quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Nova leitura sobre a Saúde nos Estados Unidos (30/01)

As deficiências do sistema de Saúde americano vêm sendo tratadas neste blog, de passagem. O assunto está em A Saúde, Cuba e os Estados Unidos, em Nós e o cansaço da superpotência e em De onde vêm os Obama. As duas últimas, colunas publicadas no Correio Braziliense. Hoje o The Wall Street Journal publica texto com anáise sobre por que naufragou o sistema de cobertura universal proposto pelo governador republicano Arnold Schwarzenegger. Leva o sugestivo título de Terminated, óbvia ironia com o ator de O exterminador do futuro (The terminator). Um trecho:

(...) Like collapses in Illinois, Wisconsin and Pennsylvania, this one crumpled because of the costs, which are always much higher than anticipated. The truth teller was state Senate President Pro Tem Don Perata, who thought to ask about the price tag of a major new entitlement amid what's already a $14.5 billion budget shortfall. An independent analysis confirmed the plan would be far more expensive than proponents admitted. Even under the most favorable assumptions, spending would outpace revenue by $354 million after two years, and likely $3.9 billion or more. "A situation that I thought was bad," Mr. Perata noted, "in fact was worse." This reveals that liberal health-care politics is increasingly the art of the impossible: You can't make coverage "universal" while at the same time keeping costs in check -- at least without prohibitive tax increases. Lowering cost and increasing access, in other words, are separate and irreconcilable issues. Of course Washington might be able to disregard these practicalities, because the states are prohibited from running deficits while the feds aren't. (...)

Clique aqui para ler a reportagem completa. É o problema de sempre. Não existe almoço grátis. Enquanto ninguém decide sobre quem vai pagar a conta, a Saúde persiste como um grave problema de políticas públicas nos Estados Unidos.

Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Só rindo (30/01)

Da Folha Online:

A União Européia informou nesta quarta-feira que suspendeu indefinidamente a importação de carne bovina brasileira. A decisão foi tomada após autoridades européias e brasileiras não conseguirem chegar a um acordo sobre o número de fazendas que poderiam receber certificação para vender o produto ao bloco --a lista deveria ter sido definida até 31 de janeiro, ou seja, amanhã. Apesar de a União Européia ter restringido o número de fazendas a 300 (3% das 10 mil registradas no passado), o Ministério da Agricultura brasileiro apresentou uma lista com cerca de 2.600 propriedades. Assim, os europeus se recusaram a publicar a lista no Diário Oficial do bloco --como estava previsto no cronograma de entendimento sobre o comércio do produto realizado no ano passado--, e na prática as importações ficam proibidas. Para selecionar mais fazendas que as 300 permitidas, o Ministério da Agricultura alega que não teria como escolher algumas sendo que todas estariam dentro das exigências internacionais. (Continua...)

É isso mesmo que você entendeu. A questão sanitária é apenas um pretexto para que os europeus exijam a interessante prerrogativa de definirem eles próprios em quantas fazendas brasileiras poderá ser criado gado cuja carne será consumida na Europa. É uma piada. A Europa é um continente em decadência, com população declinante e cuja agricultura só se mantém porque os que se dedicam a essa atividade são praticamente funcionários públicos -pela via dos subsídios. Mais um exemplo sobre como se materializam na vida prática os conceitos de livre comércio dos liberais. Só rindo.

Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O cenário dos pessimistas (29/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (29/01/2008) no Correio Braziliense.

Vê-se, portanto, que nem o cenário negativo é tão negativo assim. A não ser que sobrevenha algo catastrófico que não está no momento no horizonte dos analistas

Por Alon Feuerwerker
http://www.blogger.com/alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Um estudo distribuído esta semana pela consultoria Tendências a seus clientes afirma que há 30% de chances de um cenário pessimista para a economia brasileira em 2008, em decorrência da crise financeira nos Estados Unidos. Analistas prevêem dois trimestres de contração da economia americana, até meados deste ano, seguidos de uma retomada da expansão. Para compor o cenário pessimista no Brasil, trabalhou-se com duas premissas: 1) o forte impacto da desaceleração estadunidense nos preços das commodities e 2) a deterioração interna do cenário fiscal, em decorrência do fim da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e da resistência do governo, do Congresso e do Judiciário em ajustar, para baixo, seus orçamentos à nova realidade.

Vamos alinhavar os indicadores desse suposto cenário negativo. Para um crescimento mundial de 3,0%, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceria 3,2%. A inflação (IPCA) seria de 5,5%, contra os 4,5% de 2007. O superávit primário bateria em 3,2% do PIB (contra os 3,9% do ano passado) e o risco Brasil iria para 300 em dezembro, em vez dos 214 com que fechou 2007. Mas o quadro pessimista traz também boas notícias, para os críticos do câmbio. Se tudo der errado, dizem os consultores, o dólar encerra 2008 valendo R$ 2,30, contra os R$ 1,79 de dezembro último. O que levaria a dívida líquida sobre o PIB a uma queda de 5,5 pontos percentuais (de 42,7% a 37,2%). Mas, como nada é perfeito, nessa projeção pessimista o juro Selic iria para 14 %, quase três pontos percentuais de alta ao longo do ano.

Quais seriam as conseqüências políticas desse desempenho apenas medíocre? O ajuste brasileiro se daria às custas de alguma inflação adicional e de uma nova elevação de juros. Em troca, os beneficiários dos programas sociais do governo teriam o seu garantido, bem como o capital financeiro e o setor exportador, cujos aplausos certamente encobririam na opinião pública os protestos dos que estão ali pelo meio da pirâmide, gente que vive de salário e depende de crédito e emprego para melhorar de vida.


Assim, nesse cenário ruim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viveria um momento desfavorável em seu segundo mandato, ao absorver todos os custos do ajuste. A oposição não perderia a oportunidade de debitar na conta do petista essa aterrissagem medíocre, e certamente cobraria dele uma suposta perda de oportunidades no ciclo de crescimento anterior à crise. Tudo isso teria efeitos políticos lá pelo fim de 2008, coincidindo com as eleições municipais. Diferentemente do primeiro mandato, quando o ano da disputa nas prefeituras (2004) foi bom, especialmente na comparação com o doloroso 2003 do ajuste antiinflacionário e fiscal.

Se esse é o cenário pessimista, qual é o otimista? O Brasil escapará mais um menos incólume se 1) a economia americana der uma freada rápida, mas pontual, 2) o crescimento chinês provar-se não tão dependente assim dos Estados Unidos e, em conseqüência, 3) a demanda mundial por matérias-primas e comida continuar aquecida. Claro que sempre nos sobrará explicar por que estamos derrubando árvores na Amazônia para plantar soja e criar gado, mas esse ônus é preferível a responder diante dos eleitores brasileiros por que faltam empregos e crédito. Este último problema derruba governos, enquanto o primeiro apenas cria problemas na esfera das relações públicas.

Há um certo consenso de que num cenário otimista na economia será muito boa a perspectiva eleitoral das forças políticas agrupadas em torno do Palácio do Planalto. A novidade é outra. Se estiverem corretos os dados expostos pelos analistas para um cenário desfavorável, estaríamos diante de um tranco suave neste ano, o que deixaria uma margem de pelo menos mais um ano e meio para que o governo conseguisse reacelerar a economia e chegar ao final de 2010 com ventos novamente otimistas.

Vê-se, portanto, que nem o cenário pessimista é tão pessimista assim. A não ser que sobrevenha algo catastrófico que não está no momento no horizonte dos analistas, as chances de o Brasil alcançar bem ou razoavelmente bem a próxima sucessão presidencial são consideráveis. Do que se deduz que a oposição precisará dar um jeito de escapar do discurso catastrofista se quiser chegar a algum lugar diferente dos que chegou em 2002 e 2006.


Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

O meio ambiente não é (só) caso de polícia (25/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (25/01/2008) no Correio Braziliense.

O problema, entretanto, é quando as pessoas de bem precisam se transformar em malfeitores para garantir um amanhã melhor para si e sua família

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Enquanto o presidente da República dava ontem tratos à bola no difícil tema do desmatamento recorde da Amazônia, o mundo tomava conhecimento de que a economia chinesa cresceu estonteantes 11,4% em 2007. E o Brasil descobria que o desemprego interno despencou para 7,4% em dezembro. O que o primeiro assunto tem a ver com os dois últimos? Tudo. O avanço do Brasil sobre a Amazônia não ocorre porque os brasileiros são maus ou não gostam da natureza. A exploração econômica da região progride porque a demanda por alimentos está aquecidíssima. Árvores são derrubadas para criar gado e plantar soja. Com um agravante: a expansão da cana-de-açúcar para produzir etanol na porção meridional do país empurra ainda mais outras culturas para o Brasil setentrional.

A principal ficção difundida pelo presidente da República em seu novo papel de garoto-propaganda do etanol brasileiro no mundo é que há terra sobrando aqui para plantar cana. E que, portanto, podemos muito bem expandir a oferta de álcool sem pressionar o preço dos alimentos ou cortar árvores. É a teoria palaciana das terras infinitas. Tese que não agüenta um sopro. Já perguntamos nesta coluna e repetimos a indagação: se está sobrando terra degradada (improdutiva) para plantar cana, por que falta terra para a reforma agrária? O pessoal do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) pede há anos que o Palácio do Planalto autorize a portaria que moderniza os índices de produtividade, para aumentar o estoque disponível para a democratização da propriedade rural. E nada de o Planalto se mexer.

