segunda-feira, 31 de março de 2008

Leia o Helio sobre o Tibete - ATUALIZADO (31/03)

O Helio Shwartsmann, colega da Folha de S.Paulo, discorda de um monte de coisas que escrevo aqui. A recíproca é também verdadeira. Mas leia o artigo dele sobre o Tibete e veja que o buraco no caso é bem mais embaixo. Reproduzo fragmentos:

Longe de mim justificar a ignominiosa ocupação chinesa do Tibete, mas, sempre que uma questão desponta como virtual unanimidade planetária --caso da independência tibetana--, é lícito supor que a história esteja mal contada. (...) O que não se menciona tanto é Tenzin Gyatso [o Dalai Lama] chegou a ser o monarca de uma teocracia absolutista que, até 1951, ainda mantinha o regime de servidão. Segundo o tibetólogo Melvyn Goldstein, com exceção de cerca de 300 famílias nobres, todos os tibetanos eram servos ("mi ser") ligados a terras pertencentes a aristocratas ou monastérios budistas. Tampouco se alardeia que o 14º dalai-lama, que assumiu seu posto em 1950, tentou compor com os comunistas para preservar-se no poder nem que, uma vez destituído, após a revolta anticomunista de 1959, passou a receber mesada da CIA para levar adiante a partir do exílio a luta pela independência. Também não é verdade que a China trata o Tibete como uma colônia, limitando-se a extrair suas riquezas sem dar a mínima para a população local. O PIB per capita dos tibetanos que habitam a República Autônoma do Tibete (RAT) cresceu 30 vezes quando comparado a 1950, enquanto a população mais do que dobrou, passando de 1,2 milhão para 3 milhões hoje. De acordo com o Birô de Estatísticas Chinês, a média dos salários pagos na RAT é a segunda do país, perdendo apenas para a região de Xangai, mas superando a de Pequim. A China também criou toda a rede de ensino secular da Província (antes só havia educação religiosa), e instalou todos os 25 centros de pesquisa científica. Sob o domínio de Pequim, a mortalidade infantil caiu de 430 por mil nascidos vivos em 1950 para 35,3 por mil em 2000, sempre segundo dados oficiais. É uma melhora substancial, mesmo considerando que as taxas tibetanas são ainda bem maiores (mais ou menos o triplo) do que as verificadas para outras etnias. No mesmo período, a expectativa de vida saltou de 35,5 anos para 67. (...) E, por falar em matizes, é difícil até afirmar com todas as letras que o Tibete já foi uma nação independente. Poupo o leitor dos meandros do debate, que pode adquirir caráter bastante técnico. De forma resumida, porém, podemos afirmar que as histórias do Tibete e da China estão fortemente imbricadas uma à outra. Os tibetanos chegaram a constituir um império, mas isso ocorreu entre os séculos 7º e 11. Do século 18 para cá, o Tibete esteve invariavelmente sob jugo chinês, ainda que gozando de períodos de maior autonomia. Foi num deles, entre 1914 e 1950, quando a China e as potências coloniais estavam mergulhadas em seus próprios e graves problemas (1ª Guerra Mundial, 2ª Guerra Mundial e Revolução Chinesa), que a província chegou a sentir o gostinho da independência. Mas, assim que Mao Tsetung, conseguiu estabilizar-se no poder, despachou seus soldados para reassumir o controle do platô. Pelo menos no mundo da diplomacia, o "statu quo" não é contestado. Nem a Índia, que serve de sede para o governo tibetano no exílio, reconhece o Tibete como país independente. O próprio dalai-lama já renunciou a esse pretensão, numa entrevista concedida em 2005.
Clique aqui para ler o texto do Helio.

Atualização, 01.04.2008 às 12:59 - Leia também Cinco preguntas sobre el levantamiento del Tibet, do rebelion.org.

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sexta-feira, 28 de março de 2008

Trabalhar que é bom ninguém quer - ATUALIZADO (28/03)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (28/03/2008) no Correio Braziliense.

Se o Saúde da Família é tão importante contra a dengue, por que o ministro não tomou providências a tempo? Por que não pressionou a Prefeitura? Por que não acionou as Forças Armadas? Por que não foi ao ar em rede nacional no horário nobre?

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Onde houver dinheiro do governo federal, há também a certeza de que se vai encontrar o inevitável símbolo da administração Luiz Inácio Lula da Silva. “Brasil, um país de todos”, grita o colorido logotipo pelos quatro cantos do nosso território. Quem conhece os humores do Planalto sabe que uma das coisas que tiram do sério o presidente da República é descobrir verba da União anabolizando o prestígio de outros políticos. Pior ainda se forem adversários. Aí é que a coisa pega mesmo.

De placas em obras a ônibus escolares, passando pelos folhetos usados em todo tipo de evento, a comunicação do governo federal cuida zelosamente de carimbar o ubíquo “Brasil, um país de todos”. Principalmente nos programas sociais. Somados ao crescimento econômico e à inflação baixa, eles renovam, a cada dia, a aparentemente indestrutível popularidade do chefe do governo, cuja força político-eleitoral é o alicerce do sonho de continuidade do projeto de poder do PT para além de 2010.

Nos últimos dias, entretanto, o país está exposto a uma situação paradoxal e peculiar. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, informa que a escalada da dengue hemorrágica na capital do Rio de Janeiro e seu séquito de mortes explicam-se pela insuficiência da implantação de um programa federal, o Saúde da Família. É, aliás, um ótimo programa, no qual equipes multidisciplinares executam atenção básica nas comunidades, especialmente nas mais desfavorecidas. E, em dobradinha com o governo estadual, o ministro fecha o cerco contra o prefeito da capital, César Maia, que é adversário político de Lula e do governador Sérgio Cabral, que por sua vez é o principal padrinho político do ministro.

Há pelo menos uma verdade inquestionável na explicação de Temporão. O programa é executado, sim, em nível local. Superado esse aspecto, sobram algumas dúvidas. Se o Saúde da Família é mesmo tão importante para prevenir e erradicar a dengue, e se a situação no Rio já preocupava, por que o ministro não tomou providências a tempo? Por que não pressionou publicamente a Prefeitura? Por que não acionou o governo estadual e as Forças Armadas? Por que não foi ao ar em rede nacional no horário nobre para chamar o prefeito à responsabilidade? Por que, em resumo, não cuidou de acompanhar de perto a (não) aplicação do dinheiro reservado ao Saúde da Família no Rio?

De duas uma: ou 1) o atraso no programa federal é só uma explicação-tampão para atirar a culpa num adversário político do chefe e do padrinho do ministro ou 2) Temporão deixou de tomar a tempo medidas que poderiam ter minorado o sofrimento e a tragédia provocados pela dengue na capital fluminense. Assim como no casamento, vale aqui o “na alegria e na tristeza”. Se a força política de Lula está casada com as verbas federais nos bons episódios do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o presidente também deveria ser cobrado -e duramente-quando a baixa execução do orçamento federal é apontada pelo próprio ministro da Saúde como causa central das tragédias provocadas pela dengue no Rio de Janeiro.

Eu disse “deveria”, porque pelo visto a operação diversionista de Temporão é um sucesso. Que se explica também pelo isolamento de Cesar Maia. O “técnico” Temporão vem se revelando um ótimo político para Lula e Sérgio Cabral. Como ministro, ele tem sido eficiente para deixar os problemas da área bem longe de seus chefes. Ademais, Temporão beneficia-se da blindagem que construiu para si ao projetar um perfil supostamente moderno, desde que abraçou teses comportamentais caras aos formadores de opinião. Entre elas, legalizar o aborto.

Enquanto isso, enquanto rolam a politicagem, a autopromoção e o diversionismo, o Rio vive o caos da dengue. Mas nada está perdido. Afinal, vem aí a dobradinha PT-PMDB para a Prefeitura em outubro. Aos cariocas que sobreviverem até lá, já está prometido que tudo vai melhorar. Porque, uma vez no comando da cidade, a dupla Lula-Cabral vai dar um jeito de fazer andar ali os programas federais e estaduais. Talvez ambos comecem, então, a cobrar resultados de Temporão.

Quando Lula estava na oposição, a culpa pela dengue era do governo federal. Agora, com Lula no Planalto, a culpa pela dengue é do prefeito. Ou mesmo do governador, onde, diferentemente de Sérgio Cabral, o dito cujo não rezar pela cartilha do presidente. Enquanto isso, PSDB e Democratas servem sorvete de tapioca em CPIs para dar um jeito de aparecer nos jornais. Trabalhar que é bom ninguém quer.


Atualização, às 14:34 de 29/03/2008 - O Correio Braziliense publica hoje carta da assessoria do Ministério da Saúde em resposta à coluna. O texto:

Com relação ao artigo “Trabalhar que é bom ninguém quer”, é necessário esclarecer que o Ministério da Saúde estabeleceu, em 8/9/05, um Termo de Acordo com a Prefeitura do Rio de Janeiro em que o município se comprometia a expandir a Estratégia Saúde da Família, a fim de totalizar 180 equipes até março de 2006 e 260 até dezembro de 2006. Não tendo cumprido o acordo, estando, em dezembro de 2006, com 118 Equipes de Saúde da Família (ESF), uma cobertura de 6,68% da população, o Ministério da Saúde aceitou a prorrogação do Termo de Acordo para dezembro de 2007, não tendo a Prefeitura do Rio, novamente, cumprido a meta, atingindo apenas 131 ESF em dezembro de 2007, 7,36% de cobertura da população. O ministério continuará articulando com a prefeitura a expansão do PSF.

Fica claro que o governo federal tem sim responsabilidades em relação ao andamento do Saúde da Família nos municípios. Penso que a questão está, portanto, esclarecida.

