sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Precisa traduzir? (19/12)

A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) tem um trecho revelador. Do estadao.com.br:
    Mesmo admitindo que o País enfrenta a "interrupção do ciclo de expansão industrial", a produção de bens de capital "perdeu dinamismo", a criação de empregos formais também desacelerou e a balança comercial "perdeu vigor", o Banco Central manteve a taxa Selic em 13,75% na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da semana passada por não sentir segurança quanto à trajetória da inflação. A ata do Copom, divulgada ontem, mostra que o BC não aceitou se desviar da estratégia preventiva e não desistiu de trabalhar para que a inflação não estoure o teto da meta deste ano, 6,5% - o centro da meta é 4,5%, batalha já perdida.
Leia a reportagem. Mas por que o Copom está "inseguro" quanto à inflação?
    Ao ficar claro que a manutenção da Selic foi uma decisão construída numa reunião de quatro horas, na semana passada, o Copom disse que prevaleceu a idéia de que "o ambiente macroeconômico continua cercado de grande incerteza". Um dos argumentos desenvolvidos com mais detalhes na ata do Copom é uma comparação entre as "economias maduras" e as "economias emergentes", como a do Brasil. "Nas economias maduras, onde a ancoragem das expectativas da inflação é mais forte", a recessão "reduz rapidamente" as pressões inflacionárias, diz a ata. "Já nas economias emergentes, onde os efeitos secundários da elevação dos preços de matérias-primas sobre os preços ao consumidor e as pressões da demanda aquecida sobre a capacidade de expansão da oferta vinham sendo mais intensos, as pressões inflacionárias têm maior persistência."
O negrito em "vinham" é meu. A ata do Copom tem cheiro de fraude. Os diretores do BC explicam que "nas economias emergentes (...) os efeitos secundários da elevação dos preços de matérias-primas sobre os preços ao consumidor e as pressões da demanda aquecida sobre a capacidade de expansão da oferta vinham sendo mais intensos (...)". É a justificativa do Copom para não baixar a taxa de juros. Ora, o que é "vinham"? É o pretérito imperfeito do indicativo do verbo "vir". Se houvesse risco real, a palavra não seria "vinham", seria "vêm". Em vez do pretérito imperfeito, viria o presente do indicativo. Elevação de preços de matérias primas? Mostrem-me um, só um economista que assine hoje embaixo de previsões sobre riscos reais de subida explosiva de preços de commodities. O barril de petróleo, por exemplo, já caiu mais de dois terços. Tanto que a Opep corre para cortar a produção. Outro fato que a ata do Copom trata no pretérito imperfeito são "as pressões da demanda aquecida". Tem mesmo que ser "vinham", porque demanda aquecida é outra coisa que não existe mais. Basta dar uma olhada no noticiário. Insisto: a ata do Copom tem cheiro de fraude. Justificam-se os juros daqui para adiante com base numa realidade que ficou para trás, como mostram as próprias escolhas verbais da diretoria do Copom. O uso do verbo "vir" no pretérito imperfeito é o rabo do gato deixado de fora quando o gato tenta se esconder (a comparação com o bichano não é original neste blog). Bem, há diversas explicações sobre as recentes atitudes do Copom. Uma é política. Outra é econômica. O Banco Central não pode dizer, mas teme que a redução dos juros, essencial para injetar oxigênio na economia e desafogar os gastos públicos, possa conduzir o país a uma crise cambial. A uma fuga de dólares. À queima de reservas. O que empurraria o Brasil para algum tipo de retenção forçada do capital externo que aqui ingressou. Nada a ver com a inflação, já que repassar aumentos passados a preços futuros numa economia que recua é nonsense. E há uma terceira possível explicação, inspirada na coluna que Paul Krugman escreve hoje no The New York Times a propósito do escândalo Madoff (The Madoff economy), refletindo sobre os efeitos nefastos da hegemonia do capital financeiro sobre o conjunto da sociedade:
    At the crudest level, Wall Street’s ill-gotten gains corrupted and continue to corrupt politics, in a nicely bipartisan way. From Bush administration officials like Christopher Cox, chairman of the Securities and Exchange Commission, who looked the other way as evidence of financial fraud mounted, to Democrats who still haven’t closed the outrageous tax loophole that benefits executives at hedge funds and private equity firms (hello, Senator Schumer), politicians have walked when money talked.
O dinheiro, como uma espécie de flautista de Hamelin (outra comparação não original) dos políticos. O Banco Central pode fazer o que quer porque se autonomizou em relação à política, ganhando ele próprio um viés (êta palavrinha maldita) político. E os políticos que poderiam enquadrá-lo? Bem, talvez "politicians have walked when money talked". Precisa traduzir? E leia mais n'O Hermenauta.