A explosão do desmatamento é responsabilidade exclusiva do governo Lula e de quem o comanda. A administração federal divide-se entre os adeptos incondicionais do agronegócio e os militantes de um preservacionismo amazônico radical e utópico. Esses dois vetores, aparentemente opostos, na verdade potencializam-se. Ao não se lançar com ímpeto e determinação numa empreitada para tornar viável a exploração econômica racional da Amazônia, o governo petista aparece nos primeiros capítulos como o mocinho da novela. Mas, visto que é impossível ludibriar todos o tempo todo (já advertia Winston Churchill), um dia os números frios vêm à luz e a realidade se impõe: em resumo, a Amazônia brasileira está à mercê do latifúndio do século 21.

E assim continuará, enquanto o presidente da República estiver mais preocupado com o que pensam dele em Paris do que em Roraima. Quantas vezes Lula foi a Roraima desde que tomou posse em 1º de janeiro de 2003? Alguém sabe? Ontem, a cúpula do governo reuniu-se em palácio para discutir o aumento da repressão ao desmatamento ilegal. Ótimo. Mas será que o governo imagina solucionar o problema unicamente com o uso de força policial? A questão ambiental não é somente caso de polícia. Enquanto a árvore derrubada representar a criação de um valor maior do que mantê-la de pé, as estatísticas prosseguirão sua caminhada cruel. O homem se move pela busca da riqueza. Bloquear esse movimento sem oferecer opções é como construir um barragem de rio sem vertedor. Chega uma hora em que a força da água leva tudo de roldão.

Para evitar uma catástrofe na Amazônia, o Brasil precisa escapar do discurso catastrofista. Veja-se, por exemplo, o caso do aquecimento global. Se as teorias a respeito do assunto estiverem corretas, é provável que a elevação da temperatura no planeta acabe contribuindo mais para a extinção das florestas tropicais do que o contrário. O catastrofismo também preocupa por outra razão: do jeito que a coisa vai, daqui a pouco aparece alguém propondo um “Plano Brasil”, nos moldes do Plano Colômbia. Ali, justifica-se a presença de tropas americanas em nome do combate ao narcotráfico. Aqui, certamente haverá quem proponha chamar os marines para tentar salvar o ecossistema amazônico.

A Amazônia tem salvação. Ela está na expansão civilizada do homem, com base na agricultura e na pecuária familiares, no zoneamento ecológico-econômico e na produção científica com o aproveitamento da biodiversidade. A ação policial será sempre importante, como em todo lugar, para combater as ilegalidades e separar os malfeitores das pessoas de bem. O problema, entretanto, é quando as pessoas de bem precisam se transformar em malfeitores para garantir um amanhã melhor para si e sua família.


Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Pressão sobre a floresta e um ministro com razão (24/01)

D'O Estado de S.Paulo:

Desmatamento na Amazônia dispara e põe governo em alerta

Foram derrubados 3.233 km2 de floresta de agosto a dezembro; total pode chegar a 15 mil km2 em doze meses

João Domingos e Nelson Francisco

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou reunião de emergência hoje para tratar do aumento da área desmatada na Amazônia nos últimos cinco meses de 2007. Pelos cálculos da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe), o desmatamento pode ter atingido cerca de 7 mil quilômetros quadrados no período - o equivalente a cerca de 700 campos de futebol. Confira a evolução do desmatamento na Amazônia. Um levantamento do Inpe mostrou que, de agosto a dezembro, foram derrubados 3.233 quilômetros quadrados de floresta, dos quais 1.922 quilômetros quadrados em novembro e dezembro, quando normalmente não há desmate por causa das chuvas. (Continua...)

A aceleração do desmatamento é função direta da expansão da produção brasileira de carne bovina e de soja. É também função indireta da expansão da cana de açúcar para a produção de álcool. É o que venho escrevendo aqui há um ano, repetidamente. Faça uma busca por "etanol" no blog (clique aqui). Em Governo vegetariano e terras finitas, de abril, escrevi:

Nossas terras produtivas, grosso modo, distribuem-se entre: 1) áreas de proteção ambiental e reservas legais, 2) territórios indígenas, 3) lavoura e 4) pecuária. O governo afirma que a expansão da área plantada de cana de açúcar vai se dar preservando os itens 1 e 2. Sobrariam então terras em que hoje se planta ou se cria gado. Mas o governo diz também que as áreas destinadas à produção de alimentos tampouco serão afetadas, "apenas os pastos". Pelo visto, o governo brasileiro aderiu ao vegetarianismo, pois não considera a carne um alimento. Vejam como o argumento governamental não pára de pé. Suponha que a cana de açúcar para a produção de etanol avance nas áreas de pastagens e de grãos. Qual será a conseqüência imediata? Queda de produção de carne e grãos. Mas o Brasil é um campeão mundial na produção de carne e grãos. Hoje, o The New York Times traz reportagem sobre a pressão de demanda chinesa pela soja brasileira. Demanda em alta e produção em baixa significam aumento de preços. E preços de commodities em alta significam estímulo à produção. Ou seja, se a expansão da cana se der à custa de pastos e plantações de grãos, as vacas, os bois e a soja serão empurrados para onde existir terra disponível. Para as áreas de proteção ambiental, para as reservas legais e para as terras indígenas.

Algo a objetar? E qual é a solução? Em primeiro lugar, esquecer da idéia de que será possível manter a Amazônia como um santuário natural. Em segundo, buscar um modelo de ocupação da área em bases civilizadas. Que só pode alicerçar-se na agricultura familiar. Como também escrevi em Esquerda e direita, sócias. Está ali:

Se quisermos encontrar terra disponível em grandes quantidades para fazer a reforma agrária no Brasil, basta olhar para o norte. Mas o destino que as grandes potências enxergam para a Amazônia é o de reserva intocada. Para que, naturalmente, eles a explorem de acordo com as suas conveniências no futuro –quando a água se tornar um bem mais escasso ainda e quando a biotecnologia adquirir o protagonismo previsto. Toda a pressão sobre o nosso país é para que deixe a Amazônia como está. E a esquerda e os movimentos sociais brasileiros, que construíram sua identidade recente na “luta contra o neoliberalismo”, são hoje reféns da agenda neoliberal para o Brasil. Qual é o coração dessa agenda? Crescer pouco, em nome de nossas “responsabilidades planetárias”. Sacrificar o futuro dos jovens de nossas periferias em troca de recebermos uma medalha de honra como bons guardadores de jardim zoológico e jardim botânico.Um governo verdadeiramente patriótico e popular colocaria no primeiro ponto da agenda nacional a colonização da Amazônia, centrada na agricultura familiar, no cooperativismo e no crescimento ambientalmente sustentável da produção agropecuária. A Amazônia não é um problema. Ela é a mãe de todas as soluções. A expansão ordenada na Amazônia será a oportunidade de uma vida mais próspera para milhões de brasileiros. Teremos uma base demográfica para consolidar nossa soberania sobre a fronteira norte do Brasil. Criaremos uma base material para melhor integrar os países e povos do continente. E estaremos munidos de uma política ambientalmente eficaz. Hoje, por não oferecer alternativas econômicas para a maioria, o preservacionismo cego anda de mãos dadas com a devastação.

Outro dia assisti no Jornal das Dez, da Globonews, a uma entrevista do ministro Roberto Mangabeira Unger, do Planejamento Estratégico. Eu tenho cá minhas críticas ao ministro (Uma preocupante vocação para o golpe), como você já sabe, mas ele defendeu um ponto de vista razoável sobre a Amazônia. Enfatizou também a importância da atívidade agrícola familiar, centrada na pecuária intensiva. Isso para as áreas já desmatadas. E onde ainda há floresta, explicou que ela só será preservada se houver possibilidades de exploração econômica que faça a mata em pé valer mais do que a mata derrubada. O ministro tem razão.

Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

O sonho de um FHC barbudo (22/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (22/01/2008) no Correio Braziliense.

Em 2002, o eleitor médio estava saturado dos anos de Fernando Henrique Cardoso, com sua herança de crescimento baixo e estagnação. Daí a esperança oposicionista de que, em 2010, a crise americana tenha transformado Lula II numa versão barbuda de FHC II

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Todos os cálculos políticos em Brasília estão com o olho pregado nos efeitos da crise americana sobre nós. A oposição não admitirá publicamente sua torcida para que batam fortemente aqui as ondas de choque de destruição da riqueza, mas é precisamente disso que se trata. A turma do “quanto pior, melhor” sabe que a hora é agora. Para os que têm pesadelos povoados pela possibilidade de Luiz Inácio Lula da Silva chegar muito forte em 2010, não haverá provavelmente outra oportunidade como esta. É agarrar ou largar.

Lula reelegeu-se 15 meses atrás após um quadriênio marcado por idas e vindas no crescimento econômico. Depois da estagnação de 2003, veio um 2004 bom. A ele seguiram-se um 2005 medíocre e um 2006 um pouco melhor. Reeleito, o presidente da República erigiu o crescimento acelerado como marca do segundo mandato — para substituir o carro-chefe do primeiro, os programas sociais. Significativamente, as três letras mais marteladas no esforço comunicacional do governo do ano passado para cá juntam-se na sigla do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Sem o PAC, a administração Lula II resumir-se-ia à espera dolorosa de seu próprio fim.

