sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A lógica que me escapa (05/12)

Concentrar-se agora na reforma tributária é como se preocupar com o colesterol de um paciente que chega ao pronto-socorro em parada cárdio-respiratória. Ora, primeiro é preciso salvar a vida. Depois é que deve vir a preocupação com o colesterol alto

A velha máxima segundo a qual tudo dá certo no fim traz consigo um corolário: se a coisa ainda não deu certo, é só porque não chegou no fim. A crer nessa lei geral, a confusão em torno da eleição para a Presidência do Senado, com o risco de contaminação da Câmara, só parece confusa porque resta muito tempo para ser resolvida. Será?

Reunido na quarta-feira, o PMDB senatorial decidiu que terá candidato à cadeira que Garibaldi Alves (PMDB-RN) herdou na desgraça de Renan Calheiros (PMDB-AL). Há duas interpretações possíveis. O partido vai mesmo disputar a vaga. Ou não vai disputar. Neste segundo cenário, a decisão unânime dos senadores seria só uma maneira de conduzir elegantemente o navio até o atracadouro onde repousa o barco de Tião Viana (PT-AC), já firmemente ancorado ao lado da nau tucana.

De quem vai depender o desfecho? De José Sarney. E o desenho agora ficou bom para o ex-presidente da República, pois os movimentos palacianos e petistas pró-Tião levaram pelo jeito a um contramovimento, liderado por Renan. Que deu uma de Napoleão: deixou para trás sua Elba e agora quer marchar sobre a Paris de Luiz Inácio Lula da Silva. Se a marcha de Renan der certo, é Sarney quem vai para o trono. Se der errado, Renan vai para Santa Helena.

A sucessão no Senado não é tecida porém só de dúvidas. Há pelo menos uma certeza: o Palácio do Planalto está digamos assim meio atrapalhado, com jeito de quem pode acabar enfiando os pés pelas mãos. Basta olhar para o cenário atual. Há uma candidatura, de Tião, que se costura entre principalmente o PT e o PSDB. E há outra, de Sarney (ou de alguém indicado por ele), que se constrói em oposição à pressão pró-PT vinda do Executivo.

Ou seja, não existe claramente uma linha divisória entre governismo e oposicionismo. Muito menos uma construção que pareça institucional. O que há é o PT manobrando para se aliar a um pedaço da oposição e com isso derrotar aliados incômodos para o PT. É um filme já visto, uma receita já testada e aprovada na eleição de Arlindo Chinaglia (PT-SP) para a Presidência da Câmara dos Deputados em 2007.

E quem conversou recentemente com José Sarney percebeu que ele anda cada vez mais incomodado com essas coisas, com esse trecho do DNA petista, com essa flexibilidade tática que volta e meia resulta em companheiros de viagem lançados ao mar.

Na quarta-feira, o governo teve que desistir de votar a reforma tributária, apesar da insistência de Lula com o assunto. Insistência aliás quase incompreensível. O país está às voltas com uma crise que exige foco no curto prazo, e não no longo prazo. Concentrar-se agora na reforma tributária é como se preocupar com a taxa de colesterol de um paciente que chega ao pronto-socorro em parada cárdio-respiratória. Seria um contra-senso. Primeiro é preciso fazer o coração e o pulmão voltarem a trabalhar. Do colesterol se cuidará depois, quando o paciente tiver sido salvo.

Lula tentou arregimentar votos para a reforma tributária, mas não deu. Em parte por causa da falta de urgência. E tanto não era urgente que a discussão foi adiada sem maiores conseqüências. Mas há também outro aspecto. Não seria natural o presidente da Câmara conduzir o processo político de modo a derrotar o governador de São Paulo, que lhe deu em fevereiro de 2007 os votos decisivos para conquistar a cadeira. Não seria razoável. Não é assim que a política funciona.

Se tudo sair como o governo deseja, teremos nos próximos dois anos um presidente da Câmara que mantém e cultiva laços históricos com a oposição e um presidente do Senado que vai dever sua vitória ao apoio recebido do PSDB. Assim, Lula terá conseguido montar para si próprio um cenário em que precisará pedir licença aos adversários quando eventualmente desejar aprovar qualquer coisa importante no Legislativo. Como aconteceu agora com a reforma tributária. Já se tudo der errado, os próximos presidentes no Congresso serão políticos que desafiaram o Planalto para se eleger. Deve haver alguma lógica na estratégia palaciana. Mas até o momento ela, a lógica, me escapa. Infelizmente.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

http://twitter.com/alonfe

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2 Comentários:

Anonymous Paulo Araújo disse...

Alon

"não existe claramente uma linha divisória entre governismo e oposicionismo (...) O que há é o PT manobrando para se aliar a um pedaço da oposição e com isso derrotar aliados incômodos para o PT".

Faltou explicitar na análise que a manobra se dá em via de mão de dupla.

Concordo que é cada vez mais evidente a reaproximação tática entre os primos. E não seria esta a lógica que comanda as atuais articulações entre PT e PSDB, isto é, a lógica da fatal reaproximação dos primos PT e PSDB?

Já o grau de parentesco do Aécio com o PT me parece não se comprovar. Os primos petistas mineiros (sobretudo, os remanescentes da velha AP), implodiram a aliança Aécio/Pimentel, com a inestimável ajuda da Executiva Nacional. Os insistentes convites para que Aécio retorne ao ninho são evidência para o grau de parentesco do governador de MG com o velho PMDB.

Dá uma olhada naquela entrevista do Patrus que você publicou no blog.

Sobre o incomodo do Sarney

"José Sarney percebeu que ele anda cada vez mais incomodado com essas coisas, com esse trecho do DNA petista, com essa flexibilidade tática que volta e meia resulta em companheiros de viagem lançados ao mar"

O Sarney dizer-se incomodado com "essa flexibilidade tática" que lança antigos companheiros ao mar é de morrer de rir. Principalmente, tendo em consideração os históricos da profunda "coerência" política do senador do Amapá e do seu partido, o PMDB, que é uma verdadeira federação de oligarcas.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008 15:25:00 BRST  
Anonymous Artur Araujo disse...

Ora, Paulo, trazer a AP ao debate é mexer com meus brios! :>)
Quanto ao Sarney, sim, ele se incomoda em muito com flexibilidades táticas (alheias) e lançamentos ao mar (de si ou dos seus).
A tese dos primos, muito presente em debates internos do PT, é ilusória, menos por divergências programáticas de setores petistas minoritários com o tucanato e muito mais por força das leis da física: congestionamento de espaços políticos, principalmente regionais.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008 21:43:00 BRST  

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