sábado, 20 de dezembro de 2008

A importância de Temer. E uma pergunta para Lula (20/12)

Um comentarista ficou espantado outro dia quando eu afirmei que Luiz Inácio Lula da Silva é um Robinho da política. Um grande driblador. Perguntou se era a sério, ou se eu estava ironizando. Foi a sério. Muito a sério. Ontem Lula deu mais uma de suas pedaladas. Foi quando teorizou sobre como ex-presidentes devem afastar qualquer ambição política, recusando-se, por exemplo, a disputar e ocupar novos cargos de poder. A turma interpretou como recado ao senador José Sarney (PMDB-AP). Que resiste a se dobrar à candidatura Tião Viana (PT-AC), o nome de Lula para o comando do Senado. Vejam só o que é a vida. E o que é a política. A então senadora Heloísa Helena começou a ser expulsa do PT quando se recusou a votar em Sarney para presidente do Senado em 2003. Sarney era o candidato de Lula, recém-empossado no Planalto. E Sarney já era um ex-presidente da República. Dado que Lula queria o senador pelo Amapá na cadeira, não achou ruim na época que ele, um ex-presidente da República, fosse para a briga. É pouco? Pois um tempinho depois Lula entrou com tudo na operação para aprovar a emenda constitucional que permitiria a reeleição dos presidentes das Casas do Congresso no meio da legislatura. Na época, os candidatos de Lula (à reeleição) eram João Paulo Cunha (PT-SP) na Câmara dos Deputados e José Sarney no Senado. Ali, Lula não só não achava ruim Sarney brigar para continuar no cargo como trabalhou ativamente para isso. Mas não deu, a emenda não passou. Graças à resistência de Renan Calheiros (PMDB-AL), que queria a cadeira de presidente do Senado. Depois Lula deu o troco em Renan, estimulando o PT tirar o chão do alagoano quando este mais precisava, na crise que culminou com sua renúncia ao comando da Câmara Alta. Assim como Lula já tinha dado o troco num aliado de Renan, o deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), cuja reeleição à Presidência da Casa foi barrada pelo PT, aliado aos adversários de Renan e Sarney no PMDB. Ah, sim, Aldo tivera o apoio de Lula e do Planalto para conquistar um mandato-tampão após a renúncia de Severino Cavalcanti (PP-PE). Mas ali tinha sido outra coisa: tratava-se de evitar que fosse adiante um eventual processo de impeachment contra o presidente da República, por causa da crise desencadeada pelas acusações de Roberto Jefferson. Acolher um pedido de impeachment e dar sequência a ele é decisão monocrática, solitária do presidente da Câmara dos Deputados. Alguém duvida de que o candidato derrotado na sucessão de Severino, José Thomaz Nonô (PFL-AL), abriria o processo se tivesse a caneta na mão? Nem que fosse só por causa do caixa 2 de Duda Mendonça? Eu não duvido. Mas agora Lula não quer mais Sarney, quer Tião. Por quê? Porque Tião está com Dilma Rousseff, candidata de Lula à sucessão. E Sarney tem simpatias pelo nome de Aécio Neves, coisa que o presidente da República sabe. Então agora Sarney, que no passado foi o peão de Lula para obter o controle do Senado, recebe todo tipo de recado para cair fora. Inclusive na forma de teses sobre o necessário jejum político de ex-presidentes da República. Você quer ser capaz de fazer boas análises sobre os movimentos de Lula? Parta sempre de duas premissas. A primeira: Lula é PT, o mesmo tanto que o PT é Lula. A segunda: todos os movimentos do presidente desde a reeleição guiam-se pelo projeto de eleger o sucessor. Eu compreendi isso na plenitude no dia em que sentei diante do computador para escrever No comando da própria sucessão, um post de março de 2007 que fez algum sucesso. Voltando às duas premissas, na verdade elas podem ser lidas como uma só. Lula acorda e vai dormir pensando em como eleger alguém do PT afinado com ele para a sua cadeira. Alguém que não mexa com o sistema de poder instalado no palácio. Daí os limites colocados diante do ministro da Justiça, Tarso Genro. Por isso as dificuldades do bloco de esquerda (PSB-PCdoB-PDT-PMN-PRB), cujos ensaios de projeto próprio são vistos com desconfiança e nervosismo pelo Planalto e pelo PT. O jogo é complexo, dado que tampouco o PT e o governo podem comer apenas pela mão do PMDB, por razões óbvias. Daí que ciclicamente o PT trate de relembrar o caráter supostamente estratégico da aliança com os demais partidos de esquerda. Até porque um cenário de disputa em 2010 entre José Serra (PSDB-DEM), Dilma (PT-PMDB) e Ciro Gomes (Bloco de Esquerda) acabar numa boa, pelas contas do Planalto. Já que Ciro naturalmente tenderia a migrar para Dilma num eventual segundo turno dela contra Serra. Então o PT precisa do bloco (assim como precisa de Heloísa Helena candidata pelo PSOL), mas desde que não muito forte, desde que não capaz de passar a perna no PT. Como Eduardo Campos (PSB) passou, quando se elegeu, com o apoio do PT, governador de Pernambuco em 2006 depois de tirar o PT do segundo turno. Ainda sobre a sucessão no Legislativo, outro craque de bola é Michel Temer (PMDB-SP). A eleição dele à Presidência da Câmara passou a ser essencial para Lula. Por causa do papel estratégico da Presidência da Câmara? Não, por causa do papel estratégico da Presidência do PMDB. Temer não é confiável para Lula, que precisa de alguém confiável na Presidência do PMDB em 2010. É a luta pelo cartório, pela legenda, pelo tempo de televisão. E para evitar que o PSDB coloque a mão nesses tesouros. Lula quer Temer, cujo PMDB apoiou Serra na eleição municipal deste ano na capital paulista, longe da Presidência do PMDB na hora em que a sigla for decidir 2010. Um candidato de Lula a presidente do PMDB é Romero Jucá (RR), líder do governo no Senado. E Temer já garantiu a Lula que se ganhar na Câmara cede o comando do partido para Jucá, ou para outro nome indicado por Lula. Uma garantia de que o PMDB irá em 2010 para onde Lula quiser. Para o colo de Dilma. Um desenho perfeito. No qual Tião Viana teria o papel de equilibrar o jogo com Temer. Como Arlindo Chinaglia equilibra com Garibaldi Alves. Mas e a pergunta no título deste post? Lula disse que as muitas candidaturas na Câmara dos Deputados podem levar a um novo Severino Cavalcanti. Infelizmente eu não estava na hora em que o presidente disse isso. Porque eu teria tentado esclarecer a dúvida na hora. Eu fiquei curioso com uma coisa. Eu tenho uma pergunta para Lula. Os candidatos alternativos à Presidência da Câmara dos Deputados são Ciro Nogueira (PP-PI), Aldo Rebelo e Osmar Serraglio (PMDB-PR). Qual deles, segundo o presidente, tem mais o perfil de um novo Severino Cavalcanti? Para concluir, meu muito obrigado ao comentarista que, neste blog, alertou para a importância da disputa pela Presidência do PMDB. Por isso é que blog é bom. É a inteligência coletiva ajudando a superar as limitações individuais. Lembram quando eu disse que alguma coisa podia estar me escapando?

