender os interesses dos EUA. Deveria ser assim com todos os demais Estados. Cada um por si. A ilusão acabou, e quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Diz um corolário do alegado fim da História que o século 20 durou bem menos do que os 100 anos convencionais. Ele teria ido de 1914, quando estourou a Primeira Guerra Mundial, até 1989, quando o Muro de Berlim deixou de fazer sentido. Um século portanto amputado em um quarto de sua extensão. Não é pouca coisa.

Mas os fatos recentes levam a desconfiar de que, assim como o teorema, o corolário será logo atirado no rol dos equívocos. Semana passada, por exemplo, o presidente da República manifestou preocupação quanto à capacidade brasileira de defender militarmente nossas águas territoriais, agora valorizadas com a descoberta de que nadamos sobre um gigantesco colchão de petróleo e gás.

Tempos atrás, essa fala de Luiz Inácio Lula da Silva teria desencadeado uma onda furiosa de críticas, pelo seu suposto anacronismo. Os intelectuais da globalização, da dissolução das fronteiras nacionais, da governança planetária e do mercado protagonista abririam as costumeiras baterias contra o “atraso”. Seriam apoiados, criticamente, pelo cosmopolitismo progressista. Alguém faria a conta de quantas casas populares daria para construir com a verba que o governo teima em (não) gastar para a necessária modernização da Força Aérea Brasileira. Ou com o nunca concluído submarino movido a energia nuclear. Etc.

Tudo isso é passado. Agora, o noticiário vive ocupado por assuntos velhos. Estão aí o colapso do cassino financeiro, a grita por mais regulação estatal, as guerras separatistas e os atritos entre as potências por matérias-primas, energia e mercado. Eis de volta o velho e bom Estado, chamado a recolher forçadamente na sociedade o dinheiro destinado a eliminar a assimetria entre a riqueza real e a virtual, e assim salvar o sistema. E eis, como bem observou Lula, a arrogância imperial da superpotência, esforçando-se para mostrar que, da Ossétia à Bolívia, manda quem pode e obedece quem tiver juízo. Ou medo.

Suspeita-se que os funcionários europeus do Lehman Brothers receberão tratamento diferente do que será dado aos colegas americanos. E o multibilionário pacote de George W. Bush para salvar as instituições financeiras micadas nos EUA parece que fará distinção entre as firmas americanas, ou que têm grandes negócios nos EUA, e as demais. O contribuinte ianque não verá com bons olhos a mordida, se o objetivo do sacrifício for salvar a pele de gente que não carrega um passaporte americano. Ou um “CNPJ” americano.

O Estado americano está aí para defender os interesses dos EUA. Deveria ser assim com todos os demais Estados. Cada um por si. A ilusão acabou, e quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou. O século 20 não apenas não morreu como está em plena forma, vivinho em folha na pele de seu irmão mais novo. A lamentar, apenas, o tempo e a energia que foram investidos inutilmente nos debates sobre o “neoliberalismo” e a “globalização”. Que a rigor nunca significaram nada. Ou, na melhor hipótese, nada acrescentaram às categorias clássicas do liberalismo e do imperialismo.

Por falar nisso, cadê a turma da “globalização igualitária”, “de face humana”? Alguém por acaso sabe dizer que fim levou o Fórum Social Mundial? Mas, felizmente, a vida segue. E, como a humanidade só se coloca em termos práticos os problemas para os quais existe solução à vista, o velho século 21 pode muito bem ser destrinchado com os instrumentos que tanto ajudaram a conduzir por 100 anos seu irmão maior. Estão aí à mão o capitalismo de Estado, o cultivo da capacidade militar, a defesa do mercado e das forças produtivas nacionais, a guerra e a dança da diplomacia.