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quinta-feira, 27 de março de 2008

Não farão falta (27/03)

A primeira Olimpíada que acompanhei, meio sem saber direito do que se tratava nos meus quase nove anos, foi a de Tóquio, em 1964. Depois vi pela tevê o México-68 com seus panteras negras, Munique-72 com Mark Spitz, Montreal-76 com Nadia Comaneci, Moscou-80 com o boicote americano por causa do Afeganistão, Los Angeles-84 com o boicote soviético em represália e Seul-88 com a última grande exibição de força da União Soviética. Em 92 fui com o Clóvis Rossi a Barcelona para cobrir os Jogos para a Folha de S.Paulo, mas uma crise renal acabou me deixando numa situação assim tipo meia boca, o que sobrecarregou meu colega. Que, sempre elegante, nunca reclamou da sobrecarga. Depois vieram Atlanta-96, Sidney-2000 e Atenas-2004. Que eu me lembre, em pelo menos três dessas ocasiões existia algum tipo de polêmica étnica ou nacional a incidir potencialmente nas competições. No Canadá havia e continua havendo uma grave ameaça de divisão protagonizada pela província francófona de Quebec. Na Espanha, a tensão relacionada às autonomias ganhava protagonismo pelo fato de os Jogos acontecerem na Catalunha, sem falar na sempre temida ameaça da basca ETA. E na Austrália havia a questão aborígene. Eu não me recordo de nenhum desses assuntos ter merecido a angulação editorial, a adesão apaixonada que se exibe hoje em relação às agitações teocrático-separatistas do Tibete. Por uma razão simples, que já expus em A teoria unificadora e em À espera de uma orientação da Casa Branca. Canadá, Espanha e Austrália são bons aliados dos Estados Unidos. Enquanto o Tibete faz parte da China, que é uma ameaça potencial à hegemonia planetária dos Estados Unidos. Daí que o separatismo tibetano receba uma acolhida que jamais será dada aos separatistas bascos. E não consta que a Europa e os Estados Unidos tenham ameaçado boicotar a Olimpíada na Austrália se ela não se comprometesse a negociar a devolução das terras tomadas dos nativos pelo colonizador europeu. Aliás, outro dia o novo premiê australiano, trabalhista, pediu descuplas aos aborígenes pela colonização. Foi um belo gesto, mas não vi qualquer referência a criar uma nação ou estado aborígenes em território australiano. Assim como ninguém exigiu a independência de Quebec para ir jogar, correr ou nadar em Montreal-76. Querem saber? Isso tudo me dá um certo enfado. Eu estou cansado de conversa fiada. Eu estou fechado com a posição oficial do Brasil, expressa em nota do Itamaraty. O Brasil e eu somos a favor da integridade territorial da China. Mas eu admito que haja quem pense diferente. São os mesmos que torciam pela resistência islâmica à presença soviética no Afeganistão, numa oportuna combinação de multiculturalismo e anticomunismo. Aí acordaram quando a Al-Qaeda enfiou dois aviões americanos de passageiros no World Trade Center em 11 de setembro de 2001 e hoje apóiam a intervenção ocidental no mesmo Afeganistão para combater o fundamentalismo que adulavam lá atrás. No caso do Tibete, a moda é cultuar o Dalai Lama. Eu nada tenho contra o líder religioso. Eu tenho muita coisa a favor do fim da teocracia e dos remanescentes feudais no Tibete. Espero que a China se dê melhor ali do que se deram os soviéticos em Cabul. Até porque ninguém de juízo perfeito tem coragem de defender abertamente a fragmentação da China. Ainda que seja esse o desejo secreto de quem sonha com a criação de um cordão sanitário em torno daquele país e da Rússia. Como faço há quase meio século, eu vou sentar na frente da tevê e assistir à Olimpiada de Pequim. Vai ser um espetáculo e tanto. Desfrutem vocês também. E quem não for ou não assistir deve ficar tranqüilo: não vai fazer a mínima falta.

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Para ilustrar (27/03)

Notícia de hoje:

Brasil e China alcançam EUA em exportações para Angola

Lisboa, 27 mar (Lusa) - O Brasil e a China alcançaram os Estados Unidos na lista dos principais fornecedores comerciais de Angola e estão se aproximando rapidamente de Portugal, principal origem das importações angolanas, revelam dados apresentados nesta quinta-feira pelo banco português BPI. "O segundo maior parceiro [comercial de Angola] tem sido tipicamente os Estados Unidos", que, em 2007, "disputa de muito perto sua posição com o Brasil e a China, países cuja presença tem vindo a crescer significativamente", afirma o Departamento de Estudos Econômicos e Financeiros do banco, em relatório periódico sobre a economia angolana. Os dados provisórios disponíveis indicam que, em 2006 e 2007, as importações do Brasil aumentaram 61% e 45%, respectivamente, enquanto as da China cresceram 140% e 39%. No ano passado, as compras angolanas aos Estados Unidos caíram 17%, para a casa de US$ 1,2 bilhão, na qual se situam agora as importações chinesas e brasileiras.

Clique aqui para ler a reportagem completa. Depois releia Um mundo cada vez mais perigoso.

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terça-feira, 25 de março de 2008

O próximo movimento (25/03)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (25/03/2008) no Correio Braziliense.

No Brasil, o mais emblemático tsunami eleitoral ocorreu em 1974, quando o Movimento Democrático Brasileiro (MDB, oposição) esmagou a Aliança Renovadora Nacional (Arena, governo) em plena ditadura

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Um importante atributo na política é a capacidade de antecipar o próximo movimento. Vale para os políticos e para quem, como os jornalistas, ganha a vida trabalhando com a matéria-prima por eles produzida. A arte está em enxergar perturbações onde tudo parece tranqüilo, em detectar pressões hoje invisíveis e que amanhã vão resultar em transformações dramáticas. Em projetar cenários futuros a partir de informações fragmentadas e aparentemente pouco importantes. Não é coisa trivial. Não é esporte que se pratique para ganhar sempre. Se você acertar uma ou outra, dê-se por satisfeito.

Vejam, por exemplo, o caso de Barack Obama. Alguns meses atrás eram poucos os analistas que apostavam nele as fichas na disputa pela Casa Branca. Raciocinava-se de um modo convencional. Há o cansaço com os republicanos de George W. Bush, há o domínio da máquina democrata pelos Clinton e o marido de Hillary deixou boa lembrança quando passou pelo cargo. Logo, é natural que a senadora ocupe um dos pólos na disputa deste ano pela cadeira de presidente dos Estados Unidos.

Onde estava o erro? Pela enésima vez na análise política, subestimou-se o efeito das ondas de renovação que ciclicamente varrem o cenário, na maior parte das vezes sem dar sinal prévio, como que vindas do nada. Como tsunamis gerados silenciosamente a partir da movimentação de placas tectônicas escondidas sob o fundo do mar da opinião pública. Obama já é um tsunami, mesmo que hoje não se possa prever com precisão qual será o seu alcance. E, quando as pessoas são expostas a tsunamis, como a outras situações limite, acabam por revelar o que vai nos cantos mais escondidos da alma.

Os Clinton, por exemplo, têm uma imagem de progressismo e tolerância, construída cuidadosamente ao longo da última década e meia. Diante do tsunami Obama, porém, exibem cada vez mais traços racistas e intolerantes. É um fenômeno conhecido. Há políticos que se julgam proprietários do voto alheio. Especialmente quando o eleitor “cativo” pertence a grupos sociais ou étnicos desfavorecidos. Quando algo dá errado, reagem de modo ressentido contra uma suposta ingraditão do eleitor. Sob pressão, a antes favorita Hillary Clinton vê agora sua candidatura escorregar para as zonas de sombra do incentivo ao preconceito racial. E o marido dela chega ao ponto de colocar em dúvida o patriotismo do rival democrata. O mercado eleitoral é mesmo cruel.

No Brasil, talvez o caso mais emblemático de tsunami eleitoral tenha ocorrido em 1974, quando o Movimento Democrático Brasileiro (MDB, oposição) esmagou a Aliança Renovadora Nacional (Arena, governo) em plena ditadura. Na década que se seguiu, a onda emedebista capilarizou-se pelos estados e municípios, e o PMDB até hoje se beneficia da horizontalidade adquirida então.

Os anos 90 assistiram à emergência do PSDB e do PT como pólos de poder, sem que entretanto nenhum dos dois tenha conseguido a capilarização obtida antes pelo PMDB. Talvez por causa da fragmentação do quadro partidário — o que as rígidas regras do regime de exceção impediam na época em que o MDB/PMDB se fez. Os tucanos passaram uma década mandando em Brasília sem que isso tenha resultado em ganhos significativos na esfera municipal, com exceção de São Paulo. E o PT conseguiu a façanha de ancorar duas vezes no Palácio do Planalto sem nunca ter conquistado, por conta própria, o governo estadual em São Paulo, em Minas Gerais ou no Rio de Janeiro. Nos municípios, então, nem se fala. De todos os partidos que um dia chegaram ao poder no Brasil, o menos municipalista de todos é o PT.

Qual será a onda, qual será o movimento novo na eleição municipal deste ano? A presença no governo federal e o bom momento na economia vão, finalmente, enraizar o PT no interior? Haverá uma onda petista nos pequenos e médios municípios e nas regiões metropolitanas? Ou o PT será vítima, novamente, de sua tendência ao isolamento político? Neste último caso, vão se dar bem os outros partidos da base do governo, especialmente o velho PMDB de guerra.

Será que a onda vai ser de renovação política? Menos mensurável nas conquistas partidárias propriamente ditas e mais detectável na emergência de lideranças políticas novas e modernas, adaptadas à era da informação abundante?

De todas as possibilidades, a menos provável é que assistamos em outubro a uma onda oposicionista. As condições materiais, objetivas, não favorecem. Ainda que os genes exclusivistas do PT sempre possam agir no sentido de criá-las.

Se tivesse que apostar, diria que o mais provável é a segunda opção. A da renovação. Mas é só uma aposta. Que cada um faça a sua.