http://twitter.com/alonfe

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7 Comentários:

Blogger Richard disse...

Caro Alon: o barril de petróleo está (menos da) metade do que era em julho e a gasosa ainda não caiu! A @ do boi tbm é cotada em dólar, como devem ser outras commodities, por isto o preço da carne (de boi) está subindo. Alguns eletro-eletrônicos, carros e outras mercadorias que tenham influência do dólar tbm estão em viés de alta, desde o estouro da crise.
Acredito, porém, que sua análise econômica esteja mais correta! Sim, existe um medo de fuga de dólares, divisas, queima de reservas, caso os juros caiam. Isto faz parte da opção deste (des)governo de alinhar-se com a globalização. Sem saídas políticas próprias, não há como Lula permitir uma queda dos juros que estão alimentando os papéis do governo. Esta será sua (dele) herança maldita!
Quanto ao português, pô Alon, se os caras fossem tão bons de letras seriam jornalistas, não economistas!!!!!!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008 11:29:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pois é, bem que o Prof. Francisco Oliveira alertava para a "irrelevância da política"...

sábado, 20 de dezembro de 2008 10:27:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Eu tenho uma cantilena que um dia transformarei em catilinária que diz o seguinte:
Há duas formas de realizar o desenvolvimento econômico de uma nação: via mercado externo ou via mercado interno. Via mercado interno é opção da esquerda, mas leva o país a ficar submisso e subserviente ao capital externo, em prazos muito curtos. Foi assim na crise de 82 (a direita também adota esse modelo), foi assim na crise de 86, foi assim na crise de 95, foi assim na crise de 97, foi assim na crise de 98, e foi assim na crise de 2001 e 2002.
Em 2001 a crise não foi pelo fato de o país não poder crescer mais com crescimento puxado pelo mercado interno, embora o capital externo disponível estivesse meio ressabiado com a crise argentina, pois a crise surgiu por razões internas da falta de energia e em 2002, após o Brasil ir de joelhos pedir ajuda do FMI e de Clinton, nós iniciamos o processo de saída da crise com a maxidesvalorização que, segundo FHC, a candidatura Lula provocou (O que significa que a única coisa boa que FHC deixou: o câmbio desvalorizado foi obra de Lula).
O crescimento econômico via mercado externo é a opção da Alemanha pós-guerra, do Japão, dos Tigres Asiáticos e da China. E foi a opção do Brasil de 2003 em diante. A partir de 2007 houve uma inflexão nessa opção pelo mercado externo favorecendo mais o crescimento do mercado interno, sendo que em 2008 a inflexão foi tão forte que pareceu ser conduzida. Como o Mantega tem um DNA do Plano Cruzado eu imaginei que a inflexão fora fruto desse viés pelo mercado interno do Mantega. Como a crise de outubro eu passei imaginar que provavelmente o governo fora instruído para agir como agiu, pois o Brasil talvez seja o país em melhores condições de enfrentar a crise.
Se o Brasil tivesse mantido o viés pelo mercado externo ele sofreria muito mais o impacto da atual crise. A manutenção pelo mercado externo exigiria um dólar mais valorizado e, portanto, as exportações seriam maiores em dólares e muito maiores em reais, e representariam uma parcela muito maior na participação do PIB (Que com a manutenção do dólar valorizado e, portanto do Real desvalorizado seria em dólar menor do que o existente nas vésperas da crise). Com a crise, o dólar não iria valorizar muito mais (como ele não valorizou na Argentina e nem na China) e a queda das exportações teria um impacto muito maior no PIB. Como, no Brasil, no período anterior a crise, o Real valorizou expressivamente, a desvalorização após a crise apenas serviu para levá-lo à posição mais adequada diante da nova realidade mundial. Em outras palavras, se o real não tivesse valorizado tanto como valorizou em 2008, a economia brasileira estaria muito mais dependente do mercado externo e na atual crise sofreria expressivamente o impacto da queda do comercio mundial tendo que alterar radicalmente sua política econômica