As vantagens de cair na real são muitas. Nossos jovens, de consciência renovada, podem agora evitar pagar mico em aeroportos mundo afora, já que a livre circulação do trabalho nunca esteve na agenda da tal “globalização”. E, inspirado na preocupação de Lula com o controle do pré-sal, quem sabe se finalmente o Brasil tira as Forças Armadas do limbo e investe na sua capacidade de proteger nosso território e nosso projeto nacional. E imaginem como seria bacana se, de uma vez por todas, o Supremo Tribunal Federal pusesse um limite às iniciativas que a pretexto de proteger os índios nem os protegem e nem respeitam a integridade territorial inscrita na Constituição da República Federativa do Brasil.


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sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Rótulo trocado (19/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

O presidente da República gaba-se, com razão, de ter ajudado a remover da Procuradoria-Geral da República o apelido de “engavetadora geral”. O risco, entretanto, é que ao final dos oito anos de Lula o temido rótulo tenha sido transferido à Polícia Federal

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O Comando Militar do Leste informou ontem que é um sucesso a Operação Guanabara, na qual o Exército ocupa áreas no Rio de Janeiro com o objetivo de evitar que o tráfico e o crime organizado interfiram indevidamente no processo eleitoral. Vê-se portanto que as Forças Armadas estão plenamente capacitadas a participar de ações ligadas à segurança pública em centros urbanos. Isso resolve um debate que ficara pendente por ocasião da tragédia em que, no mesmo Rio, alguns militares entregaram três jovens do Morro da Providência para serem mortos por traficantes. O tempo deu razão a quem argumentava que erros ou crimes de alguns não poderiam ser imputados ao conjunto da instituição militar. Cadê os críticos ferozes da participação das Forças Armadas na segurança pública?

Debates que permanecem em aberto têm sido infelizmente uma marca do trabalho jornalístico nos últimos tempos. Perde o leitor (ou ouvinte, ou espectador). Por onde anda, por exemplo, o grooving, que apareceu inicialmente como vilão maior da tragédia com o Airbus da TAM em Congonhas? Cobrem-me depois, mas eu aposto que as conclusões sobre o desastre apontarão para falha humana, que entretanto teria tido efeitos menos drásticos caso a pista de pouso fosse (bem) maior. As ranhuras, coitadinhas, nada poderiam ter feito para impedir o maior e mais grave acidente da aviação brasileira.

Quem também merece pontuação alta no quesito dos assuntos em aberto é a Polícia Federal (PF). Por falar nisso, como anda o relatório policial sobre o dossiê preparado no Palácio do Planalto, com informações de gastos de Fernando Henrique Cardoso em seu período como presidente? O “banco de dados” tinha por meta criar constrangimentos ao PSDB, para convencer os tucanos a não insistirem na devassa das despesas de Luiz Inácio Lula da Silva. Os tucanos aparentemente se convenceram. E a PF deu um jeito de mandar o assunto do dossiê à geladeira, escorando-se numa suposta necessidade de o Ministério Público manifestar-se sobre a eventual ida da papelada ao Supremo Tribunal Federal, por conta do possível envolvimento de autoridades de primeiro escalão. Talvez o tema seja esclarecido no próximo milênio.

Justiça se faça à PF, a situação de vez em quando fica embaraçosa para a corporação menos por defeitos intrínsecos e mais pelo fato de ter sido transformada pelo governo federal numa espécie de arquivo dos assuntos incômodos, que não interessa ao governo concluir. O presidente da República gaba-se, com razão, de ter ajudado a remover da Procuradoria-Geral da República o apelido de “engavetadora geral”. O risco, entretanto, é que ao final dos oito anos de Lula o temido rótulo tenha sido transferido à Polícia Federal.

Mas nem tudo está perdido. A PF pode se redimir, por exemplo, a partir do completo esclarecimento sobre a autoria das escutas telefônicas que bisbilhotaram pelo menos uma conversa do presidente do Supremo Tribunal Federal com um atuante senador da oposição. O fato de o ministro da Defesa aparentemente ter se metido numa trapalhada e enfiado os pés pelas mãos na história das maletas (não) grampeadoras está longe de encerrar a história.