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segunda-feira, 24 de março de 2008

Um mundo cada vez mais perigoso (24/03)

O que impressiona na crise americana desencadeada pelos créditos podres no mercado imobiliário é que os especialistas parecem tão ou mais perdidos do que os leigos. Claro que os verdadeiros especialistas, os dignos do nome, estão ganhando dinheiro enquanto os supostos especialistas cuidam de dar opinião. Este post me coloca na segunda e populosa categoria, dos que dão palpites. No feriado, tentei chegar a uma definição relativamente sintética das raízes da crise do subprime. Aí vai a opinião do leigo. A economia dos Estados Unidos tomou um tranco porque o país mais rico do mundo não produz riqueza suficiente para, simultaneamente, 1) alimentar o altíssimo nível médio de consumo de seus cidadãos, 2) manter uma máquina militar atuante e capaz de garantir sua hegemonia planetária na era das guerras assimétricas e da emergência de múltiplos países candidatos a potência e 3) poupar e captar poupança suficiente para alavancar um crescimento sustentado. Há quem busque as explicações para a crise na esfera da circulação e das finanças. Eu, que não sou especialista, prefiro enveredar pela observação da produção e do estado da economia nacional da superpotência. Os fatos indicam a atualidade do conceito de imperialismo e a fragilidade das idéias alicerçadas na ilusão de um mundo "globalizado", em que as fronteiras e os estados nacionais perdem progressivamente a importância. Mais de um ano atrás, escrevi em O ambientalismo num só país:

Quem já leu um pouco desconfia de que globalização é o nome novo que se dá a algo velho: o imperialismo. Neste blog, você sabe, sobrevivem as categorias da boa ciência social. Mas deixemos de lado a expressão clássica, para não ferir suscetibilidades. Usemos "globalização". Notei aqui outro dia (O muro mexicano realiza o sonho da esquerda) que as mesmas vozes que enaltecem a livre circulação dos capitais e da informação não se batem pela contrapartida: a livre circulação do trabalho. O que está em curso no planeta não é a formação de um mercado global, é a captura agressiva de mercados nacionais por capitais também nacionalmente baseados, apoiados nos respectivos Estados. Você acha meu pensamento obsoleto? Então faça a experiência você mesmo. Tente emigrar para os Estados Unidos ou para a Europa, como um trabalhador livre. Diga no controle de passaportes que você é um cidadão do mundo e vá em frente.

Clique para ler O ambientalismo num só país. Os crentes na globalização que tentam, por exemplo, viajar à Espanha, sabem do que estou falando. Leia En Barajas se habla portugués, no El País. Veja também este trecho do já célebre discurso de Barack Obama, semana passada, sobre a questão racial nos Estados Unidos. Ele discorria sobre a repetição sistemática de manobras diversionistas nas eleições americanas:

Desta vez queremos falar sobre as fábricas abandonadas que no passado ofereciam vida decente a homens e mulheres de todas as raças, e sobre as casas à venda que no passado pertenceram a pessoas de todas as religiões, todas as regiões, todas as ocupações. Desta vez queremos falar sobre o fato de que o verdadeiro problema não é que alguém de aparência diferente possa tomar nosso emprego, mas sim que a empresa para a qual alguém trabalha possa decidir despachar esse emprego a outro país em busca de nada mais que lucro.

Uma boa tradução para o português do discurso de Obama está na Folha Online. Na era do imperialismo, o capital financeiro, resultante da fusão de capitais produtivos com capitais originalmente bancários, captura os estados nacionais e os transforma em alicerce da sua expansão. Que tem por objetivo atrair e aprisionar em sua órbita mercados consumidores, força de trabalho e fontes de matérias-primas. Um erro cometido por críticos contemporâneos do imperialismo é imaginar que essa expansão se dá necessariamente promovendo a pobreza e a exclusão social. Leia Deng 2010. Por compreender mal a essência do imperialismo (reflexo disso é a adoção do conceito eclético de "neoliberalismo", que a rigor não significa nada, ainda que todos nós o utilizemos, mesmo que só de vez em quando), a esquerda acaba tentada a imaginar que a luta de classes contemporânea se dá entre ricos e pobres. O que, além de um equívoco intelectual, é também um atalho para o isolamento político e a radicalização sem futuro. Os capitais exportados para a periferia do sistema são um suporte para a criação de valor pelo trabalho -e uma parte desse valor ajuda a elevar o padrão de vida dos trabalhadores. O problema está em outros aspectos. Está na distribuição injusta e desigual do valor criado, na drenagem da riqueza para o centro do sistema e na submissão dos países periféricos aos hegemônicos. O neocolonialismo. De volta à crise dos Estados Unidos. Por que os tomadores de empréstimos para casa própria passaram a ter dificuldade de honrar os compromissos? Ora, porque faltou dinheiro. Mas quando os credores emprestaram dinheiro para as pessoas não o fizeram para tomar calote. Alguma coisa deu errado para que se travasse a roda da bicicleta do crédito imobiliário no Estados Unidos. Assim, é mais razoável supor que o ritmo insuficiente de crescimento da economia americana esteja na raiz da crise do subprime do que o contrário. E por que a economia dos Estados Unidos está de língua de fora? Pela impossibiliade de combinar pacificamente as variáveis descritas no início deste texto. E qual é saída? Em países sem força imperial suficiente, coisas assim resolvem-se habitualmente com inflação e ajuste fiscal. Corta-se o consumo, desvalorizam-se a moeda e os salários e a vida segue, no mais das vezes sob um novo governo. Já os países imperialistas dispõem de outra saída, menos dolorosa para eles e mais problemática para os demais. Eles podem optar por aumentar agressivamente as demandas pela abertura de mercados para seus capitais e por acesso privilegiado a matérias-primas (e energia). Daí que o imperialismo tenda a sair das crises recorrendo à guerra. E, como bem vem notando Barack Obama, o capital é mestre em mobilizar forças internas nas situações de crise explorando o ódio racial, étnico e social. Uma questão chave para a economia americana são as fontes de energia. Os Estados Unidos são, de longe, o maior consumidor de energia, notadamente de petróleo. Os países produtores de petróleo, em sistema de cartel, cuidam de evitar que o preço caia. O ideal para os Estados Unidos seria um mundo em que o fornecimento de petróleo fosse abundante, de modo que o preço descesse a níveis em que fosse possível manter o padrão de consumo atual dos americanos, mas custando bem menos. O resultado dessa contradição é o crescimento das pressões, militares principalmente, sobre os detentores de óleo. Tratei do assunto quando escrevi sobre a importância da Colômbia na estratégia americana em relação à Venezuela, o país líder no movimento para fortalecer a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Por mais que a paz seja uma aspiração universal legítima, é forçoso admitir que os ventos internacionais não ajudam. Os mais espertos já devem, nesta altura do campeonato, ter lembrado da velha máxima segundo a qual se você deseja a paz deve preparar-se para o cenário contrário.

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sexta-feira, 21 de março de 2008

Páscoa, política e quixotismo (21/03)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (21/03/2008) no Correio Braziliense.

Na era da informação abundante e disponível, políticos precisam apresentar-se como são. E trabalhar (e rezar) para que seus defeitos e fraquezas operem, paradoxalmente, como alavancas de liderança

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Tomo a liberdade de, neste feriado, sugerir aos leitores da coluna que assistam ao discurso feito três dias atrás por Barack Obama na Filadélfia, Pennsilvanya. Está no endereço http://www.youtube.com/watch?v=pWe7wTVbLUU (“A more perfect union”). O pré-candidato do Partido Democrata falou para tentar neutralizar os efeitos negativos da exploração de sermões racialmente incendiários, produzidos pelo pastor negro da igreja que Obama freqüenta. Para quem prefere o inglês lido ao falado, a íntegra do discurso está disponível no endereço http://my.barackobama.com/page/content/hisownwords/.

Espero que alguém faça rapidamente uma boa tradução para o português. É uma peça indispensável para quem procura estar atento às transformações da comunicação política na era da informação abundante e facilmente disponível. Não é possível saber se Obama vai vencer a corrida presidencial nos Estados Unidos. Nem se, ao menos, conseguirá a indicação de seu partido para disputar contra o republicano John McCain. As últimas pesquisas indicam que o vetor do ódio racial, introduzido na campanha eleitoral pela outra pré-candidatura democrata, Hillary Clinton, está a fazer efeito.

Mas isso é o de menos. O alcance da fala de Obama na Filadélfia independe de quais serão os resultados eleitorais da corrida à Casa Branca. Ela aponta para a mudança tendencial de um paradigma da comunicação. Ela rompe com a premissa segundo a qual, como diria um ex-ministro da Fazenda do Brasil, afinal defenestrado, “o que é bom, a gente mostra; o que é ruim, a gente esconde”. A verdade é que está cada vez mais difícil para os políticos esconderem coisas desagradáveis a respeito deles próprios.

Mesmo que políticos possam contar temporariamente com blindagens providenciais, esse tipo de proteção mostra-se frágil diante da pulverização não apenas do acesso, mas da possibilidade prática de produzir material informativo e distribuí-lo. Na era da informação abundante e disponível, pessoas públicas precisam apresentar-se como são. E trabalhar (e rezar) para que seus defeitos e fraquezas operem, paradoxalmente, como alavancas de liderança.

Foi o que Obama tentou fazer. Em resumo, ele não renegou os elos com o pastor incendiário. Procurou, sim, desvincular-se das opiniões do religioso. Mas notou, e estes foram os pontos centrais de seu discurso, que 1) não pode nem vai romper com suas raízes pessoais e familiares e que 2) se a sociedade americana deseja enfrentar os perigos estruturais que a ameaçam, não deve fazer de cada campanha eleitoral um culto ao diversionismo, uma apologia da divisão, uma conclamação à destruição do diferente.

Impossível não fazer o paralelo com o Brasil. O Rio de Janeiro sofre com uma epidemia de dengue. Diante do fato, as autoridades federais parecem mais preocupadas em lançar o problema na conta de um adversário político, o prefeito César Maia (DEM), do que em encontrar uma saída compartilhada para o problema. A estratégia do Planalto é ficar bem longe do ônus. Já na esfera da educação, os responsáveis federais nos informam que daqui a duas décadas as crianças brasileiras sairão da escola sabendo ler, escrever e fazer contas. E, como os responsáveis pela área são politicamente competentes, ninguém cobra que o cronograma seja, digamos assim, acelerado. Até porque filho de político, empresário e jornalista não estuda mesmo em escola pública.

