segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Salomônicas (15/12)

Peço licença ao leitor para tratar de vários assuntos numa só coluna. Para não perder o pé. Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal encaminhou uma decisão sobre a terra indígena Raposa Serra do Sol que permite duas leituras. Os defensores da demarcação contínua festejaram porque o veredito, se confirmado, retirará da área os produtores de arroz. E os -como eu- mais preocupados com os aspectos relacionados à soberania nacional gostaram de ver o ministro Carlos Alberto Direito indicar que as Forças Armadas terão ampla liberdade de ação e de movimentos dentro da reserva. E de vê-lo reafirmar que os índios não são donos dela.

Quem tem mais motivos para comemorar? O tempo vai dizer. Como o relator, Carlos Ayres Britto, aceitou as observações de Direito, parece que o tribunal irá mesmo por um caminho salomônico, ainda que de cabeça de juiz possa sair qualquer coisa. Antigamente, incluíam-se as urnas e as barrigas de mulheres grávidas nessa categoria, mas as pesquisas eleitorais e os exames pré-natais têm enfraquecido um pouco o ditado original.

Já no Banco Central faltou um Salomão. O Comitê de Política Monetária decidiu dar seu aviso à sociedade brasileira: manda quem pode, obedece quem tem juízo. O Copom, que é quem manda, manteve a taxa básica de juros em 13,75%. Ou seja, aumentou a Selic em termos reais, já que os índices de inflação estão em queda livre. Não conheço analista que esteja preocupado a sério com um possível repique da inflação por causa do dólar mais caro. A desaceleração econômica reduziu dramaticamente o espaço para repassar custos a preços finais.

Um exemplo. No site do Bradesco tem um boletim de conjuntura econômica chamado “Zoom de mercado”. O mais recente, assinado por Dalton Gardimam e Denis Blum, diz: “A nosso ver, a economia do Brasil deve retomar sua tendência de crescimento somente no 3T09. Isso não será suficiente para melhorar o PIB do ano calendário de 2009, que acabamos de revisar, reduzindo para 1% (antes 2,2%). O país está próximo a uma recessão técnica (dois trimestres em seguida de ‘crescimento’ negativo do PIB sobre o trimestre precedente)”. E concluem: “A melhor resposta a esse problema evidente é reduzir as taxas de juros: o mais breve possível, isto é, na próxima reunião [do Copom]”.

3T09 é o terceiro trimestre do ano que vem. Outra informação interessante no boletim é que até importadoras de carros estão reduzindo os preços ao consumidor. Apesar da forte alta do dólar. Aí eu pergunto: se a realidade é essa e se nem os analistas de bancos defendem a posição do Banco Central, qual é a base das decisões recentes do Copom? Caso a resposta seja “a política”, ou então “as pressões sobre o BC acabam fazendo com que o Copom reaja e adote uma posição política”, trata-se de revisar o modo pelo qual são indicados os membros do colegiado monetário. Se a função é política, que se façam eleições para preencher os cargos.

Quem também anda precisando de um Salomão (ou de dois deles) para evitar a balbúrdia é o Congresso Nacional, no processo de sucessão das Mesas. A boa notícia da semana foi a possível candidatura à reeleição do presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN). Se houver mesmo base jurídica, seria uma solução bastante adequada. Garibaldi foi o único presidente do Senado na história recente a combater o nepotismo, além de enfrentar o Executivo, com a devolução de uma medida provisória, e o establishment da Casa, com as novas licitações para áreas estratégicas. O senador potiguar merece mesmo mais dois anos no cargo. Para completar o trabalho.

Ah, sim, houve também o pacote do governo para enfrentar a crise. Lá do céu, o Rei Salomão deve ter ficado com inveja. O embrulho incluiu medidas econômicas, como usar as reservas cambiais para financiar as exportações, e políticas, como deixar uns trocados no bolso do cidadão que paga Imposto de Renda (IR). O governo aproveitou para fazer cortesia com o chapéu alheio, já que esta última decisão, combinada com as isenções no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), afeta diretamente o repasse a estados e municípios. Luiz Inácio Lula da Silva ficou bem com a classe média à custa de prefeitos e governadores. E aproveitou para ganhar umas palminhas de quem vive pedindo por mais e mais renúncia fiscal.