A PF deve deixar politicagens de lado e concentrar-se na tarefa de contar tintim por tintim quem fez o grampo e quem mandou fazer. É o mínimo que se espera da instituição. Até porque neste caso não há como esconder: desde o começo, o Palácio do Planalto vem se comportando como o culpado pego em flagrante. Considerando que até agora não apareceu o áudio do grampo, mas apenas a sua transcrição, o governo bem que poderia ter trucado, e garantido que a escuta não teve origem governamental. Por que não o faz?

Escrevo esta coluna ainda que não me atreva a apostar um mísero centavo na hipótese de que essa história vá ser esclarecida. Há histórias que são assim, descartáveis. Ficam em evidência o tempo suficiente para produzirem efeitos políticos e depois são engavetadas como se nunca tivessem existido. Sobram os esqueletos, que de vez em quando dão motivo a textos como este.


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sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O grande ausente - ATUALIZADO (12/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Toda a verborragia a respeito do nosso papel de líderes soará inútil e vazia de conteúdo se o atributo da liderança não for utilizado em ocasiões como esta na Bolívia

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Foi sintomático que a nota do Itamaraty sobre a crise na Bolívia, na última quarta-feira, não tenha feito menção à defesa intransigente da integridade territorial daquele país, tampouco tenha condenado o separatismo das províncias da meia-lua. Pior: o texto é um primor de meias-palavras e meneios, como se tratasse de um tema espinhoso para o governo brasileiro. Quem tiver curiosidade e tempo, a posição oficial do Ministério das Relações Exteriores pode ser lida na seção de Notas à Imprensa do site www.mre.gov.br.

A timidez brasileira parece ainda mais incompreensível quando se sabe o apetite da administração Luiz Inácio Lula da Silva por protagonismo no plano internacional. O lance mais recente da obsessão pelos holofotes planetários arrastou-nos à aventura de Genebra, onde da noite para o dia rompemos com os emergentes a alinhamo-nos ao Primeiro Mundo, apenas para ver se arrumávamos na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) mais algum mercado para nosso encalhado etanol. Deu no que deu.

A leitura fria dos atos e palavras da nossa diplomacia no caso boliviano revela uma única coisa: distanciamento. O Palácio do Planalto parece agir na linha clássica de esperar o desdobramento do conflito para depois ajeitar-se no cenário dos vitoriosos. E por que o espanto diante dessa atitude? Por algumas razões. A primeira é que na Bolívia assiste-se a mais uma clássica tentativa de derrubar pela força um governo constitucional, livremente eleito e confirmado em referendo nacional. Só por isso a reação brasileira já deveria ter sido rápida e duríssima.

A segunda é que, teoricamente, esperar-se-ia de uma administração do PT solidariedade incondicional a um governo também comandado por forças de esquerda, e que se coloca como expressão da emergência política de populações historicamente exploradas e oprimidas. A terceira é que o separatismo boliviano pode levar a uma guerra civil em nossa fronteira ocidental, conflito que facilmente será utilizado para justificar a transformação da meia-lua em uma nova Colômbia, mais uma plataforma para a intervenção externa, a divisão e a desestabilização do continente.

Talvez o Brasil imaginasse que um Evo Morales enfraquecido seria mais dócil nos contenciosos do fornecimento de gás. Ou talvez acreditasse que a anemia política de La Paz retiraria algumas fichas do cacife de Hugo Chávez, reforçando a liderança regional brasileira. Ou talvez subestimasse a gravidade de uma potencial ruptura das instituições democráticas bolivianas. Independente das explicações, a verdade é que Lula tomou para si o papel de grande ausente na crise boliviana.

Mas há uma quarta variável, essa sim mais complicada. É possível que o Planalto estivesse preocupado em não se distanciar demais da política dos Estados Unidos para o conflito. Sabe-se que, por trás das declarações formais de respeito a uma Bolívia unida, Washington estimula a divisão do país, no melhor estilo balcânico. Foi por isso que La Paz declarou o embaixador americano persona non grata.