Talvez seja desse tipo de esperteza política que devamos nos livrar. Eu admito, de todo modo, que a minha abordagem possa ser considerada ingênua. Naive, como diriam os americanos. Ou quixotismo. Pouco importa. Talvez a coluna tenha sido escrita sob excessiva inspiração da Páscoa cristã. A história da cristandade é um ótimo exemplo de que nem sempre o sucesso político imediato é garantia de que se está no bom caminho. Jesus Cristo pode ser considerado alguém que à sua época foi politicamente derrotado. Apesar disso, dos personagens envolvidos no episódio que resultou na crucificação ninguém produziu idéias de maior permanência.

Sempre se poderá argumentar que Barack Obama chegou ao discurso da Filadélfia premido pelas circunstâncias. É possível. Mas, como fez notar em sua fala, ele poderia ter contornado o problema da intolerância racial, esperado que o fato se diluísse na campanha. Poderia ter se vitimizado. Seria a saída mais natural. Não o fez. Como eu disse antes, nada garante que o gesto corajoso lhe trará frutos políticos imediatos. Ainda assim, não há muita dúvida de que a ousadia já lhe abriu uma ampla avenida na História dos Estados Unidos.


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quinta-feira, 20 de março de 2008

Um discurso para ouvir, ler e guardar (20/03)



Clique aqui para baixar a íntegra do discurso "A More Perfect Union", feito por Barack Obama há dois dias para enfrentar a maré montante de racismo na eleição americana. Clique na imagem para assistir. É um paradigma de comunicação política na era da informação abundante e globalmente disponível. Obama não foge de seus próprios defeitos e da verdade. E recorre à máxima, imortalizada pelos clássicos da ciência social, de que os oprimidos só podem se libertar se libertarem o conjunto da sociedade. Imperdível.

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quarta-feira, 19 de março de 2008

Recibo passado, assunto encerrado (19/03)



Clique na imagem para assistir a uma curta porém certeira reportagem da Globonews, que sintetiza a decisão final da Organização dos Estados Americanos (OEA) a respeito da violação do território equatoriano pela Colômbia, no caso do massacre de guerrilheiros das Farc. A OEA condenou a Colômbia. Fez o que já havia feito antes, só que com mais ênfase. Na reunião anterior da OEA, a ausência formal da palavra "condenação" acabou confundindo alguns jornalistas, que interpretaram erradamente o sentido do vento. A verdade é que desde o início da confusão o presidente da Colômbia está isolado diplomaticamente no continente. Mas, como diplomacia não é briga de rua, faz-se necessária atenção redobrada do jornalismo para perceber os fatos atrás dos meneios e rapapés. Ou atrás dos desejos. Clique aqui para baixar a resolução. Transcrevo um trecho da versão em inglês:

RESOLUTION OF THE TWENTY-FIFTH MEETING OF CONSULTATION OF MINISTERS OF FOREIGN AFFAIRS (1):

(...)


4. To reject the incursion by Colombian military forces and police personnel into the territory of Ecuador, in the Province of Sucumbíos, on March 1, 2008, carried out without the knowledge or prior consent of the Government of Ecuador, since it was a clear violation of Articles 19 and 21 of the OAS Charter.

Agora veja a nota de rodapé que dá sentido ao (1)

(1) The United States supports this resolution’s effort to build confidence between Colombia and Ecuador to address the underlying crisis. The United States is not prepared to agree with the conclusion in operative paragraph 4 in that it is highly fact-specific and fails to take account of other provisions of the OAS and United Nations Charters; in any event, neither this resolution nor CP/RES.930 (1632/08) affects the right of self-defense under Article 22 of the OAS Charter and Article 51 of the U.N. Charter.

Ou seja, os Estados Unidos foram derrotados e passaram recibo da derrota, com firma reconhecida ("is not prepaired to agree"). Clique nos links abaixo para ler o que se escreveu aqui sobre o assunto (continua depois dos links):

É preciso isolar Uribe

O Brasil de calças curtas

As regras do jogo

Como o Sr. Chicola pode ajudar

O isolamento

Dúvida razoável

O realismo mágico, o legado de Hiram Johnson e uma boa proposta do Foro de São Paulo para os Estados Unidos

O baile de Amorim

E uma última observação. Trecho de reportagem de hoje de O Estado de S.Paulo:

El Tiempo pede desculpa a Quito

Bogotá (AP, AFP, EFE e Reuters) - O jornal colombiano El Tiempo pediu ontem desculpas ao governo do Equador por ter afirmado erroneamente que o homem que aparece numa foto com o líder guerrilheiro colombiano Raúl Reyes seria o ministro equatoriano da Segurança, Gustavo Larrea. “Este jornal falhou em seus procedimentos de verificação (...) e falhou ao não atribuir claramente a informação à sua fonte”, afirmou El Tiempo em editorial, no qual diz que a foto foi entregue pela Polícia Nacional. A polícia nega. Segundo o jornal, a foto foi encontrada no computador de Reyes depois que o “número 2” do grupo guerrilheiro Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) foi morto, no dia 1º. Após a publicação da foto, na segunda-feira, Larrea negou que o homem ao lado de Reyes fosse ele, exigiu um pedido de desculpas e advertiu que Quito não vai retomar os laços diplomáticos com Bogotá enquanto a Colômbia não puser fim ao que chamou de “campanha midiática” para vincular o Equador às Farc. O jornal pediu desculpas a Larrea e reconheceu que o homem na foto é o secretário-geral do Partido Comunista argentino, Patricio Echegaray.

Clique aqui para ler a reportagem completa
. Eu sou do tempo em que os manuais das redações mandavam desconfiar da polícia. A bem da verdade, eles mandavam desconfiar da polícia brasileira. Mas não custa nada estender o procedimento à polícia colombiana. Antes, porém, é preciso checar se a norma não foi revogada nas edições mais recentes.

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terça-feira, 18 de março de 2008

O mito da ingovernabilidade (18/04)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (18/03/2008) no Correio Braziliense.

Governadores e prefeitos não podem recorrer a MPs para governar. E não consta que estados e municípios vivam mergulhados em crises políticas. Ao contrário, na ampla maioria dos casos governadores e prefeitos administram sem problemas


Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O conflito em torno das medidas provisórias (MPs) tem tudo para ganhar corpo, na medida que o governo percebe uma insatisfação no Legislativo alguns graus acima do habitual. E nota que a temperatura vai chegando ao nível no qual ou o vapor encontra uma válvula de saída ou a coisa explode. Sinal disso é que o Palácio do Planalto começou a se movimentar para encontrar a fórmula mágica que, a pretexto de alterar algumas coisas, mantenha tudo como está.

Já se explorou em outras ocasiões nesta coluna a razão última pela qual as MPs resistem, apesar de tão criticadas. Quem está no governo as adora. Quem está na oposição as critica, mas sonha com o dia em que, uma vez no poder, delas poderá fazer uso. Chega, entretanto, uma hora em que a coisa engripa. Quando o estrangulamento da atividade parlamentar alcança o ponto em que a excessiva fraqueza do Congresso começa a desequilibrar perigosamente a balança entre os poderes.

É a situação em que parecemos estar. Verdade que em outros governos havia mais tolerância com essa realidade. Talvez porque dispusessem de maiorias mais confortáveis no Congresso, em especial no Senado. Mas elocubrar sobre as circunstâncias não resolve nada. É necessário agir. Antes, porém, é imperioso enfrentar um debate que se arrasta desde a Constituinte, quando se concluiu que o país ficaria ingovernável sem um instituto jurídico que mantivesse na essência os decretos-leis do período autoritário.

Essa ingovernabilidade é um mantra, repetido à exaustão e nunca provado. Argumenta-se que as regras político-eleitorais no Brasil, ao dificultarem a formação de maiorias sólidas no Legislativo, impõem a necessidade das medidas provisórias. Ora, segundo a Constituição, governadores e prefeitos não podem recorrer a MPs para governar. Só o presidente da República. E não consta que estados e municípios vivam mergulhados em crises políticas. Ao contrário, na ampla maioria dos casos governadores e prefeitos administram sem problemas e completam regularmente os mandatos. Mesmo sem poder editar MPs. E tendo que conviver com o mesmíssimo sistema político eleitoral que vigora no plano federal.

Na falta de consistência doutrinária ou lógica, os meneios na dança das MPs acabam conduzindo a situações curiosas. Um dos pontos em debate é condicionar a vigência delas à análise preliminar de sua relevância e urgência. Mas já existe um instituto com essas características. É o projeto de lei com urgência. Que se não for votado em certo prazo passa a trancar a pauta, do mesmo modo que uma medida provisória. Não é necessário inventar nada. Apenas tomar a decisão política de editar projetos de lei (com regime de urgência) em vez de MPs.

A possibilidade de usar medidas provisórias acaba transformando o governo num ser com duas características indesejáveis. A primeira é a preguiça de negociar politicamente suas iniciativas com o Congresso. A segunda é a ilusão de que pode dispensar uma maioria sólida de deputados e senadores. A prova disso é que, com cinco anos de estrada nas costas, até hoje o governo de Luiz Inácio Lula da Silva ocupa o noticiário com a interminável pendenga do preenchimento dos cargos federais.

Retirem-se as medidas provisórias da Constituição e nada acontecerá. Querem um exemplo? A MP que criava a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo foi derrubada no Senado. Mas a secretaria continua lá, assim como o ministro para ela nomeado. O problema foi resolvido por decreto. O que levou, naturalmente, à seguinte indagação: se ela pôde ser mantida por decreto, por que havia sido criada por MP?

Possivelmente por inércia, por espírito rotineiro, pela convicção da imutabilidade do status quo. No universo governamental anabolizado pela existência das MPs, o debate entre os representantes do povo é substituído pela confabulação entre os burocratas dos ministérios. E a atenção do Executivo com a execução orçamentária deixa a cena em favor da fúria legiferante. Para o Congresso, resta agarrar-se à denúncia do momento e tentar fazer de cada espirro uma pneumonia, para não ser atirado à irrelevância.

