sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Um texto que eu gostaria de ter escrito (05/12)

Leia a ótima reportagem Para que servem os analistas?, de Tiago Lethbridge, no Portal Exame. Ela começa assim:

Parece que foi num passado distante, mas há apenas seis meses uma espécie de euforia coletiva tomou conta do mercado acionário brasileiro. Para a premiada equipe de análise do banco de investimento UBS Pactual, as ações de empresas brasileiras eram uma pechincha em maio de 2008. As razões para tanto otimismo eram de uma clareza científica. As economias de países emergentes, como se sabia, descolavam-se do desempenho dos países ricos. O Brasil havia acabado de receber o tão sonhado selo de país com grau de investimento, e o investidor estrangeiro invadiria a bolsa local na nova fase. A expansão do crédito garantia dinheiro a todos, dos compradores de carros àqueles que financiavam seu primeiro apartamento. O futuro, portanto, sorria para a bolsa brasileira. O UBS Pactual, então, cravou sua previsão para o fim do ano. O Índice Bovespa, que reúne as principais empresas do país e estava em seu recorde histórico, de 70 000 pontos, chegaria a 85 000 pontos até o fim de dezembro. Entre as dez empresas que se destacariam no período estavam as varejistas Lojas Americanas e B2W, bancos e companhias do setor imobiliário. Por alguns dias, a coisa pareceu fazer um baita sentido. A bolsa brasileira continuou subindo até meados de maio - quando começou a descer a ladeira e não parou mais. Quem acreditou no sonho do "Ibovespa 85 000" perdeu dinheiro de gente grande. Das ações recomendadas, todas caíram até o fim de novembro. A que caiu menos despencou 50%. A pior, a construtora Rossi, perdeu mais de 80% do valor de mercado desde então. E o Índice Bovespa rastejava em 34 000 pontos no dia do fechamento desta edição. A projeção se provou errada da premissa à conclusão.

Dissecam-se no texto as entranhas das relações no mundo financeiro, com uma franqueza e uma coragem que não me lembro de ter visto antes na imprensa brasileira. Melhor: estão ali os nomes dos bois, o que é mais raro ainda no nosso jornalismo de negócios. Leia e vai ver como as teses sobre um capitalismo "regulado" e um mercado financeiro "transparente" são apenas conversa para bovino dormir. O texto da Exame é de uma honestidade intelectual rara, raríssima. Especialmente quando, ao perguntar "por que insistimos em ouvir suas [dos economistas e analistas] previsões e atribuir a elas um caráter científico?", o repórter admite que "os jornalistas de EXAME são réus confessos no caso". Eu insisto: leia a reportagem. Ainda que haja nela coisas (poucas) de que discordo, isso não me impede de reconhecer: eis um texto que eu gostaria de ter escrito.

http://twitter.com/alonfe

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8 Comentários:

Blogger Betamax disse...

Há que se reconhecer, que a matriz das tendências e das informações residem no hemisfério norte.Nossa bolsa reproduz miméticamente, os pregões de Nova Iorque/Chicago,ainda que vez por outra se descole,o que é raro.Mesmo nos momentos de exuberância.As previsões foram baseadas naquelas condições de "temperatura e pressão",favoráveis.
O "vício oculto",ficou por conta do "subprime".Segredo esse, que não nos foi dado compartilhar,como,aliás,boa parte da economia do planeta.

sábado, 6 de dezembro de 2008 00:42:00 BRST  
Blogger Tato de Macedo disse...

Bom dia, Alon

Sem entrar no mérito do texto, vou defender esses profissionais partindo da premissa básica que assim como jornalistas, eles servem às instituições e se servem de dados para transformá-los em informação inteligível com finalidades de planejamento estratégico e financeiro de empresas e investidores. Mas, estão sujeitos a ventos e tempestades, marolas e tsunamis como qualquer outro profissional.