http://twitter.com/alonfe

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

5 Comentários:

Anonymous Oda Nobunaga disse...

Penso que a alfinetada do Lula foi para o FHC. Ele ouviu isso do ex-presidente Clinton, quando o próprio Lula o indagou sobre o seu silêncio com os rumos da administração Bush. Quanto à briga pelo apoio do PMDB, isso só acontece porque aqui no Brasil não existem partidos sólidos. No dia em que a mídia funcionar como deveria, ou seja informar corretamente, com isenção total, deixando para o público formar a sua opinião, não teremos mais esse jogo rasteiro na política...

domingo, 21 de dezembro de 2008 02:55:00 BRST  
Anonymous the talk of the town disse...

Pois é. O jogo está se desenhando claramente. A votação do FSB (Fundo Soberano) mostrou isso.

A oposição não está nem ai se os eleitores vão enxerga-los como pertencentes do Qto pior Melhor. Não querem é dar mais bala na agulha pra ações anti-ciclicas da Dilma e cia (cia = Mantega, Nelson, Bernardo, tá todo mundo no mesmo projeto, menos o Henrique Meirelles, que acho levou a serio a idéia que pode ser candidato a presidente e abandonou as articulações pro Governo de Goiás. Um erro fatal.)

Voltando. A midia é meio histerica por natureza. E tenta rachar o PMDB a forceps. Isso não vai acontecer. O PMDB é rachado pro natureza. Mas vai continuar junto como PMDB. E com mais senadores ainda, pelo que parece. Cada um já escolheu um lado pra jogar o jogo. Poucos vão mudar antes das eleições. O Serra tem o PMDB paulista. Isso está garantido, e diga-se de passagem não é pouco. No Sul? Improvavel que consiga o Paraná. Mas o RS e SC talvez. No resto do Pais esqueça, ninguém vai trocar as verbas de um ano por algo que eles tem certeza que vão conseguir de qualquer jeito, salvo uma ou outra exceção (tarefa de casa pra vc, montar o mapa do PMDB Nacional vs Eleições 2010). Um exemplo? Temer? Geddel? Todos vao estar seja com Dilma, seja com o Serra. Mas agora? Estão com Lula.