Em 2010, completar-se-ão 16 anos de governos tucanos e petistas em Brasília. Na origem, foram dois partidos que empunharam a bandeira da renovação institucional do Brasil. Tão logo chegaram ao poder, abandonaram-na. É uma pena.


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domingo, 16 de março de 2008

O baile de Amorim - ATUALIZADO (16/03)

Fred Melo Paiva entrevistou Celso Amorim para o Estadão. O chanceler deu um baile. Transcrevo alguns trechos. Se você prefere ler na íntegra, clique aqui para ir ao site do Itamaraty.

(...)

FMP - Alguns analistas dizem que o Brasil perdeu uma oportunidade de se firmar como liderança regional na recente crise entre Colômbia e Equador. Outros vêm méritos na atuação da diplomacia brasileira. Por que há essas duas leituras?
CA - Quando ninguém no País está falando mal do governo, o que é muito raro, acha-se um sociólogo não sei aonde para criticar (uma referência ao argentino Juan Gabriel Tokatlian). Não estou dizendo que as críticas sejam desonestas. Agora, pegue, por exemplo, o que disse o (cientista político José Augusto) Guilhon (Albuquerque), segundo o qual o Brasil deu uma escorregadela porque tomou o lado do Equador. O Brasil não tomou lado nenhum. Apenas defendeu uma coisa fundamental para as relações internacionais - base da nossa política desde antes do (Barão do) Rio Branco -, que é o respeito à integridade territorial dos Estados. Não podemos relativizar esse conceito. Sem desconhecer que o tema ganhou implicações regionais, o grande esforço do Brasil foi no sentido de enquadrá-lo num enfoque institucional.

(...)

FMP - Por que o Brasil não se posiciona de mais maneira mais firme com relação às Farc?
CA - Nossa posição é firme na condenação aos atos de violência que elas têm praticado ultimamente. Por que não classificamos as Farc como movimento terrorista? Porque o Brasil não tem a prática de fazer classificações desse tipo, a não ser que tenha antes sido feita pela ONU. A Al-Qaeda, por exemplo, foi declarada pela ONU um movimento terrorista - e por isso a legislação brasileira a considera dessa mesma forma. Ademais, as organizações evoluem para melhor ou para pior. Quando morei na Inglaterra, há 40 anos, ninguém falava com o IRA (Exército Republicano Irlandês). Depois passou-se a dialogar com o grupo, que mudou de comportamento. Hoje toma parte nas decisões do governo. Com o Khmer Vermelho (guerrilha comunista do Camboja) aconteceu o contrário. Não estou comparando as Farc com um nem com outro. Apenas dizendo que, em algum momento, talvez precisaremos conversar (com as Farc). De qualquer maneira, temos absoluta clareza em não manter nenhum diálogo político com eles, sem que antes sejam libertados todos os reféns, de forma unilateral e sem que se imponha nenhuma condição para isso.

FMP - O que tem sido feito para colaborar com a libertação dos reféns?
CA - Se tivermos de participar de algum diálogo humanitário, só o faremos em concordância com o governo colombiano, que é democraticamente eleito. No entanto, o que aconteceu recentemente - e cujo fechamento total se dará amanhã na reunião da OEA -, serviu para demonstrar que as Farc são, sob certos aspectos, uma questão não apenas colombiana mas regional. O governo da Colômbia quer tratar o tema regionalmente apenas quando fala de cooperação contra o terrorismo. Isso é muito difícil. O presidente Uribe tem de ter a capacidade de ouvir sugestões, inclusive sobre a parte humanitária.

FMP - Há algum constrangimento por parte da diplomacia brasileira em função da afinidade ideológica do PT com as Farc?
CA - É injusto e exagerado falar de identidade ideológica (entre Farc e PT). O presidente Lula perdeu três eleições e nunca saiu da via democrática. Sua política é uma política de Estado e isso é claríssimo, de forma que essa questão não nos constrange. A primeira vez que se tratou do tema das Farc neste governo foi numa conversa envolvendo o governo da Colômbia, um representante da ONU naquele país e o (então secretário-geral da ONU) Kofi Annan. Tentava-se, ali, o começo de um diálogo humanitário entre a ONU e as Farc. A idéia era que isso pudesse ocorrer em território brasileiro. Se houvesse algum constrangimento, o presidente Uribe seria o primeiro a ter vetado a iniciativa. Aliás, o próprio Uribe já pediu ajuda ao PT para lidar com o movimento sindical de seu país.

(...)

FMP - Condoleezza Rice justificou “ações militares preventivas” em zonas fronteiriças para combater o tráfico e a guerrilha. Ou seja, justificou a ação colombiana na recente crise envolvendo o Equador. Como vê a posição da secretária de Estado?
CA - Os países devem cooperar ao máximo para combater ações de grupos ilegais. Mas o Brasil não está de acordo com uma doutrina de ataque preventivo.

(...)

FMP - Que papel o Brasil deve desenvolver na transição de Cuba?
CA - A transição de Cuba, termo que você está usando, é um assunto dos cubanos. O que fazemos é estimular o que nos parece razoável. Acabei de vir do Vietnã, onde as reformas estão acontecendo paulatinamente. Se houver em relação a Cuba uma atitude pragmática da comunidade internacional, como há com o Vietnã, isso vai ajudar para que a evolução se dê naturalmente - de acordo com os interesses do povo cubano e respeitadas as conquistas sociais que tiveram e que são indiscutíveis. Prefiro falar em evolução do que em transição. Um ponto a que não se deu muita atenção é o fato de Cuba ter acabado de aderir às convenções das Nações Unidas sobre direitos civis e políticos, que era uma cobrança antiga. Isso demonstra que há uma evolução.


Atualização, 17/03/2008 às 12:26 - Leia também a entrevista, no dia seguinte, do chanceler à Folha de S.Paulo.

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sábado, 15 de março de 2008

O realismo mágico, o legado de Hiram Johnson e uma boa proposta do Foro de São Paulo para os Estados Unidos (15/03)

Este será um post longo. Vamos lá. O realismo mágico, segundo a Wikipedia:

Magic realism (or magical realism) is an artistic genre in which magical elements or illogical scenarios appear in an otherwise realistic or even "normal" setting.

Traduzindo, trata-se de um gênero artístico no qual elementos mágicos ou cenários ilógicos aparecem em contextos que, se não fosse por esses ingredientes, poderiam ser considerados realistas ou "normais". A definição se encaixa como uma luva no atual debate sobre o suposto terrorismo na América do Sul. Escrevi sobre o assunto em Terror e política:

Vejam a definição oficial de terrorismo, segundo os Estados Unidos (...):

activities that involve violent… or life-threatening acts… that are a violation of the criminal laws of the United States or of any State and… appear to be intended (i) to intimidate or coerce a civilian population; (ii) to influence the policy of a government by intimidation or coercion; or (iii) to affect the conduct of a government by mass destruction, assassination, or kidnapping; and… (C) occur primarily within the territorial jurisdiction of the United States… [or]… (C) occur primarily outside the territorial jurisdiction of the United States…" (...)

O espectro é amplo, como se vê. Basicamente, para os americanos, terrorismo é aquilo que os americanos crêem ser terrorismo. Na terra deles ou em outro lugar qualquer. Tampouco vou perder aqui meu tempo discutindo se os Estados Unidos têm ou não o direito de definir o que é terrorismo para eles. (...) um depoimento interessante de
Edward Peck, um típico liberal americano (o adjetivo lá é sinônimo de esquerdista):

In 1985, when I was the Deputy Director of the [Ronald]
Reagan White House Task Force on Terrorism, they asked us — this is a Cabinet Task Force on Terrorism; I was the Deputy Director of the working group — they asked us to come up with a definition of terrorism that could be used throughout the government. We produced about six, and each and every case, they were rejected, because careful reading would indicate that our own country had been involved in some of those activities. […] After the task force concluded its work, Congress got into it, and you can google into U.S. Code Title 18, Section 2331, and read the U.S. definition of terrorism. And one of them in here says — one of the terms, “international terrorism,” means “activities that,” I quote, “appear to be intended to affect the conduct of a government by mass destruction, assassination or kidnapping.” […] Yes, well, certainly, you can think of a number of countries that have been involved in such activities. Ours is one of them. Israel is another. And so, the terrorist, of course, is in the eye of the beholder (...)

De volta ao nosso post. Repetindo, para o governo americano, terrorismo é aquilo que os americanos crêem ser terrorismo. Na terra deles ou em outro lugar qualquer. E a definição é bem anterior ao 11 de setembro de 2001. A doutrina é suficientemente flexível para permitir aos Estados Unidos a luta ideológica e a execução das suas estratégias de convencimento, por meio da propaganda. Como agora, em meio à crise sul-americana deflagrada pelo ataque da Colômbia (terra de um dos pais do realismo mágico) à guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em território equatoriano. O trecho

(i) to intimidate or coerce a civilian population; (ii) to influence the policy of a government by intimidation or coercion; or (iii) to affect the conduct of a government by mass destruction, assassination, or kidnapping (...)

permite classificar as Farc como terroristas. Mas também permite chamar de terrorista a recente incursão de Israel em Gaza, área controlada por um grupo que os Estados Unidos consideram como terrorista, o Hamas, mas que venceu a última eleição livre acontecida na Palestina. Seria então o caso de perguntar: o terrorismo justifica-se quando empregado por aliados dos Estados Unidos em resposta ao terrorismo? Você teria uma boa resposta para isso? Eu não tenho, nem vou me preocupar em buscar, até porque prefiro não perder tempo com sofismas e exercícios mentais inúteis, destinados unicamente a colocar uma "fachada lógica" diante de construções intelectuais tortuosas e subjetivas. Ou que buscam inspiração no realismo mágico. Eu não invisto tempo em debates sobre o terrorismo ou sobre sua suposta versão estatal. Eu, simplesmente, sou contra o terrorismo e favorável a qualquer iniciativa que reduza a violência presente em conflitos políticos (faça um consulta aos arquivos do blog). Até porque é difícil traçar com precisão a linha demarcatória entre as violências aceitáveis e inaceitáveis na luta política. Neste blog, não praticamos engenharia reversa do pensamento. É a situação em que o sujeito sabe onde quer chegar e constrói teorias para justificar os desejos e conceitos que antecederam essas mesmas teorias. Aqui preferimos o bom senso. Segundo a Wikipedia,

Bom senso (também chamado de senso comum) pode ser definido como a forma de "filosofar" espontânea do homem comum, também chamada de "filosofia de vida", que supõe certa capacidade de organização e independência de quem analisa a experiência de vida cotidiana.