A Bolívia é um bom exemplo das contradições da política estadunidense no pós 11 de setembro, relembrado ontem. Quando as liberdades políticas abrem espaço para governos que se opõem a Washington, o discurso da Casa Branca muda de tom. Na Bolívia, em resumo, o governo Bush trabalha francamente para desmembrar um país com cujo governo não está de acordo, ainda que esse governo seja fruto da livre escolha dos cidadãos.

Mas este texto não é sobre Bush, é sobre Lula. Que poderá agora, se quiser, mobilizar em peso o Mercosul para ajudar La Paz a esmagar o movimento das províncias rebeladas. Aliás, para que mesmo serve o Mercosul, se não consegue ao menos dar resposta firme a ameaças antidemocráticas no seu quintal?

Isso seria exercitar protagonismo regional, na prática e não apenas em palavras. Toda a verborragia a respeito do nosso papel de líderes e da nossa ascensão ao patamar de potência regional soará inútil e vazia de conteúdo se o atributo da liderança não for utilizado em ocasiões como esta. Uma América do Sul democrática, pacífica, livre de armas de destruição em massa e de terrorismo é, como se sabe, o melhor cenário para a consolidação da influência do Brasil entre os vizinhos. Nem que fosse apenas por isso, seria hora de Lula adotar uma nova e mais firme atitude de apoio ao governo da Bolívia em sua luta contra os focos fascistas que trabalham para implodir o país.


Atualização, às 10:26h de 16/09: A Unasul expressou-se unanimemente pela integridade territorial da Bolívia e a favor de seu governo legalmente constituído. Foi uma derrota dos separatistas.

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terça-feira, 9 de setembro de 2008

Decifra-me ou te devoro (09/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Ao cidadão comum, importa mais saber, afinal, se a eleição de um petista para presidir os senadores vai mudar alguma coisa ou se será apenas a colocação de uma nova cereja sobre o mesmo bolo

Por Alon Feuerwerker
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O senador Tião Viana (PT-AC) é candidato a presidir seus pares no próximo biênio. Se conseguir, vai comandar o Congresso Nacional no período crítico da sucessão de Luiz Inácio Lula da Silva. Será uma missão e tanto. Será também um privilégio e tanto, para um parlamentar que representa um estado pequeno e nem pertence à maior bancada do Senado, a do PMDB.

Viana tem se movimentado bastante nos últimos tempos. Sua última iniciativa é tentar levar senadores da oposição para bater um papo com Lula no Palácio do Planalto sobre os grampos telefônicos imputados à Agência Brasileira de Inteligência e que capturaram uma conversa entre o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e o senador Demostenes Torres (DEM-GO).

Se ele conseguir fazer a oposição subir a rampa, terá sido uma grande vitória. É exatamente a oposição no Senado quem coloca os maiores obstáculos à postulação presidencial do senador acreano. Como é que PSDB e DEM vão ter cara para vetar Tião Viana depois de pisarem na sala do poder conduzidos pelas mãos dele? Vai ficar complicado.

A tática de senadores tucanos e democratas é alegar que o PMDB, como maior partido, deve ter garantida a Presidência da Casa. O próprio PMDB, porém, tem dúvidas. Prefere não brincar em serviço e assegurar o comando da Câmara dos Deputados para Michel Temer (SP). Esse é o detalhe que abre uma avenida para Viana. Avenida que ele vem percorrendo com tenacidade e boa dose de naturalidade.

Bem, por enquanto, mantivemo-nos no terreno da grande política, que o grande público, paradoxalmente, costuma entender apenas como politicagem. Os meneios e floreios da sucessão no Senado interessam aos políticos e a nós, jornalistas. Ao cidadão comum, importa mais saber, afinal, se a eleição de um petista para presidir os senadores vai mudar alguma coisa ou se será apenas a colocação de uma nova cereja sobre o mesmo bolo.