Afinal, se os dois analistas do Bradesco estiverem mesmo certos, o que vem por aí vai exigir mesmo a queima de muita gordura de Lula. Gordura política, é claro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

7 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

A velha questão do cobertor...
Prefeitos choram e chorarão.Sempre.É da natureza municipal. Alguma compensação,ampliando o dote que a união reparte com os municípios. Como tem dito nosso Winston Lula:"Todos terão que dar sua contribuição.Sacrifício de todos"
Sangue ,suor e...cerveja, que ninguém é de ferro.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008 12:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Eu acho que o pessoal tem que ser coerente: se antes os financistas tinham direito de ganhar dinheiro numa boa com os jurões do Meirelles e o câmbio valorizado plus especuleta, por que não deveriam continuar usufruindo do mesmo direito? só por causa da crise?

Ora, vamos ser coerentes!

O socialismo financeiro não retrocederá jamais! Até a vitória final, cumpanheiros!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008 14:47:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Ponto para vc Alon,

Bondades com Chapeu alheio, alias e o que sempre e feito e os louros vão ficando com Lula. Esse é realmente mestre na politica.

Abraços

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008 15:30:00 BRST  
Anonymous Jaum disse...

O que eu vejo é um juiz indicado pelo vice Nelson Jobim, fazendo seu papel. Ele deve saber melhor que eu que nunca se cogitou tirar os militares da área. Esta idéia absurda de que os índios iriam proclamar independência da republica é cômica, acho milhares de vezes mais provável São Paulo, novamente, tentar se separar do Brasil do que os índios.
Opa, este juiz também foi contra a pesquisa de células tronco.
Da taxa de juros eu só posso lamentar, porém ninguém minimamente informado poderia ligar as decisões com vontades políticas, ainda mais externas. Já que até no Jornal Nacional passou Lula criticando o juros e pedindo para baixa-los, até foi questionada a autonomia do BC.
Eu escuto os comentaristas e analista proclamarem e predizerem uma crise, mas só vejo números econômicos e sociais subindo, estranho isto.
O establishment que se refere só pode ser do PMDB, mas isto tornaria incoerente seu texto, então acho que fala do governo. Bem, este tal establishment do executivo com o legislativo eu chamo de união, e não se pode desejar melhor sorte numa republica federativa a união do legislativo com o executivo para o bem do país. Nas aulas de história aprendemos que o legislativo e o executivo são complementares e não rivais. E este establishment deu bons frutos até agora.
Não é bem lula que ficou bem na fita, os preços do automóveis baixaram, as revendedoras já estão mais animadas, acho que o povo ficou bem na fita. Municipio, estado e federação são na verdade Estado, e este é para o povo. pt saudações.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008 03:27:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Um dia os historiadores (de direita, é claro) vão se debruçar durante 50 anos sobre os documentos oficiais e darão uma resposta convincente para a seguinte pergunta: por que será que os diretores do BC são todos tucanos? E por que será que o lucro dos bancos sob o governo petista foram os maiores da história do Universo?
Um historiador petista jamais fará essa pesquisa, afinal o Antonio Conselheiro é perfeito por definição (vide São Tomás Aquina)
Agora me dêem licença que eu vou fumar meu charuto cubano...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008 10:23:00 BRST  
Anonymous Vera disse...

Ainda não entendi a dúvida: as terras indígenas SEMPRE pertenceram à União que permite o uso delas por parte de indígenas. Se pertencem à União, pertencem ao Estado brasileiro e ninguém nunca pensou em proibir o acesso das forças armadas. Como bem assinalou o ministro relator. Há muita ignorância naqueles que dizem que falar em "nação" indígena tem a extensão de "pátria" indígena. O termo nação não tem aí o significado de território nacional, mas de grupo cultural mais ou menos homogêneo. Assim como no candomblé existem "nações" ou linhagens diferentes com diversas práticas culturais. Ignorãncia é fogo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008 16:34:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Vera, leia a DECLARAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE OS DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS, de que o Brasil é signatário, graças ao governo Lula. Está em
http://www.institutowara.org.br/documentos/DECLARA%C3%87%C3%83O%20DAS%20NA%C3%87%C3%95ES%20UNIDAS%20SOBRE%20OS%20DIREITOS%20DOS%20POVOS%20IND%C3%8DGENAS%20Portugues.doc. Abraço.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008 18:20:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home