Os planos supostamente revolucionários na Saúde foram abortados na decolagem, quando a incompetência política do governo deu o gás de que a turma do “quanto pior, melhor” precisava para derrubar, no Senado, a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Na Educação, a promessa das autoridades é que as medidas cosméticas agora lançadas terão efeito em no máximo 20 anos. Não é piada. É isso mesmo. Vinte anos. A reforma agrária está atolada nas vacilações de um presidente que se recusa a modernizar os índices de produtividade da terra — o que reduz em muito as áreas disponíveis para a democratização da propriedade rural. O programa do etanol, grande aposta de Lula para alavancar o agronegócio brasileiro à condição de fornecedor global de combustíveis, encontra pela frente as previsíveis resistências dos protecionismos europeu e americano. E patina.

A esperança é o PAC. Tranformar o Brasil num canteiro de obras, nas palavras do próprio presidente. Em 2010, os programas sociais estarão de tal modo incorporados institucionalmente ao cotidiano da população mais pobre que sua influência no processo eleitoral será relativa. O povo não é bobo. Nem a oposição. PSDB e Democratas resmungam em Brasília contra o que chamam pejorativamente de “bolsa-esmola”, mas aplicam com fúria em suas próprias administrações fórmulas para redistribuir renda a partir de impostos cobrados das classes mais altas. Como se sabe, antipopulismo e modernidade nos olhos dos outros são refresco.

A parada daqui a três anos vai ser decidida mesmo é no crescimento da economia. Segundo dados oficiais não contestados, criaram-se ano passado no Brasil quase 1,7 milhão de empregos com carteira assinada. Se Lula mantiver a média, serão quase 7 milhões de vagas em quatro anos. É um número invejável. Mesmo que o resultado final venha a ser um pouco pior, algo como 6 milhões, ainda assim poderá ser erguido como bandeira eleitoral poderosíssima. Para que mudar o time que está ganhando? Para que arriscar um crescimento que vem melhorando a vida da maioria das pessoas? Mesmo a discurseira sobre a falta de “portas de saída” para os programas sociais perderá sentido. Como dizer que faltam portas de saída se o país cria empregos como não se via há quase quatro décadas?

Existe, na oposição, quem preveja que um candidato da base de Lula pode ser derrotado mesmo com a economia andando bem e com o país politicamente pacificado. Mas não é essa a avaliação predominante. Nas conversas reservadas, políticos do PSDB e do Democratas admitem o medo do que pode acontecer quando a corrida eleitoral para a sucessão do presidente da República se polarizar e o eleitor for instado a escolher entre a continuidade de algo que está dando certo e a ruptura em direção a algo que talvez seja melhor. Ou talvez não seja.

O eleitor médio não é revolucionário. Há quem ache que Lula se elegeu em 2002 por causa da trajetória radical do PT. É mais provável que o petista tenha vencido apesar de seus defeitos — e dos de seu partido. Tanto que, como se recorda, o eleitorado só pendeu para Lula depois de inviabilizadas alternativas como Roseana Sarney e Ciro Gomes. É que o eleitor médio estava saturado dos anos de Fernando Henrique Cardoso (FHC), com sua herança de crescimento baixo e estagnação. Daí a esperança oposicionista de que a crise americana transforme Lula II numa versão barbuda de FHC II.

Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

domingo, 20 de janeiro de 2008

A dança da chuva - ATUALIZADO (20/01)

Da Agência Brasil:

São Paulo - Ao sair do Hospital Sírio-Libanês, na capital paulista, onde ficou internado desde o último sábado até a manhã de hoje (19/01), o vice-presidente José Alencar foi questionado pela imprensa sobre a possibilidade de falta de energia em alguns locais do país. Ele afirmou que tem chovido pouco, especialmente no Nordeste, mas tudo indica que ainda vai chover bastante em janeiro e fevereiro e o país vai atravessar tranqüilamente essa fase, sem "apagão".

Clique aqui para ler a notícia completa. O governo torce pela chuva para evitar a necessidade de racionamento de energia elétrica, que povoa os sonhos da oposição e é apontado como possível pelos especialistas, talvez para 2009. As previsões meteorológicas são boas para o governo. Também da Agência Brasil:

Brasília - Em reunião hoje (17/01) para reavaliar as previsões sobre chuvas até o mês de abril, representantes do Instituto Nacional de Metereologia [sic] (Inmet) e do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec) informaram que o índice ficará acima da média na Região Norte e nos estados do Ceará, Maranhão, Piauí (litoral), Rio Grande do Norte e em parte da Paraíba.

Clique aqui para ler a reportagem. Mas este post não é sobre meteorologia. É sobre energia. É ridículo que um país com o potencial hidroelétrico e com as reservas de urânio do Brasil tenha que fazer a dança da chuva para escapar de um apagão. Por que chegamos a isso, de novo? Não deveríamos ter chegado, especialmente depois da crise de 2001. Ali abortou-se uma decolagem econômica que tinha tudo para ser construída sobre os alicerces do sacrifício a que o país foi submetido no segundo governo Fernando Henrique Cardoso com 1) a desvalorização cambial de 1999 e 2) o início da política de austeridade fiscal, mesmo que tímida. Agora estamos novamente nos primórdios de um possível ciclo longo de crescimento econômico e, na falta de nuvens de chuva, ameaçam-nos com a borrasca de um corte de energia elétrica. O que o governo Luiz Inácio Lula da Silva fez para reduzir o risco de um apagão? Muito pouco. Verdade que foi mudado o modelo de licitações de novos empreendimentos, com a introdução de critérios que favorecem o consumidor (menor preço). Mas o que Lula fez para dar um salto na infra-estrutura energética do país? Quase nada. Pior, permitiu que as instituições do estado brasileiro fossem penetradas pelo micróbio paralisante do ambientalismo global. Escrevi em O ambientalismo num só país, em dezembro de 2006:

É fácil identificar a ação do ambientalismo global entre nós. Ele é contra tudo. É contra usinas nucleares (por causa do lixo atômico), é contra usinas termoelétricas (por causa da poluição e da emissão de gases), é contra usinas hidroelétricas (por causa das inundações), é contra a construção de rodovias e ferrovias que possam potencializar a expansão da fronteira agrícola (porque é contra expandir a fronteira agrícola), é contra o uso de organismos geneticamente modificados (por causa da ameaça à biodiversidade), é contra o controle soberano do país sobre as reservas minerais localizadas em áreas indígenas (por causa dos direitos dos povos originais), é contra o reequipamento das Forças Armadas e sua capacitação efetiva para defender o território nacional (pois isso seria um desperdício), é contra a integração sul-americana (não se sabe bem por quê).

Por que a construção de hidroelétricas vai em passo de tartaruga? Por alguma misteriosa "incapacidade de gestão"? Não, porque o potencial restante de aproveitamentos está no norte do Brasil, na Amazônia. E o governo do PT é refém de políticas antinacionais que nos impõem a não ocupação econômica da Amazônia, a pretexto de preservá-la. Políticas antinacionais que parecem ter defensores instalados em posições-chave da administração federal. E que, como escrevi no post de mais de um ano atrás, também bloqueiam a nossa agenda nuclear para fins pacíficos. O Brasil tem a sexta reserva mundial de urânio mas engatinha nas usinas elétricas movidas a combustível atômico. Porque essa agenda está paralisada de dentro do próprio governo. Quando a crise de energia explodiu em 2001, montou-se uma solução com o recurso maciço a termoelétricas movidas a combustível fóssil. Que é uma das formas mais poluentes de se obter eletricidade. Mas não se ouvem protestos ambientalistas contra as termoelétricas. Por que será? É mesmo um ambientalismo de araque... E chegamos ao quadro atual. Um país, repito, líder mundial em potencial hidroelétrico não ocupado e detentor de ricas reservas de urânio reza para chover e se apóia em termoelétricas movidas a combustível fóssil, em boa parte importado. Você há de convir comigo que a situação é absurda. Independente da politicagem. Eu tenho uma pergunta pronta para os debates da próxima eleição presidencial. O que o candidato pretende fazer para pôr fim a uma situação em que o Brasil tem que dançar a dança da chuva para evitar a escassez de energia elétrica?

Atualização, às 20:20 de 21/01. Trecho de discurso de Luiz Inácio Lula da Silva na posse de Edison Lobão no Ministério de Minas e Energia:

Nós temos uma decisão do governo, uma decisão da Petrobras e uma decisão de todo o setor: nós queremos fornecer gás para carro, para ônibus, para termoelétrica, queremos oferecer gás para a indústria. Agora, todo mundo tem que ter claro: a prioridade número um do gás é garantir energia neste País. Portanto, na hora que tiver falta de água e precisar utilizar o gás, todo mundo precisa saber que, se for necessário, até o gás que a Petrobras utiliza para tentar achar petróleo, nós vamos transformá-lo em energia, porque o que nós queremos é que este País tenha energia de sobra, de preferência farta, e de preferência a um preço extraordinário.

Acho que está claro o problema.

Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Mais protegidos (18/01)

Segundo reportagem publicada na The Economist, o Brasil está mais protegido das crises internacionais do que no passado. Leia o texto da revista clicando aqui. Transcrevo um trecho:

Brazil is fairly well integrated into world markets. It is not overly dependent on America, which accounts for less than a fifth of exports. The remaining four-fifths are reasonably well spread between Europe, Asia and the rest of Latin America. Admittedly, most of what Brazil produces for foreign consumption is in the form of primary goods (from orange juice to footballers), which means that export growth correlates strongly with commodity prices. But exports are not made up of any single commodity (unlike oil-rich Venezuela's, for example). “Even if China buys less Brazilian iron ore, the hope is that Chinese people will keep eating Brazilian protein,” says Jose Mendonca de Barros of MB Associados, a consultancy.

É mais ou menos o que escrevi dois posts atrás, neste trecho:

A diversificação e pluralização das nossas relações internacionais mostra seu valor especialmente em momentos como o atual, quando nuvens bem escuras acumulam-se sobre a economia americana. É bom que possamos enfrentar essa turbulência sem depender excessivamente de um único parceiro comercial. Isso nada tem a ver com antiamericanismo.

Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

O enésimo erro e a burrice (18/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (18/01/2008) no Correio Braziliense.

Vão longe os dias em que o PT subestimava a importância de sua aliança com o PMDB. Sempre é bom acautelar-se (já que o lobo perde o pêlo mas não o vício), mas os fatos indicam que o pessoal do partido da estrela vermelha guardou o sapato de salto alto no armário das roupas que não irá usar

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

A indicação do senador peemedebista Edison Lobão (MA) para Minas e Energia é mais um ponto na sistemática e obsessiva costura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no tecido de sua aliança com o PMDB. Se a crise política de 2005-06 teve o papel de fazer Lula cair em si sobre os riscos de estar em minoria no Congresso Nacional, a recente derrubada, pelo Senado, da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) consolidou no presidente outra convicção: de que sem maioria parlamentar ele corre o risco de, a qualquer momento, ver a oposição ir com tudo para cima do presidencial pescoço.

Há quem enxergue na aliança entre o PT e o PMDB um requisito para a reprodução, em 2010, do projeto de poder do atual grupo palaciano. Um que pensa assim é Lula. O presidente, porém, está preocupado sobretudo com algo mais imediato: ou completa a sempre adiada consolidação de sua base parlamentar ou pode acordar belo dia mergulhado numa crise política fora de controle. Ainda que desencadeada por algum factóide que depois se revelará vazio de significado. Exemplos não faltam de como o ânimo beligerante da oposição tem tudo para só crescer daqui até a hora da nova disputa pela sucessão no Planalto.

Está pacificada a situação da base governista na Câmara dos Deputados, desde o pacto entre PMDB e PT para eleger Arlindo Chinaglia (PT-SP) à presidência. A paz nasce da convicção peemedebista de que terá, a partir de fevereiro do próximo ano, um dos seus sentado na cadeira hoje de Chinaglia. É o que prevê o acordo firmado, por escrito, entre as partes. E, como o PMDB tem a maior bancada no Senado, há a possibilidade real de o último biênio lulista encontrar o partido solidamente instalado no comando absoluto do Congresso Nacional. O que, convenhamos, não será nada mau para o cacife dos vários grupos peemedebistas em 2010.

O PMDB na presidência da Câmara dos Deputados e do Senado abre ainda outra via de especulação. Eventualmente, o PT poderia oferecer ao assim chamado “bloquinho” PDT-PSB-PCdoB a posição de vice na chapa presidencial em 2010. E mesmo assim manter o PMDB na caravana, com o compromisso de que a legenda continuará instalada no comando das duas casas legislativas. Uma aliança indigesta para o condomínio PSDB-PFL-PPS encarar. Um candidato apoiado por Lula e montado numa coligação representando dois terços do Congresso não será mesmo bolinho.

Na política, uma coisa leva a outra e não há gestos vazios de significado. Nem realidades que não possam ser transformadas por atos. No primeiro mandato de Lula, o então deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) foi um dos principais líderes da dissidência oposicionista na bancada federal. Hoje Geddel é ministro da Integração Nacional e um dos homens-chave do presidente para a articulação política. Outro adversário feroz de Lula I que virou aliado fiel de Lula II é o presidente do PMDB, o deputado federal Michel Temer (SP). Que em 2004 teve o desprazer de ver seu nome vetado pela então prefeita petista Marta Suplicy como vice da chapa em que ela concorreria à reeleição na cidade de São Paulo.

O final não foi feliz para nenhum dos dois. Marta perdeu a eleição e Temer virou vice de Luiza Erundina, cuja candidatura naquele ano perdeu-se na irrelevância. Mas hoje um revigorado Temer pode muito bem ser ele próprio o próximo presidente da Câmara dos Deputados. Com o direito de tentar a reeleição em 2011. O que também será o caso do presidente do Senado que suceder a Garibaldi Alves (PMDB-RN). Personagem que eventualmente pode atender pelo nome de José Sarney.

Vão longe os dias em que o PT subestimava a importância de sua aliança com o PMDB. Sempre é bom acautelar-se (já que o lobo perde o pêlo mas não o vício), mas os fatos indicam que o pessoal do partido da estrela vermelha guardou o sapato de salto alto no armário das roupas que não irá usar. Salto alto que, por sinal, parece ter sido tomado de empréstimo pelo PSDB, visto a inacreditável condução que os tucanos têm dado à sucessão na prefeitura que tomaram de Marta Suplicy quase quatro anos atrás.

Claro que tudo pode desandar. O PT pode sempre ter uma recaída e reexibir sua genética arrogância. É porém pouco provável. O partido e seu líder maior parecem ter enfim compreendido, após a degola em massa de seus quadros dirigentes, que querer governar sozinho pode ser gostoso, mas é muito perigoso. Errar é humano. Mas errar pela enésima vez seria mesmo uma burrice e tanto.


Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

De volta ao americanismo (16/01)

Quatro questões sobre a política exterior do Brasil:

1) Que presidente brasileiro reatou relações diplomáticas com a Cuba de Fidel Castro?

a) O tucano Fernando Henrique Cardoso
b) O ex-arenista e eventualmente peemedebista José Sarney
c) O general Ernesto Geisel
d) O petista Luiz Inácio Lula da Silva
e) O mineiro Itamar Franco

2) Que presidente rompeu relações diplomáticas com Formosa (China Nacionalista) e estabeleceu-as com a China Popular (comunista)?

a) O tucano Fernando Henrique Cardoso
b) O ex-arenista e eventualmente peemedebista José Sarney
c) O general Ernesto Geisel
d) O petista Luiz Inácio Lula da Silva

e) O mineiro Itamar Franco

3) Que presidente foi responsável pela estruturação do Mercosul em seu formato atual?

a) O tucano Fernando Henrique Cardoso
b) O ex-arenista e eventualmente peemedebista José Sarney
c) O general Ernesto Geisel
d) O petista Luiz Inácio Lula da Silva

e) O mineiro Itamar Franco

4) Que presidente foi responsável pelos acordos iniciais para suprimento de gás boliviano ao Brasil?

a) O tucano Fernando Henrique Cardoso
b) O ex-arenista e eventualmente peemedebista José Sarney
c) O general Ernesto Geisel
d) O petista Luiz Inácio Lula da Silva

e) O mineiro Itamar Franco

O gabarito está no final do post. Uma coisa eu posso garantir. Nenhuma das respostas corretas é "d". Ou seja, Lula segue em linhas gerais uma política externa que vem dos governos militares (mais precisamente dos tempos do general Artur da Costa e Silva) e atravessou quase incólume as eras Sarney, [Fernando] Collor, Itamar e FHC. O assunto já foi discutido aqui em Reconhecer os fatos do mundo, coluna publicada no Correio Braziliense em novembro. Ou seja, a política externa brasileira não tem, há quase meio século, viés preponderantemente ideológico. Já que percorreu, com certa homogeneidade, governos de matizes bem distintos, como se verifica nas alternativas colocadas ao leitor nas questões que abrem este post. Agora Lula esteve em Cuba e anunciou investimentos na ilha. Recebeu críticas, dos mesmos que também o criticam por supostamente deixar espaço excessivo para que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, amplie a influência venezuelana no hemisfério. Mas os investimentos do Brasil em Cuba, assim como a sabedoria brasileira de consolidar as posições da Petrobrás numa Bolívia etnicamente e regionalmente conflagrada, é exatamente um movimento que ajuda a solidificar o Brasil como liderança hemisférica. Do mesmo modo deve ser vista a nossa infinita paciência diante dos espasmos protecionistas que costumam vir da Argentina. A diversificação e pluralização das nossas relações internacionais mostra seu valor especialmente em momentos como o atual, quando nuvens bem escuras acumulam-se sobre a economia americana. É bom que possamos enfrentar essa turbulência sem depender excessivamente de um único parceiro comercial. Isso nada tem a ver com antiamericanismo. Peguemos, por exemplo, o caso das Forças Armadas Revolucionárias (Farc), guerrilha que combate o estado colombiano. Nenhum governo brasileiro até hoje, que eu saiba, declarou formalmente o grupo como "terrorista". Até porque me parece não ser um hábito da diplomacia brasileira meter-se politicamente nos conflitos em outras nações. Trecho de reportagem da revista Veja em março de 2003:

O governo de Fernando Henrique Cardoso também manteve distância do conflito colombiano. Vez por outra, deixava vazar críticas ao Plano Colômbia, como é chamada a estratégia de combate ao narcotráfico financiada pelos Estados Unidos.

