segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Exercícios numéricos e um argumento de bandeja para os que criticam a privatização da Vale (08/12)

O presidente da República quis saber da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), a hoje simpática "Vale", por que ela anda demitindo gente. Presidente, a Vale é uma empresa privada e por isso não lhe deve satisfações sobre o que faz para tocar os negócios dela na crise. Se fosse estatal, não poderia demitir. Como é privada, pode. "Privada" no sentido brasileiro, é claro. Nos Estados Unidos, "private" é a empresa de capital fechado. Se tiver ações em bolsa, é "public". Essas discussões sobre a Vale e a Petrobrás me animaram a fazer algumas contas. Fui lá na bloomberg.com. Cliquei em Market Data >> Stocks e vi o gráfico do Ibovespa nas últimas 52 semanas:

Não chega a ser animador. A coisa anda feia desde meados do ano. Acho que você já percebeu: os executivos que foram "surpreendidos" pela crise estavam na verdade cuidando mais dos seus bônus de fim de ano do que do interesse dos acionistas. Mas eu continuei fuçando no ótimo site bloomberg.com. E fui olhar o gráfico da Vale (linha preta), comparado com o da Bovespa (linha verde):

A coisa tampouco anda boa para a Vale. Note que a curva da ação (VALE5:BZ) dança no mesmo ritmo do Ibovespa, mas ligeiramente abaixo. A tabela seguinte, da mesma fonte, traz alguns dados importantes:

A Vale valia hoje (Market Cap), na hora em que olhei, quase 134 bilhões de reais. A ação subia mais de 8%, custando pouco mais de 23 reais. Cerca de 60% abaixo do maior valor (59 reais) no período. Guarde o número (60%). Agora vamos à Petrobrás (PETR4:BZ). Eis o gráfico comparativo com o Ibovespa:

Aqui a Petrobrás parece estar melhor que a Vale. A ação (linha preta) também dança no mesmo ritmo de queda, mas neste caso ligeiramente acima do Ibovespa (linha verde). Vamos à tabela da Petrobrás:

A Petrobrás valia hoje, na hora em que olhei, quase 195 bilhões de reais. A ação subia mais de 10%, custando pouco mais de 20 reais. Cerca de 63% abaixo do máximo (54 reais). Guarde esse número (63%). Se eu não errei nas contas (se eu errei, você vai me corrigir), os gráficos e os números mostram que ambas (Vale e Petrobrás) dançam mais ou menos conforme o Ibovespa. Você pode dizer, claro, que é o contrário, é o Ibovespa quem dança conforme as duas, mas o importante neste caso é que ambas dançam mais ou menos a mesma música. E, atenção, ambas têm uma perda muito parecida em relação ao maior valor da ação nas últimas 52 semanas: cerca de 60%. Ou seja, num período relativamente largo (e com grandes variações de preço, o que facilita a análise) o mercado enxergou as duas empresas de maneira muito parecida. Ou seja, o principal valor de ambas deve estar em algo que elas têm em comum. Lógico. A Petrobrás vale essencialmente o petróleo que ela pode explorar e vender. Ou seja, o petróleo que Deus colocou embaixo do Brasil. E a Vale deve seu preço essencialmente aos minérios que ela pode extrair e vender. Ou seja, aos minérios que Deus colocou embaixo do Brasil. Petróleo e minérios cujos preços rolam, aliás, ladeira abaixo. Assim como as ações das duas. Então, meus amigos, o mercado parece não estar nem aí para o fato de a Petrobrás ser estatal e a Vale, privada. Em outras palavras, o management privado não agrega valor significativo à Vale. Ou seja, a turma que reclama do preço de venda da Vale na privatização tem um ponto a seu favor, pois sempre disseram que o valor da empresa deveria levar em conta principalmente as reservas minerais, e não a hipotética desvantagem decorrente de ela ser estatal. Leia mais:

Uma proposta para a Vale

Capitalismo de ouvir falar

O saldo das privatizações

O princípio da precaução e a Vale do Rio Doce

http://twitter.com/alonfe

Clique aqui para assinar gratuitamente este blog.

Para mandar um email ao editor do blog, clique aqui.

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo.

6 Comentários:

Blogger Laguardia disse...

Alon

Alguns comentários sobre o seu post.

1) Como se pode dizer que a Vale é uma empresa privada se a maioria de suas ações é controlada pela Valepar, que por sua vez é da Previ do Banco do Brasil?

2) A Vale depois de "privatizada" tornou-se a segunda maior mineradora do mundo. Maior do que ela só a PHP.

