sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Faltam os meios para a vitória - Atualizado, com multimídia (26/12)

Barack Obama apareceu seminu em boa forma física e as fotos se espalharam pelo mundo. O efeito simbólico foi imediato: numa crise que exige imensas forças para debelá-la, precisa-se de um líder com energia suficiente para a missão. Milênios de civilização reduzem-se a um verniz fininho: na era da eletrônica e da informação instantânea, a tribo só está em busca de alguém capaz de mantê-la viva. Se, além de inteligência e sabedoria, o sujeito tem também músculos que exibem juventude e força, melhor ainda.

Líderes vivem de resultados, mas também de símbolos. Aliás, símbolos costumam ser essenciais para que líderes alcancem resultados e deixem seu registro na História. Vale também para Luiz Inácio Lula da Silva. Seu governo, como já se escreveu nesta coluna, ficará marcado pela maneira como tiver enfrentado a crise planetária da economia. E até aqui Lula vai bem, ao menos no terreno simbólico: ele é o governante que se recusa a aceitar a derrota, o líder que preparou o país para os tempos difíceis, o dirigente que nos fará atravessar a tempestade com o menor dano possível, desde que todos colaboremos e não paremos de consumir.

A oposição critica Lula por ter dito que o tsunami chegará aqui como uma marolinha, na qual não vai dar nem para surfar. É natural que a oposição ataque o presidente, mas Lula não tinha alternativa fora do otimismo. Winston Churchill pôde dar-se ao luxo de falar em sangue, suor e lágrimas porque era recém-chegado ao poder, porque não era apontado como responsável pelos equívocos que marcaram a política do Reino Unido às vésperas da guerra contra a Alemanha de Adolf Hitler. Estivesse há mais tempo no governo, teria que explicar por que, afinal de contas, os britânicos tinham se metido numa enrascada.

Um exemplo extremo de atitude otimista do líder aconteceu em novembro de 1941, quando os tanques alemães estavam nos subúrbios de Moscou mas mesmo assim Joseph Stalin fez questão de comparecer ao então tradicional desfile militar na Praça Vermelha, em homenagem ao aniversário da Revolução Russa. Quando Stalin e a cúpula soviética apareceram sobre o mausoléu de Vladimir Lênin, deram força à idéia de que o país poderia derrotar a invasão nazista. Se o discurso de Stalin tivesse sido transmitido só pelo rádio, o russo comum certamente pensaria, desconfiado: “Se o cara acreditasse mesmo na vitória, não teria corrido de Moscou". É a sabedoria popular.

Lula, portanto, faz bem uma parte do serviço quando se comunica adequadamente. Mas comunicação não é tudo. Além de símbolos, líderes precisam dar aos liderados meios materiais para alcançar a vitória. Do contrário, o moral da tropa não resiste. Propaganda sozinha não enche barriga. Se a César deve ser dado o que é de César, dele também se exige que cumpra suas obrigações. E o nosso presidente, infelizmente, tem deixado a desejar num aspecto.

Lula pede ao brasileiro que consuma com firmeza, mas não faz a parte dele para garantir que isso aconteça em circunstâncias minimamente seguras. Vejamos. Ou o cidadão consome com dinheiro próprio ou pega emprestado. Dinheiro próprio para o consumo, hoje em dia, só se o sujeito for rico ou tiver estabilidade no emprego. Se Lula deseja que o brasileiro fique firme na guerra do consumo, precisa dar um jeito de fornecer as armas e a munição: crédito abundante e barato. Mas o que se vê é o contrário: cada dia na crise é um dia a mais para os bancos aumentarem sua aversão ao risco, restringindo o volume de crédito e encarecendo os juros. Deu no estadao.com.br:
    A taxa média de juros cobrada nos empréstimos ao consumidor em novembro subiu quase quatro pontos no mês, de 54,9% ao ano para 58,7%, atingindo o maior nível desde março de 2006. No cheque especial, modalidade campeã de juros altos, o juro subiu de 170,8% ao ano para 174,8%. Segundo os dados divulgados nesta terça-feira, 23, pelo Banco Central, o movimento foi determinante para o crescimento do juro médio do crédito livre no País, que atingiu 44,1% no mês passado.
As nossas autoridades gabam-se de que a saúde dos bancos brasileiros vai muito bem. O que é bom. Lamentavelmente, porém, essa saúde se deve em boa parte a uma deformação. Os bancos brasileiros emprestam pouco e mal para os cidadãos e para as empresas. Os bancos no Brasil são um sucesso porque têm lucro garantido emprestando dinheiro para o governo a taxas siderais e cobrando tarifas escorchantes dos clientes. Além dos spreads indecentes. Ou seja, no caso brasileiro os bancos serem saudáveis é um sintoma de que o país está doente.

