segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Sem ter quem nos defenda (29/12)

Resta pouca dúvida de que o primeiro semestre de 2009 vai mostrar desaceleração da economia. Será um breque proporcional à falta de autoridade do presidente da República sobre as ações do Banco Central. E proporcional à impotência (ou à falta de vontade) do BC para enquadrar o sistema bancário. É verdade que o juro básico futuro mostra tendência de queda (o mercado não é estúpido e sabe que não existe poder absoluto), o que faz ainda mais espantosa a última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que manteve inalterada a taxa Selic.

Com argumentos enviesados, garantiram-se ganhos extras aos especuladores do câmbio, que poderão passar um fim de ano ainda mais gordo. No Brasil governado pelo PT o Banco Central autonomizou-se e foi cristalizado como uma espécie de estado-maior da banca privada. Na outra ponta da corda, pendurados pelo pescoço, o empresário e o consumidor comum sofrem com a resistência dos bancos a emprestar o dinheiro que, graças ao governo, irriga os cofres das instituições bancárias aos montões.

Se o PT estivesse na oposição, denunciaria o cenário com veemência, apontando-o como paradigma da crueldade social e econômica propiciada pelo neoliberalismo.Mas o PT está no governo e silencia. E como a atual oposição tem nesse assunto o rabo tão preso quanto o PT, o brasileiro acaba ficando sem ter quem o defenda.

Sobra Lula. Pesquisa após pesquisa, os analistas buscam razões para a popularidade recorde de Luiz Inácio Lula da Silva. E conforme aumenta o espanto dos especialistas, cresce também a busca por explicações de fundo subjetivo ou até místico. Inventa-se um “lulismo”, fenômeno inexistente mas útil, na sua virtualidade, para os autoproclamados sabichões tentarem explicar ao distinto público por que as coisas não se passam conforme o previsto, por que o presidente da República não é tragado pelo furacão.

Ameaçado por uma crise extremamente grave, com retração do consumo e risco ao emprego, o brasileiro apóia Lula porque está convencido de que o presidente faz o melhor possível diante das dificuldades e das limitações. Mas essa minha explicação corre o risco da tautologia, de tentar explicar-se por si mesma. Não basta dizer que Lula tem apoio porque a maioria gosta do governo dele. Isso é só uma tautologia. É preciso tentar compreender os porquês.

Para que as pessoas dessem as costas a Lula e decidissem seguir outro comando, seria necessário que os candidatos a líder dissessem abertamente o que fariam de diferente caso estivessem no poder. Mas isso não basta, seria imperioso que as alternativas tivessem alguma consistência ou racionalidade. Que ao menos parecessem motivadas por algum tipo de defesa do interesse público.

O que a oposição diz a respeito da insistência do Banco Central nos juros estratosféricos? Nada. O que a oposição acha do encarecimento e retração dos empréstimos bancários a empresas e consumidores? Aparentemente nada. Mas seria injusto dizer que a oposição está parada. A última dos partidos oposicionistas foi tentar impedir a destinação de recursos ao Fundo Soberano, um mecanismo que começou nebuloso mas que adquiriu inesperada funcionalidade, diante de uma crise para a qual o investimento público maciço é remédio receitado com entusiasmo.

Diz a oposição que o governo faria melhor se em vez de alimentar o Fundo Soberano usasse o caixa para reduzir dívidas. Aí o sujeito olha bem e respira aliviado, por a oposição não estar no governo. A hora não é de reduzir o endividamento público, mas de aumentá-lo. Junto com crédito abundante e barato, a expansão do investimento estatal é o outro mecanismo capaz de tornar a travessia mais suave. Só que a oposição, perfilada com o Banco Central na defesa do juro alto, trabalha para dificultar os investimentos públicos na hora em que eles são mais necessários.

E depois se espantam quando as pesquisas dão Lula lá em cima.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alan, acho que vc incorreu numa generalização, esquecendo-se de dar nome aos bois? De que oposição está falando? A oposição é muito ampla para ser caracterizada por um único posicionamento econômico e não pode ser confundida com seus defensores hidrófobos...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008 12:41:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Somente o Ciro Gomes critica o BC. Somente o Ciro Gomes defende repactuação dos títulos públicos (sic). Não é propaganda política, é memória histórica.

Rosan de Sousa Amaral

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008 17:51:00 BRST  
Blogger Danilo disse...

Alon, esse epost foi tosco... principalmente o último parágrafo...

Então se pegar o budget destinado ao fundo soberano e reduzir dívida pública, permitindo ao balanço do governo que absorva maiores emissões para então poder reativar a dívida e reaquecer a economia, é ruim?

Para e pense na besteira sem tamanho que você escreveu...

Reduzir a dívida pública (relação PIB/dívida), e política de contração fiscal, nem sempre são a mesma coisa... agora, se você parou em introdução a economia, aí paciência...

terça-feira, 30 de dezembro de 2008 23:33:00 BRST  
Anonymous Jura disse...

Alon,

Paul Krugman diz a mesma coisa no NYTimes de hoje, 5/01:
http://www.nytimes.com/2009/01/05/opinion/05krugman.html?th&emc=th

Sobre a popularidade de Lula eu arrisco um palpite que a oposição não quer entender para não dar o braço a torcer: em vez de criar riqueza, o presidente procurou simplesmente aliviar a imensa pobreza do país. As classes C e D (não a E, nem a F, nem a Z) entraram no "mercado" (da periferia). A Praia Grande e o Piscinão de Ramos estiveram lotadíssimos como nunca neste "reveillon" pra eles. Enquanto esteve no poder a atual oposição só pensou em como ficar mais rica, e não em como diminuir um pouquinho a miséria do próximo.

Agora que descobriu como era fácil, não suporta reconhecer a própria mesquinhez e a popularidade de Lula. E o braço torcido, então, dói.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009 18:14:00 BRST  

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