sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Mudança de música (19/12)

É notável que antes mesmo de ir morar na Casa Branca Barack Obama esteja a receber de Luiz Inácio Lula da Silva tratamento mais duro e mais confrontante do que o dispensado a George W. Bush em seis anos de convivência. As celebrações em torno de Cuba, na Bahia esta semana, têm tudo a ver com os compromissos históricos de Lula e do PT (e também com a linha desenvolvida pelo Itamaraty nas quatro últimas décadas). Mas o fato é que Lula esperou Bush virar um “lame duck” (pato manco, político que não manda nada) antes de dar o passo decisivo para reintegrar Havana ao hemisfério.

Reabsorver Cuba na comunidade de nações latino-americanas é um movimento lógico e há muito aguardado, no contexto de uma estratégia de integração regional. Estratégia aliás essencial para o Brasil. Principalmente agora, quando o protecionismo ganha musculatura e o livre comércio internacional perde ibope. Vide o fracasso das tentativas, impulsionadas em grande medida por Lula, de reanimar a moribunda Rodada Doha da Organização Internacional do Comércio (OMC).

Vivêssemos outros tempos e o baile diplomático da Costa do Sauípe teria transcorrido sob os acordes de uma orquestra diferente. Ou pelo menos com uma música mais suave. Lula passou seis anos alimentando boas relações com Bush. E gabando-se delas. Antes da eleição americana, não foram poucos os sinais saídos do Planalto apontando que uma vitória republicana teria, em termos práticos, vantagens comparativas para o interesse nacional brasileiro. A “simpatia” palaciana por Obama só veio a público, tardia e repentinamente, quando a vitória do democrata se desenhou com sinais mais nítidos.

Ouço aqui e ali que Lula anda desconfortável com a importância apenas relativa que recebe do futuro ocupante da Casa Branca. E que teria ficado incomodado porque em vez de receber um telefonema do recém-eleito precisou ligar para Washington. Só no retorno pôde falar com o “president-elect”. Foi um mau sinal. Sinal amarelo. Se Lula interpretou assim, interpretou bem.

Ao longo de seis anos, Lula partilhou com Bush certas teses, ainda que com graus diferentes de convicção. Uma tese comum era a fé no comércio mundial como alavanca para o desenvolvimento, especialmente nos países menos abastados. A estratégia diplomática do governo brasileiro orientou-se por aí. A dança para introduzir o nosso etanol no mercado americano foi, por exemplo, o foco principal da visita de Bush ano passado ao Brasil. Imaginava então o Planalto que a emergência das preocupações com o aquecimento global seria a oportunidade de ouro para substituirmos, em grande parte, a gasolina que abastece os carrões na superpotência.

Isso rendeu a Lula atritos com Hugo Chávez e Fidel Castro, defensores da tese de que plantar mais combustível significa, globalmente, produzir menos comida. Levou também o Brasil a relativizar na OMC sua tradicional aliança com os demais emergentes para, num movimento arrojado, acercar-se dos desenvolvidos em busca de um consenso que afinal fracassou. A cena mais recente do enredo deu-se agora em Washington, na reunião do G20 convocada por Bush. Quando o Brasil subscreveu os dogmas sobre a liberdade comercial como remédio por excelência para superar a crise econômico-financeira desencadeada pelos créditos podres americanos.

Mas Obama parece não estar nem aí para esse conjunto de idéias. Até porque chegou ao poder derrotando-as. Hoje em dia ele leva jeito de andar mais preocupado com a proteção dos empregos americanos e com a regulação do indomável mercado financeiro. Nem os projetos para combustíveis alternativos ajudam. Os Estados Unidos querem auto-suficiência nisso. Não pretendem trocar a dependência da gasolina árabe, persa e venezuelana pela dependência do etanol brasileiro.

Daí por que talvez o Brasil tenha percebido a necessidade de ajustar também a sua posição. O que se dá com um coeficiente de atrito inusitado. É sintomático, por exemplo, que o chanceler Celso Amorim seja um dos dois atores de relevância mundial que criticaram frontalmente Barack Obama antes mesmo da posse.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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7 Comentários:

Anonymous Mauro Guerreiro disse...

Atitudes como as que o Presidente está tomando são produto de conselheiros anti americanos de carteirinha, que colocam seus interesses ideológicos a frente dos interesses brasileiros. È hora de aguardar. Identificar quais pontos da estrutura política da superpotencia aonde podemos agir é mais inteligente do que o confronto com derrota certa, dada a desproporção de forças. O Presidente precisa substituir urgente tais conselheiros por outros que não usem "antolhos ideológicos" e pensem no interesse brasileiro e não no do seu partido político.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008 10:34:00 BRST  
Anonymous Artur Araujo disse...

Caríssimo Alon, sua obsessão - de viés equivocado - com o etanol ainda vira dipsomania. :>)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008 11:22:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Artur, não se trata de obsessão, mas de persistência. Fui ao dicionário e descobri que não corro o risco da dipsomania. Ufa! Sem brincadeira, esse debate sobre o etanol é muito agradável. Principalmente quando se está do lado que vai sair vitorioso.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008 11:31:00 BRST  
Blogger Richard disse...

Caro Alon, como já afirmei em outros comentários, a estratégia para o etanol brasileiro seria colocá-lo como "fato consumado". A melhor opção, um padrão escolhido por conveniência do mercado, como o VHS sobre o Betamax, o GSM sobre o CDMA, o dólar sobre o ouro etc.
Claro que depende, e muito, da importância econômica do agente (pais, empresa etc) que "impõe" tal padrão. É difícil, mas não impossível!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008 11:39:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Partir para encurralar o presidente eleito de uma superpotência, prestes a assumir o cargo, não parece ser coisa de um bom maestro. A orquestra pode desafinar e sobrar para alguém pedir desculpas à platéia e recolher os instrumentos.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008 17:16:00 BRST  
Anonymous idelber disse...

Caro Alon, gostei muito da sua primeira frase. Do artigo todo, mas a primeira frase assinala algo que ninguém havia notado. A propósito, achei que Morales mandou mal na Bahia ao falar em ultimato a Obama. Um país que não está exatamente numa posição de força, como a Bolívia, não devia fazer política externa dando ultimatos. Um abraço.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008 17:53:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Se antes lula adulava bush era por perseguir interesses brasileiros. Se agora ataca Obama eh pela mesma razao: interesses brasileiros. Isto prova que Primeiro: nao somos anti-americanos.
Depois, se George Bush nos negligenciou por estar ocupado demais com a "segurança", Iraq etc.
Agora vamos ser negligenciados por
Obama se preocupar demais com seu
desastre economico domestico.
Ha uma diferença gritante: somos agora bem mais fortes e temos
4 coisasde ke não dispunhamos antes: etanol, petroleo, liderança regional e uma certa blindagem economica - cartas do jogo que podemos manter. Obama pode tudo isso de forma semelhante?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008 19:41:00 BRST  

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