Poderíamos deduzir, a partir dessa constatação, que o governo FHC concordava com os meios empregados pelas Farc para conduzir a luta guerrilheira? Parece-me que não. Vejam a bizarrice de chamar essa orientação do Itamaraty, essencialmente continuísta, de "ideológica". Por supostamente -pasmem!- recusar a aliança automática com os Estados Unidos no que os americanos acham ser conveniente e adequado a eles em determinado momento. É o caso de perguntar aos detratores do Itamaraty se não seria exatamente o contrário. Se eles não estão a propor um alinhamento ideológico com o governo da hora nos Estados Unidos, enquanto acusam os herdeiros do Barão do Rio Branco de abusar da ideologia. E o incrível é que se há um país no mundo que não dá a mínima para a ideologia quando se trata de discutir as relações internacionais esse país são os Estados Unidos. O negócio dos Estados Unidos são os negócios. Lembrem-se sempre disso. Quem é mais democrática, a Arábia Saudita ou a Venezuela? E quem é mais amigo dos americanos, o governo de Riad ou o de Caracas? Uma bobagem, querer ser mais realista que o rei. A não ser que o objetivo seja outro. Escrevi em Também para o bem dos americanos, vamos rejeitar o que os americanos nos propõem:

Há por certo quem no Brasil tente reavivar as chamas da guerra fria e fazer do nosso país uma plataforma para provocações contra a Venezuela e também contra Cuba. Com o propósito de buscar lá fora a força política que não conseguem reunir aqui dentro.

Ciclicamente, grupos políticos brasileiros com anemia de votos tentam colocar um pé no americanismo para ver se conseguem alavancar-se. De vez em quando dá certo. É disso que se trata.

Gabarito: 1 - b, 2 - c, 3 - e, 4 - a. E uma observação: para Alexandre Porto, a resposta à pergunta 4 deveria ser Fernando Collor de Mello. Leia nos comentários.

Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

As palavras sensatas de Uribe e uma dúvida - ATUALIZADO (15/01)

Do ultimosegundo.com.br:

Uribe sugere deixar de chamar Farc de terrorista se houver processo de paz

15/01 - 07:37 - Reuters - BOGOTÁ - O presidente colombiano, Alvaro Uribe, disse na segunda-feira que está disposto a deixar de qualificar como terrorista a maior guerrilha do país, sob a condição de que ela avance com boa-fé e seriedade em uma negociação de paz que permita encerrar o violento conflito da Colômbia. Uribe - na Guatemala para a posse do presidente Alvaro Colom -- respondia implicitamente a um pedido do presidente venezuelano, Hugo Chávez, que lhe solicitou para deixar de classificar como terroristas as principais guerrilhas da Colômbia, a fim de facilitar conversas de paz. Chávez também pediu para que fosse reconhecido o estado de insurgência das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), depois que conseguiu, na semana passada, a libertação de duas políticas. 'No momento em que as Farc quiserem, que façam demonstrações de boa-fé, que queiram negociar a paz, o governo da Colômbia está disposto a conceder-lhes todos os benefícios dentro da nossa Constituição para facilitar esse processo de paz', declarou Uribe. 'O governo da Colômbia, no momento em que avançar a paz com as Farc, seria o primeiro que deixaria de chamá-los de terroristas e o primeiro que pediria ao mundo que, como contribuição à paz, não os chame mais de terroristas', acrescentou.

Está certo o presidente da Colômbia, quando mostra disposição de encaminhar a questão das Farc pelo terreno da política e não da propaganda. E uma dúvida. Nos governos militares e nos civis que se seguiram à democratização algum presidente brasileiro adotou a posição oficial de qualificar as Farc como terroristas? Parece-me que não. Por que, por exemplo, o PSDB não fez isso nos oito anos em que esteve no poder? Não é uma dúvida razoável?

Atualização, às 15:22 - O PSDB acaba de soltar uma nota oficial em que, naturalmente, critica o governo por uma suposta dubiedade em relação às Farc. Mas os tucanos tampouco referem-se ao grupo como "terrorista". Ficaria mesmo difícil o PSDB exigir de Luiz Inácio Lula da Silva que adote uma posição oficial extremista, coisa que nem FHC achou que seria adequada aos interesses do Brasil.

Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

O saldo das privatizações (15/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (15/01/2008) no Correio Braziliense.

Os governos talvez estejam à altura das expectativas do mercado e dos amigos empresários, mas prestam pouca atenção às necessidades do Brasil e dos brasileiros. Aqui, privatização é transferência de monopólio

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

As negociações entre a Oi (ex-Telemar) e a Brasil Telecom para a constituição de uma megacompanhia de telecomunicações ainda vão dar pano para manga, pelo tamanho do negócio, pelas relações dos negociantes com o governo e pela conhecida capacidade bélica dos protagonistas. Quem defende a fusão aponta as vantagens de se formar uma empresa de capital brasileiro com musculatura suficiente para ser um player global. Quem a ataca alerta para os riscos que a monopolização traz ao consumidor e ao próprio mercado. Acompanhemos os próximos capítulos.

O episódio, de todo modo, é uma nova oportunidade para que se discuta qual foi, enfim, o saldo das privatizações desencadeadas a partir do governo de Fernando Collor (1990-92) e levadas ao auge no mandato de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Como todo debate de viés ideológico, nota-se aqui uma grande dificuldade para medir objetivamente a relação custo/benefício para o cidadão comum.

Na telefonia, por exemplo, é verdade que o uso do telefone universalizou-se. Especialmente o uso de telefone celular. É fato também que o brasileiro paga caro, muito caro pelos serviços telefônicos. No setor bancário, onde a privatização foi acompanhada da abertura do mercado nacional aos bancos estrangeiros, a situação do consumidor é pior ainda, massacrado que está pelos juros extorsivos, pelas tarifas abusivas e pelo péssimo tratamento que recebe — a não ser que esteja incluído na categoria dos com muito dinheiro.

E as estradas? A evolução das condições delas veio acompanhada de pedágios cuja rentabilidade já chegou a ser comparada publicamente, por um subprocurador da República, à obtida no tráfico internacional de drogas. O setor reagiu com indignação, é claro, mas ficou a dúvida. Especialmente depois que o governo federal leiloou recentemente concessões de rodovias pelas quais obteve preços de pedágio bem mais baixos. Ainda que isso tenha sido conseguido à custa de entregar, infelizmente, de graça a exploração de estradas federais a mãos privadas.

Sem falar no polêmico caso da venda da Companhia Vale do Rio Doce, recentemente reapelidada apenas de Vale, num esforço de popularização que coincide com crescentes questionamentos à legalidade do negócio feito lá atrás. O caso está na Justiça. Ela deverá se manifestar em algum momento sobre a entrega da companhia por cerca de trinta vezes menos do que vale (sem trocadilho) hoje. Os que defendem a privatização da Vale dizem que ela se valorizou exatamente por ter saído das mãos do estado. Do que discordam os adversários do negócio, apontando como exemplo a Petrobrás, que mesmo estatal vai muito bem, obrigado.

É uma polêmica e tanto. Assim como a Vale pode ter sido vendida teoricamente bem abaixo do preço, há situações no setor elétrico em que aconteceu o contrário. Em que a receita obtida pelos compradores não justificou o tamanho do investimento. Como na venda da Eletropaulo para a AES. Onde apareceu um transtorno de outro tipo. As garantias se mostraram um tanto frágeis, o que levou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a ter que absorver parte do problema. Mais uma vez, a conta ficou para o público.

Há casos em que a privatização deu em nada. Como nos trens. Não tínhamos um sistema ferroviário compatível com o tamanho do Brasil e continuamos não tendo. E não há sinal de que essa realidade vá mudar. Aliás, pode-se dizer que mesmo depois da privatização somos o país, entre os grandes, com a mais insuficiente malha ferroviária do planeta. O que se torna mais grave à medida que avançamos para ser o principal produtor mundial de grãos. Uma nação com as nossas dimensões e a nossa produção transportar soja de caminhão é um completo absurdo. Para não falar na tragédia que é o bloqueio (supostamente) ambiental a uma agenda nacional de expansão das hidrovias.

De todo esse portfólio, resta a constatação de que os governos recentes talvez tenham estado à altura das expectativas do mercado e dos amigos empresários, mas vêm prestando pouca atenção às necessidades do Brasil e dos brasileiros. Aqui, privatização tem sido sinônimo de transferência de monopólio, das mãos do estado para as do setor privado. Sem que haja, aparentemente, vontade política de promover uma ruptura que favoreça o país e os consumidores.


Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

"Risco de contaminação é zero" (14/01)

Do UOL News:

Febre amarela: Em centros urbanos, "risco de contaminação é zero", diz infectologista

Em entrevista ao UOL News, o infectologista Celso Granato, chefe do laboratório de virologia da Escola de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirmou que o risco de uma pessoa ser contaminada em áreas urbanas "é zero" e aconselhou a vacinação apenas para quem tiver contato com áreas de risco. "O número de casos é pequeno, muito menor do que tem acontecido em anos passados e são casos de pessoas que estiveram em região de mata, não estamos tendo casos de pessoas que permaneceram na cidade. A chance de uma pessoa de São Paulo ter febre amarela sem sair da cidade e ir para uma região de mata é zero", afirmou Granato. (...)

Clique aqui para ler a reportagem na íntegra. De duas uma: ou o dr. Granato está delirando, ou a cobertura da imprensa sobre a febre amarela reveste-se de um alarmismo e de um sensacionalismo perversos. Quem está com a razão?

Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Terror e política (11/01)

Quem quiser saber mais sobre as origens recentes da violência política na Colômbia pode ler os verbetes La Violencia, Jorge Eliécer Gaitán e Bogotazo, na Wikipedia. E esse negócio de guerra civil no país vizinho é bem antigo, como pode ser visto em O amor nos tempos do cólera (clique na imagem), que está em cartaz, baseado naturalmente na monumental obra de Gabriel Garcia Márquez. Em resumo, a violência política moderna na Colômbia nasceu das refregas entre os liberais e os conservadores. Mais especificamente, de estes últimos terem abortado em meados do século passado a ascensão política de massas populares urbanas, cujo símbolo maior era o liberal Gaitán -afinal assassinado. Uma pesquisa sobre o sistema eleitoral colombiano mostra que as mulheres só obtiveram o direito a voto em 1957. E só em 1986 foi implantada a eleição direta de prefeitos e governadores. Na Colômbia, a falta de um ambiente de convivência democrática mais cristalizado decorre principalmente de um sistema político historicamente elitista e oligárquico. Sistema no qual, repito, a violência foi institucionalizada por décadas, pela classe dominante, como o método preferido para resolver as disputas pelo poder e as questões políticas em geral. Não foram as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) nem o ELN (Exército de Libertação Nacional) quem inventou a guerra civil na Colômbia, ainda que ambas sejam legítimas herdeiras da tradição insurrecional e guerrilheira naquele país. Por que estou discorrendo sobre isso, sobre a história da violência política na Colômbia? Tenho a pretensão de que as pessoas que se dão ao trabalho de vir até aqui e gastam seu tempo lendo o que escrevo participem do esforço de introduzir alguma racionalidade no debate político. Agora a disputa é sobre se as Farc são ou não são terroristas. De um ângulo racional, essa polêmica não tem qualquer importância. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, começou seu atual périplo pelo Oriente Médio visitando o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Quem vem a ser o líder da Fatah, princpal partido político palestino. A Fatah tem um braço paramilitar, as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, responsáveis por uma série de atentados a bomba contra civis israelenses. Por que Bush não exige que a Fatah dissolva imediatamente seu braço paramilitar como pré-condição para quaisquer negociações relacionadas à fundação de um estado palestino? Porque não seria realista, ainda mais agora que a Fatah e Abbas são o trunfo americano e israelense contra a expansão do poder do Hamas. Aliás, a Síria acaba de participar, como convidada dos Estados Unidos, de uma conferência em Annapolis (EUA) destinada a discutir um futuro de paz no Oriente Médio. Isso apesar de Damasco ser suspeita em Washington de operar os cordéis na escalada de atentados contra políticos libaneses de orientação anti-Síria. A política é complexa. A diplomacia, mais ainda. Vejam a definição oficial de terrorismo, segundo os Estados Unidos (em inglês, Wikipedia):

…activities that involve violent… or life-threatening acts… that are a violation of the criminal laws of the United States or of any State and… appear to be intended (i) to intimidate or coerce a civilian population; (ii) to influence the policy of a government by intimidation or coercion; or (iii) to affect the conduct of a government by mass destruction, assassination, or kidnapping; and… (C) occur primarily within the territorial jurisdiction of the United States… [or]… (C) occur primarily outside the territorial jurisdiction of the United States…" (...)

O espectro é amplo, como se vê. Basicamente, para os americanos, terrorismo é aquilo que os americanos crêem ser terrorismo. Na terra deles ou em outro lugar qualquer. Tampouco vou perder aqui meu tempo discutindo se os Estados Unidos têm ou não o direito de definir o que é terrorismo para eles. Também da Wikipedia, um depoimento interessante de Edward Peck, um típico liberal americano (o adjetivo lá é sinônimo de esquerdista):

In 1985, when I was the Deputy Director of the [Ronald] Reagan White House Task Force on Terrorism, they asked us — this is a Cabinet Task Force on Terrorism; I was the Deputy Director of the working group — they asked us to come up with a definition of terrorism that could be used throughout the government. We produced about six, and each and every case, they were rejected, because careful reading would indicate that our own country had been involved in some of those activities. […] After the task force concluded its work, Congress got into it, and you can google into U.S. Code Title 18, Section 2331, and read the U.S. definition of terrorism. And one of them in here says — one of the terms, “international terrorism,” means “activities that,” I quote, “appear to be intended to affect the conduct of a government by mass destruction, assassination or kidnapping.” […] Yes, well, certainly, you can think of a number of countries that have been involved in such activities. Ours is one of them. Israel is another. And so, the terrorist, of course, is in the eye of the beholder (...)

Quem acompanha este blog sabe da minha repulsa ao terrorismo. Pesquisem. E da minha rígida defesa dos direitos das vítimas da violência. Pesquisem. Só que eu não misturo essas coisas com política. Acompanhei hoje o noticiário sobre as condições vividas pelos prisioneiros das Farc. Parece ser uma reprodução, na selva e com menos tecnologia, do que se passa com os detidos pelos Estados Unidos em Guantánamo (foto). Eu não me meto em campanhas contra a prisão americana na ilha cubana, assim como não vou ficar aqui lamentando as desumanas condições em que sobrevivem os presos das Farc. A guerra é sempre um horror. Se o sujeito não gosta das conseqüências da guerra, o melhor é buscar caminhos que permitam dar um basta ao conflito. Na África do Sul, na Nicarágua, em El Salvador, no Uruguai (onde ex-tupamaros presidem ambas as Casas do Congresso) ou na Palestina, grupos que a seu tempo foram classificados de terroristas hoje disputam o poder pela via eleitoral, em geral com sucesso. Na Colômbia, o desejável é que se siga por esse mesmo caminho. A libertação ontem das duas reféns deveria, penso eu, abrir espaço para um diálogo patriótico incondicional. Quem não quer esse diálogo? Aqueles cujo poder repousa exatamente na existência de uma guerra civil. Sem a guerra civil, Álvaro Uribe deixa de ter significado político. Reparem como se torceu freneticamente para que a operação de soltura das reféns terminasse em fracasso. Uma Colômbia em paz significará estrada aberta para a ascensão da esquerda colombiana ao poder. É disso que se trata. E, como em outras situações semelhantes, logo os Estados Unidos perceberão que essa pode ser a melhor alternativa também para eles. Que, no fundo, só não querem é confusão ao sul do Rio Grande.

Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

De onde vêm os Obama (11/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (11/01/2008) no Correio Braziliense.

O que se discute é a total incapacidade de os políticos, pelo menos, simularem que seus movimentos visam a atender alguma ambição que não a deles próprios

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Ninguém sabe até onde pode chegar a candidatura alternativa de Barack Obama, o senador negro de Illinois que convulsiona a indicação dos Democratas para a sucessão de George W. Bush. Postulantes alternativos costumam ter fôlego limitado nos Estados Unidos, país de establishment forte e enraizado. Desta vez, entretanto, parece que a roseira está a balançar com mais força, para usar a expressão de um conhecido. Vamos comprar a pipoca e o refrigerante e sentar na poltrona para assistir.

Não se sabe até que ponto Barack Obama vai, mas sabe-se com certeza de onde ele vem. O movimento contra o statu quo, encarnado na candidatura dele, vem do cansaço sentido nos Estados Unidos diante dos custos de manter o país como uma superpotência, a única aliás. Nasce também, e talvez principalmente, da exasperação do eleitor americano médio diante de um panorama político em que os representantes do povo dançam a música do poder unicamente de acordo com as próprias conveniências. Sejam eles do governo ou da oposição. Nós, o povo, ora bolas, que se dane.

Impossível não associar com o que vai pelo Brasil nas últimas semanas. É só observar a refrega entre o governo e a oposição em torno dos ajustes orçamentários necessários depois da derrubada da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Vejam se em alguma hora, em algum momento, é possível ter a impressão de que a oposição ou o governo estão em busca de qualquer solução voltada a algum tipo de interesse público. Isso sem falar no Judiciário, cujos próceres só dão as caras para dizer que não têm gordura para cortar.

A impressão é que os nossos políticos e os nossos juízes não estão nem aí para o interesse geral, que só se preocupam com o próprio poder e o próprio conforto. No caso específico dos políticos, o único desejo que transparece é o de atazanar a vida dos adversários. A única obsessão parece ser como chegar à próxima eleição com boas chances de emplacar o seu projeto.

Aqui, um parêntese. Analistas políticos não podem ter o defeito da ingenuidade. Pelo menos não em excesso. Esta coluna não está a tratar dos desejos íntimos dos políticos. O que se discute aqui é a total incapacidade manifestada por eles, neste período mais recente, de ao menos simularem que seus movimentos visam a atender alguma ambição que não a deles próprios.

Eis um dos segredos do político competente. Buscar incansavelmente os próprios objetivos, enquanto simula desprendimento e dá a impressão de que só tem olhos para as preocupações dos outros. Como dizia o ex-presidente Janio Quadros, o político esperto é como um remador: faz muita força para chegar onde quer, mas sempre de costas para o seu verdadeiro alvo.

A oposição conseguiu derrubar um imposto, a CPMF, razoavelmente justo e cujos recursos estavam comprometidos com gastos sociais, especialmente da Saúde. Até hoje, porém, não se sabe qual é a proposta da oposição para financiar a Saúde e os programas sociais, agora que não existe mais o dinheiro da contribuição.

