segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Um placar perigoso (01/12)

A turma da “austeridade” vai aplaudir agora um eventual aperto econômico bancado pelo presidente. Mas em 2010 estará, nos palanques e na imprensa, a carimbar na testa de Lula a culpa pela recessão e pelo desemprego

Como o período de Luiz Inácio Lula da Silva no poder vai ser julgado pelos livros de História? Se eu tivesse que apostar, diria que Lula será avaliado no futuro pela maneira como enfrentou a crise econômica planetária que eclodiu em 2008. Parece-lhe um exagero? Pois talvez seja o caso de recordar o que se deu com Franklin Delano Roosevelt.

Como procurou mostrar Paul Krugman em recente artigo no The New York Times (Franklin Delano Obama?), o presidente americano que acabou famoso pelo New Deal foi, na verdade, salvo pelo gongo, quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial. Pois a debilidade de suas políticas anticíclicas, resultante de um misto de pouca convicção e de circunstâncias difíceis, fez o país patinar durante toda a segunda metade da década de 1930. Ou seja, a guerra, com sua explosão de gastos públicos, salvou o New Deal. Que entretanto acabou levando a fama. Segundo Krugman.

Lula teve coragem suficiente para impor ao Brasil os necessários apertos monetário e fiscal em 2003. Por isso, colheu nos anos seguintes um crescimento razoável da economia, e um bom ritmo de criação de empregos. Porque a poupança externa era abundante. Assim, o Estado pôde economizar para reduzir a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto, pôde aplicar uma política monetária contracionista e mesmo assim (ou talvez por causa disso) manteve a capacidade de deixar disponível ao setor privado um estoque de capital suficiente para girar a roda da economia.

Melhor ainda: a roda girou com inflação baixa, o que garantiu alta eficácia aos programas sociais, especialmente ao Bolsa Família. Os muito pobres não têm conta em banco, não aplicam o dinheiro, gastam-no. A inflação faz queimar o dinheiro no bolso do pobre, enquanto ajuda a remunerar o do rico e do remediado nas aplicações financeiras -e nos reajustes salariais das categorias profissionais com maior poder de barganha. Ao combater decididamente a inflação, Lula ajudou os menos favorecidos, assim como haviam feito, cada um a seu modo e a seu tempo, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.

Mas agora o mundo mudou. Do vinho para a água. A crise planetária já desvalorizou nossa moeda em quase um terço, e tudo indica que só com juros irracionais e queima de reservas se poderá tentar empurrá-la para um patamar próximo de onde começou a cair. E sem garantia alguma de sucesso. Mas juros altos num cenário de desaceleração seriam o cianureto da economia, a fórmula certa para o suicídio. Acontece que baixar os juros agora, rapidamente, implicará, no curto prazo, alguma pressão inflacionária. Que certamente será absorvida, dado que repassar inflação passada para preços futuros não é simples numa economia que freia. Isso desde que o governo imponha rédea curta aos oligopólios.

A pressão para que Lula deixe tudo como está já começou, e será gigantesca, em nome da racionalidade econômica. O Brasil talvez seja um dos últimos lugares do mundo onde o liberalismo selvagem ainda dá ibope. Onde é chic defender ortodoxia monetária e fiscal num ambiente recessivo, ou tendente à recessão. Claro, pois pimenta nos olhos dos outros é um docinho. Deixem quebrar milhares de empresas, demitam-se milhões de trabalhadores e o mercado, sempre ele, vai encontrar com certeza um novo patamar de lucratividade que estimulará o capital a voltar a produzir.

Mas mesmo essa “racionalidade” econômica, supostamente pura, embute sua dose de esperteza política. A conta é de chegada. A turma da “austeridade” vai aplaudir agora um eventual aperto econômico bancado pelo presidente da República. Daqui a dois anos, na eleição, estará nos palanques e na imprensa pregando na testa de Lula a culpa pela recessão e pelo desemprego.

Ou seja, pretendem atirar nas costas do governo e do presidente o ônus do ajuste, herdando depois um país que só poderá mesmo melhorar. Resta saber se Lula, após anos tecendo a teia dos compromissos com o establishment, terá a coragem de investir seu capital político numa mudança de rumo, expandindo a dívida pública e reduzindo os juros. Até porque Lula tem a opção de ficar só tocando a bola, esperando o apito final do juiz. Afinal, ele está ganhando de 2 a 0. Mas 2 a 0, como se sabe, é um placar perigoso. Inclusive para quem está ganhando.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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3 Comentários:

Blogger Briguilino do Blog disse...

Saberemos brevemente. Se na proxima reunião do COPOM os juros não cair pelo menos 1% e o raposão continuar como presidente do BC ssua pergunta estará respondida.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008 16:41:00 BRST  
Blogger Richard disse...

99% de chances na opção B: ficar tocando a bola! Aliás, tbm concordo com o comentário do Briguilino!!
Agora, Alon, que negócio é este de "Lula teve coragem de impor os necessários apertos"?!?! Desde quando se precisa de coragem para manter as coisas do mesmo jeito?!?! Com medo (isto sim) de que qq alteração desse errado!!!
Lula não introduziu nenhum diferencial econômico que garantisse esta redução da relação divida pública x PIB. Esta relação está, inclusive, à perigo dado que a manutenção das reservas está sendo feita na forma de títulos públicos, baseados em juros altos. A desculpa inflacionária serviu até o momento para justificar os juros de dois dígitos.
Os "beneficiados" pelos Bolsa-qq-coisa estão encontrando um mundo que os "ricos e remediados" já conhecem: saúde dilapidada, escolas ídem, polícia e judiciário corruptos. Enfim, estão descobrindo a ausência do Estado com ações de longo prazo.
Enfim, 99% de chances de deixar tudo como está. Ainda mais agora que existe um "acordo" entre ele e o principal opositor: José Serra.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008 18:57:00 BRST  
Blogger Joao disse...

Lula já mudou pelo menos no discurso. Agora só fala em aumentar investimentos e beneficios sociais pra combater a crise, porém no senado as coisas são diferentes...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008 01:37:00 BRST  

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