quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Um bom começo (11/12)

O Supremo Tribunal Federal encaminha-se para uma decisão que difere bastante do que tenho aqui defendido para a terra indígena Raposa Serra do Sol. Minha posição você conhece: sou a favor de demarcar terras essenciais para a sobrevivência material e espiritual dos índios, sou contra reservar territórios para grupos étnicos a título de reparação histórica. Um interessante email recebido ontem me questionou: como você pode ser a favor das cotas raciais e contra promover processos reparatórios a grupos étnicos por meio da reserva de terras? Uma pergunta interessante e de resposta simples: as cotas são um mecanismo de integração ativa. Deveriam ser aplicadas aos índios para integrá-los, por exemplo, às universidades e às Forças Armadas. Para acelerar seu processo de absorção pela sociedade brasileira. Para neutralizar a ação dos que, a pretexto de defender os índios, trabalham para segregá-lo e mantê-los na pobreza, uma estratégia antinacional disfarçada em tons puristas e românticos. Mas essa será uma luta longa e difícil, já que o multiculturalismo e a negação do Estado nacional ganharam nas últimas décadas um terreno considerável na luta ideológica, como a contraface "de esquerda" do recuo do socialismo e da ascensão liberal. E como o Brasil é o país em que as idéias chegam sempre atrasadas, e também vão embora com um certo atraso, padecendo de um crônico desencaixe, precisaremos conviver durante mais algum tempo com a hegemonia multiculturalista e antinacional. Que está condenada, pois entrou em profunda assimetria com a base econômica, num mundo em que as sociedades se voltam para o Estado nacional em busca da salvação contra a destruição deixada no rastro da liberdade absoluta dada ao capital. E por que a sociedade se volta para o Estado? Porque a terceirização da regulação social fracassou, restando dela a crise e um entulho composto por idéias liberais mortas, riqueza destruída e organizações não-governamentais sem função.Voltando ao assunto da reserva em Roraima, erra na análise política -e histórica- quem busca apenas os traços de continuidade, sempre mais visíveis. A arte está em enxergar o novo. E o novo na Raposa Serra do Sol está no voto do ministro Carlos Alberto Direito, acolhido aliás integralmente pelo relator. A preocupação explícita com a integridade nacional e a definição de que as Forças Armadas devem ter ampla liberdade de ação nas reservas indígenas é uma grande vitória dos que têm lutado para resistir à fragmentação do Brasil, especialmente à desnacionalização da Amazônia. O voto do ministro Direito será atacado e desdenhado por "apenas reafirmar" o que está na Constituição. Ora, em certas ocasiões reafirmar a Constituição é ato de grande coragem e sabedoria. Meses atrás, quando a batalha das idéias em torno do assunto estava começando, certos temas eram vistos com a reserva que se dedica às coisas exóticas, tratados com o desdém compadecido que merecem os candidatos a policarpo quaresma. Mas a luta deu resultado, abriu-se uma brecha no dique construído pela aliança entre os fanáticos da globalização (imperialismo) e os empenhados em conferir-lhe uma face humana. O voto do ministro Direito é uma luz no fim do túnel. É um bom começo.

http://twitter.com/alonfe

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2 Comentários:

Anonymous J Carlos disse...

Pois é, embora as 18 ressalvas do ministro Direito sejam uma tentativa de normalizar as coisas resta saber se na prática serão realmente implantadas ou se ficarão como palavras ao vento. Eu realmente não acredito que, uma vez criada essa reserva, ou outras futuras, mecanismos serão criados para implementar e fiscalizar o que está descrito nessas ressalvas.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008 10:01:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

"Integrar" os índios, Alon? Porque não, né? Bom, pode ser porque na prática essa visão muito difundida de que índios tem que ser assimilados significa nada mais, nada menos que o extermínio violento e irreversível deles.

A negação de sua existência e persistência enquanto povos, é claro, diz muito sobre o que somos como sociedade.

A negação de seus direitos em prol de um inconsistente "interesse coletivo" (de grileiros?) diz muito sobre o que somos também.

Ainda bem que é um discurso tão agressivamente etnocêntrico que não vem alcançando eco nem numa corte conservadora como o STF.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008 17:13:00 BRST  

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