Já o governo diz que vai cortar no Orçamento Geral da União (OGU), mas preservará os investimentos de interesse político do Palácio do Planalto. Enquanto os congressistas admitem que é preciso enxugar, mas não querem nem saber de mexer na verba reservada para as emendas parlamentares individuais.

E a prometida redução de preços decorrente do fim da CPMF, por causa da ausência do efeito-cascata? Evidentemente que não ocorreu. Nem vai ocorrer, ao contrário do que garantiam os especialistas em “planejamento tributário”, que no Brasil virou o outro nome das estratégias de sonegação. Os preços não caíram, mas ficou, é lógico, o abacaxi para o país descascar.

Depois aparece um Barack Obama, como que saído do nada, e deixa todo mundo estupefato. Não há razão para espanto. As condições são propícias. Lá e cá.


Clique aqui para votar no Blog do Alon no Prêmio IBEST.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Vitória - ATUALIZADO (10/01)

Atores políticos buscam objetivos idem. Mas há situações em que avaliações sobre a vitória ou a derrota políticas devem esperar, em primeiro lugar, por considerações hierarquicamente superiores. Como agora, quando duas reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) foram libertadas. Veja abaixo o vídeo do momento da libertação.



Parabéns a todos que contribuíram ao desfecho favorável. Parabéns especiais ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, líder desse processo. Que desperta fortes esperanças numa solução política para a guerra civil colombiana.

Atualização, às 09:44h de 11/01: Leia Uribe agradece trabalho de Chávez e propõe negociação com as Farc, no UOL

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Mostrem-me um único caso (09/01)

Sou, francamente, tomado pelo tédio diante das notícias sobre o quiprocó orçamentário decorrente da perda da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). E sobre a brava luta da oposição contra o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) dos bancos. Um detalhe porém chama a atenção. Fazia tempo que políticos não se sentiam tão à vontade para defender abertamente a intocabilidade dos lucros dos bancos, sem subterfúgios e sem mistificações. Parabéns à oposição brasileira. Derrubou um imposto razoavelmente justo e que financiava institucionalmente a saúde pública e os programas sociais e agora sai de peito aberto na defesa dos lucros dos bancos. Onde isso vai dar, não sei. Aproveito para lançar um desafio nesse tema dos impostos. Eu quero que os partidários de uma menor carga tributária me apontem um único governo do PSDB ou do Democratas no qual a arrecadação tenha crescido abaixo da inflação. Ou seja, em que a receita tenha se reduzido em termos reais. Ou então caído como proporção do produto. Pode ser um governo municipal ou estadual -sem falar nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso. Mostrem-me um único caso que seja. Não peço necessariamente que se busquem exemplos em governos muito importantes. Pode ser qualquer lugarejo, qualquer buraco de fim de mundo. Vamos discutir o assunto em termos práticos. Onde foi que a atual oposição, quando no poder, reduziu a carga tributária? Aliás, aproveitem a ocasião para me contar também qual foi o preço do produto ou serviço que caiu por causa do fim da CPMF. E também estou sedento para saber como mesmo os números da Receita Federal neste começo de 2008 justificam as teses de que o maior dinheiro disponível nas mãos das pessoas geraria arrecadação adicional capaz de compensar o fim da CPMF. Teses ao vento. Conversa fiada para não pagar imposto. E para causar dificuldades ao país, na esperança de que isso enfraqueça o governo. Por falar em movimentos de classe média nessa área, tem agora uma turminha do Rio que não quer pagar o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Meus votos sinceros de que o prefeito Cesar Maia (DEM) passe por cima desse pessoal como um rolo compressor. Que os cartazes soviéticos em seu gabinete o inspirem.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Nós e o cansaço da superpotência (08/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (08/01/2008) no Correio Braziliense.

Decadência material combinada a angústias existenciais, tudo indica que o vento contestatório é sintoma de que vem aí um ciclo isolacionista na política americana. “America first”, como diria Mike Huckabee

Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

O vento anti-establishment começa a soprar com força na sucessão presidencial americana. Hoje é dia de decisão nas primárias de New Hampshire. Uma nova derrota deixará a democrata Hillary Rodham Clinton em situação ainda mais difícil. Aritmeticamente, ela vai bem. O problema é que Barack Obama ameaça virar uma onda. Do lado republicano, a antes aparentemente favorita candidatura de Rudolph Giuliani dá sinais crescentes de debilidade. O sonho de uma disputa “novaiorquina” vai ficando cada vez mais distante e improvável.

Se é verdade que os americanos olham o resto do mundo com óculos que caricaturam a realidade, a recíproca também vale. Barack Obama é negro de pai africano e Mike Huckabee é o favorito dos evangélicos. E daí? Para além dos arquétipos ou dos estereótipos, é preciso saber quais fenômenos da sociedade americana alimentam o desejo de mudança e a pressão anti-establishment. Uma pressão que se manifesta, paradoxalmente, após quase duas décadas de prosperidade econômica. É como se a história estivesse a pregar uma peça no ex-presidente William Jefferson Clinton. Cuja vitoriosa campanha à Casa Branca em 1992 imortalizou o “É a economia, estúpido”, de seu assessor James Carville.

Quais são as raízes da contestação nos Estados Unidos? Uma pergunta a fazer é se a sociedade americana não estaria dando sinais de desagrado e esgotamento diante do custo de seu país manter-se como superpotência. Depois do ataque às torres do World Trade Center em 11 de setembro de 2001, a explosão dos gastos militares na gestão republicana aposentou a política de responsabilidade fiscal posta em prática pelos democratas. E a bomba-relógio dos déficits gêmeos (externo e fiscal) continua seu tique-taque, com a previsível conseqüência sobre o dólar, cada vez mais fraco.

Em resumo, os Estados Unidos são hoje um país no qual: 1) os bens tangíveis são preferivelmente importados, 2) a sociedade industrial vai sendo deslocada pela sociedade de serviços, 3) a abolição do serviço militar obrigatório empurrou a defesa da pátria para as mãos dos filhos dos excluídos — especialmente negros e latinos, 4) se vende como objeto de desejo um modo de vida inviável — antes de mais nada pelas incertezas sobre as fontes de energia e pelos custos ambientais envolvidos e 5) a abundância e a fartura convivem com a incapacidade crônica de solucionar questões primárias relacionadas ao bem-estar, como, por exemplo, o direito a uma saúde pública universal e de qualidade.

Analistas respeitados apontam que os ventos anti-establishment sopram também a partir da insatisfação popular com os sinais de declínio do poder nacional. Há dúvidas e frustração sobre os custos e os resultados das guerras no Afeganistão e no Iraque, sobre a incapacidade de desnuclearizar o Irã e a Coréia do Norte, sobre a fragilidade financeira desencadeada pela crise do mercado imobiliário, sobre o alto preço do petróleo, etc.

Decadência material combinada a angústias existenciais, tudo indica que o vento contestatório é sintoma de que vem aí um ciclo isolacionista na política americana. “America first”, como diria Mike Huckabee. Perspectiva de risco crescente para governos e grupos políticos que apostam no suporte dos Estados Unidos para consolidar e perpetuar projetos de poder. As dificuldades de Pervez Musharraf no Paquistão são apenas a ponta de um iceberg global.

E o Brasil? Diante desse cenário, será prudente afastar a latente tentação de voltar as costas aos vizinhos e colocar as fichas no aprofundamento das relações bilaterais com Washington. É uma cantilena atlantista que volta e meia ressurge das entranhas do Itamaraty, permanentemente consumido pela luta interna entre terceiro-mundistas e americanófilos. Que estes últimos nos perdoem, mas o mar não está para o peixe que tentam nos vender.

Melhor a gente se entender bem com a vizinhança e aprofundar a integração comercial, política e militar. Vamos olhar legal a nossa casa e assumir com responsabilidade nosso papel de potência regional, cuidando sempre de não melindrar coadjuvantes como a Argentina. A América do Sul é um continente livre do terrorismo e das armas de destruição em massa. Um continente que cresce em paz e na democracia. Preservemos esse statu quo. Parece a atitude mais prudente e adequada ao que parece vir por aí, no grande irmão do norte.


Acrescento no blog: para uma interessante e bem-humorada caracterização dos candidatos à eleição nos Estados Unidos, vale ler o post Eleições americanas: um ABC, do Idelber Avelar, no blog O Biscoito Fino e a Massa.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Brincalhão (07/01)

Qual é o sentido de propor a extinção de direitos trabalhistas, numa economia em que se criam quase dois mihões de empregos formais ao ano? Para os trabalhadores, sentido nenhum. Aliás, o crescimento recente do emprego formal deveria ter o condão de aposentar teses sobre o suposto alto custo de contratação da mão de obra no Brasil. E o fracasso do programa federal Primeiro Emprego (afinal extinto) mostrou que reduzir os direitos trabalhistas não implica necessariamente maior demanda por força de trabalho. Mas o empresário Jorge Gerdau Johannpeter comparece à imprensa neste domingo para pedir, entre outras coisas, um novo ataque aos direitos dos trabalhadores. O Gerdau é um sujeito ousado. As empresas dele devem uma dinheirama ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Pois bem, logo que Luiz Inácio Lula da Silva se reelegeu, o Gerdau colocou para rodar na praça a tese de que ele "aceitaria" assumir o ministério do Desenvolvimento. Desde que, é claro, tivesse absoluta autonomia para mandar no BNDES. Um mega-empresário e tomador de dinheiro no BNDES sentado na cadeira de presidente do BNDES. Como era previsível, isso não foi considerado um escândalo pelos juízes de sempre do comportamento alheio -mas que, logicamente, não rasgam dinheiro. Agora o Gerdau está de volta, propondo a Lula uma agenda que nem Geraldo Alckmin teve coragem de defender na campanha eleitoral (Leia Como governos terminam prematuramente). Propondo a Lula que entre em conflito com trabalhadores, funcionários públicos e aposentados. Isso depois de os amigos do Gerdau, e o próprio, terem trabalhado ferozmente para arrebentar o financiamento da saúde pública -o que afinal conseguiram. Mais que ousado, esse Gerdau deve ser mesmo um brincalhão.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog (Blog do Alon).