Por mais bíceps que exiba (sua aprovação já bate em 82%), Obama fracassará se não cuidar da musculatura do mercado de trabalho nos Estados Unidos. Se a União Soviética e os aliados tivessem perdido a guerra contra a Alemanha, a fala de Stalin em novembro de 1941 na Praça Vermelha teria ficado como uma caricatura para a posteridade, do modo que são vistos hoje os discursos de Hitler nos últimos dias. E o “sangue, suor e lágrimas” de Churchill estaria relegado aos arquivos. A história é escrita pelos vencedores. Quanto a Lula, seu cálculo político pré-crise embutia a idéia de que ele e os bancos poderiam chegar juntos à glória. Mas os últimos números da economia mostram que essa possibilidade subiu no telhado.

Publicado originalmente como uma coluna (Nas entrelinhas) na edição de hoje do Correio Braziliense. http://twitter.com/alonfe

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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

O problema da análise é desconsiderar o ambiente anterior e as políticas então adotadas. Excessivos gastos de custeio, despesas com juros inexplicavelmente altas e também desnecessárias que tiveram dois efeitos deletérios: redução do ritmo de redução da relação divida/pib e valorização excessiva do real.
Os bancos não ficaram esses 6 anos fazendo o bem e, de repente, se tornaram maus. Eles estão fazendo o mesmo que faziam antes e sob a vista grossa do governo.
O problema agora é que o boom das commoditites acabou. é aquela estória: na conjuntura anterior, era como jogar contra um time com cinco expulsos e sem goleiro. Podia até jogar mal que ganhava de goleada.
Não se deve confundir fortuna com virtu.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008 18:13:00 BRST  
Anonymous Luca disse...

Todos os que mantem liquidez no momento que falta crédito na economia mundial ganham muito dinheiro, sejam banqueiros ou empresários de qualquer setor. Ninguém que tem dinheiro na mão quer correr risco e é natural que assim seja nesta hora. É consequencia de um raciocínio econômico básico, que dispensa uma análise nais profunda. Uma consequêcia destas crises é a concentração de riqueza em todos os setores. Quem sobrou líquido, compra os concorrentes na bacia das almas. Não há o que se possa fazer a respeito dentro das regras capitalistas de um mundo globalizado. Sobrevive melhor o mais apto.
Com os paises acontece algo semelhante. O Brasil esta em situação algo melhor hoje, fruto de uma gestão conservadora deste Governo na área econômica. Tem boas reservas numa fase onde outros devem alto. Duvido muito que Lula vá mexer nisto agora.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008 22:00:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Pelo que entendi,os sabotadores do plano de salvação nacional "contra-a-crise -que- se- agiganta",são os bancos e agentes finaceiros.
Então, estatizemos os sistema bancário, e seremos felizes para sempre.
PS.: Estatizar o B C ,também...

sábado, 27 de dezembro de 2008 13:01:00 BRST  
Anonymous the talk of the town disse...

Mesmo com tamanha incompetencia da tal divida publica tah quase 30% do pib comparados aos quase 60% de antes.

Economistas de quinta olham o avanço dos preços dos bens lá fora, mas nao observam os avanços na renda e salario. E a guinada ANTES da crise pro mercado interno.

Gostaria que toda vez que alguem falasse em "custeio" me dissesse aonde cortar, e principalmente qto. Na verdade vcs leem isso nos jornaloes e repetem.

Tb nao observam a "virtu" (rs) da diversificação do perfil exportador.

E bater de frente com as elites desse pais, muita gente enche a boca, queria ver sentar lá e fazer.

O Alon é bom de historia, mas as vezes é excessivamente seletivo.

Pra começar a conversa ele deveria me dizer como botar pressao nos bancões com uma divida acima de 30% e de curto prazo (por MAIS que o perfil tenha melhorado no Governo Lula).

domingo, 28 de dezembro de 2008 16:32:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Talk of the town. Parece que a tônica do blog é a humildade. Economistas de quinta... parcos conhecimentos matemáticos... Aqui só dá sabichão...Vamos lá.

