terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Risadas - ATUALIZADO (02/12)

O governo federal anunciou ontem um plano para ajudar a conter as mudanças climáticas. O objetivo das autoridades brasileiras é causar boa impressão na 14° Conferência das Partes sobre o Clima (COP-14), em Poznan, na Polônia. Assim como nas dicussões da Rodada Doha, o Brasil faz um esforço danado para se descolar dos emergentes e ser simpático ao Primeiro Mundo. Os desenvolvidos querem que os nem tanto assumam metas (para menos, claro) na emissão de gases causadores do efeito-estufa. Para fazer isso, China e Índia, por exemplo, teriam que renunciar a crescimento econômico. Já no caso do Brasil é mais simples. Como nossa contribuição ao aquecimento global, infelizmente, se dá muito mais pelo desmatamento do que pelo progresso, nosso governo correu a estabelecer metas de redução do corte de árvores. Espera com isso ser recebido sob aplausos em terras polonesas. Coisa de gênio. Especialmente porque o plano não tem como não dar certo. Menos por uma súbita eficiência dos burocratas e políticos encarregados de gerenciá-lo. E mais porque a pressão sobre nossas florestas deve mesmo decair, graças ao arrefecimento da demanda por produtos agropecuários. Como disse o Leonardo Sakamoto, mui merecidamente citado pela revista Época entre os blogs brasileiros imperdíveis:

Há pelo menos um efeito colateral “positivo” nessa crise econômica desgraçada que se espreguiça dos Estados Unidos para o resto do mundo: uma redução nos danos ao meio ambiente, do trabalho escravo e da expulsão de comunidades tradicionais. Já disse neste espaço outras vezes que a Chicago Board of Trade, uma das maiores bolsas de mercadorias do mundo, tem mais “poder” para deter o avanço da soja sobre a Amazônia do que as políticas do Ministério do Meio Ambiente. Quando o preço mundial sobe, cresce o interesse por expansão sobre novas áreas por aqui. Se o preço cai, o inverso. Analistas já prevêem um tombo de quase 50% no preço da soja entre julho deste ano e o primeiro trimestre de 2009. Não é tão simples assim, mas é incrível como a relação direta funciona não só para o grão, mas também para outros produtos. Mesmo a indústria da carne bovina, que tem no mercado interno o seu principal comprador, também funciona com uma lógica semelhante.

O post se chama A crise econômica, meio ambiente e trabalho escravo. O Leonardo tem um grande mérito. Ele é sempre direto e transparente. Eu tendo a discordar dele em algumas coisas (p. ex. Raposa Serra do Sol) e a concordar em outras (pressão do etanol sobre a fronteira agrícola). Mas estou sempre dando uma passadinha por lá. Na mosca: a crise planetária vai ajudar o Brasil a melhorar o desempenho na agenda ambientalista. Até porque

As relações comerciais entre o Brasil e a China registraram queda nas exportações brasileiras nos últimos três meses. Agosto apresentou redução de 22,37% nas remessas para o país asiático ante o mesmo período do ano passado. Em setembro, a queda foi de 9,09%; e no mês passado [outubro], de 20,78%, somando US$ 1,4 bilhão (FOB). Já as importações brasileiras de produtos da China tiveram variação negativa de 2,61% em agosto; porém, em setembro e outubro, registraram crescimento de 7,9% e 1,22%, respectivamente. (...) Até a crise mundial entrar na fase mais crítica, em agosto deste ano, as relações comerciais entre Brasil e China caminhavam em ritmo acelerado, (...), principalmente para commodities nacionais como soja, minério de ferro, celulose, madeira e petróleo.

Leia a reportagem (Brasil e China: crise afeta negócios) do dcomercio.com.br. E veja também o post anterior a este. É isso aí. Se você está com o emprego ameaçado, ou se a sua empresa corre o risco de ir à falência, você tem motivos para ficar preocupado. Mas se você luta para implementar na periferia do capitalismo a agenda ambiental (Leia O ambientalismo num só país), você talvez tenha motivos para sorrir. Como aliás sorriem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, na foto de Dida Sampaio, da Agência Estado, tirada no lançamento do tal plano e reproduzida neste post.

===

Atualizado em 19/12 às 12:29 - Leia Poznan Climate Talks: Fiddling While the Earth Burns, do site Climate and Capitalism.

http://twitter.com/alonfe

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

7 Comentários:

Blogger David Nascimento disse...

Excelente post, mas fica a dúvida: o que pode "avacalhar" ainda mais a preservação das florestas no Brasil? A má vontade dos políticos ou a papelada [matéria prima vinda de árvores] que a burocracia joga no liquidificador político?

terça-feira, 2 de dezembro de 2008 19:08:00 BRST  
Blogger Betamax disse...

Trotskistas do meio-ambiente,uni-vos!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008 19:35:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Belê. Entramos em crise, e a boa para o meio ambiente é que preservamos algumas árvores. No entanto, a agenda de saneamento básico é adiada alguns anos, jogamos alguns milhares de compatriotas de volta para a miséria, assim eles param de comer (pois como sabemos, comida é sempre um fator pressionador para o desmatamento). Me impressiona sempre o desprezo deste tipo de pensamento ambientalista pelo bicho homem...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008 21:15:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

O link crise - melhora ambiental já circulou pela pena do Gianetti, lembram-se?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008 10:14:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

As pressões voltarão assim que a curva da crise começar a inverter em direção à retomada em algumas economias desenvolvidas.

Swamoro Songhay

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008 11:54:00 BRST  
Anonymous clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Como a canção, você fingiu que foi, mas voltou e olha você aqui outra vez.
Então a crise vai reduzir o consumo dos produtos agropecuários? Alon, antes o desmatamento só não era maior porque o dolar estava desvalorizado. Agora com o dólar de novo no devido lugar dele é dificil o desmatamento não crescer.
Você possui uma má assessoria na área agropecuária. Embarcou na conversa de que o etanol era a causa de aumento de preço dos produtos agropecuários (Numa parte quase despresível sim, mas devíamos ficar contente que assim fosse, pois isso permitia uma valorização dos produtos agropecuários quase a única coisa que os países pobres sabem produzir e tinham que vender a preço de banana em razão do subsídio que americanos e europeus concediam a agropécuária deles, subsídio que era necessário para que as melhores terras do mundo continuassem produzindo e ajudando a não faltar alimento no mundo). Agora você embarca nessa história de que o consumo de produtos agropecuários vai cair. Ah sim, com a crise vai morrer muita gente de fome e os gordos vão fazer redução de estômago e assim o consumo vai reduzir.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 03/12/2008

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008 22:53:00 BRST  
Anonymous Artur Araújo disse...

Clever, o álcool é a bête noire do nosso amigo Alon :>)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008 11:05:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home