abraços

domingo, 7 de dezembro de 2008 10:20:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, o texto é bom, mas não há nada de tão revelador. Em especial, não vi nada que nem de longe pudesse se aplicar a regulação estatal do mercado. Esse é o ponto central: quando a esquerda quer fazer crer que a crise é fruto de um capitalismo desregulado, está fazendo o jogo da burocracia, que procura tirar da reta. Quando Greenspan diz que eles não possuem um modelo de risco perfeito está justamente tirando da reta. Não que esse modelo exista, mas para o caso não era o necessário: trata-se de uma catástrofe! Além disso, o sub-prime mostra a mão visível do estado fazendo lambança de todo lado. Começa pelo fato de ser um investimento que contava com incentivos, inclusive com a atuação das pouco transparentes Fannie Mae e Freddie Mac: públicas? privadas? com garantia do Tesouro? Se havia uma garantia pública implícita, ela está sendo realizada, apenas isso. Krugman, o economista que a esquerda gosta de citar, aponta para o mesmo Greenspan e o apoio que este teria dado à elevação do déficit fiscal no governo Bush... Quanto ao âmago do artigo que você cita, está em consolar o leitor da revista, que deve ter perdido na bolsa (trata-se de uma revista de negócios), com o truísmo de que o mundo é imprevisível, mas que toca em pontos importantes, como os compromissos dos analistas de mercado dos bancos que fazem indicações aos clientes.

domingo, 7 de dezembro de 2008 13:24:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

Tato, sua posição seria razoável em um cenário ideal, onde os "analistas" fossem inamovíveis, indemissíveis e não tivessem carteiras de investimentos, próprias ou terceirizadas, pelas quais zelar.

domingo, 7 de dezembro de 2008 15:01:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Artur Araújo, seu cenário ideal apenas seria possível com a criação de uma carreira pública. Prefiro como está, hoje é mais transparente, sei que o analista de meu banco está vendendo o peixe do banco, se fosse um funcionário público sempre poderia estar recebendo por fora, e do mesmo banco, que continua tendo que vender o mesmo peixe!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008 15:39:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

Alberto, não há cenário ideal "meu", só questionei o Tato, que me pareceu ignorar as condicionantes práticas dos analistas de mercado, como que criando uma redoma de isenção para eles. Nunca me passaria pela cabeça um quadro de analistas de investimentos composto de funcionários públicos!
Naõ sei pq, porém, vc só fala em "receber por fora" qdo se trata de funcionário público. Nunca ouviu falar em comissão "under the table", assim mesmo em inglês, que é como o "mercado" gosta?
ET: não sou funcionário público.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008 21:20:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Artur Araújo, falo em receber por fora no caso do funcionário público porque o funcionário do banco recebe às claras, de qualquer modo, e isso já faz dele uma pessoa interessada, enquanto o funcionário público detem uma presunção de independência que pode ser falsa e eu não tenho como saber. Não se trata de defender ou atacar um ou outro, pelo menos no caso deste comentário.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008 16:40:00 BRST  
Anonymous jura disse...

Alon,

Uma coisa é especulação de curto prazo na bolsa. Outra coisa é o investimento de longo prazo, que é a verdadeira razão de ser das bolsas. Desculpe-me a ignorância ou a ingenuidade, mas a bolsa é também uma maneira interessante de você apostar, sabendo que pode dar errado, como tudo pode.
Seria melhor guardar dinheiro embaixo do colchão? Comprar dólares para vender ao BC? Ou investir num negócio em que eu acredito, no pré-sal, numa cooperativa de agricultura orgânica, num kibutz, num laboratório farmacêutico, sei lá, em alguma coisa útil?
Eu sei que a bolsa não é bem assim e todo mundo que investe em ações sabe o risco que corre. Mas ainda é cedo para saber quem ganhou e quem perdeu quanto. Quem comprou apartamento de 1 milhão, ganhou ou perdeu? E quem comprou kitnete pra alugar, fez um bom negócio? Pra quem? E quem emprestou pro governo pra receber de volta com essa taxa de juros, fez bem? Pro governo, pra nós ou para si?
Investimento em ação só se mede no longo prazo. Eu sou daqueles que aplicou o FGTS na Petrobrás e não me arrependo. O dinheiro que ficou na mão do governo não rendeu nada e o que a Petrobrás usou para produzir rendeu muito mais. Claro que agora uma parte dessa renda foi pro beleléu, mas os poços de petróleo ainda não secaram e a companhia continua valendo por eles, como você demonstrou mais adiante.
Ainda prefiro perder dinheiro na produção do que dando pra banqueiro emprestar a juros extorsivos. A poupança nacional não financia a produção e esse é um dos entraves ao nosso desenvolvimento. Entre outras coisas, porque o bancos não querem e não deixam. Já pensou se todo mundo tira o dinheirinho de lá pra aplicar em ações e eles perdem tanto os depósitos quanto os tomadores de empréstimos? Cruz Credo, nem o BC eles vão poder controlar mais...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008 18:10:00 BRST  

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