domingo, 21 de dezembro de 2008

A vida real manda lembranças (21/12)

O final da reportagem na revista Veja desta semana sobre a crise na indústria automobilística americana tem este trecho:
    Com os choques do petróleo na década de 70, o mundo começou a se interessar por carros com menor consumo de combustível, mas a indústria automobilística americana, talvez por defeito de nascença, jamais conseguiu grande sucesso nesse segmento. (...). Quando a gasolina tornou a ficar barata, nos anos 90, GM, Ford e Chrysler se voltaram para os carrões, agora na versão utilitários. Em 1993, as três estavam outra vez no auge, com mais de 75% do mercado americano. E, de novo, deixaram de lado as eternas promessas de carros menores, carros elétricos, carros movidos a hidrogênio, carros do futuro. A conta chegou agora, e num momento em que é crescente a hostilidade ao automóvel. Ele é poluidor, aumenta as estatísticas de mortes violentas, faz barulho, desumaniza as cidades, produz intermináveis congestionamentos. É inimigo da saúde, um convite à obesidade e, nos países desenvolvidos, onde o transporte público é bom e barato, é visto como símbolo do egoísmo, do desperdício, do comodismo elitista, do isolamento social. Mas é um engano supor que estejamos perto do fim da era do automóvel. É mais provável que, no futuro, os carros fiquem apenas diferentes, talvez menores, mais econômicos, menos poluidores, quem sabe movidos a etanol no mundo afora, ceifando o domínio do petróleo.
Leia a íntegra. Tem explicação que não bate com a vida real. O negrito é meu. A última moda é relacionar a crise das montadoras americanas à suposta perda de protagonismo do petróleo. Do petróleo caro. Ora, se o problema de Chrysler, General Motors e Ford fossem carros ávidos por gasolina cara, o cenário global seria de esperança para as três, e não de ameaça. O barril de petróleo, que esteve no patamar de 150 dólares, patina hoje na faixa dos 40. Está muito barato, e nada indica que vá voltar ao nível estratosférico de meses atrás. Até porque só uma parte do preço era consumo. A maior parte era demanda financeira superaquecida, dinheiro em excesso procurando o melhor destino. Um dinheiro que desapareceu, dado que não representava valor real. Daí que o mundo pós-crise esteja mais amistoso ao petróleo, e portanto mais complicado para as fontes alternativas de energia. Em que situação a energia dita verde será capaz de derrotar estrategicamente os combustíveis fósseis? Quando ficar mais barata do que eles. A não ser que você acredite em histórias da carochinha, de que a humanidade vai optar por uma energia mais cara só para combater o aquecimento global. Há por certo questões estratégicas envolvidas, a coisa não é só oferta e demanda puras. Os Estados Unidos estão interessados em deixar de depender do petróleo árabe, persa e venezuelano. Mas isso não significa que os Estados Unidos estejam dispostos a aprofundar mais ainda a recessão, aumentando artificialmente o custo da energia consumida pelos americanos. É mais provável que, pelo menos no curto prazo, busquem um modus operandi pragmático com Vladimir Putin, Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Até porque o outro megafornecedor, a Arábia Saudita, já está convenientemente alojadona lista dos inimigos de Osama bin Laden. E portanto dos amigos de Washington. E o Iraque está no bolso. E o país-problema remanescente, o Afeganistão, produz papoula (heroína), e não petróleo. O risco maior para a indústria do petróleo não é ausência de demanda. É falta de investimento em perfuração e refino, por causa do preço excessivamente baixo. Coisa que a Opep quer reverter, mas não sabe se terá sucesso. De volta às montadoras americanas, o problema delas está nos custos. Salários altos para os operários, remuneração alta para executivos. Os republicanos no Congresso têm resistido a ajudar Detroit não por consciência ambiental, mas pelo desejo de quebrar a espinha dos sindicatos. Para quem quer matar sindicatos, a hora é agora. Só que Barack Obama tem que dar um jeito de fazer sobreviver a Chrysler, a GM e a Ford, visto que que o trabalhador organizado foi um elemento decisivo para a vitória dele contra John McCain. Se as montadoras americanas acabarem, o governo Obama acaba junto. Na mesma hora. O operariado sindicalizado preferia Hillary Clinton, e só pendeu para Obama quando na reta final da eleição a gravidade da crise fez desaparecerem velhas preferências e antigos preconceitos. E mesmo que as montadoras americanas sejam reinventadas, isso vai levar um tempo. Durante o qual o governo precisará protegê-las. Essa é a vida real.

http://twitter.com/alonfe

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

3 Comentários:

Anonymous Almeida disse...

Prezado Sr. Alon,

Leitura sugestiva para o tema é:

"Breve história socialista do automóvel".
http://resistir.info/energia/historia_automovel_mai08.html

Aborda o papel do automóvel no capitalismo da era industrial. Dois dos principais sistemas de organização produtiva industrial tiveram origem em fábricas de automóveis, o fordismo e o toyotismo.

Quanto ao petróleo, eu diria que risco maior para a indústria do petróleo é a ausência de grandes descobertas para assegurar a demanda. Sem grandes descobertas para expandir oferta, ninguém aposta em novas plantas de refino.

O petróleo é um recurso finito, portanto ele é esgotável. Antes do seu esgotamento final, ocorre a escassez de descobertas; assim se verificou em todas as províncias geológicas em que a extração entrou em declínio. O investimento perpétuo em perfuração não é garantia perpétua de oferta de petróleo. Haverá uma hora em que não se descobre mais nada, pois, repito, se trata de recurso finito, não depende da vontade do investidor.

Acabou-se há muito tempo a era de descobertas de petróleo em áreas de fácil prospecção e exploração, em terra ou águas rasas, que tornam a extração barata. As descobertas mais significativas da última década se deram em águas muito profundas, em algumas bordas continentais. Depois dessas bordas, no assoalho dos oceanos, não há petróleo. A nova oferta de petróleo virá da exploração dessas fronteiras remotas, que tem alto custo de prospecção e exploração. Além das águas ultra profundas citadas, há ainda a custosa exploração de areias betuminosas, os óleos extra pesados e o petróleo sob o gelo polar, todos dependentes de preços altos para se viabilizarem. Sem eles a oferta mundial cairá, pois a oferta atual está ancorada em campos muito antigos que se caminham para o declínio.

O petróleo assumiu a primazia como fonte energética por causa do seu preço e da sua versatilidade. Preços altos de petróleo são garantia para substituição por fontes alternativas, que não têm a mesma versatilidade.

É preciso ter em mente que antes de acabar, o petróleo vai escassear.

Obrigado pela leitura.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008 02:04:00 BRST  
Blogger Richard disse...

Corroborando o comentário anterior, o declínio e a ascenção da indústria automobilística EUA, pós choque do petróleo, não se deveu à uma súbita perda salarial, nem à uma redução de custos industriais. O petróleo barato reacende sim a indústria, daí o prazo de 18 meses que o próprio Barack se deu para as coisas melhorarem.
Sim, o petróleo é versátil e matéria-prima de outro produto tão importante quanto poluente: o plástico!
Este vai ser mais difícil de substituir!!!
Mas como fonte de energia, o petróleo está com os dias contados... como o Brasil vai aproveitar isto?! Saberemos nos próximos 5 ou 10 anos.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008 17:54:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, acho que vc está desconsiderando as tendências de regulação e taxação com base nos índices de emissão de CO2, que deverão ter impacto sobre essa questão combustíveis fósseis x energia ecologicamente correta...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008 21:15:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home