O Senado Federal vem exibindo nos últimos tempos uma invejável (ainda que só para ele próprio) capacidade de ignorar a opinião pública. Tome-se como exemplo a recente série de reportagens do Correio sobre licitações suspeitas. A Casa tem preferido fingir-se de morta, na esperança de que a investigação perca fôlego e o caso acabe, como outros, arquivado.

Entretanto, o que parece ser apenas esperteza pode se provar, com o tempo, uma bomba de efeito retardado. Especialmente quando, e se, o Ministério Público decidir movimentar-se e dar continuidade ao belo trabalho desenvolvido pela Polícia Federal. Seria mais inteligente se o Senado, mesmo que silenciosamente como é de sua tradição, operasse as mudanças administrativas que gritam por acontecer. Antes que isso tenha que ser feito a quente, com a Casa de costas para a parede.

Mas o que tem uma coisa a ver com a outra? Qual é a relação entre a necessidade de reformas no Senado e a candidatura de Tião Viana à Presidência da Casa? Toda. Há uma forte corrente de bastidor entre os senadores para arrastar o acreano a um acordo. Essa corrente poderia ser descrita mais ou menos como segue. “Nós o elegemos, desde que você deixe tudo como está. Ou, na pior das hipóteses, você inventa aí algumas mudanças cosméticas, desde que o essencial permaneça como está.”

A questão-chave da próxima sucessão no Senado é se Viana vai aceitar ou não essa imposição. Como político ambicioso e pragmático, ele com certeza procurará um caminho intermediário. Fará concessões para obter apoios sem os quais sua candidatura não dará nem para a largada. A dúvida é até que ponto irão essas concessões. No sutil e brutal jogo de poder do carpete azul da Câmara Alta, será curioso observar se Viana decifrará a esfinge ou se será por ela devorado. E a esfinge não dorme em serviço, continua agarrada ao poder como a ostra que não desgruda do rochedo de jeito nenhum.

Eis um espetáculo para assistir de camarote. Quando sentou interinamente na cadeira, depois da saída de Renan Calheiros (PMDB-AL), Tião Viana moveu-se rapidamente para demarcar um campo, definir um estilo, buscando para si os louros da renovação e da transparência. Isso lhe conferiu musculatura, mas despertou desconfianças no establishment senatorial. Que naturalmente foge da ruptura assim como o diabo foge da cruz.


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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A tentação bélica dos radicais (05/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Desta vez, os fundamentalistas de dedo no gatilho são candidatos ao topo da cadeia de comando da maior potência militar do planeta

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Lendo o título desta coluna você pode achar que o assunto aqui será o Irã. Ou o Hezbollah. Errado. O tema deste artigo são os Estados Unidos. A idéia veio-me à cabeça enquanto assistia a reportagens sobre a convenção do Partido Republicano que indicou John McCain e Sarah Palin para concorrer a presidente e vice daquele país nas eleições de novembro.

Enxergar a política, inclusive a americana, com facciosismo ou paixão é sempre complicado. Em meados de agosto, por exemplo, o colunista Thomas Friedmann publicou no The New York Times artigo mostrando como a arrogância imperial da administração democrata de Bill Clinton está na raiz das tensões atuais entre a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a Rússia.

A rigor, não há distinções essenciais entre o que os Estados Unidos fizeram em Kosovo e o que vêm fazendo no Iraque. Nesse aspecto, Clinton não foi muito diferente do que é George W. Bush. Digamos que a diferença talvez esteja na maior capacidade de colar um sorriso nos lábios enquanto se vende o peixe podre.

Nos Estados Unidos, como em qualquer outro lugar, a inércia e as forças centrípetas (as que puxam para o centro) pressionam o poder em direção a determinadas políticas moldadas pelo establishment, políticas geralmente embaladas no papel bonito das “razões de Estado”. Há exceções? Sim, nas grandes rupturas, tão raras que acabam ganhando destaque nos livros de História. Mas a regra é a acomodação. Barack Obama não fugirá dela, se eleito. Assim como Luiz Inácio Lula da Silva não fugiu.