Com a desvalorização substancial do real, o comércio externo, mesmo enfraquecido mundialmente, poderá servir de via de escape para a crise ou pelo menos não repercutir fortemente na economia brasileira. A queda de consumo interno em decorrência da crise não é de toda ruim, pois a queda de consumo interno é uma condição para que se tenha mais exportações. A queda de consumo interno se consegue com aumento de tributos, aumento de juros, redução de prazos e condições de financiamentos. A queda foi tão drástica que esses mecanismos estão sendo utilizados em sentido inverso. Eu que sou a favor do aumento dos tributos em geral e da CPMF em particular fico triste pelo fato do Estado ter de abrir mão de tributos, mas sei que não vai ser preciso subir o juro.
A via de crescimento puxado pelo mercado externo tem dois inconvenientes que sempre fizeram a esquerda se posicionar de forma contrária a esse modelo. Ele privilegia os grandes grupos monopolistas internos exportadores (Esse inconveniente pode ser contrabalanceado como faz a Argentina com taxações maiores nas exportações de commodities e semielaborados) e ele impõe sacrifícios à população para que se possa ter excedentes para exportações (Esse inconveniente pode ser amenizado com políticas focadas nas classes menos favorecidas, como o governo já vem fazendo com a bolsa família). Salvo na crise de 29 e na crise atual o modelo do viés exportador é o mais adequado para liberar o país da dependência externa. Esse deveria ser o modelo pelo qual a esquerda deveria lutar. Sabendo que a imposição de sacrifício interno é necessária para que o país possa adotar esse viés, a esquerda deveria ser favorável ao aumento dos tributos e ao aumento do juro (No caso do aumento do juros pelo menos não deveria ficar contra, a menos que seja só para manter o discurso).
A manutenção do juro alto para mim é importante na medida que permite o país voltar para o mercado externo, mediante a desvalorização do dólar, e adoção de políticas de favorecimento de mercado interno mas sem o incentivar bastante e reconhecendo que essa opção requer menos consumo interno para formação de excedente para exportação. É claro que a opção do mercado externo não é bem vista pelo site de alguém de esquerda e nacionalista. Mas como insisto na cantilena, se a política for conduzida por alguém da esquerda (Lula) com interesse de proteger os menos favorecidos, no longo prazo é a melhor opção.
Você disse que a manutenção da taxa de juros é uma fraude. Eu preferiria entender um blefe. Se o Banco Central reduzisse os juros daria a impressão que a crise era muito séria. Não reduzindo tenta dá a impressão de que há ainda demanda para causar inflação. Dizer que ainda há inflação é provocar inveja em todos os países desenvolvidos que estão chorando para que apareça uma inflaçãozinha (e dizem que não existe inflaçãozinha) que possa relançar as economias dels. Agora inveja mesmo eles devem estar sentindo com os nossos juros lá em cima e os deles perto de zero. Numa crise como essa nada melhor do que ter um grande espaço para reduzir juro.
Fraude ou blefe eu gostaria de saber contra quem você está pensando que houve a fraude (ou, no que eu penso que você quis dizer, o blefe)
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/12/2008

