terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Não é FHC quem pode demitir Henrique Meirelles. Nem é FHC quem pode hoje acabar com a autonomia do BC (09/12)

Não existem motivos técnicos para o Comitê de Política Monetária (Copom) não baixar com decisão o juro básico na reunião de hoje e amanhã. Vejam que eu fiz a negação da negação. Poderia ter escrito assim: se vista do ângulo técnico, a única decisão possível do Copom esta semana será baixar com decisão a Selic. Você escolhe a versão que preferir. Bem, há nos últimos dias um interessante debate entre o PT e o PSDB. O PT prepara sua estratégia para 2010, quando pelo visto tentará emplacar a tese de que o eleitor deve rejeitar os tucanos, pois a eleição de um tucano supostamente representaria a volta do liberalismo, responsável por tantas mazelas contemporâneas. O PSDB naturalmente reage, e lembra que Luiz Inácio Lula da Silva governa já faz seis anos, tempo supostamente suficiente para estourar o prazo de validade do argumento da "herança maldita". Se há problemas no Brasil de Lula, diz o PSDB, Lula é responsável por eles. Quem está com a razão? A vida real vai mostrar. Um dos pilares do projeto dito liberal para o Brasil é a autonomia do Banco Central. E não houve até hoje governo entre nós sob o qual o BC gozasse de mais autonomia do que na administração Lula. Até a eclosão da crise planetária, essa autonomia representava uma bela relação custo-benefício para o governo do PT: uma conta de juros pesada no Orçamento, mas com crescimento razoável e inflação baixa. Um pacto político conveniente -e defensável. Há quem diga que os juros leoninos do BC nunca foram para domar a inflação, mas para alimentar a especulação com o dólar trazido lá de fora, para receber a generosa remuneração financeira proporcionada à moeda nacional. Quem estiver interessado na discussão sobre, por exemplo, se o câmbio é mesmo flutuante no Brasil pode ler um interessante texto publicado em 2006 pelo professor da UFRJ Franklin Serrano, economista Ph.D. pela Universidade de Cambridge. Mas esse debate acadêmico em larguíssima medida foi superado pelos fatos. A curva agora é para baixo, e falar em risco infacionário é nonsense. Só gente que confia demais na própria esperteza e na ignorância alheia pode querer vender hoje em dia teses sobre o potencial risco de repasse aos preços, em janeiro/fevereiro, dos custos decorrentes da desvalorização cambial. Apesar dos apelos de Lula para continuar gastando, o consumidor dá sinais de que não está disposto a pegar desnecessariamente dinheiro emprestado em banco. É razoável. É hora de o tomador de empréstimo fazer jogo duro com o banco, reduzir a demanda de dinheiro para que este seja oferecido pelas instituições financeiras em condições menos leoninas. O cenário mais provável para o primeiro trimestre do ano que vem é de forte desaceleração. Que aliás já está acontecendo. Cenário ideal para baixar juros. Chegamos finalmente ao debate entre o PT e PSDB. Quem tem razão? Ora, quem pode hoje enquadrar o BC e mandar o Copom cortar os juros para valer, sem perfumaria, Lula ou Fernando Henrique Cardoso? Se o BC não fizer isso, quem pode hoje, Lula ou FHC, demitir o presidente do BC, Henrique Meirelles? Quem pode hoje tabelar e congelar as tarifas bancárias, Lula ou FHC? Se os oligopólios da energia elétrica e da telefonia, entre outros, insistirem em repassar integralmente aos preços a inflação passada, brincando com a estagflação, quem pode hoje enquadrá-los, Lula ou FHC? Quem assina hoje em dia decretos e medidas provisórias, Lula ou FHC? E, se nada for feito para colocar uma rédea no BC, quem terá sido responsável pela gestão "liberal" da economia, Lula ou FHC? Se o Copom, para garantir a boa vida da turma da "arbitragem", empurrar o Brasil para um buraco ainda mais fundo, quem terá sido o culpado, Lula ou FHC? Infelizmente para o PT, não é tão difícil assim responder a essas perguntas.

http://twitter.com/alonfe

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6 Comentários:

Blogger José Aurélio disse...

Caro Alon:
bastante instigante e feliz sua análise. Só aproveito para sugestão de nomenclatura técnica: em tecnologia mineral "explorar" tem o mesmo significado de "to explore" do inglês, isto é: estudar, pesquisar, prospectar (na verdade há ainda diferenças sutis nesses termos). Produzir um bem mineral é extrair, lavrar, ou, usando o neologismo que me parece útil, explotar (como no inglês "to exploit" e no castelhano "explotar").
j.a. medeiros da luz

terça-feira, 9 de dezembro de 2008 19:58:00 BRST  
Blogger Briguilino do Blog disse...

Alon, esta é a hora de Lula matar uma raposa e nomeiar o vice da Dilma para presidir o BC. E quem é?... Ciro Gomes.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008 20:53:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Autonomia operacional do BC, diga-se. Se a autonomia do BC é operacional, a política monetária por ele gerenciada, poderia ser enquadrada num projeto para acelerar o investimento, deixando boa margem para apertos quando se fizesse necessário. Tudo ficaria mais dentro da estratégia economica. Agora, porém, a coisa ganha contornos políticos mais fortes: se baixar a SELIC, estará aceitando as pressões políticas e se não baixar, poderá causar atritos mais fortes com a área política. Ademais, fica a dúvida se nada foi feito, antes, para baixar os juros nos momentos em que isso era possível e até recomendável(bem antes da eclosão da crise), o foi por não se saber o que fazer?

Swamoro Songhay

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008 10:49:00 BRST  
Blogger Cristiano disse...

Esta história de autonomia do banco central é balela. Se diz que a autonomia preservaria a política monetária do direcionamento político do governo de plantão. Mas, qual "política monetária" deve ser preservada? Respondo, aquela que o mercado avaliza, executada, atualmente pelo BC. A "política econômica certa" é a política dos rentistas.

Acontece que a população brasileira não é composta por rentistas, monetaristas, operadores. Então, a autonomia do banco central é uma afronta à democracia, a população perde o direito de escolher os rumos da política econômica, vira refém do "mercado".

Está na hora de algum cabra macho acabar com esta hipocrisia criada pelos "formadores de opinião" quando Lula chegou ao poder.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008 11:47:00 BRST  
Anonymous Luca disse...

A relativa autonomia que o BACEN alcançou está amparada quase que exclusivamente em normas produzidas pelo Executivo, sem a aprovação formal do Congresso. Trata-se de uma autonomia informal, concedida de forma tácita.
Pode mudar? Claro que pode. Basta o Presidente querer correr os riscos oriundos desta decisão. Tenho cá minhas dúvidas se este Governo vai assumir tal mudança de rumo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008 13:52:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Po, Ciro Gomes no BC em... ia dar no que falar

sábado, 7 de março de 2009 13:59:00 BRT  

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