Capacidade de organização mental e independência intelectual. Eis uma receita de bom senso. Diz o bom senso que simplesmente não há terrorismo na América do Sul. Há guerrilhas na Colômbia, num cenário de guerra civil em que se empregam métodos de luta incompatíveis com os direitos humanos. Claro que o sujeito pode chamar de "terrorista" a guerrilha colombiana. Do memo jeito que qualquer um pode definir como terrorismo o seqüestro de muçulmanos para serem encarcerados pelos Estados Unidos em Guantánamo (Cuba), para que a lei americana não os possa socorrer. É um debate interminável. Pode-se olhar para uma laranja e dizer que se trata de uma maçã, se houver interesse em dizer que laranjas são maçãs. E, principalmente, se houver uma platéia dócil a ponto de repetir, ao estalar dos dedos, que laranjas são maçãs. Aliás, a guerra civil colombiana sempre foi tratada entre nós como isso, uma guerra civil. Mais recentemente, na era do combate global dos Estados Unidos ao terror, a definição foi repaginada para adequar-se à nova época, às diretrizes comunicacionais do governo da hora em Washington. E haja docilidade. Condoleezza Rice, por exemplo, é uma mulher sortuda. Estava no hospitaleiro Brasil exatamente no dia em que o Pentágono admitiu oficialmente não ter encontrado qualquer indício de ligações entre Saddam Hussein e a Al-Qaeda. Se ela estivesse em um país mais, digamos, atento, certamente o jornalismo teria ido para cima de Rice com o assunto. Com algo como "senhora secretária, o Pentágono acaba de mostrar que os Estados Unidos ofereceram ao mundo informações falsas para obter apoio à invasão do Iraque; o que garante que agora esse fato desagradável não esteja a se repetir no litígio entre a Colômbia e o Equador?". Na entrevista que deu, infelizmente nada foi perguntado a Rice a respeito. A falta de elos entre Saddam e Osama bin Laden e a ausência das armas iraquianas de destruição em massa mandam finalmente ao arquivo a tese de que os Estados Unidos invadiram o Iraque para evitar que as tais armas fossem repasssadas à Al-Qaeda (leia Dúvida razoável). "A primeira vítima nas guerras é a verdade." O autor da frase famosa é um americano, Hiram Johnson, o da foto acima. A "guerra contra o terrorismo das Farc" merecerá futuramente figurar no mesmo panteão das mistificações onde já repousam as biografias de Donald Rumsfeld e Colin Powell, este imortalizado na memória do Conselho de Segurança da ONU pela sessão em que, com farto material, expôs ao mundo a "verdade" que se provaria depois uma grosseira mentira: a ameaça representada pelas "armas de destruição em massa" do Iraque. A carreira de Powell acabou, mas, em compensação, o Iraque tornou-se um protetorado dos Estados Unidos, ainda que caminhe para a fragmentação. Uma excelente relação custo/benefício para George W. Bush, você há de convir. O que o Iraque tem em comum com a Venezuela? O petróleo. A extensão à América do Sul da guerra ao terror tem o propósito principal de justificar a presença bélica dos Estados Unidos na vizinhança de um país de cujas importações de petróleo os americanos dependem. E com quem têm diferenças políticas importantes. Enquanto a Venezuela fornecer petróleo para Cuba, dificilmente os Estados Unidos conseguirão criar na ilha um ambiente de caos e desespero econômico que leve a população cubana a apoiar uma intervenção externa. A guerra ao terror num continente que não tem terror é apenas a receita para manter indefinidamente, entre outras iniciativas, o Plano Colômbia e as tropas estadunidenses estacionadas no Equador. O Brasil, naturalmente, manobra para quebrar essa lógica, propondo, no lugar da doutrina americana, os conceitos de autonomia e integração continentais na esfera da Defesa. É o que foi exposto aqui em dois posts no ano passado (Também para o bem dos americanos, vamos rejeitar o que os americanos nos propõem e Desnuclearização) e que, para minha satisfação, transforma-se agora em política de estado. Mas a importação da guerra contra o terrorismo numa região que, repito, não tem terrorismo, além de servir a propósitos externos também tem lá sua utilidade interna: ela abre a possibilidade de maior apoio americano a forças políticas locais que vêm apresentando magros resultados eleitorais. E que, com a injeção de ânimo vinda de fora, poderão ser, digamos, vitaminadas para voltar ao poder. Isso é um palpite, naturalmente. E não é novo. Escrevi em Também para o bem dos americanos...:

Há por certo quem no Brasil tente reavivar as chamas da guerra fria e fazer do nosso país uma plataforma para provocações contra a Venezuela e também contra Cuba. Com o propósito de buscar lá fora a força política que não conseguem reunir aqui dentro.

Não é só palpite, porém, a constatação de que aos Estados Unidos interessa menos suprimir a violência política na Colômbia do que prolongá-la para justificar a presença militar americana na região e manter a pressão sobre países que ameaçam escapar ao controle. Mas, felizmente, há uma maneira de tirar a limpo qualquer dúvida sobre essa minha tese. Logo após a crise entre Colômbia e Equador, reuniu-se na Cidade do México o Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo, a articulação latino-americana de partidos de esquerda e centro-esquerda. As resoluções do encontro estão no site do PT, que participa do Foro. Ali pelo meio do texto, mais precisamente no item 8 da Declaração do Grupo de Trabalho do Foro (o que quer que isso signifique), está:

La continuidad del conflicto armado colombiano y su extensión mas allá de las fronteras se constituye en un elemento de perturbación de la vida democrática en la región, que da pretextos a la intervención norteamericana y dificulta la concreción de vínculos de hermandad entre los pueblos.

Vejam que interessante, o Foro de São Paulo, demonizado por alguns como um belzebu fomentador do terrorismo, afirma que "a continuidade do conflito armado colombiano" é "um elemento de perturbação da vida democrática na região". Ou seja, afirma que a guerra civil colombiana deve terminar o mais rápido possível, para o bem da democracia. Se o governo dos Estados Unidos estiver, ao contrário do que afirmei aqui, interessado em primeiro lugar em pacificar a Colômbia, certamente irá considerar essa boa posição do Foro. Mas eu sou pessimista a respeito. Por tudo que venho escrevendo, acho mais provável que os Estados Unidos e seus aliados locais prefiram investir em estratégias que estendam a guerra para o futuro. Sem guerra civil, não haverá mais o Plano Colômbia, nem o generoso dinheiro americano que irriga os orçamentos públicos e privados comandados pela cúpula militar colombiana. Não haverá tampouco motivo defensável para manter as bases militares americanas que "abraçam" a Amazônia. Numa Colômbia em paz, o debate sobre o terrorismo será substituído por outro, sobre a justiça social e a soberania nacional. E tem gente forte que não está preparada para a mudança. Temem-na. Temem que dê os mesmos resultados observados no resto do continente.

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sexta-feira, 14 de março de 2008

A limpeza étnica de cada um (14/03)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (14/03/2008) no Correio Braziliense.

Se o sonho petista-tucano do bipartidarismo deu as caras nos fracassados debates sobre a reforma política e a cláusula de barreira, é agora, nos preparativos para a eleição municipal, que ele se apresenta com mais viço

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Em cerimônia oficial dois dias atrás, o ministro Patrus Ananias (Combate à Fome) lembrou de uma antiga diferença entre o PT, seu partido, e o PSDB. Patrus criticou a privatização da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), vendida no governo Fernando Henrique Cardoso (FHC). Retomou a acusação, feita à época, de que o preço pago pela empresa ficou abaixo do que deveria. O assunto, aliás, está ainda por ser decidido na Justiça.

A referência a essa divergência histórica não deixa de brilhar como um raio em céu azul, numa época em que mesmo o observador atento tem dificuldade para encontrar diferenças programáticas entre as administrações petistas e tucanas. Aliás, entre administrações em geral no Brasil. Para o bem ou para o mal, consolidou-se entre nós um tipo de governo baseado em responsabilidade fiscal e programas de redistribuição de renda por meio do Estado. A primeira perna do modelo foi imposta pela lei e pela vida. A segunda, pelo pragmatismo eleitoral.

Essa convergência administrativa completa-se com a reabilitação do investimento público, que ao longo dos anos 90 era visto como dispensável para o crescimento. Com o tempo, concluiu-se que não seria bem assim. Agora, administradores em todos os pontos do espectro político cuidam de comparecer com as alavancas sem as quais o setor privado não se anima e entrar com a parte dele.

Não que tenham desaparecido as diferenças. Elas persistem, por exemplo, na ênfase dada aos programas sociais e, como se viu no discurso do ministro Patrus, no modo de olhar as privatizações. Ainda que o próprio governo do qual o ministro faz parte tenha acelerado, por exemplo, as concessões de rodovias federais, numa modalidade de venda que abriu mão inclusive do dinheiro que a União teoricamente deveria receber dos compradores.

Nesse cenário, era mais que natural alguém afinal perguntar: ora bolas, se PT e PSDB podem convergir administrativamente, por que não estender a convergência à política? E assim naturalmente se deu. E só podia mesmo ter aparecido em Minas Gerais. Lugar onde a conciliação já faz parte da cultura política, especialmente nas ocasiões em que essa mesma conciliação pode servir com eficácia aos projetos de poder das correntes hegemônicas no estado de Tiradentes.

É visível que PT e PSDB têm dificuldades para lidar com a novidade, a aliança entre o governador tucano Aécio Neves e o prefeito petista de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, na sucessão municipal. O desafio maior é responder ao “por que não?”. Até o momento, as objeções que podem ser expostas em público repousam no terreno da ideologia. Daí sua fraqueza. A ideologia como vetor principal de alianças eleitorais no Brasil é coisa do passado, ao menos para PT e PSDB. E há muito tempo.