Por isso a presidencia do PMDB é importante. Mais que o Senado em si. Permite uma estabilidade nesse cenário. E estabilidade num ambiente de mudanças criticas como o que vai ser encontrado nas eleições.

Outro detalhe é a avaliação que a presença de Ciro e HH na cedula é derrota das esquerdas e do PT. Muito pelo contrario. E a garantia de 2º turno. Eles são o nosso Garotinho de 2010. E faz parte da estrategia não coliga-los.

Abçs,

domingo, 21 de dezembro de 2008 10:25:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

Alon Feuerwerker,
Parece realmente que não escapou nada nessa sua análise.
Para mim, falta, não na sua análise, mas na análise geral que se vê na mídia, alguns itens específicos da política brasileira. Certamente que na minha relação faltará alguns, mas vou apresentar a seguir os que me vêm à cabeça.
O instituto da eleição direta para Presidente da República é um dos grandes trunfos da democracia brasileira, mas foi um importante instrumento para São Paulo voltar a assumir o poder político no Brasil. Embora as empresas paulistas sejam as grandes financiadoras dos parlamentares brasileiros, como a representação no parlamento é mais injusta com o estado mais populoso que por sinal é o mais poderoso economicamente (o que torna a injustiça justa) ficava uma tarefa difícil para as empresas paulistas conseguir um bloco suficientemente grande para proteger os interesses delas. O instituto da eleição direta permitiu São Paulo recuperar o domínio da política que eles exerceram na República Velha.
O instituto da eleição direta para Presidente da República não veio sozinho. Veio junto com o instituto do segundo turno. Com ele parecia assegurado que São Paulo sempre estaria representado no segundo turno. Na eleição solteira de 1989, a disputa no segundo turno foi entre dois nordestinos: Collor e Lula. Embora Collor fosse um puro representante do PSDB nordestino, a disputa entre Collor e Lula não deixou o empresariado paulista tranqüilo. Assim, aproveitando a revisão de 1993, eles conseguiram alterar o período do mandato presidencial fazendo coincidir a eleição de presidente junto com a eleição de governador, impedindo assim que de dez em dez anos tivesse eleição solteira para Presidente da República.
Fizeram, alem da coincidência, um plano econômico, escolheram um professor sem nenhuma aptidão para o cargo de chefe de executivo para ser eleito por esse plano e conseguiram dominar completamente as eleições para presidente da República. A partir daí a disputa eleitoral se faz entre dois candidatos de São Paulo: FHC e Lula. Lula e Serra e Alckmin e Lula. A brincadeira com a candidatura Lula dizendo que ele é nordestino e depois que ele é paulista não refete a realidade e dela se distancia ainda mais se se considera que em 1989, Lula estava embalado pelas correntes radicais paulistas, posteriormente, embora mais a partir de 2002, ele assume um perfil de defesa dos interesses do nordeste em detrimento dos interesses de São Paulo
Não sendo tudo isso suficiente, as empresas paulistas do lobby político conseguiram em 1997 aprovar a emenda da reeleição. Bem, nesse caso não posso dizer que não se falou na mídia, pois houve quem equiparasse (Barbosa Lima Sobrinho no Jornal do Brasil e Calos Lindenberger no jornal Hoje em Dia em MG) a emenda da reeleição ao fato da candidatura de Júlio Prestes bancada pelo Washington Luiz ter desencandeado a Revolução de 30.
A emenda da reeleição reforçou tanto o poder paulista que, em 2002, FHC conseguiu transformar em candidato com chances para ganhar a eleição para Presidente da República alguém da cozinha dele: o José Serra (Há aqueles que falam da divergência na condução da política econômica entre José Serra e FHC, mas isso é de somenos quando se sabe que FHC não conduziu nada em matéria de política econômica. A realidade é José Serra é da cozinha de FHC, muito mais do que Júlio Prestes era da cozinha de Washington Luiz).
Bem, que eu me lembre ainda há quatro pontos não muito abordados pela mídia. Esse domínio paulista precisa evitar que um aventureiro como o Collor possa ganhar a presidência da República. Como os aventureiros têm de vir por partido grande tratou-se de fazer os partidos grandes serem administrados por paulista e na falta de um paulista alguém de completo controle deles. Assim os dois aventureiros que surgiram Ciro Gomes em 2002 e Garotinho em 2006 foram eliminados. O Ciro pela campanha forte de José Serra que quase o tirava do segundo turno em 2002, pela reação normal de um eleitorado que vê o cadidato desse eleitorado ser destruído por outro candidato, e Garotinho pela campanha forte do PT para o impedir de se candidatar em 2006.
Aventureiro aqui se entende a pessoa carismática. Carisma é da essência dos regimes democráticos. Foi com carisma que Bush ganhou a eleição de Albert Gore que não tinha nenhum, mas tinha a economia americana se encontrando no melhor momento de pujança em toda a história dela. A esquerda não tem carisma, salvo Lula que além do carisma possui duas qualidades importantes: é flexível e é pessoa de ação. Não conhecendo os fundamentos da economia Lula nunca assumiu uma posição intransigente. Em junho de 2003, um colega não satisfeito com os rumos que o governo Lula estava tomando me explicou que na ficha de Lula da época da ditadura os militares tinham colocado que ele era medroso e influenciável. Eu sou medroso e influenciável e para me valorizar considero isso uma qualidade fruto da inteligência. São demais os perigos dessa vida para não se ser medroso e para quem acredita na evolução da humanidade pela aquisição do conhecimento e como eu nada produzi desse conhecimento é bom que eu seja influenciado pelo conhecimento dos outros. E a outra qualidade de Lula é ser homem de ação fruto da experiência como presidente de um sindicato. FHC também não é intransigente, mas ele não conduzia nada e a economia brasileira acabou sendo dominada nos seus feudos pelas pessoas que tinham capacidade de ação, como Gustavo Franco, Everardo Maciel.
Sem carisma, a esquerda fará um prodígio se conseguir levar para um segundo turno em 2010 uma disputa entre Dilma Rousseff e José Serra. Essa habilidade de a esquerda ter o apoio do empresariado paulista, das redes de comunicação para fazer a disputa ocorrer entre dois candidatos dela, sem nenhum carisma é a grande obra de engenharia que a esquerda está conseguindo realizar e pode-se dizer que isso ela faz isso desde 1994. A obra de engenharia é ainda maior quando ela requer que se controle grupos radicais de direita e isso se faz ao ponto de a direita ter em José Serra a grande esperança branca.
Essa notável obra de engenharia teve uma conseqüência partidária importante: levou o PSDB a crescer cada vez mais como um partido de direita. E há também uma importante conseqüência política: tornar São Paulo cada vez mais antagonizado pelo restante da população brasileira
Clever Mendes de Oliveira
BH, 21/12/2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008 01:55:00 BRST  
Anonymous the talk of the town disse...

