sábado, 6 de dezembro de 2008

Vexames (06/12)

A posição errada do manete foi a causa decisiva para o acidente da TAM em Congonhas, em julho de 2007. Sabe-se oficialmente disso há alguns tempo. "Causa decisiva" quer dizer o seguinte: se o manete não estivesse na posição errada, o acidente não teria acontecido. A polícia indiciou um punhado de gente que não poderia ter evitado o infausto acontecimento. Era previsível que a polícia agisse asim, dado que hoje em dia difícil mesmo é encontrar uma operação policial que não esteja contaminada pela política. Mas fatos são fatos. Estivesse o manete na posição certa, os passageiros e tripulantes do vôo da TAM não teriam morrido naquela noite. Nada a ver com a aderência da pista. Como até para um leigo como eu era possível deduzir em tempo (quase) real, bastando algumas noções de Física de colégio, algum ceticismo jornalístico diante das declarações dos políticos e porta-vozes (Voando ou derrapando?, de 18 de julho de 2007, A esperança é o grooving, de 20 de julho) e alguma atenção para o que diziam os entendidos. Ou seja, toda a conversa sobre a falta de aderência da pista foi, ao longo de todo o tempo, apenas a face visível de uma operação política contra o governo federal, operação em que homens e mulheres de boa fé -ou alguma dose de ingenuidade- serviram de coadjuvantes. Hoje, Eliane Cantanhêde (Na Folha de S.Paulo, para assinantes) e Tânia Monteiro (Em O Estado de S.Paulo) trazem reportagens com o relatório final do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) sobre outro acidente: a colisão entre o Legacy e o boeing da Gol, em setembro de 2006. Em resumo, concluiu-se irrefutavelmente que os pilotos americanos do Legacy desligaram o transponder, que se estivesse ligado teria evitado o choque que matou todos os ocupantes do vôo comercial. Primeiro vexame: o das autoridades brasileiras, que permitiram aos pilotos do Legacy voltar para os Estados Unidos, onde certamente terão melhores condições de escapar para a impunidade. Para isso, contarão com o apoio dos papagaios nativos de sempre. Os (quase sempre) valentões. Os de veia inchada no pecoço, os que vivem exigindo do Brasil atitudes duras em relação aos vizinhos latinos. Hoje devem estar encolhidinhos debaixo do cobertor, mas por meses bateram palmas para os pilotos americanos e seus aliados entre os controladores de vôo, reverberando o "colapso" do sistema brasileiro de controle aéreo. Aqui chegamos ao segundo vexame: o protagonizado pelos sindicatos de controladores, que tentaram surfar sobre cadáveres para, a qualquer custo, proteger colegas que descumpriram regulamentos e contribuíram para a tragédia. Sem contar que os sindicatos tentaram também aproveitar a comoção para auferir vantagens pecuniárias, com a tal "desmilitarização" do controle do tráfego aéreo nacional. Que (terceiro vexame) aliás contava com o apoio e a torcida do Palácio do Planalto e do então Ministério da Defesa. Que até hoje não esclareceram por que tanto esforço e energia dispendidos na tentativa de privatizar o sistema. Muita saúva, como se sabe, é um dos problemas do Brasil. Criou-se até uma crise militar. Outro assunto encerrado. E, se quiser, faça uma busca por gol+legacy e poderá ver o que escrevi a respeito.

http://twitter.com/alonfe

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4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Parabéns!
Desta vez, rsrsrsrs, uma análise impecável.

sábado, 6 de dezembro de 2008 22:39:00 BRST  
Blogger Betamax disse...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

domingo, 7 de dezembro de 2008 01:20:00 BRST  
Anonymous Jura disse...

O relatório também aponta, segundo a versão do Estadão, duas suspeitas que eu sempre tive, ambas ligadas á Embraer que, no meio de tanto chutômetro, nunca foram aventadas:
1. O transponder do Legacy é muito fácil de desligar e de ser esquecido. Falha do projeto?
2. Os pilotos americanos estavam habilitados a voar segundo normas da FAA, agência americana de aviação, e não da ICAO - agência internacional. Desconheciam, portanto, as regras de tráfego aéreo no Brasil, como os sentidos de direção das aerovias, por exemplo.
Isso me faz supor que qualquer pateta levanta vôo sem habilitação adequada em São José dos Campos desde que seja cliente da Embraer.
A empresa, portanto, parece ter sido bastante poupada nessa lista de causas do acidente.
Tanto que a introdução (lead) da matéria do jornalista americano a bordo (a serviço de quem) não deixa dúvida sobre seu papel na viagem e na exploração do acidente:
"O avião voava maravilhosamente. De repente..."

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008 16:20:00 BRST  
Anonymous Jura disse...

A edição do NYTimes de 10/12/08 traz a versão da comissão de segurança americana, que responsabiliza principalmente o equipamento e os controladores brasileiros. Confirma, porém, que os pilotos também não estavam devidamente habilitados ao equipamento deles, o Legacy, cujo transponder de fabricação estadunidense pode ser facilmente desligado e esquecido. E reconhece até que a investigação do Cenipa demonstrou várias falhas de fabricação e procedimento que precisam ser corrigidas.
Pra mim está provado que tudo começou em São José dos Campos, literalmente:

http://www.nytimes.com/2008/12/11/world/americas/11brazil.html?ref=world

O jornal novaiorquino nada comenta sobre o ensino de inglês e a educação básica no Brasil, obviamente. Isso certamente aliviaria o peso da culpa sãojoanense nesse episódio e o recolocaria nas costas do país inteiro.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008 14:53:00 BRST  

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