3) Você não pode comparar alhos com bugalhos. A Petrobrás importa petróleo de um tipo e exposta de outro. Petróleo serve para uma coisa e minério de ferro para outra.

4) A Vale exporta minério de ferro principalmente. O fato do mercado estar bom para Petróleo não significa que vai estar bom para Minério de Ferro.

5) Depois de "privatizada" as ações da Vale aumentaram muito mais do que as da Petrobrás no mesmo período.

6) Portanto, se o valor das ações das duas empresas tiveram uma redução percentual semelhante, isto significa que no mesmo período a valorização das ações da Vale ainda fvoram maiores do que as da Petrobrás.

7) Portanto, mesmo com uma privatização fajuta, a Vale teve um desempenho bem melhor do que o da Petrobrás.

8) Não se esqueça dos grandes investimentos da Vale ne3ste período com a compra da Ferteco, que era uma mineradora Alemã, da Samitri que era uma mineradora Luxemburquesa e da Samarco, uma associação da Samitri com a BHP, sem falar na MBR ou melhor do Grupo CAEMI que era a maior mineradora privada de ferro no Brasil.

9) Portanto neste período de pseudo privatização a Vale fez muito mais para nacionalizar o capital do que a Petrobrás.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008 23:08:00 BRST  
Anonymous Luca disse...

Quanto á discussão sobre a privatização do controle acionário da Vale, cabe lembrar que foi feita dentro da legislação vigente. Todas as ações que foram abertas no Judiciário contra, antes, durante e depois da privatização, não prosperaram.

Já a reestatização proposta por alguns é uma tese interessante. A discussão é sobre a forma de se conduzir esta idéia. Há quem proponha que o negócio seja feito (ou desfeito) a valores da época. Não creio que esta forma tenha a mais remota viabilidade legal. A outra seria pagar aos acionistas o valor de mercado de hoje. Neste caso, qual o seria o ganho para o Brasil?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008 09:15:00 BRST  
Blogger Laguardia disse...

Luca

Respondendo a sua pergunta. Qual seria o ganho para o Brasil da reestatização da Vale?

Que reestatização se a Vale pertence ao uma estatal, a PREVI?

Mesmo que fosse de uma empresa privada, o que a Vale agregou de valor ao seu patrimônio desde que foi vendida a Previ é surpreendente. Comprou a Inco, empresa canadense, comprou a CAEMI, empresa de capital nacional que tinha uma das maiores mineradoras do Brasil, a MBR, comprou a Ferteco do grupo aqlemão Tissen. Só para mencionar estas poucas empresas. Há mais.

A Vale se tornou a segunda maior mineradora do mundo depois da BHP.

O Brasil só ganhou depois da venda da CVRD para a Previ e a privatização da sua administração.

Por que retroceder agora? Depois de ganhar tanto vamos andar para trás?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008 17:07:00 BRST  
Blogger José Aurélio disse...

Desculpe-me, que postei um comentário sobre a análise da Petrobras e Vale no local errado (sobre a autonomia do BC, etc.).

terça-feira, 9 de dezembro de 2008 20:04:00 BRST  
Blogger Ricardo disse...

LaGuardia tem razão. Pegou-se um momento em que as quedas foram generalizadas (ou seja, o último ano) e não um período mais longo (que realmente verificasse a atuação individual das empresas). Nisso, a Vale dá um pau na Petrobrás.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008 02:21:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A propósito, a União Federal possui ações classe especial, golden shares, na Vale:

Golden Share

As ações preferenciais de classe especial, golden shares, devem ser obrigatoriamente de titularidade da União Federal.

O detentor das ações preferenciais de classe especial tem os mesmos direitos (incluindo àqueles relativos a voto e preferências de dividendo) dos detentores de ações preferenciais Classe A.

Adicionalmente, o detentor das ações preferenciais de classe especial tem o direito de vetar quaisquer propostas em relação aos seguintes assuntos:

1. alteração de nossa denominação social;

2. mudança de nossa sede social;

3. mudança do nosso objeto social relativamente à exploração de jazidas minerais;

4. liquidação de nossa empresa;

5. qualquer alienação ou encerramento das atividades de uma ou mais das seguintes etapas dos sistemas integrados de nossa exploração de minério de ferro:

·Jazidas minerais, depósitos de minério, minas
· Ferrovias
· Portos e terminais marítimos

6. qualquer modificação dos direitos atribuídos às espécies e classes das ações de nossa emissão;

7. qualquer modificação de quaisquer dos direitos atribuídos por nosso Estatuto Social à ação preferencial de classe especial.

(http://www.vale.com/vale/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=108)

Assim, qual é o problema com a privatização da Vale?

Swamoro Songhay

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008 11:05:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home