Na análise política e histórica, entretanto, é preciso sempre estar atento ao novo, ao improvável. E o novo nesta eleição americana é que os candidatos do Partido Republicano começam a escorregar para um extremismo belicoso, com fortes traços fundamentalistas. Considerando que o presidente dos EUA é, teoricamente, um sujeito que tem o poder de destruir o planeta, sobram motivos para preocupação.

O hoje senador John McCain foi prisioneiro de guerra no Vietnã. A opinião dele é conhecida: os Estados Unidos só não saíram vitoriosos na Indochina porque não empregaram força militar suficiente. Quem sabe algumas bombas atômicas ou de hidrogênio não tivessem tido sobre os vietnamitas o efeito que as explosões em Hiroshima e Nagasaki tiveram sobre os japoneses na Segunda Guerra Mundial, não é? Isso é John McCain, um sujeito que parece tentado a usar o poder de fogo dos EUA para reescrever a própria biografia.

A maluquice não é incomum na história americana. Em 1945, o general George Patton pretendia aproveitar a suposta fraqueza do exército soviético, que registrava 10 milhões de soldados e oficiais mortos (os militares americanos mortos entre 1941 e 1945 foram meio milhão), para atacar a União Soviética. Por isso, Patton foi colocado na geladeira pelo presidente Harry Truman. Na década seguinte, outro general, Douglas MacArthur, quis transformar a Guerra da Coréia num conflito total contra a China, recém-convertida ao comunismo. Foi demitido na hora, pelo mesmo Truman. Que acabou aceitando o armistício que levou à atual divisão da península coreana.

Malucões sempre houve e haverá no ambiente militar, assim como na política. Especialmente quando o excesso de poder e força nutre a ilusão da onipotência. O remédio para esse risco é conhecido. Como dizia Georges Clemenceau, ao refletir sobre as pilhas de mortos inúteis na frente franco-alemã no conflito 1914-18, a guerra é importante demais para ser deixada a critério dos generais. Ou seja, para cada militar que acha possível resolver tudo na bala é preciso que haja um líder político pragmático com ascendência para lhe dar ordens.

E a vice de McCain, Sarah Palin? Ela pensa que os Estados Unidos cumprem no Iraque uma missão divina. Precisa mais? Acho que não. O mundo que ponha as barbas de molho. Desta vez, os fundamentalistas de dedo no gatilho são candidatos ao topo da cadeia de comando da maior potência bélica do planeta, algo que não acontecia desde Barry Goldwater, em 1964. E com chances de ganhar. Num mundo em que a continuidade dos padrões de consumo, prosperidade e domínio dos Estados Unidos exige o controle cada vez maior de fontes de riqueza de outros países, inclusive das nações emergentes com aspiração a potência.

Daí o título desta coluna. Tomara que ela esteja totalmente errada.

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terça-feira, 2 de setembro de 2008

Postes voadores (02/09)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Se administrações estaduais e municipais bem avaliadas podem produzir postes que voam, por que um governo federal cujas taxas de aprovação estão lá em cima não pode?

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

As primeiras pesquisas da corrida para as prefeituras das grandes metrópoles trazem uma boa e uma má notícia para a oposição. A boa é o fôlego curto das tentativas de federalizar o pleito. Nos principais centros, até agora está valendo mais o arranjo político local do que a eventual proximidade com a administração Luiz Inácio Lula da Silva. Para ser mais preciso, o vetor federal vem se mostrando por enquanto menos intenso do que a combinação dos vetores estadual e municipal. Especialmente quando os dois apontam no mesmo sentido.