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Vergonha na reforma agrária (07/01)

A Folha de S.Paulo traz reportagem em que mostra a paralisia da reforma agrária neste segundo governo de Luiz Inácio Lula da Silva. De duas uma: ou o PT acha que a reforma agrária deixou de fazer sentido, ou o partido explica por que caminha para o fracasso nessa área. Da minha parte, creio não ser circunstancial que o breque na já fraquinha reforma agrária do governo Lula tenha acontecido bem no ano em que a administração petista fez a sua opção preferencial pela monocultura canavieira, pela aliança com os Estados Unidos em torno do etanol e pela aventura de tentar fazer do álcool a salvação do american way of life. O colapso da reforma agrária é produto dessa opção. Que aliás vem sendo criticada aqui desde o começo (Governo vegetariano e terras finitas). Uma conseqüência política grave desse viés latifundiário da política petista para o campo é o afastamento em relação a sua base social. Isso cobrará um preço em seu devido tempo. Como está comprovado, pender à direita não garante ao governo apoio na direita. A direita é insaciável. Apenas faz com perca apoio precioso à esquerda.

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

A saúde, Cuba e os Estados Unidos (04/01)

Uma pesquisa mostra que dois terços dos americanos querem um sistema de saúde que ofereça cobertura universal e seja financiado por impostos pagos por todos os contribuintes. Clique aqui para ler. Transcrevo abaixo, em inglês, o resultado e os dados do levantamento:

Which comes closest to your view?

The United States should continue the current health insurance system in which most people get their health insurance from private employers, but some people have no insurance - 34%

The United States should adopt a universal health insurance program in which everyone is covered under a program like Medicare that is run by the government and financed by taxpayers - 65%

Refused / Not Answered - 2%

Source: Knowledge Networks / Associated Press / Yahoo
Methodology: Online interviews with 1,821 American adults, conducted from Dec. 14 to Dec. 20, 2007. Margin of error is 2.3 per cent.

Ou seja, os americanos qurem um "SUS" financiado por uma "CPMF". E não acham que o sistema de planos de saúde seja ideal. Antes que os de sempre venham com questiúnculas, notem que coloquei as comparações ente aspas. Na pátria operacional do liberalismo (a intelectual é a Inglaterra), a ampla maioria quer que o governo tome conta da saúde. Também pudera. Se o sujeito não tem dinheiro e fica doente, é muito mais negócio para ele ser brasileiro do que americano. Aliás, como consertar o desastre da saúde pública é um dos temas centrais da campanha eleitoral pela sucessão de George W. Bush. Enquanto isso, Cuba acaba de divulgar que atingiu o menor índice de mortalidade infantil das Américas, ao lado do Canadá. Os números estão em reportagem no site do jornal oficial Granma. São impressionantes. Vale a pena dar uma olhada neles. Especialmente nos que mostram a evolução do índice desde a Revolução Cubana. Mas, voltando aos Estados Unidos, é notável que na maior potência planetária os políticos estejam às voltas com uma demanda popular tão primária: o direito universal à saúde. Já no Brasil, onde a moda continua sendo importar sucata ideológica em desuso nos centros mais avançados do capitalismo, o hit do momento é encontrar maneiras de desmontar o SUS. O primeiro passo foi dado, com a derrubada da CPMF. E parece haver acordo entre o governo e a oposição para instituir as tais fundações estatais de direito privado. Os ventos privatizantes rondam perigosamente a saúde pública brasileira. Porque não vão propor isso lá nos Estados Unidos?

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

Duas táticas da socialdemocracia? (04/01)

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (04/01/2008) no Correio Braziliense.

O PSDB, ora bolas, é um partido de oposição. Os tucanos farão de tudo para evitar que o condomínio reunido em torno de Lula chegue com trunfos a 2010. O resto é conversa

Por Alon Feuerwerker
http://www.blogger.com/alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Os analistas políticos estamos em dívida com nossos leitores. Volta e meia, trazemos considerações sobre como o PSDB seria um partido dividido a respeito de sua atitude em relação ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Uma ala, a dos governadores, seria favorável ao entendimento com o Palácio do Planalto. Esse grupo mover-se-ia, em tese, pela ânsia de benesses federais e pela avaliação de que será melhor para o PSDB herdar em 2011 uma administração e um país em bom estado. Já a outra ala, a dos pejorativamente chamados de “sem-voto”, políticos sem posições de poder real, estaria empenhada na tática do quanto pior, melhor. Para enfraquecer o governo federal ao ponto de poder tutelá-lo e, assim, ajudar a evitar a reprodução do projeto chamado de “lulista” em 2010.

Ano novo, vida nova. Nada de repetir os velhos bordões. Abaixo a inércia. A verdade é que essa teoria das duas táticas da socialdemocracia não bate com a realidade já faz algum tempo. E os analistas políticos devemos ter a humildade de ajustar o velame quando o vento dos fatos torna inviável a navegação inicialmente planejada. Os fatos, como os ventos, são sempre soberanos. Curvemo-nos a eles. Livrar-se do entulho intelectual é sempre uma coisa boa. É como uma dieta alimentar saudável. Você deixa de consumir produtos a que estava habituado e sofre um pouco no começo. No final, porém, sente-se bem melhor.

A visão retrospectiva sem preconceitos a respeito de um possível entendimento entre o governo petista e o PSDB é francamente desfavorável à teoria das duas táticas da socialdemocracia. Em 2003, por exemplo, o presidente da República recém-empossado reuniu os governadores, incluídos os do PSDB, e fechou com eles a reforma da Previdência que enviou ao Congresso Nacional. Apenas para que ela fosse torpedeada pelo próprio PSDB no Legislativo. Os deputados e senadores tucanos, aliás, dedicaram-se especialmente a tentar derrubar a contribuição dos inativos, que entrara na proposta também a pedido dos governadores do PSDB, enrolados eles próprios com as despesas com aposentados em seus estados.

O mesmo comportamento observou-se na sucessão na Câmara dos Deputados em 2005. O candidato do PT, Luiz Eduardo Greenhalgh (SP), fora escolhido por supostamente não enfrentar resistência nas bancadas do PSDB e do então PFL. Essa premissa revelou-se afinal inútil. Na largada da campanha, o PSDB estimulou a candidatura alternativa de Virgílio Guimarães (PT-MG). No fim, diante da ida de Greenhalgh e Severino Cavalcanti (PP-PE) ao segundo turno, descarregou entusiasticamente os votos no “rei do baixo clero”, por orientação direta e explícita de seus caciques. Como no episódio da contribuição dos inativos, prevaleceu ao final o desejo de impor uma derrota ao governo e de criar o máximo de dificuldades possíveis ao presidente da República.

Um político do PT que sempre apostou no diálogo com o PSDB é o ex-ministro da Fazenda e hoje deputado federal Antonio Palocci (SP). Suas convicções de nada lhe adiantaram quando o PSDB decidiu que era hora de degolá-lo, para enfraquecer um Lula que sobrevivera ao escândalo desencadeado pelas acusações de Roberto Jefferson (PTB-RJ).Um Lula que se preparava para concorrer em excelentes condições à reeleição. Outro petista de carteirinha que sempre namorou uma aproximação com o PSDB foi o ex-ministro da Secretaria de Comunicação Luiz Gushiken. Também ejetado a seu tempo. Sob os aplausos estrondosos do tucanato.

O episódio mais recente foi o das negociações para a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), já analisado à exaustão nesta coluna ano passado. O PSDB apresentou suas exigências para aprovar a continuidade da taxa. O governo aceitou-as. Mesmo assim o PSDB votou contra, por unanimidade. Um episódio bizarro, mas que de todo modo ajudou a remover viseiras ideológicas que perturbavam o olhar político e distorciam a realidade.

O PSDB, ora bolas, é um partido de oposição. Conformem-se com isso. Os tucanos farão de tudo para evitar que o condomínio reunido em torno de Lula chegue com trunfos a 2010. O resto é conversa.

A notícia auspiciosa deste começo de ano é que o governo decidiu, como era previsível, deixar o PSDB para lá e ajustar o Orçamento Geral da União com os meios de que dispõe. A novidade pode não ser exatamente boa para os atingidos pelo aumento de impostos. Mas contribuirá para poupar o tempo e as energias de analistas e leitores. Que poderão, assim, ocupar-se com assuntos mais frutíferos do que a sempre decantada e nunca realizada aproximação entre o governo Lula e o PSDB. Feliz 2008.


Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.