domingo, 21 de dezembro de 2008 18:31:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Além de erros e imprecisões de linguagem que eu cometi no comentário anterior, eu esqueci de lembrar outra questão sobre o juro. A crise tem sido resolvida com a inversão de grande quantidade de dinheiro publico na economia. Com a dívida pública valendo mais de 1 trilhão de Reais, quando se aumenta os juros, aumenta ou diminui a inversão de dinheiro público na economia? Se aumenta, não estaria correto o aumento do juro? Talvez essa pergunta seja um pouco cínica ou então própria de leigo em economia como é o meu caso.
Nesse caso da dívida pública e sua rolagem há um lembrete importante. Sou a favor da CPMF, mas há que ter consciência que se a CPMF reduz a oferta de dinheiro no mercado ele provoca o aumento do juro e com isso antes de o governo arrecadar a CPMF ele já a perdeu na rolagem da dívida pública. Isso realiza de forma antecipada a maldição dos economistas da era Reagan: "a receita (o aumento do tributo) cria sua própria despesa".
Agora, nesse período de crise, trazer a CPMF talvez não seja bom, pois ela induz a não se consumir, o que não é exatamente aquilo que o governo deseja. Além disso se ele aumenta o juro e o aumento do juro não for tão bom como a minha pergunta cínica dá a entender que é, a CPMF poderia constituir um sério problema para economia. Por outro lado, se a CPMF não tivesse acabado, muitos recursos que sairam da economia brasileira esse ano seriam tributados e, portanto, cada recurso que saísse deixaria um pouco para ser distribuído pelo governo para a população brasileira. Alé disso, agora, se o governo reduzisse a CPMF, o efeito de retomada do consumo seria muito maior. Não sei porque o governo não jogou em cima da oposição esse mal que ela causou ao Brasil.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/12/2008

domingo, 21 de dezembro de 2008 23:45:00 BRST  
Blogger Richard disse...

Sim Clever, a rolagem da dívida via aumento de juros realimenta a mesma dívida. É esta a herança maldita de que falo.
Quanto ao uso da CPMF, vc esqueçeu que era para ser usado na Saúde!?!? Foi FHC quem desvinculou e tornou a CPMF recurso para o Tesouro fazer caixa. O fim da mesma pode ter sido um alívio, já que o governo pode explorar diretamente outros tributos não-vinculados.
Finalizando, a saída da crise não está, necessariamente, nem no mercao interno ou no externo. Está na ECOLOGIA.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008 18:24:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Richard,
Eu levo em conta a herança maldita. Mas há controvérsias. Tenho por mim que, se por um decreto divino todas as dívidas acabassem, o mundo ficaria mais pobre. Recentemente acompanhei uma discussao sobre declaração de Márcio Pochmanm em que ele dizia sobre o estoque da dívida: é dívida, mas também é poupança (crédito). Como leigo não dava para participar, mas a opinião mais sensata foi a que considerou importante o estoque da dívida manuseado pelo setor financista que fazia a locação desse recurso da melhor forma possível, embora estejamos vendo que não era tão boa assim). Sou contra a dívida externa pela perda de soberania do país. Em relação à dívida interna sou crítico do governo FHC por deixá-la crescer sem construir nada para o país a não ser a reeleição, mas escuto muitas vozes discordantes.
Quanto a CPMF não esqueci que ela foi criada para a Saúde. Você é que esqueceu que "Pecunia non olet" e sendo assim é difícil acompanhar o fluxo do dinheiro.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/12/2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008 21:02:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Richard,
Eu esqueci foi de uma referência à Ecologia. Faço-a agora.
Eu torço para a Economia Ecológica, mas não acredito que ela tenha um futuro imediato de esplendor. Talvez ela venha com força na segunda metade do século XXI. Sobre ela, você pode encontrar no site do José Eli da Veiga três bons artigos publicados no Valor Econômico. Os três artigos são: “De onde vem a força do PIB” de 02/09/2008, “O que o PIB tem em comum com o Natal” de 10/04/2008(Esses dois primeiros servem para entender porque há tendência para a manutenção do atual modelo de desenvolvimento econômico) e “Reabilitar Georgescu” de 08/02/2008. O texto “Reabilitar Georgescu” era uma oportunidade de discutir as idéias de Nicholas GeorgescuRoegen, no momento em que Andrei Cechin desenvolvia tese sobre ele, mas não em Economia e sim, como salientou José Eli da Veiga, no Programa de Ciência Ambiental. Mais tarde quando a tese ia ser defendida Luis Nassif fez chamada para a discussão com o título de “A termodinâmica da sustentabilidade” de 16/09/2008 às 10:15 com presença na aba principal e na aba de economia. Na aba principal havia 12 comentários. E creio que não havia muito mais na aba de economia. De qualquer modo vale uma olhada neles.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/12/2008

terça-feira, 23 de dezembro de 2008 00:20:00 BRST  

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