Mas, se a convergência entre adversários históricos é um dado novo desta eleição municipal, um outro aspecto desperta curiosidade, ainda que chame menos a atenção até agora. Cada um a seu modo (e cada um do seu lado), PSDB e PT promovem, silenciosa mas sistematicamente, uma limpeza étnica em seu respectivo território. Se o sonho petista-tucano do bipartidarismo deu as caras nos fracassados debates sobre a reforma política e a cláusula de barreira, é agora, nos preparativos para a eleição municipal, que ele se apresenta com mais viço. De norte a sul, de leste a oeste, ambos cuidam, em primeiro lugar, de limpar a própria área. Enquanto o PT estende ao PMDB o tapete vermelho e busca evitar a consolidação eleitoral do bloco PSB-PDT-PCdoB, o PSDB, mais desenvolto, parece especialmente empenhado em fazer sangrar o Democratas.

O ex-PFL tem suas jóias da coroa em duas capitais, Rio de Janeiro e São Paulo, esta herdada do PSDB e administrada em condomínio. Pois bem, todos os movimentos tucanos destinam-se a eliminar do mapa esses dois pilares do poder do suposto aliado. Claro que há razões regionais e a luta interna dentro do próprio PSDB, mas não deixa de ser intrigante — e intelectualmente estimulante. A um observador distraído, poderia parecer à primeira vista que o desejo íntimo do PSDB é simplesmente neutralizar o Democratas como alternativa eventual de poder. Com mais discrição, mas igual denodo, o PT faz o mesmo com os que, paradoxalmente, insiste em classificar em seus documentos como “aliados estratégicos”.


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quinta-feira, 13 de março de 2008

Dúvida razoável (13/03)

O Pentágono acaba de informar: após a leitura de mais de 600 mil documentos capturados e milhares de horas de interrogatórios de colaboradores de Saddam Hussein, concluiu-se que, simplesmente, não havia ligações entre o governo dele e a Al-Qaeda. Antes, já se havia chegado à conclusão de que Saddam não tinha as tais armas de destruição em massa. Bem, o pretexto americano para invadir o Iraque foi o perigo de as armas iraquianas de destruição em massa serem repassadas à Al-Qaeda. De duas, uma: ou 1) os Estados Unidos tinham informações erradas ou 2) o governo dos Estados Unidos mentiu deliberadamente para obter apoio à invasão do Iraque. Eu sou mais a 2, até porque hoje em dia parece claro que os Estados Unidos só se meteram no Iraque porque tinham uma convicção razoável de que Saddam não possuía as tais armas mortíferas. Minha aposta decorre de uma constatação: quando o adversário parece tê-las, Wahington prefere pressionar a guerrear. É o caso, por exemplo, da República Democrática e Popular da Coréia (a do Norte). Mas você pode achar que eu estou errado. É seu direito. De todo modo, com mentiras deliberadas ou equívocos, os objetivos americanos no Iraque foram atingidos. O país deixou de existir como nação independente e os Estados Unidos controlam o seu petróleo, além de terem chegado às fronteiras do Irã. Dito isso, e se você é dos meus, se está mais preocupado com os fatos do que com a propaganda, talvez seja o caso de manter pelo menos um pé atrás em relação às acusações que os Estados Unidos dirigem contra a Venezuela e o Equador, por supostas relações indevidas com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Para não passar vergonha depois. Se, é claro, você é dos que se preocupam com isso (passar vergonha).

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O ambiente em Minas (13/03)

Uma boa idéia de como anda o ambiente político em Minas Gerais pode ser obtida no artigo Aliança contra São Paulo, de Luiz Carlos Bernardes, no site do jornal O Tempo. Transcrevo trechos:

Se é preciso desconcentrar a política nacional, tirando-a do controle de São Paulo, e se Minas quer voltar a se impor nacionalmente, a aliança socialdemocrata [PT-PSDB] é uma bela idéia para isso. Minas volta a ser uma usina de idéias políticas, a partir de jovens políticos como Aécio, Fernando Pimentel e Patrus, entre outros como o vice José Alencar, os ministros Luiz Dulci e Hélio Costa, Jô Moraes, Sérgio Miranda, Ronaldo Vasconcellos, etc. (...) A sociologia política mostra que São Paulo, primeiro estado a se industrializar, tem, há décadas, política de representação direta de interesses com políticos vindos das áreas empresarial, sindical, universidade, etc. Por isso, o embate político paulista é mais pesado, direto, como nos países industrializados. (...) Já em Minas, a política que hoje se aproxima da de São Paulo com a industrialização em regiões do estado, como Grande BH, Vale do Aço, etc, foi anteriormente o retrato da conciliação. Daí ter sido o berço do velho PSD, considerado escola política da América do Sul. (...) Agora, Minas tem políticos talhados na luta contra o regime militar, na industrialização e que percebem os novos desafios, econômicos, sociais, tecnológicos e políticos do mundo globalizado. Por isso, a proposta mineira de aliança socialdemocrata e de reorganização e revalorização partidária merece atenção e respeito político. Não é apenas uma jogada para beneficiar o político A ou o B, mas sim pode ajudar a dar outro conteúdo a política brasileira. Com a industrialização a politica em Minas se endurece, mas não perde a capacidade de diálogo.

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terça-feira, 11 de março de 2008

Menos ideologia, mais negócios (11/03)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (11/03/2008) no Correio Braziliense.

No terreno político, a derrota do PP espanhol significa um alívio momentâneo para os governos da Venezuela, da Bolívia e do Equador, identificados com orientações étnico-nacionalistas bem pronunciadas

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) derrotou o Partido Popular (PP) e conquistou mais um mandato à frente do governo. No que se refere ao Brasil, há pelo menos dois aspectos a considerar. O primeiro é o revés político da Igreja Católica, que deu apoio tácito aos conservadores espanhóis, em oposição ao viés modernizante do PSOE no terreno dos costumes, especialmente no debate em torno da legalidade do aborto. O segundo é que o Estado espanhol nas mãos do PP poderia servir como alavanca de tentativas ainda mais ostensivas de desestabilização de governos étnico-nacionalistas na América do Sul.

No primeiro item, é inevitável o paralelo com o cenário brasileiro, onde no momento a hierarquia católica emprega todas as forças para barrar as pesquisas e a terapia com células-tronco embrionárias. Na Espanha e no Brasil, a Igreja mostra-se alinhada com a estratégia do Papa Bento 16: prefere perder adeptos a transigir em matéria de princípios. Ali e aqui, porém, é inevitável que a sociedade questione por que, afinal, deve a Igreja Católica ter ascendência definitiva sobre o Estado, já que este abrange católicos e não-católicos.

Religião é assunto privado. Ao Estado, cabe em tese garantir a liberdade de cada um procurar, e eventualmente encontrar, Deus segundo os caminhos da preferência de quem procura. Desde que esteja respeitado o limite do bom senso e da convivência social civilizada. Mas quem define esse limite? A própria sociedade, por meio de sua representação político-institucional no Executivo e no Legislativo.

O caso das células-tronco embrionárias é emblemático. Por que deveria um não-católico deixar de ter acesso aos avanços da ciência apenas porque Roma considera que a vida começa na concepção? E se houver uma igreja que marque o início da vida no momento da produção dos gametas? Ou outra religião que só considere a existência de vida após o nascimento? O uso da camisinha deveria ser considerado crime? O aborto deveria ser permitido a qualquer momento da gestação?

Nada disso é novo na discussão. A novidade, tanto no caso espanhol como no brasileiro, é que a maioria da sociedade não parece disposta a dar poder de veto a grupos religiosos, por mais representativos e hegemônicos que se pretendam. Uma atitude libertária que traz efeitos colaterais preocupantes. Um deles é o enfraquecimento da influência moral da Igreja Católica sobre a sociedade e a família. Que, como se sabe, é o elemento central a fortalecer na luta contra a atração que a transgressões e o crime exercem sobre a juventude.

Já no terreno propriamente político, a derrota do PP espanhol significa um alívio momentâneo para os governos da Venezuela, da Bolívia e do Equador, identificados com orientações étnico-nacionalistas bem pronunciadas. Como se recorda, a polêmica sobre o papel dos políticos do PP na tentativa de golpe de estado contra o venezuelano Hugo Chávez, em 2002, foi o estopim do célebre bate-boca que acabou no “por que não te calas?” que o rei espanhol dirigiu ao presidente da Venezuela em Santiago.

Os capitais espanhóis têm desempenhado nos últimos anos importante papel na absorção de ativos estatais repassados, a custos convidativos, à iniciativa privada na América do Sul. Funcionam como “barriga de aluguel” de fundos americanos. E as condições amplamente favoráveis encontradas em nossas terras já há tempos levam as operações sul-americanas a brilhar nos balanços consolidados das empresas globalizadas que ostentam marcas espanholas na fachada.

Em alguma medida, o protagonismo do PP na tentativa de barrar a onda nacionalista em nosso continente mantém relação com isso. É uma resistência à potencial perda de ótimos negócios, que garantem gordo retorno aos felizes acionistas peninsulares. Mas é perceptível também que há, na ação da direita espanhola, um vetor ideológico, a operar com certa autonomia em relação à realidade material que o gerou.

Nesse aspecto, o PSOE é reconhecidamente mais pragmático. O governo socialista espanhol, assim como o governo petista brasileiro, reagiu de maneira moderada à nacionalização da indústria petrolífera boliviana, onde ambos tinham e têm forte presença. Já nos desdobramentos da polêmica entre o rei e Chávez, o premiê socialista da Espanha cautelosamente submergiu. Mais negócios e menos ideologia parece ser a saudável linha do reeleito José Luis Rodríguez Zapatero para a América do Sul.