Era esperado que fosse assim. Se a federalização da eleição para as prefeituras não acontecia completamente nem nos períodos de grande comoção política ou crise econômica (ou ambas), quanto mais agora. A bonança da economia ajuda não apenas o presidente Lula e seus aliados. A combinação de inflação baixa e aceleração econômica reflete-se direta e indiscriminadamente no crescimento da arrecadação de estados e municípios. O que, somado à responsabilidade fiscal, abastece os cofres estaduais e municipais e, portanto, a capacidade de os gestores locais fazerem política. O resultado vai aparecer nas urnas.

Esse fenômeno pode ser especialmente notado nas situações em que o governador e o prefeito da capital estão ambos do mesmo lado e têm liberdade de movimentos. Os melhores exemplos são Belo Horizonte e Recife. Nas duas cidades, nomes desconhecidos vêm decolando com ímpeto espantoso, desde que o eleitor médio tomou conhecimento de sua existência. São movidos para cima pelo combustível político de administrações estaduais e municipais muito bem avaliadas.

Ambos são casos extremos, óbvios. A mesma lógica, porém, pode ser observada em São Paulo e no Rio de Janeiro. No primeiro caso, nota-se a ascensão lenta porém segura do prefeito Gilberto Kassab (DEM), empurrado pela maciça e vistosa divulgação, em horário eleitoral, de suas realizações. No segundo, a escalada é do peemedebista Eduardo Paes, que, apoiado pelo governador, ocupa o vácuo político deixado por adversários que exibem alguma intenção de voto mas pouca capacidade de chegada. Preenche também o espaço indiretamente criado pela fadiga de material de uma edilidade com quase duas décadas de comando único.

E a má notícia para oposição, onde está? Bem, o fato é que estas eleições municipais vêm demolindo a tese de que voto não se transfere. Especialmente em Belo Horizonte e Recife, verifica-se o surgimento de verdadeiros postes voadores, anônimos que sobem feito foguete a partir do momento em que o distinto público fica sabendo que fulano de tal é o candidato do governador e do prefeito. Daí a guerra de liminares que se verifica em torno do direito de colocar tal ou qual político no horário eleitoral.

O mantra de que voto não se transfere ocupa lugar central no discurso da oposição para 2010. Ora, se administrações estaduais e municipais bem avaliadas podem produzir postes que voam, por que um governo federal cujas taxas de aprovação estão lá em cima não pode? Se Aécio Neves, Fernando Pimentel, Eduardo Campos, João Paulo, José Serra e Sérgio Cabral exibem hoje o poder de alavancar desconhecidos (ou quase), por que Lula não poderá fazer o mesmo daqui a dois anos?

É mais inteligente acender velas do que amaldiçoar a escuridão. Trata-se de substituir o estéril debate sobre se o voto transfere-se ou não por outro, a respeito de como e por que a força política pode ser transferida. Considerando que a eleição presidencial de 2010 será a primeira sem a presença de Lula na cédula (ou na urna eletrônica) desde a volta das diretas, há quase um quarto de século, quem conseguir responder primeiro (e melhor) a essa questão vai levar vantagem.

Pela enésima vez, o que estas eleições municipais mostram é o caráter essencialmente pragmático do voto. Governos bem avaliados, em qualquer nível, têm boa chance de continuar. A não ser que naufraguem em tempestades políticas ou comunicacionais. Isso vale para prefeitos e governadores. E vale também para o presidente da República. O grau de conhecimento anterior sobre os nomes que irão disputar a eleição é detalhe secundário.

Ou seja, a dificuldade relativa de o PT e o governo federal emplacarem candidatos em nível municipal só porque são nomes “apoiados por Lula” reforça, paradoxalmente, a idéia de que o nome saído do bolso do colete do presidente da República será concorrente fortíssimo para sua sucessão. Desde, é claro, que as coisas continuem bem para o governo federal e que o PT não se enrole na construção das necessárias alianças para chegar com força total a 2010. E desde que Lula não suba no salto alto, o que sempre é uma variável a considerar.


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