É falso dizer que a relação dívida/pib variou de 60% para 30% no período. O componente cambial dos passivos/ativos do governo fez com que a relação dívida pib apresntasse pico (2002/2003) e vale
(2008) pouco representativos, pois dependem da volatilidade do câmbio e, no longo prazo, fazem pouco sentido.
Vejo que você é muito sabido, mas mesmo assim vou esmiuçar esse ponto: Na atual conjuntura, por exemplo, você acha que o governo vai acabar com o estoque das reservas vendendo-as no mercado à vista e apurando "lucro"? ou vai perder dinheiro no swap cambial? A resposta eu não vou dar, você vai ter que pensar um pouquinho.
Desse modo, fora a variação cambial (em parte provocada pelo medo do discurso de 20 anos do próprio Lula e do PT), a variação prá baixo da relação dívida/PIB foi de uns 10%, resultado medíocre, quando se considera superávits primários da ordem de 4,5% ao ano durante seis anos e de crescimento médio superior a 3%.
Como você é muito sabido, deve saber para onde foi o dinheiro.
Claro, foi para o Bolsa Família...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008 11:12:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Economistas de quinta? Quem são? Parcos conhecimentos matemáticos? Onde? Caro anônimo, ajude-nos a superar as nossas limitações, assim como as limitações das nossas referências. Permita-nos acessar a sua sabedoria. Não nos sonegue essa preciosidade. Ela é rica demais e valiosa demais para ser fruida apenas e tão somente por você.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008 13:02:00 BRST  
Anonymous the talk of the town disse...

É falso dizer q a gestão da divida entre os periodos é não é nitida. Enquanto um Governo acredita piamente na poupança externa. Outro eliminou totalmente a parte "dolarizada" da divida. Nao por acaso é o fato mais importante na mudança no perfil da divida, e a razão de uma certa normalidade nesse assunto. Outro é o alongamento da divida, claro, sem tumulto, pagando (caro) ao mercado financeiro a troca dos titulos. Muito diferente do que o PT dizia antes. Isso se chama conciliação, levada ao extremo por Lula.

É falso dizer que o pico da relação divida/pib se deu nas vesperas da eleição do Lula. Ela cresceu com a incorporaçao dos esqueletos (cerca de 140 bilhoes) e o restante (quase 500 bi) foi fermentado com juros estratosfericos a fim de manter uma paridade cambial surreal. Mas vale tudo pra vencer as eleições. Mas eu achava que esse discurso patetico tinha sido soterrado nas eleições passadas.

Sobre o chamado "risco PT", economistas sabichões como vc, vendem a ideia unica que o medo de que o PT assumir seria a unica causa do descontrole cambial e a consequente explosao inflacionaria que o FHC entregou na passagem do bastao para o Lula. Economistas de verdade, olham a gestao da taxa de juros no ano das eleições e nao conseguem entender pq os juros cairam no 1º semestre (mas ate ai tudo bem, afinal vale tudo para se vencer as eleições, não é?), agora pq o BC ficou 4 meses com a taxa estavel e só resolveu aumenta-la qdo viu que o Serra nao iria ganhar, é o que me deixa curioso. Afinal, economista, esse tipo de gestão da politica monetaria nao causou nenhum tipo de consequencia ao descontrole inflacionario posterior? Mas é mais facil criar o mito do "risco PT". Mas não se engane, agora é a vez do PT criar o "risco Serra".

Sobre a politica cambial do BC. Bem, se tem um local que não mudou de mãos foi esse ai. Seja com FHHC, seja com Lula. Ninguem teve coragem pra mexer nessa area. Parece que quem tem que pensar um pouquinho é vc, que ainda acredita num maniqueismo bobinho, achando que a mudança de Governo mudaria a politica de maximizar os lucros das elites financeiras e bancarias e socializar os prejuizos sociais decorrentes da mesma. Nao foi com o Lula, nao foi com o FHC e nao vai ser com o Serra.

Agora vc falou, falou, mas nao me disse aonde cortar nos gastos de custeio. Diversionismo, é a tatica. Só que isso não engana mais ninguem. Ah, vc nao fala, mas te ajudo, Bolsa-Familia é só 8 bi. Qto gastamos de juros mesmo? Se tem um gasto que essa elite não esquenta é com o Bolsa-Familia, se 8 bi é preço pro povão me deixar em paz. Pay the price.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008 13:50:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Vejo que o colega Talk of the Town dá muita volta. Contra fatos não há argumentos. Os dados estão aqui:

https://www3.bcb.gov.br/sgspub/consultarvalores/consultarValoresSeries.do?method=getPagina

Como se vê, excluindo os extremos (causados por explosões de passivos cambiais e valorizações abruptas de ativos cambiais) a queda na relação dívida/pib no período 2002/2008 foi de aproximadamente 10%.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008 19:23:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Bom, Alon.
Como você não publicou meus esclarecimentos, imagino que talvez não tenha recebido meu comentário. A expressão "economistas de quinta" foi colocada pelo "humilde" participante Talk of the Town em comentário anterior neste mesmo post.
A referência a desconhecimento de matemática foi feita por você há duas semanas, a propósito de comentário meu.
Espero que você receba este comentário com meus esclarecimentos.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008 23:12:00 BRST  

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