Clever,

Deveras. Não concordo com alguns pontos da sua analise.

Mas admito que um post especifico pra analisar e, principalmente, contemporanizar a ação da elite paulista nas eleições brasileiras do pós-ditadura, se faz urgente.

Principalmente, qdo se enxerga os níveis de desigualdade social e do desenvolvimento no Brasil em contraponto ao papel eleitoral do nordeste nesse jogo de poderes.

Seria então, as mudanças nas regras eleitorais (verticalização, reeleição, infidelidade partidaria, etc) o ultimo flanco de poder remanescente da elite paulista?

O que acha Alon?

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008 18:33:00 BRST  
Anonymous Clever Mendes de Oliveira disse...

The Talk of the Town,
Agradecido pela atenção e pelo esforço de enfrentar a selva de pedra dos meus escritos.
Parece que o Alon já puxou o fio da meada dessa discussão no último post dele: "Acordo essencial entre PT e PSDB"
Eu não concordo que você discorde de alguns pontos. Essas idéias estão todas na minha cabeça como um script, um roteiro. Trando alguma delas eu não chego a lugar nenhum. É um pouco de brincadeira, mas como diz o ditado, "pobre quando ganha mel se lambuza" e como eu já ganhei a sua leitura gostaria de ver alguns pontos de discordância.
Lendo o texto vi que faltou um complemento na frase que diz "Como os aventureiros têm de vir por partido grande . . . ". O certo seria, Como, com as regras atuais da legislação eleitoral, principalmente em relação à propaganda eleitoral (regras que o empresariado paulista conseguiu emplacar e aqui o lembrete: não é porque foi coisa do empresariado paulista que ele é ruim, mas se deve olhar com mais desconfiança)os aventureiros têm de vir por partido grande.
Outra coisa, o termo empresariado paulista é muito restritivo. Eu estou me referindo a um processo amplo que tem o suporte na empresa de educação superior em São Paulo (A USP no seu cerne), as duas empresas de jornalismo, Folha de São Paulo e Estadão, a Internet que tem uma base muito forte em São Paulo e a OAB/SP e a FIESP.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 22/12/2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008 20:41:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home