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sábado, 8 de março de 2008

O isolamento (08/03)

A reunião do Grupo do Rio, na República Dominicana, deu resultados positivos e pode ajudar a evitar a ampliação da crise desencadeada pela violação, na semana passada, das fronteiras equatorianas por tropas colombianas na operação que resultou no massacre de um grupo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). O melhor relato que vi sobre o assunto é, naturalmente, de alguém que esteve lá. De Samy Adghirni, na Folha de S.Paulo de hoje:

Após nove horas de um debate cheio de impropérios no auditório da Chancelaria dominicana, prédio colonial de frente para o mar do Caribe, o presidente e anfitrião Leonel Fernández pediu aos participantes que deixassem de lado suas divergências e apertassem as mãos em nome da paz. Após alguns segundos de hesitação, [o colombiano Álvaro] Uribe -que havia passado o dia justificando o ataque contra o acampamento das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em território equatoriano, há uma semana, que desencadeou a crise- levantou-se e caminhou em direção a [Rafael] Correa [, do Equador]. Sob aplausos, eles apertaram as mãos. Em seguida, Uribe atravessou novamente o auditório para fazer o mesmo com o presidente venezuelano, Hugo Chávez -que no domingo passado anunciara o envio de tropas à fronteira com a Colômbia, em represália ao ataque no Equador. Os aplausos continuaram. Ao sair da reunião, os participantes estavam eufóricos com o fim da crise, oficializado na declaração final do encontro, que formalizou o pedido de desculpas da Colômbia ao Equador e selou o compromisso por parte de Bogotá de que o fato não voltará a acontecer. (...) Depois do embate, os outros participantes se revezaram no microfone com discursos apaziguadores, mas claramente favoráveis ao Equador e a Correa, que foi aplaudido, enquanto as palavras de Uribe foram recebidas com silêncio. O mexicano Felipe Calderón evocou o princípio da inviolabilidade territorial; a presidente argentina, Cristina Kirchner, disse que "a ilegalidade se combate com mais legalidade". O nicaragüense Daniel Ortega acusou Uribe de praticar terrorismo de Estado. Mas, no fim da cúpula, Ortega, que anteontem anunciou o rompimento de relações com a Colômbia, disse que irá retomá-las. O Equador ainda não anunciou formalmente o reatamento -Quito rompeu relações com Bogotá na última segunda.

No jornalismo, assim como no futebol, o importante está nos detalhes. Se há um presidente latino-americano mais alinhado com os Estados Unidos do que Uribe, é o mexicano Calderón. Que, informa a reportagem, condenou Uribe. O que mostra o grau de isolamento do colombiano, de resto bem descrito (clique aqui para ler). Foi o que escrevi aqui, a quente, no primeiro post sobre o tema, É preciso isolar Uribe:

O fato é que o governo Uribe tornou-se uma ameaça à estabilidade do continente. Sua estratégia de "solução militar" para a questão da guerrilha terá como resultado prático a internacionalização do conflito. Talvez Uribe não esteja mesmo em condições de recuar, dado que o futuro de seu poder (como comentei em janeiro) repousa no prosseguimento da guerra civil. Um efeito colateral da estratégia uribista é a reorganização dos esquadrões paramilitares de extrema-direita. Num ambiente de paz, o caminho estaria aberto para a esquerda nacional colombiana chegar ao governo, como já aconteceu no resto do continente, com exceção do Peru. Sem guerra civil, não haverá condições políticas de Uribe pleitear um terceiro mandato -para o que precisa reformar a Constituição. A América do Sul deve, urgentemente, estabelecer um cordão sanitário em torno da Colômbia. Unir-se diante da ameaça de que a ambição política de Álvaro Uribe arraste o continente à guerra.

O que decidiu o Grupo do Rio? Que, antes de tudo e acima de todas as circunstâncias, as fronteiras nacionais são invioláveis em tempo de paz. Era o que já havia dito a Organização dos Estados Americanos (OEA). O resto é o resto.

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sexta-feira, 7 de março de 2008

Como o sr. Chicola pode ajudar (07/03)

Vejam se não é uma preciosidade o que eu encontrei, claro que com a ajuda do Google. Folha Online, às 23h13 de 18 de outubro de 2000:

EUA pedem que Colômbia negocie com esquadrões da morte

Bogotá (Reuters) - Um diplomata dos EUA disse hoje que grupos paramilitares não podem ser ignorados nos esforços para alcançar um acordo negociado entre o governo colombiano e as guerrilhas. Philip Chicola, chefe de assuntos andinos do Departamento de Estado dos EUA, disse que os temidos esquadrões da morte deveriam ter reconhecimento político, ou ainda participar de negociações entre o governo da Colômbia e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias)."Em algum ponto, os paramilitares terão que participar do processo", disse Chicola em uma entrevista para a Radionet, durante sua visita de dois dias à Colômbia. "O governo e a sociedade colombiana vão ter que decidir como eles vão lidar com os paramilitares", acrescentou.

Clique para ler a reportagem completa. Pela data (outubro de 2000), você já percebeu que a notícia é do final do governo de Bill Clinton. Quando a política americana para a Colômbia orientava-se pela busca de uma saída negociada que pusesse fim à guerra civil. Ou seja, antes do 11 de setembro e do acirramento das tensões entre a Casa Branca e Hugo Chávez, a diplomacia dos Estados Unidos considerava uma alternativa plausível a negociação com grupos que constavam do index terrorista, se o objetivo fosse a paz. Talvez isso ajude a compreender melhor por que os papagaios nativos (Nós e a transição cubana) nunca exigiram dos governos brasileiros anteriores a Luiz Inácio Lula da Silva que declarassem as Farc como "terroristas". Desde o fim do regime militar, passaram pelo Palácio do Planalto José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Nenhum deles adotou posição radical contra as Farc. Já registrei aqui no blog, em De volta ao americanismo, um trecho de reportagem da revista Veja em março de 2003 a respeito do assunto:

O governo de Fernando Henrique Cardoso também manteve distância do conflito colombiano. Vez por outra, deixava vazar críticas ao Plano Colômbia, como é chamada a estratégia de combate ao narcotráfico financiada pelos Estados Unidos.

Os mesmos que hoje incham a jugular para advertir sobre o apocalipse que resultaria da leniência com o "terror comunista" agiram, quando no governo, de maneira cuidadosa em relação à guerra civil do vizinho. O que teria mudado no cenário para justificar essa guinada? O caráter e os objetivos das Farc não mudaram. Se são "terroristas" hoje, já eram antes. Ora, o que mudou desde 2000 foram a linha política dominante no governo colombiano e a estratégia dos Estados Unidos. Mas a política externa brasileira e a nossa posição diante de conflitos em outros países não pode flutuar ao sabor dos humores em Washington ou nos aliados dos americanos. Por mais que alguns se incomodem com isto, nós somos um país soberano (leia À espera de uma orientação da Casa Branca). E um detalhe chamou minha atenção. O Philip Chicola ctado na reportagem da Folha Online de outubro de 2000 é o que aparece também naquela reportagem do NYT (Crisis at Colombia Border Spills Into Diplomatic Realm), citada neste blog, como contato do governo americano com Raul Reyes e as Farc na administração Clinton. Relembro:

For instance, in 1998 a Clinton administration official, Philip T. Chicola, then the State Department’s director of Andean affairs, had a clandestine meeting with Mr. Reyes in Costa Rica in an effort to establish a way of communicating with the FARC during times of crisis. The meeting was described in a diplomatic cable written by Mr. Chicola in January 1999 and declassified in 2004.

O que faz hoje o sr. Chicola? É vice-embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Dêem uma olhada no currículo dele. Alguns trechos:

Entre 1984 e 1986, foi vice conselheiro político na Embaixada dos EUA na Guatemala. De 1988 a 1993 serviu como conselheiro político e Embaixador Adjunto na Embaixada dos EUA em San Salvador. Durante seu tempo ali, o ministro Chicola teve atuação marcante nos esforços dos Estados Unidos em apoiar a inscipiente democracia Salvadorenha e em facilitar um fim negociado para a guerra civil naquele país. (...) Depois de um ano no War College (Escola de Guerra), o ministro Chicola serviu como conselheiro político e econômico na Embaixada dos EUA em Santiago, Chile, durante a conclusão da transição do regime de ditadura militar para um governo civil eleito. Em 1996 retornou a Washington como diretor interino do Escritório de Planejamento e Coordenação do Escritório de Assuntos das Américas. Um ano mais tarde, sua experiência em lidar com conflitos civis o levou a ser nomeado Conselheiro Sênior para o Administrador Temporário da Slavônia, Croácia. A partir de julho de 1998, serviu como Diretor do Escritório de Assuntos Andinos na Divisão de Assuntos do Hemisfério Ocidental. Nessa posição lidou com alguns dos desafios mais significativos na área, inclusive: o desenvolvimento da Suplementação do Plano Colômbia de $1,3 bilhões de dólares, a iniciativa Andina de $900 milhões de dólares, e subseqüente financiamento para a região de cerca de $800 milhões de dólares por ano. Outros desafios que confrontaram seu escritório incluem: o fim da era Fujimori e a transição do Peru para a democracia; administração dos desafios que o novo Presidente Hugo Chavez da Venezuala representa às nossas políticas regionais: coordenar esforços bem sucedidos de restaurar a democracia no Equador depois do golpe de janeiro de 2000; e garatir que a democracia boliviana sobreviveria à renúncia do presidente Gonzalez de Lozada no outono de 2003.

Com esse background, o sr. Chicola certamente não está entre nós só por causa do etanol. Se eu tivesse que chutar, eu diria que ele é bem mais do que um simples vice-embaixador americano no Brasil. Por que manter no Brasil, um país 100% em paz, alguém cuja carreira está toda voltada para ações em cenários de conflito e guerra civil? Mas isso não é uma crítica nem uma restrição. O sr. Chicola é muito bem-vindo. E é bom que a representação americana em Brasília possua alguém que conhece a fundo e que tenha participado da pacificação salvadorenha, que integrou plenamente a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) ao processo político regular. Seria o melhor modelo para as Farc (e a ELN) na Colômbia (clique aqui para ler). Quem sabe o sr. Chicola, já que está mesmo por aqui, não ajuda nisso?

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